Rodeado por projetores, películas em movimento e esculturas cinéticas moldadas pela luz e pelo som, o visitante do CAM Gulbenkian deixa de ocupar, ao longo dos próximos meses, a posição passiva de espectador. Em Desenhar Vocabulários, a primeira exposição individual em Portugal da artista e cineasta italiana Rosa Barba, o cinema abandona o ecrã e expande-se pelo espaço, transformando o lugar expositivo num organismo visual e sonoro em permanente mutação, ativado pelo movimento de quem o percorre. Com curadoria de Benjamin Weil, a mostra que assinala também a última colaboração do antigo diretor do CAM, é inaugurada este sábado, 16 de maio, e pode ser visitada até 28 de setembro.
Para descrever este conjunto de instalações, Rosa Barba fala numa espécie de “partitura” espacial, composta por imagens, sons, máquinas e referências que atravessam todo o seu percurso artístico. “São esculturas, ferramentas ou objetos – como cada pessoa os quiser nomear – que funcionam como dispositivos onde a imagem em movimento se materializa”, explica ao Observador. A partir dessa ocupação da Nave do CAM, a artista constrói uma narrativa fragmentada onde se cruzam e sobrepõem paisagens naturais e alterações ambientais provocadas pelo ser humano, histórias de arquivo, visões de futuro e aproximações inesperadas entre astronomia e cinema.
“As suas narrativas são inspiradas pela especificidade de cada um dos espaços nos quais é convidada a trabalhar”, sublinha Benjamin Weil. Dominada por processos analógicos, a exposição recupera também uma dimensão material da imagem cinematográfica que, segundo o curador, se perdeu com a transição para o digital – “um meio cujos mecanismos se tornaram progressivamente mais opacos”. Em Desenhar Vocabulários, a projeção em película surge não apenas como suporte de imagem, mas como matéria escultórica e plástica, manipulada através da luz, do som, do movimento e da própria mecânica dos projetores.
Um cinema tridimensional
O trabalho conceptual de Rosa Barba estende-se muito para lá da cultura visual. Cruza cinema, arquitetura, fotografia e escultura numa prática onde a imagem deixa de existir apenas no ecrã para ocupar fisicamente o espaço. Barba não utiliza película por nostalgia cinéfila, mas como forma de expor os próprios mecanismos do cinema. Mais do que um regresso ao analógico, trata-se da afirmação de que as imagens são materiais e têm corpo.
Mergulhados neste cinema tridimensional, “a nossa perceção do espaço também muda”, observa Benjamin Weil. Um quadro com películas mecanizado suspenso na parede, uma máquina de escrever cujas teclas acionam um texto em permanente construção ou caixas de luz com efeitos hipnóticos transformam a Nave do CAM num ambiente de projeções fragmentadas e de movimentos contínuos. As imagens revelam-se gradualmente, deslocando-se entre diferentes superfícies e dispositivos.
CAM — Rosa Barba. Desenhar Vocabulários ©DR
Outro dos eixos centrais na prática de Rosa Barba é o interesse por arquivos e coleções museológicas, sobretudo pelos espaços de armazenamento onde obras de épocas distintas coexistem fora da lógica expositiva tradicional. É nesse território ambíguo — entre documento, memória e ficção — que a artista desenvolve grande parte da sua investigação. A partir dessa dimensão surgem também as duas novas produções apresentadas no CAM.
A primeira, Myth and Mercury, um filme em 35mm co-encomendado pelo CAM e pelo MAXXI, em Roma, cruza partículas intergalácticas, fogo-de-artifício, paisagens vulcânicas e fragmentos da vida prisional de Antonio Gramsci. Num ritmo deliberadamente lento, a obra aproxima escalas temporais e materiais distintas: imagens de pescadores coexistem com maquinaria tecnológica que opera sobre o Mediterrâneo, enquanto excertos dos diários da prisão do filósofo e teórico italiano atravessam a narrativa. Entre o cósmico e o terrestre, Rosa Barba constrói um território de pesquisa contínua onde história, memória e ciência se contaminam mutuamente.
Já Thick Harmonies assume a forma de uma escultura cinética centrada na própria fisicalidade da película. Trata-se de um loop irregular de filme em 35mm gira continuamente sobre si mesmo, produzindo uma composição instável de luz, cor e ritmo. Entre repetição e desgaste, permanência e desaparecimento, a obra condensa uma das ideias centrais da exposição: a impermanência das imagens e dos próprios mecanismos que as produzem.
O mundo visto sob a lente de uma câmara
A fragilidade dos meios e suportes com que trabalha – incluindo os próprios projetores, que pertencem à artista – ecoa também na forma como Rosa Barba pensa a imagem. Por detrás das instalações existe uma reflexão mais ampla sobre o ato de olhar e enquadrar o mundo. “Hoje todos temos câmaras nos telemóveis, mas o meu interesse pela imagem analógica começou ainda na adolescência, quando andava para todo o lado com uma câmara fotográfica e descobria diferentes formas de enquadrar aquilo que me rodeava”, conta.
Esse gesto de escolher o que mostrar (e como mostrar) tornou-se também uma forma de afirmação pessoal. “Para mim, que nasci na Sicília, vivi na Alemanha e viajei por diferentes partes do mundo, era uma maneira de dizer ‘eu decido aquilo que quero ver’”, explica. “É daí que nasce todo este interesse, mas também o meu desejo de trabalhar estas imagens de forma mais espacial e coreografada”.
O trabalho com a paisagem e com lugares marcados pela natureza surge também desse percurso errante. Barba recorda a estranheza de encontrar territórios naturais profundamente transformados pela ação humana. Espaços onde o abandono, o lixo e estruturas arquitetónicas em ruína coexistem com a paisagem.
CAM — Rosa Barba. Desenhar Vocabulários ©DR
“Trabalhei muito nos Estados Unidos e sempre me interessaram os desertos como lugares infinitos, mas onde também se encontram vestígios humanos, muitas vezes refletindo o uso desses locais para experiências militares e nucleares, por exemplo. Pela minha proximidade, interessa-me também olhar para o Mediterrâneo, um mar que funciona como laboratório científico e que comporta esta dupla condição: natural, mas também profundamente artificial”, completa.
A natureza e os ecossistemas, explica, são igualmente arquivos aos quais podemos aceder, sabendo que neles coexistem passado e futuro. “No caso dos mares, há também esta ideia de exploração capitalista, em que os humanos procuram constantemente fazer progressos, mas onde existem também custos associados a essa busca pelo conhecimento, que me intrigam”, acrescenta.
Tal como nas exposições anteriores de Leonor Antunes e Carlos Bunga, foi também dada à artista total liberdade para selecionar obras e criar um diálogo com a Coleção do CAM. Nesta constelação incluem-se obras de Helena Almeida, Ana Hatherly, Salette Tavares e Manuel Alves, entre outros. “A coexistência destas obras no mesmo espaço questiona a própria noção de exposição e transforma-a numa dinâmica, em que cada peça se revela também através do confronto com as outras”, explica Benjamin Weil.
Neste encontro – muitas vezes com artistas cujo trabalho desconhecia – desvendam-se também vocabulários partilhados. “Todo o meu trabalho, mesmo através desta seleção de obras, acaba por girar em torno de arquivos que permitem manter esta conversa contínua. É dessa forma que olho para os arquivos e os encontros que nos proporcionam”, sublinha Rosa Barba. Seja através das imagens em movimento, dos temas que explora ou do diálogo com outras obras, o universo visual de Barba permanece em transformação, tal como a película num projetor, num loop que se repete, mas que abre sempre novas possibilidades.