Nenhum dos discípulos de Confúcio (551—479 a.C), era mais castiço que Zilu (c. 542—480 a.C.). De entre todos era o mais velho — apenas nove anos mais novo que o Mestre. Era o mais punctilioso — ninguém lhe levava a palma na execução rigorosa do ritual. Era o mais veraz — reto e honesto como uma tábua de carvalho. E era o mais impulsivo: um dia “Zilu perguntou: ‘Mestre, se tivesses o comando de um exército com três divisões, quem quererias ter contigo?’ O Mestre respondeu: ‘Não quereria ter comigo quem lutasse de mãos nuas com tigres ou atravessasse rios sem barco. Quereria ter comigo alguém que enfrentasse as dificuldades com temor respeitoso e que preparasse o sucesso com planos cuidadosos.’” (Analectos 7, 11) Nunca nenhum comentador duvidou que quem lutava à mão desarmada com tigres e se lançava a torrentes impetuosas sem embarcação fosse outro que o fogoso Zilu.

Zilu era soldado e foi durante alguns anos ministro do clã guerreiro dos Ji, que à época controlava o estado de Lu. Conta uma crónica antiga, o Zuo Zhuan, que certo dia apareceu em Lu o alcaide de uma cidade fronteiriça de um estado vizinho. Fez saber que se oferecia a entregar a cidade a Lu em troca de algumas garantias e benefícios pessoais. Este tipo de propostas era comum em toda a China naquela época e, em si, não deve ter causado estranheza aos oficiais com quem o alcaide falou inicialmente. O alcaide pedia ainda para que Zilu o recebesse, e disse que a palavra deste seria suficiente para se firmar o acordo, prescindindo ele do tradicional juramento ritual.

Nesta época, o estabelecimento de novos laços de vassalagem entre imperadores, reis, duques, generais, alcaides e todo o resto da classe política envolvia, sempre, uma cerimónia solene em que as partes juravam entre si lealdade e proteção mútuas. Um boi ou outro animal sacrificial era imolado e o seu sangue era usado para manchar as várias cópias do tratado, mas não de modo a diminuir a sua legibilidade. Este era depois lido em voz alta pelas partes que, no fim, borravam os seus lábios com mais sangue da vítima. Finalmente uma das cópias do convénio era enterrada juntamente com a carcaça do animal, de modo a que os espíritos tutelassem o cumprimento do acordado.

O alcaide ter dito que prescindia deste ritual causou estranheza aos oficiais: para quê dispensar das garantias adicionais proporcionadas pelos espíritos? Os subalternos de Zilu não ficaram portanto espantados que este se tivesse recusado receber o alcaide, que não devia ser mais que um pateta alegre, ateu e materialista. Quem ficou aborrecido foi o chefe do clã, Ji Kangzi, que pediu a outro oficial, também ele discípulo de Confúcio, que fizesse Zilu receber o alcaide de modo a assegurar para Lu a posse de mais uma cidade. Ran Qiu (c. 522—462 a.C.), o oficial em causa, dirigiu-se a Zilu e “perguntou-lhe: ’Como pode ser que não aceites a honra que te é feita quando te dizem que preferem a tua palavra a um tratado formal com o grande e nobre estado de Lu?’ Zilu respondeu: ‘Se Lu fizesse guerra a outro estado, com gosto morreria eu no cerco à capital, mesmo não sabendo a causa das hostilidades. Mas este homem é um traidor ao seu soberano. Trata-lo como se fosse um homem honesto, disso não sou capaz!” (Zuo Zhuan, 838)

Zilu foi leal e corajoso até ao fim. Tendo mais tarde assumido o comando do exército de Wei, levou consigo o seu protegido Zi Gao. Quando se levantou uma rebelião que pôs em grave risco o poder dos Kong, senhores do estado de Wei, Zi Gao tentou persuadi-lo a fugir. “Comi o que me pagaram,” teria respondido Zilu, “e não fugirei das desgraças que ameaçam o meu Senhor.” (Zuo Zhuan, 843) Morreu em combate trespassado pelas lanças que pretendiam matar el-Rei de Wei.

Basta folhear os Analectos para perceber que ninguém recebeu tantas críticas de Confúcio como Zilu. Criticas que, algumas, mordazes que eram, Zilu legitimamente poderia ter tomado como ataques pessoais e insultos. Apesar de impulsivo, nunca se deu por ofendido, e aceitou-as todas com elegância porque, na sua grandeza de caráter percebia a importância do diálogo e do debate, mesmo quando ríspidos, não só para o crescimento pessoal, nem tão pouco apenas para a boa gestão da coisa pública, mas também para o polir das ideias e o avanço do conhecimento. Foi esta abertura ao debate, na procura do que é ético e do que é verdadeiro, que manteve florescente o Confucionismo durante dois milénios e meio, mesmo sem nunca ter envergado as vestes diáfanas dos ideais democráticos. A crítica, ensinava Confúcio, é para o bem de quem a recebe se este a recebe bem: “O Mestre disse: ‘Se os estimas, não os corriges? E se lhes és leal, não os instruis?’” (Analectos 14, 7)

Professor de Finanças, AESE