Exposições

Mapplethorpe ainda é escandaloso? A resposta está em Serralves

No centro da polémica está a primeira grande exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe em Portugal. Inventivo, polémico e ambicioso, morreu em 1989 e deixou imagens que hoje valem milhões.

Autor
  • Bruno Horta

Artigo publicado originalmente a 13 de Setembro de 2018

Considerado um dos mais notáveis fotógrafos de sempre, autor de obras eróticas e fetichistas com representações do bem e do mal, do belo e do grotesco, da vida e da morte, Robert Mapplethorpe chega agora ao Museu de Serralves, no Porto, para a primeira grande exposição dedicada à sua obra em Portugal.

São 179 fotografias e várias peças sob o título genérico “Robert Mapplethorpe: Pictures”, uma exposição criada de raiz para Serralves e comissariada pelo próprio diretor do museu, João Ribas. Um momento que poderá servir para pensar as questões de género e as identidades, para perguntar se estas imagens provocam escândalo numa época em que a pornografia é omnipresente na Internet e meio mundo publica fotografias nas redes sociais. Será também uma oportunidade para observar de perto um trabalho de quase duas décadas: das primeiras colagens e polaroids, passando pelas fotografias de flores, os nus, os retratos e as imagens sexualmente explícitas. A inauguração está marcada para quinta-feira, 20 de setembro, às 22h.

Nascido e criado na América dos subúrbios, Robert Mapplethorpe (1946-1989) evidenciou-se por uma incessante busca de fama e dinheiro, tal como Andy Warhol, que conheceu de perto e em cuja revista Interview chegou a trabalhar. Terá sido a relação íntima com o curador Sam Wagstaff, a partir de 1972, que lhe abriu as portas do circuito artístico nova-iorquino, permitindo-lhe afirmar-se como fotógrafo de consequência, valorizado por colecionadores e pelo público.

Em finais dos anos 70, fotografou o contexto em que vivia, marcado pelo consumo de drogas e por práticas sexuais sadomasoquistas. Foram essas imagens que o tornaram relevante nas artes visuais — e que hoje valem milhões. A fotografia “Man in Polyester Suit” foi vendida por 411 mil euros num leilão da Sotheby’s, no ano passado e, pouco depois, o autorretrato de 1988 em que Mapplethorpre segura uma bengala com uma caveira atingiu 615 mil euros na Christie’s.

“Autor de uma obra provocante e intensa”, lê-se na folha de sala da exposição, criou “algumas das imagens mais icónicas do século XX”, quase sempre a preto e branco. “Interessava-lhe explorar conceitos de moralidade, sexualidade e normalidade, levando-as a limites físicos e psicológicos que puseram em causa as fronteiras do que pode ser considerado arte.”

A descoberta tardia da fotografia

Mais novo de seis irmãos numa família católica praticante, Robert Mapplethorpe nasceu a 4 de novembro de 1946 em Floral Park, Nova Iorque, e na adolescência descobriu o desenho e a pintura e decidiu tornar-se artista. Só muito tarde descobriu a fotografia, apesar de o pai, Harry, ser um fotógrafo amador dedicado. Entre 1963 e 1969 estudou pintura e escultura no Pratt Institute, em Brooklyn, contra a vontade do pai, que via a carreira artística como um caminho para o fracasso. Nessa fase, o próprio considerava a fotografia uma arte menor, à maneira do pensamento da época — mas mudou de ideias rapidamente.

Ainda estudante, começou a formar uma personagem artística arredada da vida comum, à procura de uma voz própria, o mais original e controversa possível. Os primeiros trabalhos consistiam em colagens coloridas a partir de recortes de revistas pornográficas que então apareciam nas bancas sob a aparência de guias sobre musculação. Criou depois esculturas e instalações experimentais, a lembrar os modernistas do início do século XX. Diz-se que tinha Marcel Duchamp como referência. A partir de 1974 tornou-se fotógrafo, com registos em polaroid: autorretratos, flores, cenas íntimas e do quotidiano.

Dois encontros terão sido fundamentais na vida do artista: com John McKendry, curador de fotografia do Metropolitan Museum de Nova Iorque, que lhe terá oferecido a primeira máquina fotográfica — uma Hasselblad — e através do qual conheceu vários colecionadores, e com Sam Wagstaff, de quem terá sido namorado.

Observar a “loucura da existência atual”

“Durante os anos 70, Mappelthorpe assumiu e consolidou uma visão própria enquanto observador e ator dos meios marginais de Nova Iorque”, explica o texto de apresentação da exposição. Homoerotismo e sadomasoquismo passaram a ser temas recorrentes à medida que crescia como fotógrafo. Uma seleção dessas imagens, publicada em 1978 e conhecida como série “X”, foi “altamente controversa”. A novidade estava nas representações explícitas e amorais da sexualidade. Mais tarde, fez a série “Y” e a série “Z”, que representavam naturezas-mortas e homens negros.

“Virei-me para a fotografia porque me parecia o veículo perfeito para observar criticamente a loucura da existência atual”, disse o artista. As primeiras exposições notadas datam de 1977. Vida e arte passam a ser uma e mesma coisa, ele vivia no mundo que representava e os amigos eram os modelos. Num documentário da BBC, em 1988, meses anos de morrer, perguntaram-lhe se tinha a intenção de desafiar o razoável e ele sugeriu que sim. Teria também a intenção de chocar? Respondeu já no pretérito: “Era demasiado egoísta para escolher chocar, estava a pensar em mim, queria ver coisas. Eu estava primeiro, o público vinha depois”.

Para lá da exaltação sexual, consequência do movimento civil das minorias sexuais e de género iniciado em junho de 1969 com a revolta no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, Mapplethorpe retratou artistas, músicos e figuras da sociedade. A cantora Patti Smith, que tinha conhecido numa livraria em 1967 e com quem chegou a viver no mítico Hotel Chelsea, em Manhattan (espaço onde se cruzaram gerações de artistas americanos), foi uma das pessoas que mais fotografou. Mantiveram uma ligação privilegiada até ao fim. Também retratou Arnold Schwarzenegger, Philip Glass, Iggy Pop, Grace Jones, Louise Bourgeois, Andy Warhol, Bill T. Jones, William S. Burroughs, Richard Gere e Isabella Rossellini, entre muitos outros. Os retratos eram normalmente encenados e reveladores de aspetos centrais no trabalho do fotógrafo: perfecionismo e uma obsessão com a composição da imagem, explica a folha de sala.

Tendo levado ao máximo a representação da intimidade masculina e daquilo que muitos descrevem como submundo nova-iorquino, regressou no início dos anos 80 a uma contenção nas formas, próxima da linguagem da escultura clássica que tinha usado enquanto estudante. Um “uso escultórico da fotografia”, dizem os críticos. Passou a imprimir fotos em tela e tecido. “O trabalho assumiu uma dimensão lírica”, com fotos de estátuas e flores, ainda que nestes trabalhos também se vislumbre uma abordagem erótica.

Doença e escândalo

Em 1986, descobriu que era seropositivo. A carreira de fotógrafo tinha pouco mais de uma década. A iminência do fim deu ao artista uma urgência de criar e aumentou em flecha a cotação das obras. A impressão de cada fotografia custava o equivalente a 13 mil euros e a encomenda de um retrato em estúdio atingia cerca de nove mil.

Nesses derradeiros anos, ganhou espaço nos museus. Foi alvo de quatro exposições em nome próprio — no Museu Stedelijk, em Amsterdão, no Whitney Museum, em Nova Iorque, na National Portrait Gallery, em Londres; e no Instituto de Arte Contemporânea da Pensilvânia, em Filadélfia. Esta última, “The Perfect Moment”, pensada como última exposição em vida, foi apresentada em dezembro de 1988. Mapplethopre sucumbia à doença e não esteve presente na inauguração. Morreu pouco depois, a 9 de março de 1989, em Boston. Tinha 42 anos. Quatro meses antes juntara amigos e conhecidos numa festa de aniversário que ficou famosa, com a nata da sociedade nova-iorquina e um sentido de despedida que todos entenderam.

“The Perfect Moment” viajou depois para a Galeria Corcoran, em Washington DC, e recebeu férrea oposição de setores conservadores por causa das imagens homoeróticas. A galeria cancelou a mostra duas semanas antes da abertura, mas esta acabou por ser apresentada na galeria Washington Project for the Arts, onde conheceu êxito de público. Em março de 1990, em Cincinatti, a mesma exposição levou um grupo anti-pornografia a processar o diretor do Centro de Arte Contemporânea, por alegada obscenidade e pornografia infantil, mas um tribunal determinaria a absolvição.

As polémicas ficaram bem retratadas em 2016 no documentário “Mapplethorpe: Look at the Pictures”, que Fenton Bailey e Randy Barbato realizaram para o canal americano HBO — exibido nos festivais DocLisboa 2016 e Queer Porto 2017.

“Robert Mapplethorpe: Pictures”, agora em Serralves, é a primeira mostra de museu a que o fotógrafo tem direito em Portugal, e a primeira retrospetiva de grande escala, depois de fragmentos da obra terem sido mostrados pelo menos duas vezes no passado: em 1985 na Galeria Luís Serpa, em Lisboa, e em 1993 no Bar Bazouki, durante o “Mês da Fotografia” de Lisboa.

A mostra é organizada em colaboração com a Fundação Robert Mapplethorpe, estabelecida pelo artista em Nova Iorque, meses antes de morrer, com o objetivo de proteger e divulgar a obra e financiar museus e a criação artística. A investigação científica sobre a sida é outras das áreas em que a fundação atua, através do apoio a equipas médicas e a doentes em hospitais. Mapplethorpe foi o primeiro presidente da instituição, atualmente liderada pelo jurista Michael Ward Stout. Não tem espaço expositivo próprio, mas é responsável pela co-organização de exposições um pouco por todo o mundo. Só este ano, sem contar com Serralves, foram 15 as exibições de Mapplethorpe.

“Robert Mapplethorpe: Pictures”, Museu de Serralves, Porto, de 20 de setembro a 6 de janeiro. Bilhete: 10 euros (gratuito no primeiro domingo de cada mês, de manhã).

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