Ir às urnas tornou-se quase um hábito nos últimos tempos. Só eleições legislativas, houve três em pouco mais de três anos, em 2022, 2024 e 2025. Neste curto período, o panorama político mudou substancialmente: houve partidos que abandonaram os seus lugares no Parlamento, outros fizeram a sua estreia em São Bento e os que já lá estavam viram o seu número de deputados oscilar.
Em menos de um mês, seguem-se as autárquicas e, depois, as presidenciais em janeiro de 2026. Por detrás de cada ato eleitoral, estão os eleitores. E o que os faz chegar até à mesa de voto? Mantêm sempre o mesmo partido quando votam? E o que tem maior peso na hora de tomar a decisão: o programa político, ou o líder?
Estes e outros dados surgem no inquérito feito em parceria com a Netsonda, traçando um retrato da participação cívica em Portugal. Cruzando informação recolhida em seis regiões do território continental (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro, Litoral Norte, Interior Norte e Sul), e analisando as respostas dadas pelas diferentes gerações, estes são os principais resultados.
41% dos Millennials admite variar de partido entre eleições. Quase um terço de todos os inquiridos já votou em branco
Neste momento, estão representados 10 partidos na Assembleia da República — o valor mais elevado desde o 25 de Abril. 51% dos inquiridos diz que se identifica com um algum partido político português, independentemente de ter ou não presença parlamentar. Este dado indica, também, que 49% não se revê nas opções disponíveis atualmente, o que, para o sociólogo Luís Capucha, é a métrica mais importante de assinalar.
“Isto significa que há um espaço vazio muito grande”, afirma o especialista ouvido pelo Observador, referindo que a elevada quantia de pessoas que não se identificam com partidos pode também estar associada à ideia que se trata de um “compromisso excessivo”, apesar de não estar implícita qualquer adesão militante ou ativista. “É preciso notar que, para quase metade da população, os partidos não dizem particularmente muita coisa”, remata.
Nota-se, porém, que embora as diferenças não sejam tão visíveis nesta métrica, os mais velhos sentem-se mais distantes dos partidos do que os mais jovens. 55% da Geração Z identifica-se moderadamente ou fortemente com alguma das ideologias disponíveis no mercado político, enquanto que esta é uma realidade para apenas 46% dos Baby Boomers. De acordo com Luís Capucha, esta distância dos órgãos partidários deve-se a uma “maior desilusão” dos mais idosos, que não se encontram representados pelas opções existentes, onde os jovens “ainda veem nos partidos um fator de identificação”.
Mesmo que admitam não se identificar com um partido, 64% dos participantes do estudo afirmam votar sempre ou quase sempre no mesmo partido. Este valor é mais acentuado entre as gerações mais velhas, enquanto os Millennials são aqueles que admitem variar de partido com maior regularidade entre eleições. 41% dos que têm entre 28 e 44 anos vão mudando, ao passo que o mesmo só acontece com 18% das pessoas com idade superior a 60 anos.
Quando começaram as diferentes gerações?
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Geração Z — 1997 a 2012
Millennial — 1981 a 1996
Geração X — 1965 a 1980
Baby Boomers — 1946 a 1964
Para Luís Capucha, estes 41% pertencem à “geração mais escolarizada”, que “viveu um período de grande politização”. “Não me admiro que haja aqui uma maior propensão para estas pessoas variarem o voto em função de circunstâncias diversas, nomeadamente de conjuntura”, admite o professor universitário reformado. De uma forma geral, apenas 14% da população vota sempre no mesmo partido e metade “costuma” seguir a tendência. 32% varia as cores políticas e apenas 5% admite que não tem o hábito de se deslocar para exercer o direito de voto. Destes 5%, as populações mais representadas são os desempregados (16%) e as pessoas com rendimentos mensais inferiores a 1.000€ (12%).
Quase um terço (29%) dos participantes refere que já votou em branco, com os Millennials a ser a geração mais representada nesta métrica (35%), ao passo que os mais jovens, da Geração Z (17%), já o fizeram. Ao mesmo tempo, estas duas gerações mais novas são as que mais apoiam a implementação do voto obrigatório, com 71% e 69%, respetivamente. Mas mais de metade das outras gerações também concordam.
O líder, as promessas ou a presença digital. Quais são os principais fatores que influenciam o voto?
Mas como é tomada a decisão? Quais são os fatores que mais pesam na hora de colocar a cruz no boletim de voto? Para 64% dos inquiridos, o mais importante é mesmo o programa político. De uma forma geral, a grande maioria (76%) diz que tem o hábito de ler o documento que compila as propostas e ideias de cada partido. Apesar de ser uma prática mais comum entre as duas gerações mais jovens do que nas mais velhas, a verdade é que tende a ser um hábito recorrente transversal à idade.
“É possível que as pessoas que dizem que leem os programas dos partidos não leiam os programas completos de todos os partidos, mas sim parcialmente algumas propostas”, refere Luís Capucha, aludindo para próprias iniciativas dos partidos, que permitem selecionar melhor a informação a ler, de modo a não ser necessário consumir centenas de páginas para saber o que um partido defende. “Alguns partidos enviam folhetos, colocam nas redes sociais”, acrescenta, afirmando que, muitas vezes, as pessoas acabam por ler os programas à procura de assuntos específicos ou temas de particular interesse.
Depois do programa, o fator que mais influencia o voto é o líder do partido ou candidato escolhido para disputar a eleição. 55% dos participantes do estudo aponta para esta figura individual como sendo fundamental para a escolha. Este acaba por ser mais valorizado pelos homens (63%) e nota-se uma tendência crescente de apreciação com o aumento do rendimento mensal, com aqueles que auferem mais de 3.000€ a mostrar-se muito interessados na representação partidária (60%), enquanto as mulheres e os que recebem menos de 1.000€ por mês têm em maior conta o programa e para promessas concretas para tomar a sua decisão.
Para o sociólogo consultado pelo Observador, estes dados revelam que as mulheres acabam por ter “um voto mais racional”, mais dirigido a objetivos tangíveis como aumento de salários, redução de impostos ou mais apoios sociais, por exemplo. Um fator que é quase exclusivamente tido em conta pela Geração Z é a presença dos partidos nas redes sociais. No panorama geral, apenas 12% da população dá prioridade a esta vertente da campanha. Entre os que têm mais de 18 anos e menos de 28, 21% diz que é das coisas mais importantes para decidir em quem votar.
“A influência das redes sociais nos jovens é um fenómeno que hoje em dia já é bem conhecido”, refere Luís Capucha, referindo que a internet e as redes sociais, para as gerações mais novas, têm um impacto maior do que a comunicação social tem nas restantes faixas etárias. Menciona, também, os algoritmos das diferentes plataformas e a facilidade com que uma pessoa pode ficar presa a uma certa ideologia ou convicção, puramente pela quantidade de conteúdo que acaba por aparecer no feed de forma mais constante e a habitual. “Estão mais expostos a essa influência”, continua, indicando que os próprios partidos e figuras políticas nacionais já começaram a incorporar cada vez mais esta vertente nas suas campanhas, de modo a angariar um voto mais jovem.
Neste mesmo registo, o inquérito permite verificar que, entre as diferentes gerações, a Z é também a mais influenciada pela opinião de familiares ou amigos (17%). A importância deste fator diminui gradualmente com o aumento da idade dos inquiridos. Mas, de uma forma geral, esta discussão não acontece de forma muito frequente, com 54% dos participantes a dizer que a política é um tema de conversa apenas ocasionalmente, sendo mais comum discutir estes temas raramente ou não conversar, de todo, do que fazê-lo regularmente.
“A imagem de que a política afasta as pessoas umas das outras é uma imagem que pode ajudar a compreender estes dados”, explica Luís Capucha, admitindo que a divergência nas ideologias pode, em algumas circunstâncias, criar clivagens nestes círculos com grande proximidade afetiva e, nesse sentido, estas discussões podem ser evitadas.
O que define um candidato perfeito? E quais são os principais agentes de mudança na sociedade?
Para 43% dos portugueses inquiridos, a inteligência é a principal característica que define um candidato ou líder partidário perfeito. Na Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro e Litoral Norte, o domínio dos vários temas em cima da agenda política é mais valorizado do que nas restantes regiões do país, onde se dá prioridade à inteligência da figura. Apesar de ser “um conceito mais abstrato”, Luís Capucha admite que é “compreensível”, referindo que um líder deve “ser esperto e ser uma pessoa culta”.
Apesar de estarem omissas na lista desenvolvida pelos inquiridos pela Netsonda, o sociólogo aponta também para a capacidade de decidir, a boa comunicação e a honestidade como características importantes para uma figura política. Assim, sublinha a importância dada à “competência técnica” atribuída nos grandes centros urbanos — e também pelas mulheres (40%), enquanto os homens dão mais peso à inteligência dos candidatos. “É algo que faz sentido, tendo em conta o conjunto de transformações culturais que atualmente atravessam a nossa sociedade”, acrescenta.
Além destes fatores, a população inquirida menciona também o carisma (7%) e a autoridade (5%) como características fundamentais num líder partidário, com apenas duas pessoas a referir a aparência física como o mais importante.
O que prefere num líder partidário?
7%
43%
5%
38%
7%
Contudo, para 69% das pessoas, a figura política ou o partido não é o principal agente de mudança da sociedade. Em primeiro lugar surgem indivíduos e movimentos sociais, com 42% das respostas entre todas as gerações, regiões e escalões de rendimento, o que é “coerente” para Luís Capucha. De acordo com o sociólogo, esta “valorização da sociedade civil” indica que as pessoas querem ficar menos dependentes de um Estado Social, lendo os dados como sendo a procura por uma “cultura mais americana, onde cada um tem que fazer por si e juntar-se a outros para formarem conjuntos, não estar à espera que o Estado ou as instituições políticas resolvam os problemas pelas pessoas”.
O terceiro agente mais votado foram as empresas privadas — “os agentes do mercado” — “que determinam o destino em grande parte dos movimentos sociais”, refere Luís Capucha. “São, talvez, os atores mais poderosos atualmente nas nossas sociedades”, acrescenta, mas admite que o seu papel, muitas vezes, aparece “ocultado”, daí não aparecer com maior pujança no inquérito.
Na lista aparecem ainda as Associações e ONGs, bem como Fundações, apesar de serem menos reconhecidas pelos inquiridos. Nota-se, no entanto, uma grande diferença na perceção destas instituições entre gerações. 13% dos mais jovens votaram neste conjunto de entidades como sendo agentes importantes de mudança da sociedade, mas não houve qualquer inquirido com mais de 60 anos a identificá-las na mesma questão.
Apoio ao comércio local, pagamento de impostos ou voluntariado. Qual é a melhor forma de ajudar o país?
Sem especificar os temas que levantaram interesse suficiente para motivar uma assinatura, metade (49%) dos inquiridos revela ter assinado uma petição (online ou fisicamente) nos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, a percentagem de pessoas que doou dinheiro ou bens a causas sociais é igual ao número de indivíduos que não participou em qualquer ação cívica nos últimos 12 meses (32%). Destes últimos, nota-se que os menos representados são os mais jovens.
Apenas 25% dos portugueses com rendimentos mensais inferiores a mil euros referiu ter doado dinheiro ou bens no último ano, enquanto 40% dos que mais recebem admite tê-lo feito. O boicote de marcas por razões cívicas é algo que tem maior adesão dos jovens (14%) — e entre os estudantes (16%) — do que dos mais velhos (6%).
Seguindo a tendência reversa, os Baby Boomers são os que têm um maior hábito de contactar diretamente alguém que tenha sido eleito ou uma instituição pública (16%), enquanto esta prática é menos comum entre os que têm menos de 28 anos (9%). De uma forma geral, 64% dos inquiridos diz que não participa em associações cívicas ou comunitárias, mas quase metade destes (28%) admitem ter interesse em vir a integrar estes movimentos.
Os projetos sociais são destacados por 10% dos inquiridos como sendo a melhor forma de ajudar o país. Nesta lista destaca-se principalmente o apoio à economia nacional, que recebeu 44% das respostas. Esta escolha é transversal por todas as gerações, regiões e escalões de rendimento, que acreditam na compra de produtos portugueses e no apoio de comércio local como forma de contribuir para o crescimento do país. Estes dados, de acordo com o sociólogo Luís Capucha, “articula-se bem” com as restantes tendências observadas, “nomeadamente para a revalorização da nação”.
Qual considera ser a melhor forma de ajudar o país?
Geração Z
(18 - 28 anos)
Millennials
(29 - 44 anos)
Geração X
(45 - 60 anos)
Boomers
(61 - 64 anos)
O segundo fator mais referido foi o pagamento de impostos e o cumprir deveres cívicos. Porém, esta escolha não foi tão consensual. Enquanto a Geração Z se destaca por fazer mais voluntariado e criar ou apoiar projetos sociais do que as restantes gerações, as restantes dão maior relevância ao pagamento de impostos e ao cumprimento dos deveres cívicos. Apenas 9% dos mais jovens enquadraram esta resposta nas suas prioridades, onde aparecem 30% dos Baby Boomers, por exemplo.
“Pode haver aqui a perceção de que, de facto, os desequilíbrios na nossa sociedade são desequilíbrios resultantes da desigual relação que as pessoas têm com o Estado. Ou seja, a ideia de que alguns pagam impostos elevadíssimos e não conseguem fugir aos impostos, enquanto outros fogem aos impostos com facilidade”, refere Luís Capucha, acrescentando que esta é uma perceção “muito comum na nossa sociedade”.
As gerações mais velhas também dão maior destaque à participação política e ao exercer o direito de voto. 28% daqueles que têm mais de 60 anos indicam esta opção como sendo o fator que mais ajuda o país, mas apenas 15% dos Millennials concorda com esta leitura. Apesar de o voluntariado não ser muito considerado como a melhor maneira de ajudar o País — só 3% das pessoas o acham — 58% dos inquiridos refere praticá-lo ativamente ou que já o fez no passado. E 24% quer fazê-lo no futuro. O destaque dos não-praticantes vai para os homens (24%), que aparecem mais representados que as mulheres (13%). No universo dos participantes, os mais jovens (16%) são quem preenche o setor atualmente.
Este inquérito foi realizado pela Netsonda em colaboração com o Observador, entre os dias 29 de Agosto e 3 de Setembro de 2025. O estudo foi realizado através da aplicação de um questionário online junto do painel Netsonda. O universo-alvo é composto por uma amostra representativa de indivíduos com 18 a 64 anos residentes em Portugal continental. Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram recolhidas 800 entrevistas online (CAWI). Esta dimensão amostral está associada a uma margem de erro de 3,46%, com um nível de confiança de 95%.
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