É fácil — mais, até, do que parece — magoarmos e fazermos mal. E, de descuido em descuido, nem sequer medirmos os pequenos desgostos que promovemos; mesmo sem querer. É fácil desalentar e decepcionar. E, por causa disso, desamparar. E é fácil, no fim de tudo, deixar que o desinteresse se instale como uma bruma, que desce, e faz com que duas pessoas que se partilhem se ignorem, devagarinho. E se ouçam mas não se escutem. E assim se tornem estranhas. E indiferentes. De tão bem se conhecerem, uma à outra.

É fácil — mais, até, do que parece — que uma pessoa passe das discussões, por convicções sem importância quase nenhuma, à desistência de se zangar. E daí, quase sem dar por isso, ao silêncio que se estende e que se estende. E é fácil uma pessoa sentir a sexualidade como um obstáculo. E deixar que ela deixe de ser uma janela para a liberdade e se transforme numa dor. E, de forma quase imperceptível, passe a ser um “tem que ser” ao qual não se foge. E, depois, se pareça com um abuso. E, adiante, com uma violação que se consente.

É fácil — mais, até, do que parece — magoarmos e fazermos mal. Mas insistir que a maldade faz parte da família já é violência. Eu acho que falamos da violência doméstica como se ela fosse sempre como a dos jornais. Sísmica e mortal. E assassina! Mas não é violência que duas pessoas que decidem partilhar a sua vida amuem e se ignorem, dias a fio, e insistam em magoar-se, a si e a quem conviva com elas, e perdurarem nesse ambiente, duma hostilidade irrespirável, de forma quase interminável? E não é violência a forma como duas pessoas que dizem, e repetem, que só querem que os filhos sejam felizes, se enxovalhem e se desconsiderem e teçam comentários com que se achincalham e com que se humilhem, mutuamente? E não são violência os à-partes — regra geral, insultuosos — que se fazem entredentes, diante das crianças ou perante seja quem for? E não são violentas as circunstâncias em que duas pessoas se evitam ou se envergonham, sem reconsiderarem, por uma vez, a forma como se magoam? E não é violência o modo como desmazelam o jeito como se cuidam, e de descuido em descuido, se faça questão de reduzir o outro à insignificância de não lhe dar um gesto de bondade, um momento empático, um comentário que acalente ou um — só um! — sorriso que aconchegue? E não é violência a forma como duas pessoas atribuam sempre à outra a responsabilidade de tudo aquilo que está mal na vida dos dois, e se desencontrem ao jantar, depois do jantar, nas séries que vêem ou na forma  como calculam os momentos em que se vão deitar, de forma a que se desencontrem e desencontrem, por mais que estejam juntas? E não é violência a forma como, a pretexto das mais inenarráveis desculpas, adormeçam quase sempre no sofá, no quarto das crianças ou na cama dos hóspedes, e o façam tantas vezes que quase se perde a vergonha de que tudo se institua debaixo do nariz de todos, como se uma relação fosse uma fatalidade e quase nada mais que isso? E não são violência comentários como “És sempre a mesma coisa!…” ou “Mas porque é que eu ainda perco tempo a falar contigo?”, que se repetem, sem crítica e sem hesitações? E não são violência desabafos cheios de ódio, ao jantar, muitas vezes a propósito de pessoas da família, mesmo que, a seguir, antes de ir dormir, uma criança ouça: “A mãe (ou o pai, tanto faz) ama-te muito!”? E não é violenta a ideia que todos os casamentos esgotam a paixão num abrir e fechar de olhos, como se o amor não pudesse ser senão sombrio e amordaçante?

Eu acho bem que nos insurjamos contra o que de ignóbil há na violência física. E que sintamos inadmissível a violência no namoro, claro. Mas, e a “violência sem nódoas negras”: não enxovalha, não adoece, não nos torna maus e não nos mata? E será que esta violência escolhe idades, escolhe sexos, escolhe credos ou classes sociais? E será violência acrescida a forma como tudo isto se passa, passivamente, debaixo do nariz de todos? E não serão violência apelos como “Pensa nas crianças”, “Não te precipites” ou “Mas, afinal, o que é tu pensavas que era um casamento?…”, ditos por quem mais gosta de nós, como se a “violência sem nódoas negras” não nos tornasse infelizes, não nos envelhecesse e não nos fizesse definhar? E não será que diante da violência dos jornais esta “violência sem nódoas negras” não parece irrelevante e pouco “legítima” para o protesto, a ponto das nossas dores parecerem um “tem que ser” ao qual não se foge? A “violência sem nódoas negras” é violência doméstica; sim. E era bom que a pudéssemos assumir sem censura. Para que deixe de ser aceitável que nos façam mal ou nos magoem. E, de descuido em descuido, nos condenem à indiferença. Mesmo que ela se dê com as nossas dores.