Mundial 2018

Vinte minutos à escrete /premium

Autor
  • Bruno Vieira Amaral

Neymar sentiu um braço e caiu mais teatralmente do que um aluno no exame do Conservatório. Por todo o mundo ouve-se o som de farsa de um corpo a tombar nas tábuas.

Aeroporto de Belgrado. Café a abarrotar de clientes de “espressos” e garrafas de água. O que lhes interessa é o alimento espiritual que a televisão transmite a esta hora. Brasil – Costa Rica.

O Brasil é o mais próximo que existe de uma seleção universal. Quem vive em países sem tradições futebolísticas torce pelo Brasil. Quem liga moderadamente ao futebol torce pelo Brasil. Quem vê a sua seleção ser eliminada torce pelo Brasil. Mais do que símbolo de liderança, esta camisola amarela é um código para paz e alegria que dispensa tradução. Toda a gente conhece o seu significado, mesmo quando o amarelo salta diretamente para o azul sem passar pelo verde. Não há azul mais dourado.

Aqui, quem está a ver o jogo está a torcer pela canarinha. Falta pouco mais de um quarto de hora para o fim. Os adeptos estão apreensivos. De repente, Neymar isola-se e só com Keylor Navas pela frente remata com tanta força e precisão que a bola vai para fora, a centímetros do poste. A reação geral é de incredulidade. Um jogador qualquer pode falhar, mas um brasileiro, ainda por cima o melhor jogador brasileiro? Não pode ser. Os adeptos internacionais não estão preparados para aceitar que os jogadores brasileiros são apenas seres humanos, que não têm poderes sobrenaturais.

Pouco depois, Neymar cai na grande área e o árbitro holandês assinala penalti. Da mesma maneira que há defesas por instinto também há faltas assinaladas por instinto. A queda do jogador de azul na grande área emite uma descarga elétrica no córtex frontal de Bjorn Kuipers. Festa nas bancadas e no aeroporto. Os torcedores já veem Neymar a aproximar-se da marca dos onze metros, a segurar a bola nas mãos, a beijá-la como se lhe prometesse uma viagem rápida e suave até às redes. Adivinha-se uma enorme onda de fraternidade mundial, mas, quando todos enchem o peito de ar, o VAR interrompe a emissão. A onda tem de aguardar um pouco, se não se importa. O senhor árbitro é chamado à caixa central. Nervoso miudinho no café. Um dos grandes receios em relação ao VAR era o de que quebrasse o ritmo de jogo (por outras palavras, temia-se a propagação tecnológica do modo português de apitar), mas essa desvantagem é compensada pelo elemento dramático de incerteza que lhe acrescenta.

A televisão mostra a repetição. Neymar sentiu um braço e caiu mais teatralmente do que um aluno no exame do Conservatório. Por todo o mundo ouve-se o som de farsa de um corpo a tombar nas tábuas. O rosto dos adeptos não engana: nem um árbitro brasileiro assinalava aquilo. Mas a desilusão deles não é tanto pela certeza de não ser penalti como pela falta de subtileza do Neymar desfalecido. Podia ter caído melhor, pensam eles. Kuipers regressa ao campo com dois gestos universais, o do retângulo televisivo e o do indicador a limpar o para-brisas. É o fim do mundo, mas ainda não é o fim do jogo.

Os jogadores costarriquenhos, que já andavam a fazer queimadas, começam a incinerar tempo. De um momento para o outro aparecem dois no chão, numa agonia mortal, fulminados por ordens vindas do banco. O árbitro anda por ali sem saber se manda entrar a equipa médica ou um padre, nem que seja ortodoxo, para ministrar a extrema-unção a estes servos do senhor. Neymar é que já esteve mais cristão. Das benditas mães que tais filhos pariram ao lugar mais remoto da anatomia humana, o repertório dele ouve-se à distância e é universalmente percebido, como demonstram os sorrisos dos meus companheiros de bancada, nenhum deles português. (Neymar, de tão irritante, põe à prova o amor dos adeptos pelo escrete. Há quem apoie, mas sob protesto.) Para os jogadores da Costa Rica, a rajada vernacular é música celestial, o repique de dois enormes zeros a ressoar sobre o estádio.

Os brasileiros marcam o livre, Navas salta dos postes como um gato, choca com um adversário e cai como um tentilhão atingido por zagalotes. Kuipers vai lá dar-lhe a mão. Já chega de teatro. Vão todos para o D. Maria II na próxima temporada. A bola é novamente atirada para a grande área dos ticos, Roberto Firmino salta e dá de cabeça. Coutinho vem de trás e nem deixa a bola respirar. 1-0 para o Brasil. Festa em todo o mundo, incluindo no aeroporto Nikola Tesla. Nos altifalantes ouve-se uma última chamada e alguns adeptos abandonam as mesas à pressa. Só estavam à espera deste momento e, agora que chegou, ei-los que partem. Os jogadores brasileiros também só estavam à espera do golo. Enxotaram os maus espíritos e agora controlam o jogo com samba no pé e palhinha no canto da boca. Os costarriquenhos ressuscitaram. Neymar também já parece outro. O cabrito que dá na linha de fundo é aplaudido em Belgrado. Perde logo a bola, mas o bem está feito. O tempo de descontos, cortesia dos desmaios dos colegas de Bryan Ruiz, chega para Neymar picar o ponto. É um golo simples que elimina toneladas de pressão. O 10 sorri como se tivesse ganhado a Copa. Com o Brasil, é melhor esperar para ver.

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