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“Uma Rua de Cada Vez”: a revolução de um pequeno gesto numa ilha do Porto

Este artigo tem mais de 1 ano

Espetáculo retrata o direito à habitação, a partir da história real de uma mulher que é “símbolo de resistência”. Passará por Famalicão, Estremoz, Lisboa, Moita, Bragança e Lousada.

Luísa Pinto como Amélia, em "Uma Rua de Cada Vez", segunda peça escrita pela jornalista Mariana Correia Pinto, mistura dores individuais e coletivas
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▲Luísa Pinto como Amélia, em "Uma Rua de Cada Vez", segunda peça escrita pela jornalista Mariana Correia Pinto, mistura dores individuais e coletivas

PAULO PIMENTA

▲Luísa Pinto como Amélia, em "Uma Rua de Cada Vez", segunda peça escrita pela jornalista Mariana Correia Pinto, mistura dores individuais e coletivas

PAULO PIMENTA

Amélia (Luísa Pinto) escreve. “Escrever clareia-me as vistas.” Escreve na mesa onde prepara a sopa, onde Vera (Gabriela Amaro), a cuidadora, lhe dá a medicação, onde Paulo Jorge (Cláudio Henriques), o sobrinho, reclama do dinheiro que nunca é suficiente. Escreve pequenas notas do dia a dia, para ludibriar a perda de memória, e discursos sobre o direito à habitação que lerá numa manifestação. “Quando a justiça falha, o povo revolta-se”, dirá de olhos aguçados para o público.

Uma Rua de Cada Vez, segunda peça escrita pela jornalista Mariana Correia Pinto — que em 2023 assinou uma brilhante estreia no teatro com Anónimo Não é Nome de Mulher — mistura dores individuais e coletivas. Joga num pingue-pongue de argumentos entre personagens de diferentes gerações, desenhadas sobre o pano da Revolução de Abril e que tem na história real de uma mulher, que se tornou “símbolo de resistência e da luta pelos direitos básicos”, o seu ponto de partida.

Uma promessa tornada convicção política

“Sem ela, esta peça não existiria desta forma”, diz Mariana Correia Pinto sobre Maria de Fátima Castro, que conheceu em 2017, durante uma reportagem publicada no jornal Público. É nela que Amélia se inspira.

Dona Fátima, como é conhecida, herdou do pai uma ilha em São Vítor, no Porto, com 12 casas pequenas. “Quando o pai morreu (tinha ela 17 anos) pediu-lhe para tomar conta da mãe, da irmã e para não vender a ilha”, conta Mariana. Porém, Maria de Fátima não era uma proprietária endinheirada. Vivia de uma reforma parca e com a saída dos inquilinos das casas, aos poucos e poucos, a ilha foi-se degradando.

A “luz de esperança” chegou na forma de um cartaz, afixado na Junta de Freguesia do Bonfim. Foi aí que esta senhora, atualmente com 75 anos, leu que havia um coletivo que prometia apoiar proprietários com poucos recursos financeiros para reabilitar as suas ilhas. Através do projeto Habitar Porto, coordenado pelo arquiteto Aitor Varea Oro e pela educadora social Liliana Lopes, Dona Fátima deu início ao processo de reabilitação, mas os entraves burocráticos levaram a sucessivos adiamentos. Em junho de 2024 começaram, finalmente, as obras.

PAULO PIMENTA

Nestes sete longos anos, Maria de Fátima nunca quebrou. Mesmo quando dois italianos, “quarentões e bem-apessoados”, como cita Mariana Correia Pinto na tal reportagem, lhe bateram à porta com uma proposta de compra da ilha. “Seria revolucionário na vida dela, de um ponto de vista financeira”, nota a jornalista. Mas esta senhora preferia “viver assim-assim” e estar bem com a sua consciência, do que deitar tudo por terra. Até porque, o que inicialmente nasceu de uma promessa feita ao pai, tornou-se também numa convicção política: “Ela acreditava que o ativo dela ia ser o teto para pessoas que de outra forma não teriam acesso a uma casa”.

“Desistir da escuta e do diálogo é desistir da democracia”

Uma Rua de Cada Vez é, por isso, não só uma peça sobre o direito à cidade e o direito à habitação, temas que se tornaram recorrentes no trabalho jornalístico de Mariana Correia Pinto, como também sobre o poder revolucionário dos pequenos gestos e sobre as contradições que cada cidadão encerra, entre os valores que proclama e o quão longe está disposto a ir para os defender.

“Quantos de nós, perante uma oferta milionária, vacilariam na sua ética?”, questiona a dramaturga, salientando que não quer, com este exercício, criar heróis nem vilões, mas sim pontes de entendimento: “A humanização e o lugar de escuta foram muito importantes para mim. Vivemos cada vez mais nas nossas bolhas, mas desistir da escuta e do diálogo é desistir da democracia”.

Nesse sentido, o teatro, palco de questionamentos, ofereceu-lhe as ferramentas para chegar ao outro de uma forma que o jornalismo, lugar de respostas e de factos, não lhe permitia. “O teatro tem uma coisa extraordinária que é a capacidade de mexer com as nossas emoções. E se mexe com as emoções, pode mexer com as ações concretas. Na sua escala pequenina, uma pessoa pode transformar o seu prédio, a sua cidade.” Passo a passo, Uma Rua de Cada Vez, pode transformar o mundo.

A “grande falha de Abril”

A esperança e o desencantamento dançam lado a lado ao longo das duas horas da peça, que vive da trama ficcional e de depoimentos pontuais surgidos em vídeo, fazendo entrar em cena a realidade. A estes parênteses, que ora suspendem a narrativa, ora a complementam, vão sendo acrescentados outros subtextos.

A partir do envelhecimento e da demência, por exemplo, Mariana Correia Pinto fala da importância de não esquecer, como ato de resistência perante a demagogia. “Eu guardo tudo” diz, a certa altura, Amélia, folheando notícias de jornal que dão nota de despejos e de situações de violência resultantes da pressão imobiliária.

PAULO PIMENTA

Paralelamente, interessou também à autora do texto olhar para os 50 anos do 25 de Abril para refletir sobre aquilo que ficou por cumprir: “Não é possível falar de uma sociedade democrática se não temos acesso a uma casa. Esta, para mim, é a grande falha de Abril”.

As personagens vão manifestando sentimentos ambivalentes sobre a Revolução. Amélia, tal como Dona Fátima, “enraíza-se” nas suas palavras e convicções e faz delas “lei”. Acredita que a opressão mais horrível é aquela que põe “o povo contra o povo”, embora a própria se veja numa posição de conflito com o Paulo, seu sobrinho; Paulo Jorge, querendo o melhor para os seus filhos, mata-se a trabalhar para um dia os poder inscrever “num colégio privado”, não compreendendo a teimosia da tia em não vender uma ilha que lhes daria conforto para o resto da vida; e Vera, rapariga na casa dos 30 anos, cuidadora de Amélia, tem os dias e a cabeça consumidos por uma sucessão de empregos precários, uma licenciatura no bolso que de nada lhe serve e uma vontade de emancipação que esbarra na condição de dependência financeira em que se encontra. “Todas as personagens da peça são reconhecíveis para mim”, diz Mariana Correia Pinto.

Assim, entre contradições pessoais e sociais, se cose a trama de Uma Rua de Cada Vez, uma trama que às vezes se enrola em repetições, fazendo-a perder a força da premissa inicial. Um texto mais curto e conciso tê-la-iam beneficiado, mantendo a tensão que o teatro de inquietação pede.

A peça, da companhia Narrativensaio, terá este sábado, dia 8 de março, nova apresentação na Casa das Artes de Famalicão. Segue depois para uma digressão nacional que passa por Estremoz (15 de março), Lisboa (29 de março), Moita (5 de abril), Bragança (16 de abril) e Lousada (6 de junho). Enquanto isso, Dona Fátima continuará a reabilitar a sua ilha, cumprindo Abril, telha a telha.

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