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Macbeth, monólogos, teatro dentro do carro e um regresso ao Rossio: oito espetáculos para ver em setembro

De norte a sul do país, a rentrée teatral traz espetáculos muito antecipados, entre eles novas criações de Tiago Rodrigues e Sara Barros Leitão. Em Lisboa, reabre o Teatro Nacional D. Maria II.

"Macbeth" é a peça que marca a reabertura do edifício do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, em Lisboa
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▲"Macbeth" é a peça que marca a reabertura do edifício do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, em Lisboa

▲"Macbeth" é a peça que marca a reabertura do edifício do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, em Lisboa

“Maiúscula”, de Jacinto Lucas Pires, encenação de Marcos Barbosa

Teatro Carlos Alberto, Porto (9 a 13 de setembro)

Uma atriz de certa idade, sozinha numa casa grande demais, recebe um telefonema que pode devolvê-la ao palco: um realizador propõe-lhe um projeto chamado Medeia. Maiúscula, de Jacinto Lucas Pires, é um monólogo sobre o tempo, a memória, o trabalho e as muitas versões de uma mulher que já foi. Luísa Cruz dá corpo a Benedetta Croce, uma atriz que olha para o próprio passado com humor, ironia e alguma vertigem, enquanto o M de Medeia — a personagem de Eurípides, mas também o eco de uma outra idade do teatro — se instala na conversa.

▲ No monólogo "Maiúscula", Luísa Cruz é Benedetta Croce, uma atriz que recebe o telefonema de um realizador a propor-lhe um projeto

Com encenação de Marcos Barbosa, Maiúscula promete um daqueles encontros em que a força do texto encontra uma intérprete à sua medida. Luísa Cruz, uma das atrizes mais reconhecidas da sua geração, conduz este frente a frente entre palco e vida, entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser. “Não, não preciso que olhem para mim, sou uma Mulher Maiúscula”, afirma Benedetta. Mas o espetáculo parece fazer precisamente o contrário: pedir-nos que olhemos, durante o tempo necessário, para uma mulher que se recusa a desaparecer.

“La Distance”, de Tiago Rodrigues

Culturgest, Lisboa (10 a 20 de setembro), Centro Cultural Vila Flor, Guimarães (25 e 26 de setembro)

Em La Distance, o encenador e dramaturgo Tiago Rodrigues, diretor do Festival de Avignon, volta a projetar o presente num futuro inquietante. Em 2077, parte da humanidade vive em Marte, enquanto a Terra enfrenta condições cada vez mais difíceis. A peça acompanha as chamadas telefónicas entre um pai, ainda na Terra, e a filha, que partiu para Marte. Num palco giratório dividido entre os dois planetas, Adama Diop e Alison Dechamps nunca conseguem ver-se diretamente: a rotação da cena determina os momentos em que podem falar e cria uma distância literal entre os corpos.

▲ "La Distance", de Tiago Rodrigues, põe em diálogo um pai na Terra e uma filha em Marte no ano de 2077

Christophe Raynaud de Lage

Mais do que uma ficção científica sobre a colonização de Marte ou um alerta para a crise climática, a peça usa esse futuro para pensar as relações humanas no presente. A separação entre pai e filha pode ser também metáfora para o crescimento, a emancipação: partir, construir uma vida própria e aceitar a distância que acompanha esse movimento. Entre a ameaça de um futuro possível e a intimidade de uma relação familiar, Tiago Rodrigues constrói um espetáculo sobre aquilo que nos aproxima e sobre o que inevitavelmente nos separa — até ao momento final, em que pai e filha finalmente se podem olhar.

“Nacionalismo”, de Odete

TBA – Teatro do Bairro Alto, Lisboa (10 a 13 de setembro)

A temporada do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, começa com o espetáculo Nacionalismo, de Odete (pseudónimo do artista multidisciplinar Levi Gabriel Carvalho). Em cena, dois intérpretes atravessam a história do conceito de “nação” em Portugal, de 1143 ao Estado Novo, interrogando ideias de pertença, identidade e exclusão. Entre o português, o inglês e o árabe, e colocando em tensão os passados árabe e judaico do país com o presente, o espetáculo revisita figuras e narrativas históricas esquecidas ou marginalizadas.

▲ Odete é o pseudónimo de Levi Gabriel Carvalho, artista multidisciplinar que desenvolve o seu trabalho no domínio da música, da escrita, das artes visuais, da performance e do teatro

RenatoChorao

Nacionalismo propõe uma reflexão sobre a construção da identidade nacional e sobre as feridas da História que continuam a marcar o presente. Da colonização e da conquista à reparação, a peça explora a relação entre geografia e corpo, questionando as narrativas que prevalecem e os corpos que ficam de fora da ideia de Portugal. “No fundo, a peça poderia muito bem ser uma pintura impressionista do projeto de Portugal”, resume a sinopse.

“Promised Valley Conference Center”, de Mickaël de Oliveira

Teatro Aveirense, Aveiro (11 e 12 de setembro); Teatro Viriato, Viseu (19 de setembro)

Um grupo de teatro universitário cristão prepara-se para participar num festival de teatro nos Estados Unidos. Entre ensaios, traduções e discussões sobre questões bíblicas e filosóficas, alunos e professores confrontam-se com diferentes formas de entender a criação artística e a própria fé. Até que uma tragédia ameaça impedir o grupo de subir ao palco.

▲ “Promised Valley Conference Center” integra a trilogia “Pequenos Males” do criador Mickaël de Oliveira, que reflete sobre o mal e as suas representações na esfera política, religiosa e pedagógica e na esfera artística

Promised Valley Conference Center, de Mickaël de Oliveira, é um espetáculo que cruza fé, teatro e conflito moral. E surge num momento particular do percurso do dramaturgo e encenador, que no mês passado viu o Tribunal determinar que a Câmara de Coimbra retomasse o concurso público para a programação do Convento de São Francisco, naquela cidade, permitindo a Oliveira prosseguir o processo para as funções para as quais tinha sido escolhido por unanimidade.

“O Pai”, de August Strindberg, encenação de Gonçalo Waddington

São Luiz Teatro Municipal — Sala Luís Miguel Cintra, Lisboa (16 a 27 de setembro)

Um casamento em guerra, uma dúvida que se transforma em arma e uma família levada ao limite. Em O Pai (1887), August Strindberg põe em confronto o Capitão e Laura, que disputam a educação da filha, Berta, e, com ela, a autoridade dentro de casa. Quando Laura lança no marido a suspeita de que ele pode não ser o verdadeiro pai da criança, a dúvida instala-se e conduz o Capitão para um caminho de paranoia e alucinação.

▲ "O Pai", uma das mais reconhecidas peças do sueco August Strindberg, regressa à cena pela mão de Gonçalo Waddington, que assina a encenação e integra o elenco

Uma das peças mais célebres de Strindberg, O Pai mantém intacta a violência do seu retrato da família burguesa, das relações de poder entre homens e mulheres, da fragilidade das certezas familiares e psicológicas. Nesta nova encenação de Gonçalo Waddington, regressa ao palco do São Luiz uma obra que, mais de um século depois, continua a interrogar os mecanismos do poder e da identidade. Além de Waddington, integra o elenco Carla Maciel, Cecília Borges, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz e Miguel Sopas.

“Nós, Sozinhas”, de Sara Barros Leitão

Theatro Circo, Braga (18 a 20 de setembro)

Sara Barros Leitão apresenta em Braga pela primeira vez Nós, Sozinhas, uma criação que parte da história do aborto em Portugal para revisitar quase duas décadas de despenalização e as histórias de quem, muito antes dela, teve de encontrar formas clandestinas de interromper uma gravidez. A solidariedade entre mulheres e as redes informais de conhecimento (“há sempre alguém que conhece alguém”) servem de fio condutor a uma dramaturgia que recupera julgamentos, referendos e movimentos de mobilização da sociedade civil que contribuíram para transformar a lei e a sociedade portuguesas.

▲ Sara Barros Leitão regressa ao território dos monólogos com "Nós, Sozinhas", debruçando-se sobre a história do aborto em Portugal

A peça marca também o regresso da criadora ao monólogo, formato a que tem recorrido para dar voz a histórias esquecidas (Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa, Todos os Dias Me Sujo de Coisas Eternas), e transformar a investigação e a memória em matéria de palco, recuperando vidas e experiências que raramente ocupam o centro da narrativa histórica. Bebendo o título de um verso de Maria Teresa Horta, Nós, Sozinhas sobe ao palco num momento em que o aborto continua a ser uma questão profundamente atual (em Portugal e no mundo), seja nas desigualdades do acesso a ele, nos obstáculos nos serviços de saúde ou nos debates sobre direitos reprodutivos que nos tentam fazer olhar para trás. Também a peça olha para trás, mas não para querer volver ao passado, mas antes para nos fazer refletir sobre o que mudou e, talvez sobretudo isso, o que ainda permanece por resolver.

“Macbeth”, texto de William Shakespeare, encenação de Pedro Penim

Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa (18 de setembro a 31 de outubro)

Depois de três anos fechado para obras, o Teatro Nacional D. Maria II reabre, por fim, as suas portas. E fá-lo com grande simbolismo, ao pôr em palco Macbeth, a peça que estava em cena na noite de 2 de dezembro de 1964, quando um incêndio deixou o edifício do Rossio em ruínas.

▲ Bárbara Branco e José Raposo são os protagonistas desta versão de "Macbeth", de William Shakespeare. Pedro Penim assina a encenação e a tradução do texto

A abordagem contemporânea à tragédia de William Shakespeare chega numa encenação de Pedro Penim, diretor artístico do TNDMII, e com um extenso elenco: Ana Coimbra, Ana Tang, Bárbara Branco, Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding, João Grosso, José Neves, José Raposo, June João, Sandro Feliciano, Stela e Vítor Silva Costa. A cenografia é de Joana Sousa e os figurinos da marca portuguesa Béhen. Os bilhetes já estão à venda e algumas datas já estão esgotadas.

“Seta Cegonha”, de Bruno dos Reis e Gaya de Medeiros

Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, Matosinhos e Centro Cultural Vila Flor, Guimarães (até 29 de setembro)

A mais recente criação do Teatro Oficina, em Guimarães, é uma peça singular: acontece num carro. Com apenas dois espectadores por sessão, o espetáculo Seta Cegonha consiste em duas viagens de automóvel: uma que começa em Guimarães e outra que começa em Matosinhos. A estrada substitui o palco e o carro transforma-se simultaneamente em cena e plateia durante os dois percursos em que se contam histórias distintas.

▲ "Seta Cegonha", a mais recente criação do Teatro Oficina, leva o público para uma experiência imersiva sobre rodas

Com dramaturgia de Bruno dos Reis e Gaya de Medeiros, e interpretação de Nuno Preto, Francisca Sobrinho e Ricardo Pinho, a peça resulta de uma coprodução com o Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, e é a segunda parte de uma trilogia teatral iniciada em Tudo em Avignon e eu aqui, fruto de investigação sobre os limites e as possibilidades do teatro. Os bilhetes para as apresentações com partida de Guimarães já estão esgotados, mas ainda há entradas disponíveis para as sessões com partida desde Matosinhos.

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