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De acordo com Anthony H. Cordesman (CSIS; China and Iran: A Major Chinese Gain in “White Area Warfare” in the Gulf, 2021), a aproximação da China ao Irão acaba por corresponder a uma jogada de xadrez tridimensional, deixando um aviso claro aos EUA. No entanto, na perspetiva de Cordesman, Washington está a tentar vencer o jogo, mas em damas.

Nos próximos 25 anos, a China beneficiará de um acordo com o Irão que lhe permitirá obter petróleo a preços inferiores aos estabelecidos no mercado. Em troca, Pequim fará um investimento de 400 milhões de dólares com o objetivo de desenvolver e modernizar as infraestruturas (aeroportos, linhas férreas, zonas de comércio livre) em Maku, Abadan, no rio Shatt al-Arab e na ilha de Qeshm. Contudo, se considerarmos a relação existente entre o Irão e os EUA, poderemos perceber que estamos, mais uma vez, perante um sinal capaz de mudar o mundo ao qual estamos habituados. Acrescentando o facto de o bloqueio estabelecido pelas Nações Unidas – que visava o impedimento de a China e Rússia fornecerem armamento militar ao Irão – ter expirado, esta pode ser a oportunidade de Pequim para desempenhar um papel de enorme importância no Golfo Pérsico, permitindo-lhe ganhar consideráveis vantagens sobretudo no contexto geoestratégico. Seguindo o raciocínio de Anthony H. Cordesman, a RPC terá também a possibilidade de explorar a sua relação com o Paquistão, com um especial foco nos investimentos em rotas comerciais para a Ásia Central e China. Não obstante, o diálogo quadrilateral (Quad) formado pelos EUA, Austrália, Japão e Índia tem ganho poder e influência na região do Indo-Pacífico. Posto isto, para além do Irão, a China tem-se aproximado da Rússia. Aproveitando as perspetivas que têm em comum relativamente aos comportamentos e às sanções impostas pelo Ocidente, a relação sino-russa tem explorado as compatibilidades existentes entre si. Ao aproximar-se de países como o Irão e Rússia e ao considerar o Quad uma iniciativa com uma “Cold War mentality”, mais do que o xadrez “tridimensional”, a República Popular da China (RPC) parece estar a jogar wei qi. Como Henry Kissinger refere (2011; p: 41): “(…) O wei qi ensina a arte do cerco estratégico. Enquanto o jogador de xadrez visa eliminar as peças do seu adversário numa série de encontros diretos, um jogador talentoso de wei qi move-se para espaços “vazios” do tabuleiro, mitigando gradualmente o potencial estratégico das peças do seu adversário. O xadrez produz determinação; o wei qi gera flexibilidade estratégica (…)”. Ou seja, embora muitos especialistas considerem que a China não esteja a calcular devidamente o poderio norte-americano e de alguns dos seus aliados, o Partido Comunista Chinês (PCC) acredita que o declínio dos EUA esteja a acontecer e está, claramente, a avançar as peças no tabuleiro. Ao estar num período de franca ascensão na Ordem Mundial, torna a sua procura por novos parceiros e aliados, totalmente legítima. Logo, vindo a aumentar o seu leque de parceiros, a RPC tem aproveitado para exercer influência nestes. A introdução de bases noutras regiões tem permitido à RPC desenvolver portos estratégicos de modo a contribuir tanto para o comércio como para a competição de segurança. Desta forma, tem aumentado a sua influência pelo globo, criando projetos e adotando medidas que permitam a continuação da sua ascensão, como, por exemplo: a Nova Rota da Seda, a área de livre comércio do Indo-Pacífico, o Pacific Economic Cooperation Council (PECC) e o Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB).

Através do AIIB e da Nova Rota da Seda, as ações de cooperação financeira de Pequim têm contribuído para o crescimento económico de diversos países. Por meio de investimentos em infraestruturas – cruciais para a evolução global – a China tem acabado por representar uma nova abordagem do desenvolvimento internacional e, por conseguinte, tem diminuído a influência norte-americana em todo o globo. E é possível que isso aconteça. Isto é, um Estado que esteja em ascensão pretende sempre moldar a região que o rodeia a seu favor. Aliás, o compromisso do PCC tem sido notável no que diz respeito à projeção e realização dos planos e objetivos de Pequim fora da sua região. Apesar do poderio que a China tem vindo a alcançar, Clive Hamilton (coautor do livro Hidden Hand: Ex osing How the Chinese Communist Party is Reshaping the World, 2020) aborda o ponto de vista de David Kelly1, que expõe a dificuldade que a China terá, por não ter uma sociedade democrática, para representar um papel de liderança na Ordem Mundial. O facto de ser um regime totalitário e nacionalista acaba por ser contraditório para um Estado que ambiciona ter uma responsabilidade num mundo globalizado, culturalmente e politicamente diversificado. Porém, Elizabeth Economy apresenta a perspetiva de Lyle Goldstein e Michael Swaine (The third Revolution: Xi Jinping and the New Chinese State): “(…) a China não pretende empurrar os EUA para fora da região; em vez disso, a China pretende apenas esculpir um espaço para uma segurança compatível com a sua ascensão (…)”. Neste seguimento, considerando (2019; The Stealth Superpower) uma das declarações feitas por um dos oficiais da RPC “(…) Sendo uma grande potência significa que pode fazer o que quiser e ninguém poderá dizer nada contra isso (…)”, Pequim procura retirar ou desvalorizar a posição dos Estados Unidos da América enquanto grande potência mundial, ignorando a sua posição de globocop. No entanto, em setembro de 2018, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi (2019; The Stealth Superpower), declarou: “(…) A China não irá repetir as práticas antigas de um país forte à procura de hegemonia (…)”. Mas, quais serão as novas práticas?

A coerção económica por parte da RPC tem correspondido ao estado de arte da sua política externa. O facto de terem um dos maiores mercados do Mundo, leva a que os líderes chineses considerem que a melhor forma de exercer influência seja a partir do seu maior poder, a economia. Porém, tal como um forte poder económico é indispensável ao poder e influência de um país, a diplomacia também o é. Assim sendo, qual será o futuro do Golfo Pérsico?

[1] Diretor de Pesquisa do China Policy

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