Se tenho alguma questão a acrescentar ao que já se sabe? Tenho. Um conjunto de lugares já comuns, para muitos, mas também um conjunto de constatações de bom senso, para outros.

Não vale ir para a praia quando o que se pede é quarentena.

Não vale entupir o SNS só porque temos uma dúvida que se esclarece com qualquer outra pessoa mais informada.

Não vale sobrecarregar o SNS24 com perguntas disparatadas e sobre como resolver uma dor de barriga.

Não vale espirrar sem tapar a boca, não vale cumprimentarmo-nos como se nada estivesse a acontecer, não vale a pena fingirmos que não temos de lavar as mãos.

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Não vale a pena, de facto, fazer de conta que o COVID-19 não está a acontecer como está. E não vale a pena negar que vai varrer o mundo todo, Portugal incluído, porque vai.

Não vale a pena, também, ser catastrofista. Na maioria dos casos não será mais do que uma gripe.

E vale a pena, sim, clarificar, informar, construir, colaborar em soluções que sejam positivas para todos e com as quais todos se sintam confortáveis.

Vale a pena abdicarmos do nosso individualismo para nos darmos um pouco mais à causa comum e ao respeito que os outros nos merecem.

Vale a pena observarmos os grupos de risco, tomarmos conta e protegermos os nossos idosos que são os que, pelas estatísticas, mais nos preocupam.

Vale a pena fazermos um esforço coletivo para o bem comum e para que a capacidade do SNS não seja ultrapassada, prorrogando no tempo o vírus – verdade. Mas vale a pena, também, sabermos igualmente que temos excelentes profissionais e um SNS de que muito mal se diz mas que, apesar de tudo quanto se diz, é muito melhor que muitos outros e faz inveja a muito país mais desenvolvido. E sobretudo fará o melhor possível para nos dar as melhores condições para passarmos por esta tormenta.

Estamos em crise humanitária. No meu pequeno mundo, na minha universidade e, mais em particular, na formação de executivos que estou a gerir vale a pena, sim, considerarmo-nos como um todo e pedirmos a ajuda de todos. Também a sua compreensão e a sua colaboração. A docentes, a alunos, à comunidade em geral. Menos reclamação, mais tolerância e mais construção serão bem vindos num contexto em que temos de tratar das pessoas e as pessoas importam como pessoas antes de tudo o resto. Se faltava algum sinal de que sempre devia ser assim…ele aqui está, pelas piores razões mas chegou.

Vale a pena, pelas pessoas, estar disponível para ajudar. Disponível para construir. Disponível para apoiar da forma possível a ultrapassar tudo isto. Porque muitos de nós, e muito provavelmente eu incluído, também vamos passar por isto em termos pessoais. E seja qual for o resultado, devemos apresentar-nos sempre disponíveis para os outros e para a sociedade.

Sem ser catastrofista gostaria de chamar a atenção para um filme de Michael Osterholm que penso que todos deveriam ver.

Michael Osterholm, médico de formação que, de resto, escreveu em 2017 um livro fundacional nestas matérias: Deadliest Enemy. Uma quase profecia. Michael Osterholm, para que conste, é só um dos maiores especialistas mundiais em doenças infeciosas e virologia e diretor do Center for Infectious Desease Research and Policy (CIDRAP), da Universidade do Minnesota, onde é Professor.

De uma coisa podemos ter a certeza: we are not legend. E para quem não viu o filme… pode ser uma oportunidade (I am legend; *not me and not you)