Uma jovem mulher recebe uma carta de despejo. Em pouco tempo, percebe que todos os vizinhos do quarteirão onde vive, na Graça, em Lisboa, receberam a mesma ordem. O futuro é incerto. “Esta é a história de um quarteirão que foi demolido para dar lugar a um hotel de luxo. Não é uma história muito original. Mas é a história que temos para contar”, diz a jovem, de seu nome Antígona. É assim que começamos a conhecer O Mal na Raiz, espetáculo com dramaturgia e encenação de Guilherme Gomes, livremente inspirado na tragédia grega de Sófocles, que reflete sobre a crise da habitação, a gentrificação e o direito à cidade. É apresentado de 14 a 18 de outubro, no Teatro São Luiz, em Lisboa.
O momento não podia ser mais oportuno. Escrita no início de 2025, a peça chega agora ao São Luiz num período particularmente conturbado em matéria de habitação. Em Espanha, nas últimas semanas, o nome de Maricarmen Abascal e a sua história elevou a contestação contra os despejos. “Uma espécie de Antígona, por ser uma figura que está comprometida com uma ideia e que reage de acordo com isso em protesto”, diz Guilherme Gomes. A personagem criada por Sófocles há mais de dois milénios continua a ecoar como símbolo de resistência e que hoje se manifestam num dos problemas mais prementes da atualidade.
Mas regressemos a O Mal na Raiz. Ao longo do espetáculo, vamos conhecendo a história do quarteirão, construído há 50 anos, e das pessoas que por ali passaram, bem como das iniciativas que nasceram desse espírito comunitário. Entre elas, um coro de moradores. À semelhança da tragédia grega, em que o coro dá voz à cidade, também aqui assume um lugar central, desta vez com a participação especial do Coro dos Anjos. Antígona procura mobilizar os vizinhos para resistirem ao despejo. “Cresci a ouvir a história de uma rainha que, contra a própria vontade do rei, levava pão para os pobres. Um dia foi apanhada. Perguntaram-lhe o que levava na algibeira. São rosas, senhor. (…) Cresci a pensar que esta história era a história de um milagre. Mas o milagre é outro: precisamos de pão e precisamos de rosas. Temos de lutar por pão e por rosas”, afirma Antígona.
▲ O espetáculo decorre num espaço aberto na sala Bernardo Sassetti, onde os espectadores estão ao mesmo nível dos intérpretes, que deambulam entre as cadeiras
No meio destas conversas entre vizinhos, a palavra despejo é substituída pela promessa de realojamento. Do outro lado do conflito está o vereador da Câmara Municipal, figura que evoca Creonte, o governante da tragédia grega. Para justificar a demolição do quarteirão, invocam-se o estado dos edifícios, as condições de higiene e a criminalidade. É um “assunto pegajoso”, que não convém tocar. Quando se sabe que Antígona está em protesto, algemada em frente ao edifício da autarquia, o conflito deixa de poder ser ignorado.
Chegamos, assim, ao mal na raiz, ao cerne do problema. A ameaça de demolição entra na esfera das decisões políticas e põe frente a frente duas vozes: a de Antígona, que questiona a necessidade de demolir o quarteirão, e a de Nuno, o vereador, que procura justificar a decisão, lembrando que não seria um caso inédito. Curiosamente, Nuno foi um dos primeiros bebés a nascer naquele mesmo lugar que agora querem demolir, sob a promessa de o melhorar, dando lugar a um hotel, um centro cultural ou a habitações de renda acessível, diz. A demolição tem data marcada. O desfecho, esse, permanece em aberto.
Cultivar o desejo por lugares de encontro
Com interpretações de Nuno Nunes, Siobhan Fernandes e Sónia Barbosa, a peça não esconde a intenção de se afirmar como manifesto e apelo a uma cidadania ativa.
No fundo, é aqui que reside esta história de um conjunto de pessoas que está a ser expulso do lugar onde vive. De cada vez que fui escrevendo o texto, este problema da habitação ressoava. Histórias e notícias como estas, apesar de serem inaceitáveis, pouco fazemos para as contrariar. Participamos em algumas manifestações, mas o que me interessa com esta peça é falar dessa necessidade de compromisso”, salienta Guilherme Gomes.
Para o encenador, a peça chega a um ponto de ruptura que é sintomático com a realidade vivida em cidades como Lisboa. “Deixamos de cultivar o desejo por lugares de encontro e de vida coletiva”, diz. Da mesma forma que Antígona assume essa voz de resistência, importa “chamar a atenção para a possibilidade de perdermos esses lugares”. E tal como o quarteirão de que fala a peça, qualquer espaço pode estar em risco, até mesmo um teatro. “Se alguma vez deixarmos de desejar um teatro, outras pessoas poderão sentir-se legitimadas para o transformar noutra coisa qualquer e ficamos entregues a isso”, acrescenta.
Por estas razões, não deixa de ser significativo que o espetáculo decorra num espaço aberto na sala Bernardo Sassetti, onde os espectadores estão ao mesmo nível dos intérpretes, que deambulam entre as cadeiras. Chamado a partilhar esse espaço, o público é confrontado com o conflito de Antígona é convidado a pensar sobre um problema contemporâneo que conhece de perto: o direito a habitar a cidade e a preservar os lugares onde se constrói a vida coletiva.
Até onde estamos dispostos a ir?
À medida que a ação avança, O Mal na Raiz chega a um impasse. Entre os protestos possíveis e a decisão de demolir o quarteirão, parece haver pouco a fazer. Os moradores decidem organizar um momento de homenagem e despedida. Um canto do cisne sob a forma de um concerto, que é também uma derradeira forma de protesto. Perante a ameaça de perderem o lugar onde vivem, o que começa como uma luta individual transforma-se numa ação coletiva, que encontra no canto uma voz comum.
▲ "Se alguma vez deixarmos de desejar um teatro, outras pessoas poderão sentir-se legitimadas para o transformar noutra coisa qualquer e ficamos entregues a isso”, diz o encenador Guilherme Gomes
Para Guilherme Gomes, é também uma forma de escapar ao atordoamento, à dispersão provocada pelas inúmeras distrações do quotidiano, que nos deixa divididos entre a urgência de agir e a tentação de permanecer passivos perante acontecimentos como este. “Por muitos interesses maiores que se sobreponham e expulsem essa vida coletiva da cidade, temos de tomar uma atitude”, defende. A tragédia, porém, não desaparece. Tal como na peça de Sófocles, o desfecho de O Mal na Raiz deixa em aberto as consequências da resistência de Antígona e dos seus vizinhos.
A pergunta que o encenador e dramaturgo lança ao público não oferece uma resposta fácil: “Até onde é que estamos dispostos a ir? Devíamos pensar nisso. Não é um incentivo a nada, mas devemos pensar em novas formas de responder a estes problemas”. É nessa pergunta que a peça esbarra na atualidade. Perante uma cidade cada vez mais condicionada pela especulação imobiliária, o destino daquele quarteirão deixa de ser apenas a história de uma comunidade ameaçada de despejo. Passa a ser também um retrato da dificuldade em transformar a indignação em ação coletiva e do risco de, perante a erosão dos lugares de encontro, aceitar como inevitável aquilo que ainda se pode contestar.