A artista brasileira Cinthia Marcelle inaugura sexta-feira, no Museu de Serralves, no Porto, a instalação Começo, meio, começo, a primeira exposição individual em Portugal, sobre saberes ancestrais, cosmologias coletivas e modos alternativos de existência.
Com curadoria de Inês Grosso, o projeto de Cinthia Marcelle foi concebido especialmente para a sala central do museu, e ficará patente até 20 de maio de 2026 para propor uma reflexão sobre a perceção do tempo e a linearidade histórica e social, segundo um comunicado divulgado pelo museu.
“Reformulando por completo a sala central do Museu de Serralves, Marcelle desafia o rigor geométrico e arquitetónico do espaço, criando uma experiência imersiva que apela ao corpo e aos sentidos, substituindo a cronologia por ciclos de repetição e recomeço”, assinala a nota de imprensa.
Inspirada na conceção de tempo não-linear do pensador brasileiro Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, a instalação evoca saberes ancestrais, cosmologias coletivas e modos alternativos de existência, resultado de um projeto desenvolvido ao longo de mais de um ano em diálogo com a equipa do museu, criado em colaboração com o coletivo transdisciplinar de arquitetos e urbanistas Vão, composto por Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero.
Começo, meio, começo transforma a sala central num espaço de experimentação e imaginação crítica, sublinha o museu, destacando ainda que, ao propor múltiplas leituras do presente, a instalação “reafirma o papel de Serralves como lugar de criação e de reconfiguração das formas de pensar o tempo e o mundo contemporâneo”.
Reconhecida pela liberdade com que articula linguagens como o vídeo, a performance, a instalação e a intervenção no espaço, Cinthia Marcelle — nascida em Belo Horizonte, em 1974 — constrói a sua obra “a partir de gestos simples e de elementos quotidianos, conferindo-lhes novas dimensões poéticas e políticas”.
A sua prática reflete o olhar atento sobre o comum e o invisível, abordando desigualdades sociais e institucionais que marcam o contexto artístico brasileiro, num percurso atravessado também pela condição de mulher, artista e pessoa racializada no Brasil.
Formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Minas Gerais, a artista tem participado em grandes mostras internacionais, como a 15.ª Bienal de Gwangju (2024), a Bienal de Berlim (2018), a Bienal de Veneza (2017) — onde representou o Brasil — e a Bienal de São Paulo (2010).
Produzida pela Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Começo, meio, começo tem curadoria de Inês Grosso, curadora-chefe do museu, e coordenação de Filipa Loureiro.