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E três destas 15 famílias disseram textualmente: "Eu já não preciso da Cozinha com Alma, portanto vou sair para deixar a minha vaga para quem precise".
Este é o Querido Líder da Rádio Observadora, sou Ricardo Conceição e comigo estão os especialistas em liderança, Milton Sousa e Jorge Medeiros. A nossa convidada é a Cristina de Butun, presidente da direção e também voluntária na Cozinha com Alma, um projeto de solidariedade que vamos descobrir melhor nesta conversa. A Cristina de Butun é arquiteta paisagista, colaborou com o ateliê de Gonçalo Ribeiro Telles e Francisco Caldeira Cabral, gere uma propriedade agrícola no Alentejo. A Cozinha com Alma nasceu em 2012 e em 13 anos apoiou mais de 1500 beneficiários, disponibilizou mais de 750 mil refeições. E Cristina, foi perante uma inquietação sua que nasceu esta Cozinha com Alma?
Eu acho que as nossas vidas são feitas de inquietações e de oportunidades que nos surgem. Eu sempre tive alguma sensibilidade para ajudar, para apoiar. Nunca tinha feito nada de estruturado, apesar de há muitos anos atrás ter me querido envolvido, depois de ter visto no estrangeiro a Sopa dos Pobres, que era assim na altura que se chamava. Fiquei superentusiasmada, cheguei cá cheia de ideias, mas de facto eu vivia meio no Alentejo, meio em Cascais. Tinha três filhos pequenos, tinha uns pais a quem gostava e queria dar apoio e, portanto, achei não é a altura, porque acho também nestes projetos de voluntariado, temos que perceber que não podemos deixar os nossos para trás para ir ajudar os outros. Acho que para mim isso é fundamental. E portanto, passado uns anos, finais de 2011, surgiu esta oportunidade e no fundo é uma oportunidade como outra qualquer e umas agarram, outras não se agarram.
Mas andava há muito tempo a pensar nisto? Qual é a história desta Cozinha com Alma?
Não andava de todo a pensar em nada. Andava na minha vida tranquila. De facto, o paisagismo nessa altura, na sequência da crise, também havia muito menos pedido de projetos. Encontrei uma pessoa na rua, que fomos as duas que lançámos a Cozinha com Alma, a Joana Bolota. Encontrámo-nos casualmente: "Já viste as notícias?" "Sim, vi. Bora fazer qualquer coisa". Fomos falar com a câmara, falámos com várias pessoas, aconselhámo-nos. E em fevereiro de 2012, de facto, estávamos a abrir a Cozinha com Alma, com um conceito nada a ver com o que tínhamos falado na primeira conversa. E lá fomos nós. Não tínhamos o financiamento total, tínhamos parte do financiamento só, mas às tantas é chutar à baliza, é andar para a frente com vontade e fazer acontecer.
E como é que funciona esta cozinha? Só para percebermos melhor este projeto, como é que tudo isto funciona?
Basicamente, quando a Cozinha com Alma surge, houve, sobretudo, a grande preocupação com as refeições e a preocupação de criar um projeto sustentável. Portanto, foi feito um caminho e chegámos à conclusão que teríamos que ter um chefe para garantir a qualidade das refeições, para garantir que tivéssemos um público geral a vir comprar as nossas refeições e com esse lucro, permitir famílias selecionadas pela Cozinha com Alma, que são selecionadas em parceria com as Juntas de Freguesia, que fossem apoiadas, selecionadas e tivessem acesso exatamente às mesmas refeições por um valor simbólico. Mas quando chegaram as primeiras famílias, rapidamente percebi que não bastava, de todo, as refeições, que as pessoas estavam em situações muito difíceis, muito complicadas. E uma das coisas que me saltou logo à vista é: estão em dificuldades. Eu comecei a conversar, a perguntar, a questionar e não havia gestão do orçamento familiar. Para mim era uma coisa que era impensável. Como é que uma pessoa que está a passar por dificuldades não faz a sua gestão do orçamento familiar? Convidámos uma formadora, a nossa primeira formadora na altura, a Susana Albuquerque, que eu tinha acabado de conhecer numa formação sobre este setor social, que era um setor que me era completamente estranho. Desafiei-a e, de facto, hoje em dia, o nosso programa de capacitação é tão ou mais importante que as refeições, porque, no fundo, há muitas instituições que dão refeições, mas nós temos todo um programa de capacitação que permite que as pessoas saiam da situação em que se encontram.
Ou seja, ensinam a pescar, é isso?
Exatamente. Hoje em dia temos vários programas e este programa que foi inicial é o programa Capacitar. Temos desde workshops, mentores, coaching, inúmeras respostas. Temos parcerias com a Deco, temos parcerias com a Câmara de Cascais para trabalhar a procura de emprego. E o que é que nós trabalhamos, basicamente? O bem-estar emocional, porque as pessoas já chegam muito fragilizadas, porque é um público que nunca tinha passado por dificuldades, na sua maioria. Estavam bem e que na sequência da crise, de repente, pela primeira vez, viram-se numa situação completamente desamparada. Da pobreza escondida, exatamente. Pobreza envergonhada eu também não gosto, acho que é um termo estranho.
E dar esse passo para pedir ajuda também deve ser muito difícil, não é?
É muito difícil. Portanto, quando as pessoas vêm ter com a Cozinha com Alma, sobretudo nessa primeira fase, vêm numa altura já bastante tardia, em que já esgotaram um bocadinho todos os seus recursos. E portanto, é preciso trabalhar o bem-estar emocional, porque se as pessoas não estiverem bem, não vamos conseguir trabalhar Nem a procura do emprego, nem a gestão do orçamento familiar, nem seja o que for.
Deixe-me só fazer esta. Como é que se preserva, por exemplo, a privacidade das pessoas? Como é que isso se faz?
Isso foi uma grande preocupação desde o início, porque nós não queríamos de todo que estas famílias fossem identificadas em loja. A nossa loja é um takeaway.
Portanto, é uma loja.
É uma loja, takeaway, as pessoas vão aos frigoríficos, servem-se.
Há menus semanais, essas coisas todas. Há menus semanais.
Há isso tudo, há menus semanais. As pessoas chegam à loja, abrem os frigoríficos, fazem as suas escolhas, chegam à caixa. Quem está na caixa pergunta: "Quer pagar com cartão Cozinha com Alma?" Tanto o público geral como o cliente da Bolsa Social podem ter este cartão, são cartões exatamente iguais. Enquanto uns vão assumir o PVP, os outros vão assumir o preço do escalão em que está inserida a família. Este escalão é calculado em função do rendimento per capita da família e ninguém sabe quem é que está a pagar mais ou menos. No fundo, temos dois clientes em loja, um cliente público geral, um cliente da Bolsa Social, um está a ajudar o outro e ninguém sabe quem é a pessoa ajudada. O cliente do público geral poderá sempre também pagar nas formas tradicionais, com cartões Multibanco, com dinheiro, mas a pergunta é se sempre tem cartão Cozinha com Alma, para garantir a privacidade.
Portanto, no fundo, vendem um conjunto de refeições que, desse lucro, pagará uma refeição de quem beneficia da vossa ajuda. É isso?
Sim.
O modelo é mais ou menos este.
O modelo é mais ou menos por quatro refeições, vai variando um bocadinho, mas por quatro refeições vendidas ao público geral, conseguimos financiar uma refeição para as famílias apoiadas pela Bolsa Social.
Isto é muito interessante, porque aqui também traz uma dimensão da inovação. Nós para conseguirmos resolver o problema, tivemos que inovar ao nível do modelo de negócio. De onde é que surgiu essa ideia? Calculo que tenham tido um processo de brainstorming para pensar em soluções para resolver esta questão da identificação das pessoas que precisam de ajuda. De onde é que surgiu, como é que foi esse processo? Pediram a ajuda de alguém?
O processo foi conversar com inúmeras pessoas, de telefonar a certas pessoas às 11 da noite, cheias de dúvidas e cheias de angústias. Mas eu acho que só fazendo perguntas, assumindo que os outros sabem muito mais, sabem coisas diferentes. E acho que, no fundo, isto foi uma construção feita com muitas inquietações, mas com muita vontade de querer fazer e de querer fazer acontecer. E acho que todas as pessoas que estavam à nossa volta também tiveram muito gosto e ainda hoje nos ajudam. Ainda hoje nós temos, dentro da Cozinha com Alma, três comissões. Temos a comissão de vencimentos, porque de repente, nós começámos com três pessoas assalariadas, hoje em dia são 39.
Tem 39 pessoas a trabalhar no projeto.
Sim. E eu, de repente, quer dizer, eu sei lá decidir sobre os aumentos salariais. Criou-se uma comissão de vencimento, que eu na altura nem sabia que existiam comissões de vencimento, assumo aqui a minha ignorância.
É inspirador para quem ouve, Cristina.
Pois é, quer dizer, eu fazia bonecos para as ASJ.
Nós temos focado em alguns episódios este aspecto da humildade, e a humildade para quem quer crescer e quer aprender, por definição, tem de estar presente. E houve uma coisa que a Cristina disse logo de início, mesmo na gênese da ideia, quando teve a ideia, quando se cruzou com a sua amiga e depois começaram por implementar, já foi uma coisa muito diferente do que acabou de partilhar. E portanto, tem havido mudança atrás de mudança, atrás de mudança, e isso tem dor. É muito mais doloroso estar sempre a pensar que temos de mudar alguma coisa, do que vamos manter tal como está, porque suficientemente bom é suficientemente bom. E isso também implica querer essas dores, continuar a querer essas dores, porque está ao serviço de um bem maior. É mais ou menos isto?
Sim, é uma canseira, porque podíamos ficar associados e a coisa podia andar. Mas, de facto, há sempre esta vontade de querer fazer mais, de querer fazer melhor. Aliás, nós temos muito o lema de querer fazer bem o bem. E portanto, eu acho que isto é o que eu acho que se pretende transmitir à equipa. Que haja rigor, que haja transparência, que haja toda esta vontade de querer fazer bem, e que faz com que, no fundo, estamos constantemente a questionar, a mudar procedimentos. E realmente isso é uma trabalheira.
Cristina, só uma questão que eu tinha aqui agora de repente. Neste programa falamos de ambição já. E muito do que está a dizer tem a ver com isso, essa ambição que há de querer fazer melhor, porque tem muito presente também o propósito e a missão que têm. Mas já vinha de trás essa ambição ou a sua ambição aumentou e a sua vontade de querer fazer melhor e mais aumentou quando agarrou este projeto?
Eu acho que estas coisas nascem conosco. Não sei se estou a dizer uma grande asneira ou não, mas eu acho que nascem conosco. A vontade de querer fazer, a resiliência, a não largar. Eu lembro dos meus colegas na faculdade, queriam sair para tomar cafés e eu dizia: "Não, enquanto não acabarmos, não saímos daqui." Eu era a chata.
Então já é uma característica que vem de si, já vinha de trás.
Acho que todos nós temos as nossas características, temos as boas, temos as más, e é um pacote. Eu acho que mais do que ambição, é isto, é vontade de querer fazer e ser resiliente naquilo, na nossa vontade. E há obstáculos, claro que há obstáculos, claro que há coisas que correm mal, mas quando correm mal, vamos resolver, vamos arranjar soluções e vai correr melhor.
Mas no arranque do projeto, por exemplo, quando foi com a outra senhora tentar arranjar forma de pôr isto tudo em prática, ouviu muitos nãos, ouviu algumas frases do tipo: "Ó Cristina, isso é tudo muito bonito, mas nada disso vai resultar."
Sempre complicado.
Ouvimos alguns nãos, como é um facto, e vínhamos assim meias esmorecidas, mas também ouvimos muitos sins. Eu lembro-me muito bem quando fomos falar com a Câmara, com a vereadora da Ação Social, era a Mariana Ribeiro Ferreira na altura, que nos deu um grande apoio, achou que o projeto era muito engraçado, inovador, sim, senhora. Mas quando saímos, ela diz-nos: "Eu todos os dias recebo aqui ótimas ideias que depois ficam na gaveta."
Uhum.
E eu disse: "Mariana, vai ver que esta não vai ficar na gaveta".
Até serviu de estímulo, não foi? Ai, ai, já vais ver.
Picou, não é?
Se calhar até foi de propósito.
Sei lá.
Para incentivar. Eu ia voltar atrás, Cristina, eu tenho que te fazer aqui uma nota absolutamente carinhosa, porque é um programa de liderança, há coisas com que nascemos, é o eterno debate. Também já falámos brevemente aqui no programa do nature versus nurture, e nós sabemos que são ambas. Não sabíamos tão claramente até o início do século XXI, porque achávamos: "Isto vamos mapear os nomes e, portanto, fica tudo catalogável e fica tudo personalizável". Até que alguém se lembrou de olhar para o ADN e o hélice do ADN tem uma película que em tempo real, mais coisa menos coisa, vai ditando que genes são expressos no momento, ou seja, é um mecanismo ativo, portanto, esta mudança pode acontecer, as competências também são desenvolvidas e ganha-se. Isto é mais uma nota para as nossas pessoas. Eu ia fazer aqui uma pergunta e um comentário que eu acho que passou e vale a pena salientar. A Cristina apercebeu-se de que um dos problemas das pessoas era a dificuldade de gestão do orçamento familiar. E interessa olhar para isto e ver que foi a sua auscultação de quem procura servir, que permitiu identificar isso. Portanto, não há esta ideia do deslumbramento com a nossa própria ideia e, portanto, vamos fazer com a melhor das intenções, este grau de continuamente ver como podemos servir melhor, de que formas é que estamos a servir e o que podemos melhorar, o que continua a fazer sentido e o que se calhar já não faz tanto sentido, porque a Cristina disse "en passant", mas vale mesmo a pena, como lição de liderança, passarmos aqui a quem nos está a ouvir. Agora a pergunta: em Cascais, esta pressão social e os termos de comparação tornam ou não tornam mais difícil as pessoas reconhecerem que têm de voltar atrás, arrepiar caminho, reconstruir, escolher outro caminho, da sua experiência?
Está a falar de quê? Das famílias que nos vêm procurar apoio e ajuda?
Isso.
É um grande desafio que nós temos, é chegar às pessoas certas. E é um trabalho que nós fazemos de divulgação da nossa oferta, divulgamos o anonimato que garantimos às pessoas que apoiamos. Eu não diria que é em Cascais, eu diria que Cascais é um ecossistema, se calhar, um bocado próprio, mas eu diria que em qualquer lado. As pessoas têm os seus orgulhos. Eu, por exemplo, também passo muito tempo no Alentejo e acho que as pessoas também é igual.
Claro. A pressão social, a não querer...
Às vezes até nos meios pequenos, rurais, ainda existe mais essa pressão social.
Bom ponto.
Não é? Acho eu.
Depois todos se conhecem, todos ficam a saber, é mais difícil.
É. E uma das coisas também que posso aqui partilhar também, e que põe um bocadinho de sequência ao que estavas a dizer, Milton, é esta coisa do julgar, do medo de ser julgado e o saber não julgar. Nós não sabemos o que são a vida das pessoas que apoiamos. Ainda hoje de manhã, antes de vir, nós tivemos a reunião onde passámos por todas as nossas famílias e, no fundo, é a história de vida de cada uma delas, que ali só com as duas assistentes sociais, estava eu e estava a nossa diretora executiva, em que discutimos estes casos. E as pessoas têm umas vidas, nem nos passa pela cabeça. Às vezes os dramas das vidas e há famílias que lhes acontece tudo, é inacreditável.
E como é que são selecionadas as famílias? Quais são os critérios que usam?
As famílias têm uma ficha de inscrição onde têm que declarar todos os seus rendimentos, têm que entregar toda a documentação de IRS e tudo mais. Há uma série de critérios para balizar a aceitação ou não das famílias, é cruzado com a Junta de Freguesia, é cruzado com as outras instituições para ter o cuidado de não haver duplicação de apoios, porque nós sabemos que há os profissionais também dos apoios. Às vezes dizem: "Ah, mas aquele, aquela". Nós apoiamos em média 90 famílias constantemente. Sabemos que haverá sempre uma que se calhar... E então, qual é o problema? Há 89 que são apoiadas. Não vamos estar a apontar. Por que estão a apontar a única que nos enganámos, entre aspas.
É de uma injustiça enorme. Nós falámos aqui no episódio anterior do perfecionismo.
Já percebemos que para concretizar a ideia, rodeou-se de muitas pessoas e pediu muita ajuda. Isso também é muito interessante. Assumiu as rédeas do projeto, mas reconhecendo que não domina a área B, a área C, a área D, ou seja, eu vou precisar de ajuda aqui, portanto, venha ajudar-me. Foi isso?
Foi exatamente isso. Nas vésperas da abertura, à meia-noite telefona para as pessoas, na maior crise existencial. Será que sim, será que não?
Duvidou muito.
Eu acho que tudo na vida deve ter uma dose de loucura, mas só um louco é que também não é dúvida, não tem algum, não digo medo, receio, vai correr bem, vai correr mal.
Claro.
Estava a dizer, e nós mesmo tivemos esta coisa das comissões. Temos a comissão de licenciamentos, temos a comissão estratégica, temos uma comissão para as bolsas sociais, que acho que é sempre muito importante haver pessoas de fora que vêm ver, porque daí surgem sempre novas ideias e novas ideias para fazer melhor.
A objetividade também que trazem. Trazem mais objetividade na análise.
Exatamente.
E só dar uma nota aqui que também achei muito interessante, antes que me esqueça, que eu acho que nesta questão da vergonha que as pessoas podem ter de assumir, até pela pressão dos pares, relativamente àquilo que é a situação de maior fragilidade, mesmo dentro das organizações, isso também acontece. Poderá não ser pobreza, mas falamos da questão do bem-estar. Pessoas que estão mal, que se sentem mal, que não têm capacidade de entregar, que estão em burnout e por receio de que os outros podem julgar, não têm forma de poder partilhar. Eu acho que é muito importante nas lideranças, nas organizações, criarmos mecanismos e os veículos para que as pessoas possam ter forma de poder dizer: "Eu preciso de ajuda". Porque o dia a dia às vezes não permite isso. E o receio do que os outros vão poder dizer.
Está a dizer dos colaboradores.
Também dos colaboradores, exatamente.
Nós tentamos ir fazendo alguma comunicação interna É importante ir dizendo aquilo que está acontecendo e aquilo que se vai fazendo. E um dia estava a falar pra equipe e a dizer: "Apoiamos não sei quantas pessoas, ajudamos não sei quantas pessoas". E, de repente, comecei a me sentir mal, porque comecei a perceber que estava a falar para pessoas que, se calhar, também precisavam de ajuda. E eu saí dali a dizer: "Vai haver um programa de responsabilidade social interna. Todas as nossas pessoas vão ter acesso às respostas que nós temos para as famílias da bolsa social, vão se candidatar à área da bolsa social, não vão falar com os recursos humanos". Isso ficou muito claro. E chamamos o nosso programa Colaborar, que é dos nossos colaboradores, e assumimos e temos pessoas a virem nos pedir ajuda, porque não podemos estar sempre lá. Está mais uma vez o que dizíamos no início, a ajudar os outros e não ajudar os nossos.
E quantas vezes não acontece isso nas organizações também.
E de repente, um dia caiu uma ficha. Podia ter caído mais cedo, caiu, se calhar, há três anos. E nós também, hoje em dia, temos quatro programas. Temos o programa Capacitar, que é este programa que apoia pessoas que têm capacidade de mudança, que podem estar no máximo dois anos na Cozinha com Alma e depois resolver a sua vida, que é o que nós queremos.
E qual é a taxa de sucesso desse programa?
Temos cerca de 70%. Eu considero bastante bom, não sei.
Claro.
E quando nós vemos que elas não têm capacidade de mudança, também não as largamos. Vamos sempre integrá-las noutra resposta social. Temos o cuidado de não dizer: "Pronto, agora acabou". Não, deixamo-las sempre noutra resposta social. Depois, de volta e meia, apoiávamos umas pessoas sem capacidade de mudança, porque a junta nos pedia ou alguém nos pedia: "Tem uma vaga, temos aqui uma senhora que está à espera". E foi exatamente uma senhora que estava à espera. O marido tinha morrido e ela estava à espera da pensão do marido e estava ali passando por alguma dificuldade. E ela esteve três, quatro meses conosco e ao fim de quatro meses, nós chamamo-la e dissemos: "Pronto, já recebe a pensão da sua família, já não precisa da Cozinha com Alma". E ela diz: "Não me tirem a Cozinha com Alma, é a única coisa que me faz sair de casa todos os dias". E eu disse: "Acabou. Vamos ter um programa para estas pessoas, vamos lhe chamar o programa Acompanhar, porque estamos aqui no fundo". E aqui o nosso objetivo é não refeições e capacitação, mas sim refeições e combate ao isolamento. E abrimos umas vagas para estas pessoas.
É muito interessante, que é mesmo estar sempre permanentemente aquilo que o Jorge estava a dizer há pouco, tomar atenção, prestar atenção àquilo que é as necessidades de quem servimos e a partir daí inovarmos.
Só isso é que faz sentido, senão não faz sentido. Eu não vou fazer camisolas amarelas se ninguém quiser comprar camisolas amarelas.
A Cristina acabou por responder à pergunta de uma forma eloquente, porque uma parte substancial das pessoas que colaboram são pessoas muito jovens. Depende, na cozinha, em tudo. Mas nas pessoas que fazem o apoio social, nomeadamente, são mais jovens. É correto?
Sim, claro que sim.
E o que é que acontece? Estas pessoas acabam por ter uma profissão em cujo dia a dia é lidar com pessoas com situações trágicas, desde familiares presos, homicídios, suicídios. Ou seja, eu estou a trazer estas palavras conscientemente, porque muitas vezes quem nos está a ouvir não sabe dos bastidores de que a Cristina falava há pouco. E a sua resposta foi eloquente, porque estas pessoas, que são jovens, acabam por entrar num dia a dia, que é um dia a dia muito duro, de lidar com realidades muito duras e, portanto, se não temos de ter uma cautela especial para estas pessoas, porque estão ali numa realidade absolutamente concreta, mas que acaba por ser uma distorção do dia a dia, porque nenhum de nós, pelo menos imagino eu, viva o dia a dia a ser confrontado com situações extremas.
É verdade. Nós tivemos uma assistente social, o Jorge conheceu, que teve necessidade de se afastar porque estava a ser para ela extremamente pesado todas as histórias que ela ouvia. Porque nós, sem querer, vestimos a camisola de quem está à nossa frente.
Não dá pra desligar.
Nós tomamos as dores. Eu tive imensa pena, mas a vida é o que é. Ela continua a colaborar conosco, eu disse: "A senhora pode ir para outra vida, mas vais continuar a fazer parte da comissão das bolsas sociais". Ela acompanha-nos de forma muito regular, mas ela disse muito claramente que precisava de se afastar desta área social, que estava a ser muito pesado pra ela todas as histórias que ela ouvia todos os dias.
Cristina, nós temos sempre quatro perguntas fixas que fazemos a todos os nossos convidados. E vou começar pelo pior. Qual foi o pior momento deste projeto ou do seu projeto, neste caso? Nós geralmente fazemos a pergunta da carreira, da sua carreira, aqui neste projeto.
Eu diria que não há piores, eu diria que há falhanços, e que esses falhanços levam a desafios, e que esses desafios levam-nos a melhorar.
Mas houve algum que queira partilhar conosco, que lhe tenha tirado o sono durante algum tempo?
Acho que foi um conjunto de várias coisas que foram acontecendo, mas eu acho que tendo o fato ter uma equipe muito sólida à minha volta, todos estes 39 colaboradores que vestem a camisola diariamente, com todos os valores da Cozinha com Alma, fazem superar todos os desafios que nós até esquecemos que eles existiram.
E qual é a sua responsabilidade nisso, nessa motivação da equipe?
Eu acho que aqui é muito transmitir os valores, transmitir os valores de sermos íntegros, de sermos voluntariosos, de sermos trabalhadores, de querermos fazer, queremos fazer acontecer, de interajuda dentro da equipe. Eu aprendo todos os dias com a minha equipe. Eu acho que isso é fundamental pra fazer as coisas andarem pra frente, saber ouvir-se mutuamente, entre todos, entre eles, comigo, com todos.
E qual foi o melhor momento?
Ou os melhores momentos.
Acho que os melhores momentos é quando ainda hoje de manhã ouvia que famílias, neste caso estávamos a avaliar 15 famílias, se não me engano, e três destas 15 famílias disseram textualmente: "Eu já não preciso da Cozinha com Alma, portanto vou sair para deixar a minha vaga para quem precise". Ou então também, há pessoas que não dizem isso, mas que nós sabemos que saem de lá com as suas vidas completamente resolvidas, com autonomia financeira, organizadas. Realmente estes testemunhos são o melhor que podemos ouvir.
E mantêm depois alguma ligação ao projeto ou não? Ajudam ou purissimamente vão embora?
Muitas vezes dizem: "Vou me manter cliente, porque eu quero continuar a vir à Cozinha com Alma". Nós tivemos um dilema a certa altura, que era famílias apoiadas queriam fazer voluntariado na Cozinha com Alma. E acho que tivemos esta questão de poder distorcer um bocadinho, poder não ser assim tão linear. E nós dissemos: "Quer fazer voluntariado, faça noutra instituição, porque fazer na Cozinha com Alma ou noutra instituição, no fundo, é fazer voluntariado é em qualquer lado". Não é preciso ser diretamente na Cozinha com Alma.
Porque haveria aí um perigo de ter essas pessoas a fazer voluntariado dentro da própria instituição, qual seria o perigo?
Eu não sei se seria um perigo, mas se calar era lançar um tema que poderia gerar alguma confusão. Já sendo tanta coisa para gerir.
Sim, simplificar um pouco a questão.
Simplificar. E é o que eu dizia, fazer voluntariado na Cozinha com Alma ou noutra instituição, que há tantas instituições que fazem o mesmo gênero de coisas, o importante é fazer voluntariado.
Faltam-nos duas perguntas.
Mas é uma excelente pergunta, Ricardo. Fiz esta pergunta, eu estava aqui a pensar nisto. Há prós e contras para ambas. Cristina, outro comentário rápido. Muitas vezes nas organizações, e nós aqui temos vários exemplos, há uma distância entre o serviço que é prestado ou o produto que é vendido e o benefício reconhecido pelo utilizador final. E portanto, esta distância da linha da frente, muitas vezes faz as pessoas não sentirem a motivação que quem está em cima, por exemplo, vê mais e consegue sentir porque vê o impacto que está a ter. No caso da Cozinha com Alma, toda a gente sente esse impacto. Ou seja, pergunto, mesmo esses testemunhos das famílias que dizem: "Já tenho a minha vida organizada, portanto, já vou sair", as pessoas que reconhecem o impacto, toda a sua estrutura sabe destas histórias.
Sim, nós temos o cuidado de partilhar.
É esse o ponto. E acho que é um ponto fundamental para partilhar para quem nos ouve, até que ponto é que se consegue transpor isto ou fazer mais disto no dia a dia das organizações, para as pessoas não estarem só a olhar para uma folha de Excel e um business case.
Porque mesmo numa organização social, uma empresa social, se não tivermos esse cuidado, a certa altura, o trabalho começa a ficar muito transacional e até esquecemo-nos da missão. Achei muito interessante aquilo que disse: "Se calhar onde eu passo mais tempo é relembrar os valores", que era uma coisa que devia ser quase evidente. Cozinha com Alma. Mas mesmo nesse tipo de organizações e empresas sociais, temos que estar permanentemente a defender esta missão e a relembrar às pessoas o que é que estamos a fazer, o objetivo final.
E toda a gente aviva no dia a dia, não é?
Sim, e nós também temos outra questão que eu acho que é muitíssimo importante, é que os nossos clientes são os nossos principais parceiros. E nós às vezes sentimos, que é uma coisa que ainda me deixa algo frustrada, que há muitos clientes que vêm à Cozinha com Alma e que não sabem que nós somos um negócio social. Não sabem que nós somos um projeto solidário. Por um lado, pode ser bom, porque tem qualidade e normalmente que é uma coisa que também conta.
Sim, que é uma medida de sucesso da própria qualidade do produto, porque não vão lá por missão social.
Sim, mas nós nesta altura sabemos que isso não acontece. Sabemos que tem que acontecer mais, que eu acho que é importantíssimo as pessoas saberem que ao comprar estão a ajudar e estão a apoiar a instituição. E acho que isto é uma coisa muito importante. E depois podemos nos perder no negócio, porque isto é um negócio, é um negócio difícil, que implica muita coisa, é comida, é a responsabilidade da comida, e esquecemos a área social. Portanto, é muito importante andarmos sempre aqui focados nos dois lados, que são mão com mão e que são igualmente importantes e igualmente têm que ter a mesma atenção, a mesma qualidade, o mesmo rigor.
Sim, isso é a deixa perfeita para esta terceira pergunta, que é: quando é que a Cristina percebeu que eu é que sou a líder, portanto, eu é que tenho que pôr isto tudo a tocar no mesmo ritmo.
Eu só percebo isso quando me começam a fazer perguntas.
Mas no dia a dia não entende isto?
Não, no dia a dia eu sinto como fazendo parte da equipa. Aliás, eu gosto e acho que é o que eu sinto, e toda a gente sente isso e é dito, nós na Cozinha com Alma somos uma grande família. Somos uma grande família, não só com a equipa, mas também com todos os nossos stakeholders. Os nossos clientes fazem parte da família Cozinha com Alma, as nossas famílias apoiadas fazem parte da família, os parceiros fazem parte da família, porque sem todos nada isto existiria. Portanto, só assim é que isto faz sentido.
E alguma vez deu assim uma pergunta esfarrapada, porque não lhe apetecia ir ou havia outra coisa para fazer e naquele dia não apetece. E alguma vez deu assim uma pergunta esfarrapada para não ir trabalhar?
Uma desculpa?
Uma desculpa.
Eu acho que as únicas-
Eu disse pergunta esfarrapada, não foi?
Uma desculpa esfarrapada.
Peço desculpa, mas estamos a gravar a uma sexta-feira e a semana tem sido longa.
Esfarrapaste a tua pergunta.
Exatamente.
Eu acho que a única razão que me pode fazer não ir trabalhar é a família. Haver qualquer coisa familiar, meu marido, os meus filhos.
E a família cobra muito?
Se a família cobra muito?
As horas que a Cristina passa na cozinha.
A família cobra muito. Eu, antes de começar o projeto da Cozinha com Alma, eu envolvi a família nesta decisão, mas estamos a falar há 13 anos. Depois isto tomou uma dimensão que, sinceramente, eu nunca pensei que viesse a tomar.
Temos que trazer como tema também o tema da sabedoria.
Ou seja, isso é como quando vamos dar uma festa e convidamos os vizinhos. É isso?
E portanto, de repente, vi-me envolvida num projeto muito maior do que eu alguma vez pensava. E sim, com razão, às vezes.
Cristina, muito obrigado. Cristina Botto, muito obrigado por ter estado aqui no "Querido Líder" a partilhar esta experiência. Milton Sousa e Jorge Medeiros, até para a semana, meus senhores. Os nossos queridos líderes cá estarão de novo para mais um episódio. Eu sou o Ricardo Conceição, este é o "Querido Líder", o podcast sobre liderança da Rádio Observador. Até para a semana.