Como diria Raul Seixas “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pois é. Quando vejo debates inflamados nas redes sociais e, nas raras ocasiões em que me aventuro por comentários em portais de informações, percebo, cada vez mais assombrada, que a imensa maioria das pessoas perdeu completamente a noção de que há assuntos nos quais não sabemos opinar e que há, acima de tudo, assuntos sobre os quais não temos condições opinar.

As pessoas passaram a ter voz através da internet e das redes sociais — o que é uma coisa boa. O que as pessoas deixaram de compreender é que a nossa voz deve passar, antes, pelo crivo do nosso cérebro. Cérebro este, que deve classificar os assuntos em dois tipos: aqueles que compreendo, sobre os quais, li, pesquisei e tenho condições de opinar com alguma propriedade e aqueles sobres os quais compreendo pouco, muito pouco ou quase nada e não tenho, evidentemente, a mínima condição de opinar.

É um raciocínio bem simples. Dou alguns exemplos. Astronomia: não tenho condições de opinar. Feminismo: tenho condições de opinar. Veterinária: não tenho condições de opinar. Economia da Inglaterra: não tenho condições de opinar. Direito do Trabalho: tenho condições de opinar. Produtos para cabelos loiros: tenho condições de opinar. Rúgbi: não tenho condições de opinar. Futebol brasileiro: tenho condições de opinar. Filosofia: não tenho condições de opinar. Meros exemplos, além de uma infinidade de outros temas que não domino, frente a uma gama bastante diminuta sobre os quais tenho alguma segurança.

O mero fato de ler um ou dois artigos sobre o tema não nos dá bagagem suficiente para construir uma opinião sólida. Ouvir a opinião de um único especialista no assunto na televisão, também não. Estamos vivendo uma era na qual o estudo — seja ele acadêmico ou não — passa a ser menosprezado por aqueles que se julgam donos de uma falsa verdade. Era na qual uma mera informação pontual é confundida com a noção de conhecimento, sobretudo na área das ciências humanas, nas quais há grandes especialistas e estudiosos que se veem confrontados por pessoas que não fazem a mais pálida ideia do que estão dizendo.

É humanamente impossível entender todos os assuntos com os quais nos deparamos. É impossível e desnecessário. Canalizemos nossas energias naquilo que realmente nos interessa. Pesquisar. Ler. Refletir. Perguntar. Admitamos nossa incapacidade de falar sobre tudo. Como diz minha avó “Deus nos deu dois ouvidos e somente uma boca para ouvirmos mais e falarmos menos”. Não é tão complicado assim.

Direito de falar você tem. Mas cabeças pensantes, antes, se perguntam se devem falar. E também é relevante lembrar que as pessoas são responsáveis por cada linha que escrevem, por cada opinião que emitem. São responsáveis não apenas moralmente, mas administrativamente e juridicamente. Na esfera civil e na esfera criminal. Vale a pena se perguntar se é o caso de falar ou de permanecer em silêncio. Não há problema nenhum em não ter opinião formada de vez em quando. Mas há um grande problema em sair por aí falando bobagem. Como se diz por aí “nem tudo o que se pensa deve ser dito, mas tudo que se diz deve ser pensado”.