Se pensarmos na quantidade de novos museus dedicados à arte contemporânea, ou nos preços astronómicos de leilões mundo fora, a conclusão mais óbvia será a de que a arte contemporânea está na moda. Mas será que tem servido para pensar o mundo em que vivemos ou está mais preocupada, em termos gerais, com temas, práticas e circuitos de elite?

A nova exposição de José de Guimarães, inaugurada na sexta-feira, 29 de julho, no Museu Municipal de Faro, aparece em contraciclo e indica que há muito espaço para a reinvenção de discursos nas artes plásticas contemporâneas.

O artista, de 76 anos, tantas vezes dito mestiço ou miscigenado, procura na nova mostra estabelecer pontes com outras formas de arte, não ocidentais, não eruditas, não contemporâneas, até há pouco tempo ditas primitivas. O objetivo é o de fazer da arte uma forma de arrumação e limpeza do mundo, o que está desde logo presente no título: Esconjurações.

“Se a arte contemporânea não serve para curar o mundo, não serve para nada”, afirma José de Guimarães, em conversa com o Observador. “A arte contemporânea tem de ser um chão para que haja entendimentos. Se é só para um gáudio pessoal, tem pouco interesse”, analisa.

Histórias e rituais

A exposição nasceu a partir das obras de José de Guimarães que pertencem à coleção Millenium BCP. Apresentam-se em vários suportes, incluindo tapeçarias de Portalegre de grandes dimensões, produzidas a partir de desenhos feitos propositadamente para aquele suporte e não a partir de imagens antes plasmadas noutros suportes.

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Série “Ritual da Serpente”, acrílico sobre caixa de madeira com luz LED

São cerca de 60 objetos do artista, de várias épocas. Muitos estão relacionados com acontecimentos históricos e internacionais, outros pertencem à série “Ritual da Serpente”, outros ainda são feitas em néon e LED. A série “Negreiros” também está representada. O criador desenvolve-a há alguns anos como forma de “reflexão sobre as novas formas de escravatura, sobre os migrantes e as guerras verdadeiramente apocalípticas em que nações inteiras saem do local onde vivem e são obrigadas a ir pelo mundo”, explica.

Dividida por dois espaços, a capela do antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção (onde se situa o Museu Municipal de Faro) e a sala Allgarve, Esconjurações apresenta-se em diálogo com outras peças que pertencem ao artista, mas não foram por ele criadas, como sejam caixas-relicário, do Gabão sobretudo, contendo ossos e crânios, e ainda peças de arte africana. Todos pertença da coleção pessoal de José de Guimarães.

Em paralelo, ainda sob o signo do diálogo, é igualmente exibida uma jóia da coroa do Museu de Faro: a estatueta africana Nkisi Nkondi, descrita nos textos de apresentação da mostra como uma “grande novidade”. “É uma peça extraordinária, de Cabinda, que pertence ao Museu de Faro”, descreve José de Guimarães.

Um fetiche do fim do século XIX, foi doada ao museu em 1917 e exibida poucas vezes. Esteve no Porto em 2001 e no Museu de Etnologia de Lisboa, por exemplo. É absolutamente invulgar e rara, faz parte do património nacional”, sublinha.

Um remake sem repetição

Exposição semelhante a esta foi apresentada em Lisboa no início do ano, na Galeria Millennium BCP, na Rua Augusta, tendo obtido cerca de sete mil visitantes. Agora em Faro, apontando para um público turista, português e estrangeiro, não necessariamente familiarizado com artes visuais, a mostra foi reformulada, resultando num diálogo novo com outras produções artísticas e acrescida de mais peças de José de Guimarães.

“No fundo, quisemos por lado a lado obras de arte contemporânea e de outras zonas do mundo – artefactos de ritual, artefactos de utilização, etc. –, o que permite considerar que as obras de arte têm o poder mágico, um poder de atuação sobre as pessoas”, diz José de Guimarães, convicto de que esse aspeto político não é mera figura de estilo. “Acho que esta conjugação é extremamente atual, para ver se os desastres a que assistimos em todo o lado podem de alguma forma ser esconjurados.”

O curador é Nuno Faria, também diretor artístico do CIAJG — Centro Internacional das Artes José de Guimarães, em Guimarães. Em declarações ao Observador, diz que esta exposição marca o regresso do artista plástico ao Algarve depois de se ter apresentado em 2010 em Loulé, sob o título “Negreiros e Guaranis”.

“Foi aí que inaugurámos um modo muito específico, não diria inédito, de olhar a obra de José de Guimarães, passando a apresentar artista e colecionador como uma e a mesma coisa”, resume Nuno Faria.

Esconjurações, de 29 de julho a 11 de setembro no Museu Municipal de Faro (Praça Dom Afonso III). Terça a sexta, 10h00 às 18h30; sábado, 11h30 às 18h00.