Nesta longa semana eleitoral, a imagem que reterei para sempre será Van Jones desfeito em lágrimas na CNN nos minutos seguintes a ser conhecida a vitória de Biden este Sábado. Confesso que as lágrimas foram partilhadas cá em casa. A minha esposa e eu passámos a esmagadora maioria do mandato de Trump nos Estados Unidos. Assistir ao mandato Trump lá e cá é algo de muitíssimo diferente. Apenas por ignorância, má-fé, ou, quiçá, respondendo à voz do dono que lhes paga a avença, se explicam certas intervenções na imprensa e televisões Portuguesas que ao longo desta semana mentiram despudoradamente sobre a realidade Trump. Adiante. Passemos à análise com uma série de notas que, espero, no conjunto, captem o momento que estamos a viver.

  1. Donald Trump teve um resultado francamente fenomenal. Lamento, mas é verdade. Passados quatro anos de mentiras, racismo, misoginia, escândalos sexuais, e ainda um impeachment, o ainda presidente conseguiu mais 8 milhões de votos em relação a 2016. A sua capacidade de mobilização é impressionante, valendo-lhe, por exemplo, a vitória na Flórida e no Texas, onde a comunidade Latina apareceu em força para lhe garantir a vitória no estado. Este resultado ilustra bem como a demografia não é destino. O destino dos partidos apenas depende da sua estratégia e da sua plataforma.
  2. Numa perspectiva de conjunto, os Republicanos tiveram um resultado eleitoral muito acima do esperado. Nas últimas semanas, começava a notar-se algum desconforto e preocupação no GOP com a perspectiva que um mau resultado de Trump pudesse afectar todas as outras corridas. É certo que o GOP perdeu a Presidência. Contudo, conseguiram aumentar o número de lugares na Câmara dos Representantes (a estimativa é que tenham mais cinco lugares do que tinham no ciclo anterior) e, acima de tudo, assegurar que os Democratas não viravam o Senado. O controlo do Senado permanece, contudo, em aberto, havendo ainda a segunda volta de duas eleições na Georgia, em Janeiro, que decidirão quem controla o Senado. Muitos eleitores terão votado no GOP na maioria das corridas, partindo o seu voto na Presidência. A arte de split-ticket parece estar de volta!
  3. Os Republicanos mantiveram uma posição fortíssima ao nível subnacional, isto é, nos Governadores e no controlo dos parlamentos estaduais. A importância destas posições é decisiva no ciclo político que se inicia em 2021. Depois dos Censos de 2020, o próximo ciclo político determinará a geografia dos círculos eleitorais para a próxima década. A influência dos Republicanos neste processo sentir-se-á ao longo de todas as eleições que ocorrerão até 2030, o que não é de menosprezar, na medida em que os distritos eleitorais têm (potenciais) efeitos perversos na transformação de votos em mandatos.
  4. Joe Biden teve um resultado eleitoral que merece reflexão. Por um lado, é o Presidente eleito com mais votos absolutos de sempre. Numa eleição com uma mobilização recorde, Biden conseguiu um total (à hora que escrevo, sábado à tarde) de 75 milhões de votos. Este número, certamente, crescerá, especialmente com os votos da Califórnia. Para além do número absoluto de votos, Biden conseguiu recuperar os estados do Midwest, essenciais na vitória eleitoral de Trump de 2016. Contudo, o mais interessante na vitória de Biden, é, sem dúvida, a vitória na Georgia e no Arizona. Tal como escrevi há cerca de um mês, a próxima grande transformação eleitoral nos Estados Unidos está a ocorrer no Sun Belt, com o crescimento explosivo das minorias e, acima de tudo, da classe média alta com elevada educação que gravitam para estes estados juntamente com indústrias tecnológicas. Para além deste lado de demand, há ainda um lado de supply. Na Georgia, por exemplo, o trabalho de grassroots de Stacey Abrams nos últimos anos tem sido absolutamente notável e terá, certamente, dado uma forte ajuda à conquista Democrata do Estado. Abrams conseguiu registar e mobilizar mais de cem mil novos eleitores no Estado!
  5. Se dúvidas houvesse quanto à necessidade de remover rapidamente Trump do lugar que ocupa, a sua reacção à derrota iminente dissipá-las-ia. Haverá certamente imensas diferenças sobre qual a melhor política a implementar. Contudo, as regras do jogo são sagradas. Como escreveram dois famosos politólogos, nunca pode haver dúvidas de que a democracia é mesmo “the only game in town”. Trump passará à história não só como a única pessoa que ocupou o lugar de Presidente sem nunca ter ganhado o voto popular (Bush ganhou-o na eleição de 2004), mas também por não ter feito o discurso de concessão, mostrando, mais uma vez, que não passa de arrivista de Queens.
  6. Importa salientar a eleição histórica de Kamala Harris, a primeira mulher de sempre a ocupar um lugar na Casa Branca. As barreiras formais e informais que, infelizmente, ainda existem à participação política das mulheres não são de menosprezar. Para além disso, existe bastante evidência empírica que o papel de role-model que as mulheres podem ter ao ocupar cargos de elevada responsabilidade política são importantes na mudança de valores e na promoção da inclusão das mulheres nas sociedades. Não vale a pena contestar estes dois factos. Estão estudados e documentados. Quem não quiser perceber, meta explicador.
  7. E agora? Joe Biden pode estar perante um dilema político complexo. A sua resolução dependerá, em grande medida, de conseguir ter um governo unificado, com o controlo simultâneo da Casa Branca e do Congresso. No caminho que nos trouxe até ao dia de hoje, Biden negociou e incorporou no seu programa eleitoral uma parte substancial das medidas pedidas pela ala mais à esquerda do partido Democrata. Caso não consiga controlar o Senado, será muito difícil ao agora Presidente Biden promover com sucesso as reformas necessárias para satisfazer a ala esquerda do seu partido. Em Janeiro, quando tivermos os resultados da Georgia, saberemos mais exactamente qual o futuro da presidência Biden. Caso tenha as condições necessárias, Biden poderá ser um novo LBJ. Biden e LBJ comungarão o ter servido como Vice-Presidentes sob homens com elevado carisma e apoio popular mas cujas consequências práticas dos seus mandatos foram relativamente menores. Com a sua grande experiência no Senado, Biden poder-se-á juntar a LBJ na categoria de presidentes vagamente cinzentos, sem carisma, mas cujas consequências de mudança na sociedade Americana são maiores.
  8. O que acontecerá ao GOP? É impossível dizer. Em 2012, depois da derrota eleitoral de Mitt Romney, os Republicanos encomendaram um estudo, conhecido como “The Autopsy”, que recomendava ao partido duas mudanças estruturais. Por um lado, alterar a sua posição sobre imigração. Por outro lado, ser mais inclusivo com as minorias. Sabemos qual foi o resultado. Os deploráveis tomaram conta do Partido que um dia foi Lincoln e fizeram dele aquilo que se viu. Felizmente, a América, a boa América que todos admiramos, das Universidades, das grande Imprensa, do sonho, soube olhar para o precipício e recuar, tal como escreveu o New York Times. Viva a América!