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Gabinete de Guerra na Rádio Observador é um programa em que falamos diariamente dos conflitos em curso. Hoje, durante esta semana, com especial atenção para o que se passa também na Síria, depois desse golpe de Estado que aconteceu no fim de semana. Hoje, o dia fica marcado por um nome: Mohammed al-Bashir é o novo primeiro-ministro interino da Síria, até pelo menos março do próximo ano. Foi hoje apontada a confirmação, que surgiu numa declaração transmitida por um canal de televisão sírio. Neste Gabinete de Guerra, vamos estar à conversa com João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador. Vamos começar a falar destes desafios, os desafios da nova Síria, podemos dizer assim, agora com a liderança interina de al-Bashir. Já vamos a esses desafios. Primeiro, falar desta decisão. É importante, nestes primeiros dias, estamos com três, quatro dias desde que houve este golpe de Estado e toda esta revolução na Síria. Qual a importância de definir já este nome, uma pessoa para liderar o país, mesmo sendo de forma interina?

Viva, boa tarde, obrigado pelo convite. Mohammed al-Bashir sempre foi uma figura ligada ao processo de insurgência sírio. É um indivíduo com muitos contactos com o Ocidente, é uma figura respeitável e aquilo que todos nós desejamos é que, tendo sido empossado como primeiro-ministro neste governo de transição, ele venha a confirmar as suas credenciais enquanto elemento moderado, apaziguador, com boas propostas que ele sempre fez chegar à insurgência síria. E acredita a comunidade internacional que ele possa prestar um bom serviço numa altura que se pretende que a transição seja pacífica, seja ordeira, que seja inclusiva, no sentido de serem chamadas a intervir os diferentes grupos que integram a oposição síria. Convirá saber que o HTS não foi o único. O HTS diria que coordenou a iniciativa a partir do norte, mas integra outras forças, como é o caso das Forças Democráticas da Síria, como é o caso também do Exército Nacional Sírio e dos grupos menores. Todos eles contribuíram e também não podemos esquecer a presença da facção curda a nordeste do território sírio. Ainda assim, para que não haja deslizes, os vários atores, vários países, já iniciaram conversações, desde logo, com o novo líder. E eu estou a falar da Rússia, um grande ator naquela região, o Irão e o Catar, hoje, também. Isto é só um começo, porque naturalmente já começou a haver contactos exploratórios até do outro lado do Atlântico, estou a falar dos Estados Unidos.

Nós já vamos detalhar o impacto que esta situação tem também naquilo que são as ligações externas da Síria com outras forças. Mas olhando para a questão interna, falava de facto de uma grande ligação entre forças internas que se uniram para afastar Bashar al-Assad durante os últimos dias. E este nome escolhido agora é uma escolha por parte dos rebeldes, mas com o entendimento também do primeiro-ministro sírio, que foi deposto, Mohammed al-Jalali. Este nome, al-Bashir, tem a capacidade ou vai ter como principal desafio garantir a manutenção desta união para uma nova Síria? É possível conseguir essa união? Porque, de facto, é um país multicultural, com várias religiões, algumas mesmo sendo semelhantes, têm várias facções. É possível manter a união num país como a Síria, depois de tanto tempo sob um regime ditatorial?

Naturalmente que não. Ele vai ter uma tarefa ciclópica, porque, de facto, ele vai ter chamamentos com diferentes origens, porque dentro deste grupo que eu há pouco falei, esta coligação liderada pelo HTS, há diferentes situações. Falou também, de facto, há multietnias no território, há o problema curdo também para resolver e eles não falam a uma só voz. Nalgumas matérias, nalguns domínios, naturalmente que falam a uma só voz, são pontos comuns. Desde logo, a destituição de Bashar al-Assad e do clã Assad Com 52 anos, mais de 50 anos.

Esse talvez fosse o único ponto em comum entre todos estes grupos, era baixar a Bashar al-Assad. Mas a partir de agora, há muitas vontades.

Há muitas vontades. E não vai ser fácil, isto vai levar muito tempo, estas conversações vão levar muito tempo. Ele próprio vai ser, diria, fustigado pelos grandes poderes. Falei já de alguns, e são os mais notórios: Israel, Estados Unidos, os países da região do Golfo, alguns do Médio Oriente, porque aquilo está tudo fraturado e está tudo em convulsão. Portanto, nesta altura, utilizando uma gíria, o Médio Oriente é um verdadeiro barril de pólvora. Não vai ter uma tarefa fácil, vai ter que reunir um conjunto alargado de vezes com as forças que estão no terreno. Vai ter que pedir apoio e orientação a outras potências, não só as regionais, e quando falo das regionais, estou desde logo a pensar na Turquia, por um lado, que tem tido uma grande influência ao longo dos últimos anos relativamente ao seu vizinho Síria, e também a Arábia Saudita, um pouco mais afastada, mas a Arábia Saudita configura-se nesta altura como uma potência regional.

Principalmente por causa do poder econômico.

Por causa do poder econômico, naturalmente, mas do outro lado temos um outro poder, que não é tão elevado sob o ponto de vista econômico, mas tem recursos naturais, tem os hidrocarbonetos, estou a falar do Irão, mas o Irão é um Estado teocrático e com tudo o que significa esse modelo de governação. O próprio Irão poderá vir a ter problemas, convulsões internas já teve, convulsões com a vizinhança está a tê-las. Esta queda de Bashar al-Assad funcionou contra, portanto, se há perdedores nos acontecimentos desta dúzia de dias, se há perdedores, o Irão é um deles, a Rússia será outro, e muito provavelmente eles não vão querer ficar numa posição secundarizada. Portanto, aquilo que o novo primeiro-ministro neste governo ou nesta fase transitória vai ter uma tarefa hercúlea durante muito tempo, vai haver muita dissensão, muito dificilmente as pessoas estarão de acordo. É claro que lá mais à frente haverá uma Constituição, uma reforma constitucional. Vamos ver se as tais potências de que falava há momentos não vão pôr pedras na engrenagem, passe o plebeísmo, mas isto é bem provável, é seguramente o que vai acontecer.

Falava de algumas nações derrotadas, a Turquia, talvez no lado oposto, talvez a nação mais vitoriosa no meio de tudo isto, olhando para as forças externas. Como é que fica o Ocidente? Como é que fica o Ocidente, União Europeia, Estados Unidos, perante o que acontece nesta altura na Síria? Que objetivos pode ter o Ocidente também com a Síria, sendo que é também o Ocidente que tem a maior parte das sanções aplicadas a este país?

Sim, é sempre, por tradição, muitas vezes ou quase sempre a reboque dos Estados Unidos. Temos aqui duas posições e elas não são coincidentes. Vamos ver, no caso da Europa, a União Europeia, em concreto, a União Europeia não fala a uma só voz, utilizando o termo há pouco. A União Europeia está fragmentada. A União Europeia, e eu não sou propriamente um profeta, mas acredito que dentro de poucos anos aconteça à União Europeia aquilo que Macron disse relativamente à NATO, que está em morte cerebral. Naturalmente que a União Europeia tem um elevadíssimo poder econômico. Poder militar não tem. Tem dependido sempre da NATO. Do outro lado do Atlântico, temos as ameaças veladas do futuro inquilino da Casa Branca, o senhor Donald Trump, que vai provavelmente recorrer a um modelo de governação que não é novo nos Estados Unidos, e eu estou a falar propriamente, vai levantar fronteiras não físicas, se calhar até levanta lá embaixo na transição para o México, mas vai fechar-se. Eles têm um mercado de cerca de 350 milhões, vão fazer negócios com o exterior, portanto vai haver aqui protecionismo, vai haver aqui algum alheamento dos problemas que o próprio Trump já foi dizendo que não quer envolver-se no futuro, quando ele assumir funções a partir de 20 de janeiro, não quer envolver-se nos conflitos tanto da Ucrânia, Rússia-Ucrânia, como do Médio Oriente. Isto poderá não ser assim. Nós ainda acreditamos que ele não replique aquilo que aconteceu no seu mandato 2016-2020. Mas ele fez uma escolha algo enviesada do seu gabinete. As pessoas que estão à volta dele não são, eu diria Não são de fiar, mas ele também não é de fiar. A verdade, isto é naturalmente uma leitura ideológica, mas as escolhas vão reforçar a sua retórica, os seus propósitos. Portanto, Estados Unidos, que já ameaçaram, como disse, sair da NATO, se não for isso, pelo menos há um enfraquecimento da posição norte-americana dentro da organização, dentro da aliança. No caso do Médio Oriente, o Médio Oriente tem que se entender a si próprio e tem havido, da parte de alguns líderes, a promoção do entendimento com os países, estou a falar dos países da península arábica, da região do Persa, do Mar Pérsico. Biden, por exemplo, está a promover uma aproximação, um entendimento entre o Irão e a Arábia Saudita, e a Arábia Saudita tem todo o interesse em seguir essas orientações, se bem que já foi mais fiel, eu estou a falar da Arábia Saudita, àquilo que vinha do lado do Atlântico, portanto, dos Estados Unidos.

Professor João Henriques é vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico e quando nós falámos no início do conflito entre Israel e Palestina, falou-se muito da questão do contágio na região do Médio Oriente e os países em redor. Olhando para o que está a passar na Síria, que risco de contágio tem esta situação para outros países, para outras nações? O que é que pode provocar noutras nações? E também, que impacto pode ter nesse conflito entre Israel e Palestina, porque Israel passa a ter aqui uma frente, já tinha esta frente, mas muda de forma. Temos ainda dois minutos e meio, gostaria de ouvir um pouco sobre isso.

Israel, desde logo, conta com o apoio inabalável dos Estados Unidos, mesmo que os Estados Unidos se queiram distanciar dos conflitos naquela região. Israel vai prosseguir o seu propósito. Recorre-se ou socorre-se do princípio do sionismo, vai tentar alargar território. Para eles está fora de causa que a Cisjordânia, por exemplo, ou mesmo a Faixa de Gaza, regresse aos palestinianos. Os assentamentos, portanto, o alargamento vai estender-se também, já houve tentativas nesse sentido, alegadamente por razões de segurança interna, vai estender-se também à Síria. Já estavam no Líbano, agora temos a Síria. A Síria, por razões, dizia, de defesa da população israelita, mas, por outro lado, há um objetivo escondido, que é o alargamento territorial, a expansão territorial. Estes ataques das últimas horas, que nunca tinham tido lugar em território sírio, acontecem, como disse, pela primeira vez, para, dizem eles, atacarem alvos onde está escondido armamento químico, as chamadas armas químicas que foram deixadas por Bashar al-Assad, de triste memória, e a intenção é de alargar o território, porque é esse mesmo o princípio do sionismo. Agora, eu digo sionismo, não estou a dizer antissemitismo ou semitismo, é outra coisa completamente diferente. E as repercussões que este conflito poderá ter, desde logo, vamos ter talvez como um primeiro reflexo disso, e eu falei há pouco, do Irão.

Muito bem. Vamos ver também como fica o Irão depois de toda esta situação na Síria. João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, muito obrigado por ter estado conosco esta tarde aqui na Rádio Observador a analisar conflitos em curso, com destaque para a situação no Médio Oriente, mais concretamente na Síria.