São nativos digitais, conhecedores profundos de tecnologia (tech savvys), completamente dependentes dos telemóveis e das apps, vivem nas redes sociais, são a geração “on demand”, comunicam pelo Instagram e através do WhatsApp, veem vídeos no Youtube, ouvem música no Spotify, estão viciados no TikTok, são consumidores massivos da Netflix e HBO, mudam constantemente de plataformas e chegam a usar cinco ecrãs ao mesmo tempo. Esta é a geração multitasking dos novos Zoomers.

Têm uma capacidade média de atenção de cerca de 8” (oito segundos!), vivem no mundo das atualizações contínuas e estão habituados a processar informação em modo imediato. Ou seja, quase sempre sem filtros nem tempo para grandes reflexões ou aprofundamento das matérias. Muito menos para o apuramento dos factos.

Onde estão? No Insta, a fazer e a ver stories uns dos outros, ou a conversar com os amigos, mas também no TikTok, no Twitter e no WhatsApp, onde teclam compulsivamente, na ilusão de que conversam lado a lado, na mesma sala. Só vão ao Facebook para ir buscar a informação que lhes interessa e vivem suspensos das notificações. Todo o tipo de notificações.

Há quem diga que são a nova geração, no sentido de serem os mais novos, mas, na verdade, os zoomers são intergeracionais. Mesmo que a esmagadora maioria desta multidão humana tenha nascido alguns anos depois do milénio, há cada vez mais zoomers de todas as idades.

E quê? Que adianta sabermos isto? De que nos serve olhar para esta espécie de radiografia? Diria que é absolutamente essencial para várias indústrias, nomeadamente a dos media, mas também é vital para quem está no papel de educar, de ensinar, de ajudar a crescer, de gerar mudança e de contribuir para potenciar o desenvolvimento humano.

Passamos a vida a antecipar o futuro através das lentes dos que investigam e fazem prodígios através da Inteligência Artificial, mas nem sempre nos detemos o suficiente no aqui e agora. Naquilo que está a acontecer com esta gigantesca massa humana, cuja atenção média se esgota em 8”.

Impressiona fazer este zoom in/zoom out e perceber a volatilidade dos comportamentos e a vulnerabilidade das pessoas.

Claro que quem se interessa por estes temas já viu as séries e documentários que há para ver, bem produzidos, impecavelmente enquadrados e muitíssimo bem ilustrados sobre os novos comportamentos e a influência das redes sociais na vida das pessoas. Alguns destes documentários foram construídos a partir de declarações chocantes e depoimentos dos próprios criadores das redes socais, verdadeiros crânios que num mea culpa coletivo admitem ter gerado um “monstro”. Não sei se geraram ou não, porque todos sabemos o quanto a net acrescenta às nossas vidas, e cada um saberá qual a medida do seu uso e abuso das redes sociais e respetivas plataformas, mas interessa-me a janela de atenção dos zoomers: oito segundos, em média.

A propósito de janelas de atenção, recordo um episódio passado numa sala de aula, com um aluno que me interpelou pela forma como partilhou o seu voluntariado. Aquilo que disse ficou gravado para sempre.

– Decidi prescindir das minhas férias grandes para fazer voluntariado numa instituição com crianças.

– Porquê com crianças? Os jovens nem sempre têm muita paciência para elas…

– Porque as crianças têm uma janela de atenção mínima e eu queria prender a sua atenção para poder expandir essa janela. Queria ajudá-las a alargarem os seus horizontes.

O aluno teria na altura 18 anos e surpreendeu-me a resposta que deu sem hesitar. Esperava uma justificação porventura mais afetiva, ou talvez associada à memória de alguma criança que lhe fosse particularmente especial, mas a explicação fez ainda mais sentido. Expandir a janela de atenção das crianças institucionalizadas, para contribuir para lhes expandir também os horizontes.

Fiquei cheia de admiração pela motivação e pela capacidade de ação deste aluno e não voltei a esquecer-me das suas palavras. Fazem um eco particular agora, perante a realidade dos zoomers e da sua (nossa!) capacidade de atenção. Se virmos bem, também isto é uma rampa deslizante porque, aos poucos, quase todos acabamos por escorregar, cair e ficar presos no pântano. São cada vez mais raros os que vivem à margem das redes sociais e desconhecem esta realidade.

E é por nos revermos nesta radiografia dos que veem tudo, sabem tudo, mas por vezes não percebem quase nada; dos que fazem intermináveis scrolls em feeds ainda mais infindáveis, mas raramente se fixam apenas num tópico, que assusta perceber aquilo em que nos estamos a tornar. Consumidores compulsivos e facilmente manipuláveis.

No documentário “The Social Dilemma”, da Netflix, alguém sublinha que o termo “users” só se aplica a duas castas de pessoas: os que usam drogas e os que usam as redes sociais. Ou seja, aplica-se a viciados.

Tudo isto dá que pensar e obriga a parar para refletir. Se oito segundos são a tolerância máxima, em média, para mudar de canal, para escolher outra plataforma, para trocar de app, para ouvir outra música, noutra rádio, para teclar enquanto guiamos, para estarmos ligados a vários ecrãs, para nos interessarmos ou desinteressarmos daquilo que nos está a ser dito e mostrado, talvez nos caiba fazer o mesmo que fez aquele aluno nos vários meses de férias que passou num orfanato: agir, de forma a expandir a janela de atenção. Se não o fizermos connosco e com os que dependem de nós ou estão à nossa volta, seja em contextos familiares ou profissionais, o horizonte será cada vez mais estreito para todos.