Pensei muito antes de escrever o seguinte este texto sobre Violência no Exercício da Medicina, onde partilho a minha opinião e descrevo situações que me levam a reviver períodos difíceis da minha carreira como médica.

Senti-me impelida a fazê-lo quando vi quem nos governa a dizer “são maioritariamente agressões verbais”; ou, mais grave, e por quem tinha o dever de nos representar e defender, como o presidente do Conselho Regional Sul da OM, quando diz que “estamos a falar de 25 milhões de consultas, e depois vemos que há 1000 casos durante 1 ano,  de agressão. Isto é uma pequena gota.”

Vejo assim a necessidade de defender-me e de defender quem está no terreno, e quem virá. E não… não é uma pequena gota. No entanto, interrogo-me se um crime é menos crime caso seja cometido poucas vezes? São “maioritariamente” agressões verbais? Serei só eu que sinto nesta afirmação uma desvalorização da violência verbal? Que sociedade é esta em que se criminaliza o piropo e em que quase se vulgariza a agressão verbal a um profissional de saúde no exercício das suas funções?

Durante a minha vida como médica, em 16 anos de especialista em Medicina Geral e Familiar, sofri violência várias vezes, de diferentes formas, mas todas igualmente muito difíceis de lidar. E não, não estou a falar de apenas “agressões verbais”. E não, para mim não foi uma pequena gota.

Vou relatar duas destas situações.

Em 2013 fui sequestrada no meu gabinete porque o utente queria “apenas” que eu pedisse o exame “que ele queria”. Isto, apesar de lhe explicar calmamente o porquê de não o fazer e que se o fizesse estaria a causar-lhe dano e não seria ético fazê-lo. Vou poupar-vos aos momentos difíceis que passei naquela tarde, dentro do gabinete – sequestrada – sozinha e à mercê de um homem corpulento e agressivo.

Fui salva por um utente que se apercebeu na sala de espera. Caso contrário não sei não se teria chegado a sofrer agressões físicas. Foi chamada a GNR que enquadrou como sequestro, que é um crime público. Público no papel, mas um tabu até entre colegas e mais ainda para as chefias.

Estranhamento, dentro de uma organização “de saúde”, ninguém se dedicou, nem dignou, a descer ao terreno e avaliar as condições de segurança do local, e a minha capacidade psicológica para continuar a atender utentes que traziam as suas dúvidas, incertezas, medos e frustrações para que eu os ajudasse, bem como os seus problemas de saúde.

Não houve preocupação em melhorar a disposição dos gabinetes, nem em procurar soluções para que não ocorresse com mais ninguém…

Este episódio não terminou por aqui. Prosseguiu para os tribunais, com tudo o que isso acarreta, e passado alguns meses sofri de novo violência, mas desta feita pela minha entidade patronal e com requintes jurídicos.

Esse utente, o que me sequestrou, necessitava de acusar-me de qualquer coisa para poder justificar o sequestro em tribunal. Para isso, apresentou uma queixa e a minha entidade patronal, pública, abriu um processo de inquérito e veio, então, ao meu gabinete, pela primeira vez, inquirir-me sobre todos os detalhes do seguimento daquele utente nos últimos anos. Tive inclusivamente que contratar um advogado para me defender, apesar de técnica e humanamente ter feito tudo de forma irrepreensível, consoante a leges artis.

Senti que quem deveria zelar pela minha segurança e bem-estar estava ao serviço do agressor.

Novo episódio.

Há 2 anos fui vítima de uma nova forma de violência: por Facebook e por Messenger. Desta vez, houve lugar a agressões escritas de índole sexual e enquadradas na prática profissional. Estragaram-me vários momentos da minha vida privada. Fiz queixa na PJ e verificou-se que era um perfil falso, e o Facebook não permitiu ao tribunal o acesso ao à identidade do agressor.

Impera a impunidade, na violência pelas redes sociais.

Este é um tema que merece a maior atenção pela Ordem dos Médicos, pois é um problema dos tempos modernos que a legislação antiga não consegue resolver neste novo mundo onde os dados pessoais são sagrados e têm mais valor que o bem-estar de quem é agredido.

As minhas situações e as de quem é vítima de violência, seja de que tipo for, podem parecer “uma gota”, sem dimensão na sociedade e nas estatísticas, e sem importância para alguns, mas não o são para as vive. Para quem é agredido, sequestrado, insultado, e também para quem é denegrido publicamente online quando está na sua vida privada! E não, não é “como muitas outras profissões”. Não com isto, de forma alguma, a aligeirar nem a desvalorizar a violência em outras profissões, que deve ser igualmente punida.

Mas, no Exercício da Medicina, que assenta na privacidade médico-paciente, sofrer violência verbal não é igual a um insulto num balcão cheio de pessoas ou a um comentário desagradável num local público. É violência olhos nos olhos, num gabinete, sozinhos com o agressor — e muitas vezes o seu acompanhante — o que muda a força do acontecimento.

E não, não é como escreveu o Dr. Moita Flores sobre os médicos, apelidando-nos de “não solidários” e de termos “cegueira corporativista” por pedirmos uma lei especial para reprimir atos violentos.

É uma necessidade urgente de uma lei que seja mais justa e mais célere nestes casos, e que não prevaleça o sentimento de impunidade e de injustiça.

O meu propósito com este texto não é a lamúria, é sim que as instituições e nós — médicos — mudemos este paradigma. É uma chamada de atenção para este clima de violência e de impunidade, que só vai aumentar se nada fizermos em conjunto.

O país, a Medicina, mas essencialmente os utentes, são quem mais perde com esta violência. Temos a responsabilidade de exigir uma atuação urgentemente, com medidas que contenham e defendam os profissionais.

A verdade, sim, é que nós os médicos, necessitamos de ter as condições para continuar a exercer a nossa profissão da forma mais humanizada possível. O nosso trabalho consiste em Cuidar e Curar o Ser Humano, física e psiquicamente, uma arte que não pode ser praticada na íntegra se estivermos defensivos com medo de agressões.