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“Não têm ágoras, onde deliberem, nem leis, mas vivem em grutas côncavas, no cimo dos altos montes; e cada um impera sobre os filhos e as mulheres, sem cuidar um do outro”, lê-se no canto nono da Odisseia (cito a tradução dos padres Dias Palmeira e Alves Correia, aquela em que Ulisses fica na memória de todos como “o solerte varão”). Aristóteles refere pelo menos duas vezes esta passagem de Homero (uma na Ética a Nicómaco, outra na Política) para opor a vida dos ciclopes à vida em comunidade governada pela philia, pela amizade política, onde há deliberação conjunta na ágora, no espaço público. Receio bem que este isolamento forçado em que vivemos nos vá transformando, a pouco e pouco, se durar muito, numa espécie de ciclopes, e o aumento da chamada violência doméstica é apenas um entre vários sinais do que pode acontecer. Mas, enfim, ainda vamos tendo dois olhos para ler e ver televisão. De resto, para a televisão um chega e sobra.

Por falar em televisão, tenho seguido os briefings diários da directora-geral da Saúde, Graça Freitas, e da ministra (ou do secretário de Estado) da Saúde. Como toda a gente, ando perplexo com a evolução da doutrina sobre o uso de máscaras pela população em geral. No início, as máscaras não faziam nada, apenas nos davam uma “falsa sensação de confiança”, e, tornando-nos porventura temerários, até nos podiam conduzir a riscos desnecessários. “Não use máscaras!”, dizia, entre o objurgatório e o maternal, Graça Freitas. Mas, insensivelmente, talvez inspirada por Marcelo e pelo exemplo de vários países no mundo, as danadas das máscaras tendem a parecer menos malfazejas. O percurso até à sua recomendação está encetado. Agora, Graça Freitas declara que se limita a seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde. O que, francamente, não sei se é uma coisa boa. José Pedro Teixeira Fernandes, no Público, e Fernando Leal da Costa, mais en passant, aqui no Observador, alertaram-nos para o enviesamento e a periclitante credibilidade da OMS, algo que se verifica em muitos organismos das Nações Unidas. Espero que a ministra da Justiça não confie cegamente no que nos dizem os ilustres membros do Conselho dos Direitos Humanos, por perversa tradição representantes de regimes facinorosos. E talvez que Graça Freitas devesse ter algumas reservas em relação à actuação do senhor Tedros Adhanom Ghebreyesus. A não ser que nos queira tratar como ciclopes. O que, tenho a certeza, não é o caso.

A duplicidade em relação ao uso das máscaras vem acompanhada do secretismo em relação aos modelos utilizados nas previsões da evolução da pandemia. Não passa um dia sem que cientistas de vária pinta se queixem da persistente recusa em terem acesso aos modelos usados. Coitados, a eles tratam-nos mesmo como ciclopes. O problema, claro está, é que modelos diferentes dão lugar a resultados diferentes. Cada modelo, individualmente, deve ser tratado com algum cepticismo e alguma luz só pode vir da confrontação de vários modelos. Como se devia saber, é esse um dos principais pontos de contenda na discussão em torno da origem antropogénica do “aquecimento global” e só é pena que o saudável cepticismo que se manifesta amiúde em relação aos modelos utilizados no caso da pandemia seja tendencialmente silenciado no que respeita às alterações climáticas (mais uma vez as Nações Unidas, via IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change…). É claro que a ciência não pode viver sem modelos e simulações, quanto mais não seja porque há problemas que não podem ser resolvidos através de experiências efectivas. Isso não nos deve fazer esquecer as dificuldades intrínsecas – a falta de robustez, como se diz – da modelização e da simulação, e muito menos vê-las como a chave para abrir os mistérios todos do universo.  Mas, voltando aos nossos cientistas: têm toda a razão do mundo e mais alguma em exigir acesso aos modelos que são utilizados nos cálculos da pandemia. O secretismo autoritário é inimigo da ciência e aquilo que está à vista de todos é exactamente isso: um secretismo autoritário impróprio para uma sociedade aberta. Lição da China?

Nem tudo, no entanto, é mau por estes dias. Gosto de cidades vazias, aos domingos de manhã, ainda cedo, faça sol ou faça chuva. E confesso que as imagens que tenho visto na televisão por estes dias me provocam sentimentos ambíguos, com alguma nostalgia à mistura. Lembro-me da felicidade da Praça de São Marcos, em Veneza, inteiramente para mim e para os gatos. Não é que sofra de misantropia ou de antropofobia (de antropofobia, enfim, um bocado…). É até o contrário: num boulevard parisiense vazio, num bendito domingo de manhã, ou numa rua do Porto ou de Lisboa, vem-nos à cabeça o pensamento de que os homens construíram aquele lugar para viverem. E é a criação dos seres humanos que maravilha, no seu enigma intrínseco. E, em muitos casos, essa criação, a criação das cidades, é a criação de uma obra de arte.

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Por coincidência, se é que há coincidências, caiu-me nas mãos um livro que contém o excerto de uma obra de um filósofo belga, Jacques Dewitte, sobre um texto de um historiador de arte austríaco, Hans Sedlmayr, intitulado “A cidade como obra de arte”. Sempre me surpreendeu o pouco que, ao meu conhecimento, explicitamente se escreveu sobre o tema, embora ele se encontre implícito em muitas obras sobre várias cidades (a começar, é claro, sobre as cidades italianas). O que Dewitte escreve é um perfeito antídoto para a vida de ciclope que nos ameaça.

O que nos diz ele, então, sobre o texto de Sedlmayr, como resume ele a posição deste último? Só aquilo que me parece essencial. A silhueta, a imagem, das cidades é um objecto de contemplação, mas de uma contemplação que não é propriamente estética, já que não nos limitamos ao prazer da pura forma, mas interrogamo-nos igualmente sobre aquilo que é apresentado através da forma. A arte não se reduz à estética. A cidade apresenta aquilo que é, apresenta-se a si mesma, ostenta-se a si mesma, aponta-se a si mesma, apresenta o seu ser e a sua identidade, uma identidade que não é imediatamente visível, mesmo que se manifeste sob uma forma visível. A cidade é uma “encarnação sensível de certas significações”. Para que a cidade nos seja inteligível – e a quem nunca aconteceu não compreender uma cidade, mesmo admirando-a? – devemos saber aquilo com que as formas se relacionam, compreender a aparência visível na sua articulação com um fundo histórico e social que lhe é próprio. A auto-apresentação da cidade através da linguagem dos edifícios, uma espécie de aparência sem destinatário, isto é, gratuita (Seldmayr escreve: supérflua), dá-se com a revelação desse modo de ser que é a própria existência humana. Cada edifício diz à sua maneira: “Eis quem sou!” O edifício da Câmara, muito para além de qualquer utilidade prática, embora integrando-a, apresenta-se a si mesmo diferentemente do modo como uma igreja se apresenta, embora actualmente a função de auto-apresentação tenda a desaparecer. Como escreve um arquitecto ao qual Seldmayr se refere implicitamente, Christian Norberg-Schulz, no nosso tempo é difícil distinguir uma igreja duma garagem. A tipologia dos edifícios, assente no seu modo de auto-apresentação, desvanece-se.

Vivemos por estes tempos em cidades que, para muitos de nós, se tornaram invisíveis, tão alheias de nós como a ágora o era para os ciclopes. Mas a auto-apresentação das cidades e dos seus edifícios voltará a brilhar um dia. Há um ou outro, aqui no Porto, que tenho vontade de rever.