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A forma e os métodos utilizados para o Kremlin conseguir os seus objectivos, deixam claro que o actual regime de Vladimir Putin não chegará ao fim através de eleições democráticas e condenam a Rússia a novas turbulências no futuro.

Os resultados ficaram, até, um pouco além daquilo que os organizadores da “votação nacional” esperavam: quase 80% dos eleitores inscritos votaram a favor, com uma afluência às urnas de 65%. Para dar um ar de credibilidade ao escrutínio, o “não” recebeu o apoio de 21,26% dos votantes.

O dirigente político que afirmara, em 2005, que “não tenciono mudar a Constituição em circunstância alguma”, não conseguiu passar no teste do poder absoluto e  considera-se agora  “legitimado” para se recandidatar ao cargo de presidente em 2024 e 2030. Putin sai desta “votação” com poderes ainda mais reforçados, nomeadamente no que respeita à formação do governo russo.

Para que estes resultados pudessem ser conseguidos, foi necessário utilizar “métodos clássicos” e formas “inovadoras” de participação no escrutínio.

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Entre os métodos clássicos, é de salientar a forma como os poderes regionais obrigaram os funcionários públicos a participar no escrutínio. Foram numerosas as queixas de médicos, enfermeiros e muitos outros, que foram obrigados a votar no seu local de trabalho ou a trazer uma prova de voto consumado no local de residência.

Na “área militar”, o caso mais flagrante registou-se nas Forças Armadas da Rússia, onde a afluência às urnas foi de 99,9% dos inscritos. No “campo civil”, ele aconteceu na Chechénia, república do Cáucaso russo dirigida pelo tirano Ramzan Kadyrov, onde 97,36% votaram no “sim”.

A organização de lotarias para os votantes foi também outra fórmula de atracção utilizada. E, em numerosos casos, as urnas foram transportadas até casa dos eleitores, parques, em bagageiras de automóveis para “facilitar a vida ao eleitorado”.

No que respeita às inovações, é de salientar o facto de a votação se ter prolongado por cinco dias. As autoridades justificaram esta novidade com a pandemia da Covid-19, embora, num país que continua a registar diariamente mais de seis mil contaminados, colocando-o no primeiro lugar da Europa e num dos países do mundo mais afectados pela pandemia, fosse mais lógico adiar a sua realização.

A votação, aliás, estava marcada para Abril, quando o surto pandémico não tinha ainda tomado as dimensões actuais, e foi adiada para Julho, mas os planos de Vladimir Putin não puderam esperar mais.

Os resultados do escrutínio foram de tal forma do agrado das autoridades, que Ella Panfilova, a presidente da Comissão Eleitoral Central da Rússia, já veio afirmar que esta experiência das urnas abertas ao longo de cinco dias, é para continuar. Ficou por explicar como foi possível garantir a inviolabilidade das urnas durante esses dias, mas alguns dos “observadores internacionais”, ligados à extrema-direita alemã e italiana, já vieram declarar que tudo correu dentro dos conformes.

A criação de uma onda ultra-patriótica no país foi outra das formas tradicionais de levar os russos às urnas. Foi essa a razão porque Vladimir Putin transferiu a parada militar de 9 de Maio, dia em que se comemora a vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo alemão em 1945, para o dia 24 de Junho, ou seja, para a véspera do início da votação. A pandemia voltava a deixar de ser um obstáculo à manifestação do poder militar russo.

Outra inovação foi a publicação de resultados de sondagens no decorrer do acto eleitoral e o anúncio preliminar de resultados durante o último dia da votação. No primeiro caso, a direcção do VTzIOM, empresa de sondagens controlada pelo Kremlin, justificou a sua publicitação, afirmando não saber que era proibido. No segundo caso, a explicação teve como argumento tratar-se de uma “prova de transparência” do escrutínio.

Durante a campanha eleitoral, os adeptos do “não” foram, ainda, praticamente marginalizados pelos órgãos de comunicação social ligados ao Kremlin e o facto das oposições parlamentar e extra-parlamentar não terem conseguido tomar uma posição única face à votação, facilitou a vida aos organizadores do espectáculo. Parte da oposição apelou ao boicote do escrutínio e parte incitou ao voto no “não”.

Arrisco-me a escrever uma ideia que, provavelmente, não agradará a muitos. Será que Vladimir Putin poderia vencer esta votação sem recorrer a velhas e novas formas de fraude eleitoral? Talvez conseguisse e uma das razões principais prende-se com o medo das mudanças bruscas na sociedade russa. São muitos, aqueles que ainda se recordam das dificuldades económicas e sociais sentidas no final da era da União Soviética e na década de 1990, não querendo arriscar o regresso de situações análogas.

Se as autoridades russas não conseguirem controlar a pandemia de Covid-19, no entanto, e se a situação económica e social continuar a deteriorar-se, o regime de Vladimir Putin poderá ter de enfrentar ondas de protesto sem precedentes. Foi esta, aliás, uma das razões que levou o dirigente russo a realizar a votação em tempo de pandemia.

A política do Presidente Putin começa também a criar atritos dentro das próprias elites russas, algumas delas descontentes com o aumento da influência dos “siloviki” (políticos saídos dos serviços secretos soviéticos/russos) nas estruturas de poder. Será preciso esperar para ver se Putin conseguirá manter o poder até 2024 e ter condições para se recandidatar.

P.S.: Estou curioso para saber qual é a posição do Partido Comunista Português face aos resultados da “votação nacional”. Deverão ter dificuldade em expressar regozijo, porque os comunistas russos votaram contra as emendas à Constituição. Ou será mais lucrativo continuar a lançar elogios a Putin?