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China

Xi Jiping e os falsos penitentes do horror maoísta

Autor
  • Guilherme Valente

O prestígio e grande apoio da população que Xi Jinping conquistou devem-se sobretudo a seu combate à corrupção (e à afirmação do País no exterior, paz social e progresso económico).

É mais fácil desintegrar um protão que vencer um preconceito. 
(atribuído a Einstein)

O mecanismo e a pulsão são antigos.  Tão antigos porventura como o Homem. Freud passou a vida a tentar explicá-los e resolvê-los.  Quando os interesses, o dote de espirito auto-crítico, a inconsciência da ignorância e o estatuto e audiência do afectado o impelem e lhe permitem obscurecer um tema relevante do conhecimento, justifica-se e talvez se imponha a intervenção crítica, tanto quanto possível informada, de quem há longos anos, laboriosa e interessadamente, se tenha interessado pelo seu estudo.

A questão da continuidade de Xi Jiping na Presidência da China deu aos beatos penitentes do horror maoísta oportunidade para ridículos autos de fé. Juram-se agora democratas mas revelam o mesmo espirito fanático a que a democracia e a verdadeira liberdade têm horror. Mudaram o retrato que penduravam nas paredes, mas veneram o novo ícone com o fanatismo com que veneravam o anterior.

Num artigo recente no Expresso sustentei como cenário provável a continuação com Xi Jiping e Li Keqiang da regra instituída por Deng da impossibilidade do PR e do PM exercerem mais do que dois mandatos, seguidos ou alternados. Uma solução cirúrgica na China com um valor simbólico e efeito político de enorme dimensão. Nos EUA, depois de Roosevelt ganhar quatro eleições consecutivas passou a ser permitida apenas uma reeleição. O que me parece ser uma novidade mundial na China é, ou, devo admitir, era, essa regra se alargar ao mandato do PM e ao facto do exercício de um dos cargos impedir o exercício futuro do outro.

Cavaco Silva ocupou durante 20 anos seguidos um e outro cargo, com o saldo que se conhece. E recebeu à saída os louvores sem reservas que se sabe.

Essa regra, cujo cumprimento Deng vigiou mantendo-se como Presidente da Comissão Militar Central, foi, segundo o próprio sugeriu, uma “vacina” para impedir, no contexto político e de confronto ideológico muito complexo imediato à morte de Mao, a emergência de outro ditador. Tendo vivido a devastação do país e sofrido na pele a loucura, de que se aperceberam, e crueldade do ditador (que era louvado no Ocidente com cegueira ignóbil), os líderes que o tinham acompanhado no combate pela libertação do país, empenharam-se e arriscaram-se desde 1956 no seu afastamento: “O imperador Qin [o seu modelo] mandou matar 400 letrados; eu eliminei 40 000 intelectuais”, gabou-se Mao. Mas só com a sua morte em 1976 a devastação terminaria.

Deng e os dirigentes que o acompanharam perceberam a origem do mal: “Nunca mais um ditador na China”, disse.

Como me fazia há dias notar o bem informado Director da Tribuna de Macau, José Rocha Dinis, tudo aponta para não termos errado no essencial que sustentámos nesse artigo que assinámos ambos no Expresso: “Xi não vai ser um novo Mao. O regime chinês tem hoje um sistema de checks and balances que nem o mais poderoso homem da China pode resolver as coisas por si mesmo – há um permanente debate colectivo em variados níveis”.

E com o desaparecimento de Mao o povo chinês pôde voltar a exercer e a colher os frutos do seu milenário engenho empreendedor. Como me disse um intelectual chinês, para isso “bastou a abertura de uma janela de liberdade”. Foi isso muito simplesmente o que aconteceu sob a direcção de Deng.

É lapidar e muito chinesa, aliás, a resposta de Deng aos maoístas que se opuseram à criação das Zonas Económicas Especiais argumentando que com a abertura ao investimento estrangeiro viriam do Ocidente as pragas que a China já conhecera no tempo da pilhagem do Japão e das potências ocidentais, cuja conquista dos direitos humanos era apenas para consumo interno. “Quando se abre uma janela para entrar ar fresco corre-se sempre o risco de entrar alguma mosca.”

Uma janela, foram isso as Zonas Económicas Especiais. Curiosamente uma sugestão do pai de Xi Jinping feita na sequência do pedido de Deng de ideias para promover o desenvolvimento económico.

O pai de Xi era então governador da província de Guangdong de que Cantão é a capital. Contígua a Macau, foi com a de Zuhai, contígua a Hong Kong, a primeira ZEE. Eu estava lá e vi atónito como uma região rural e pobre se transformou radicalmente e enriqueceu enriquecendo a China em meia dúzia de anos.

Na questão agora levantada do futuro político de Xi Jiping, o que deve preocupar os que têm consciência da catástrofe planetária que uma China em convulsão implicaria, não é que Xi possa fazer mais um mandato, e pela própria idade não poderá fazer mais. O que é preocupante é saber se a alteração,  se verificará “de acordo com a convicção dominante por os desafios que a China irá enfrentar nos próximos anos requererem a liderança de Xi, também no plano externo em que Pequim pretende ter uma posição mais preponderante” (Público, 6/3), ou se, pelo contrário, num quadro de confronto ideológico interno,  resultaram de fortes resistências e ameaças no seio dos 80 milhões de membros do PCC, num país com  uma dimensão e uma diversidade  de regiões únicas no mundo. (A província de Guanghdong, com mais de 100 milhões de habitantes, tem uma língua materna própria tão diferente do mandarim quanto o inglês é diferente do português, falada por milhões de chineses!) Resistências em grande medida devidas ao combate à corrupção, como nunca houve em tempo e lugar nenhum no mundo. Combate “para apanhar as moscas mas também os tigres” (e que tigres!). Combate que em certos momentos pensei poder ameaçar a sobrevivência, pelo menos a política, de Xi.

O prestígio e grande apoio da população que Xi Jinping conquistou devem-se sobretudo a esse combate (e à afirmação do País no exterior, paz social e progresso económico). Combate que a população tem exigido colaborando activamente nele. Xi Jinping seria, assim, o líder em melhor posição para garantir no período actual a continuidade desse combate vital para a China e para a permanência do poder do PCC. E, de modo global, para assegurar que continuará a ser percorrida a rota desenhada para realizar a aspiração do “rejuvenescimento” da China proclamada por todos os dirigentes desde antes de 1911.

E seria previsível que Xi Jiping, que tal como o pai viveu e sofreu o horror da Revolução Cultural e o denunciou, queira ser, podendo sê-lo e não o poderia, um novo Mao?

É claro que cá como por mais de mil razões lá, prognósticos só no fim do jogo, ao contrário do que praticam os falsos penitentes do maoísmo. Mas esses não estudam, não se informam nem fazem análise, fazem profissões de fé em panfletos ridículos.

O nosso modelo político é para nós inestimável, apesar das disfunções crescentes que importa enfrentar, ditadas pelas mutações a ocorrerem velozmente no mundo. É para nós o melhor, mas não é perfeito nem será o último a ser “inventado”. E tal como os Chineses com o espírito pragmático de eficácia que caracteriza a sua mundivisão souberam olhar e importaram o que consideram ser o melhor do nosso modelo, também nós devemos olhar criticamente mas sem preconceito nem hostilidade para a experimentação política que continuam ineditamente a realizar. Até mesmo pela simples mas determinante razão dessa experimentação implicar o destino de um quarto da população da Humanidade.

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