Um casamento real,
um Távora proibido
e dois adversários primos.
O que conta a árvore genealógica
de Cotrim de Figueiredo?
Em 1387, a princesa inglesa D. Filipa de Lencastre chegou a Portugal para casar com o Rei D. João I, um casamento vital para selar a aliança entre a coroa portuguesa e a Inglaterra — a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor. Com D. Filipa veio uma comitiva de britânicos que se instalaram no país para servir a casa real. Mais de 600 anos depois, o décimo quinto neto de um desses britânicos poderá tornar-se Presidente da República. João Cotrim de Figueiredo, eurodeputado e antigo líder da Iniciativa Liberal, foi buscar o seu apelido mais conhecido — Cotrim — justamente a essa longa linhagem que pode ser reconstituída até ao fundador da família em Portugal, o inglês Jaime Cotrim Canas.
A poucas semanas das eleições presidenciais, as únicas em que os eleitores são chamados a escolher uma pessoa concreta e não um partido ou um movimento político, o Observador traçou a árvore genealógica dos principais candidatos presidenciais para conhecer a história familiar de cada um. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica, foi possível recuar vários séculos para descortinar a sucessão de acasos históricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos — e que ajudam a compreender o contexto mais profundo de que cada um deles é produto.
Na árvore genealógica de João Cotrim de Figueiredo há mais do que a longa linhagem Cotrim, da qual, aliás, o liberal se parece ter desligado relativamente na sequência do divórcio dos seus avós. Olhando para a árvore, percebe-se que a maioria das raízes familiares de Cotrim residem no centro e norte do país. E é também possível reconstituir os ramos familiares que conduzem aos ascendentes que de forma mais decisiva moldaram o liberal: o seu bisavô António, fundador da empresa de cabides em que Cotrim começou a trabalhar, e a sua avó Maria dos Prazeres, que o criou na infância.
O trabalho dos genealogistas identificou, ainda, vários parentescos notáveis de Cotrim, incluindo dois dos seus adversários nas presidenciais e um ex-ministro da Economia. Navegue pela árvore genealógica de Cotrim para descobrir as histórias que se escondem por trás de sete séculos de linhagem familiar.
Nos cartazes de campanha, o candidato liberal tem-se apresentado ao país com o seu apelido mais conhecido: Cotrim.
Para a generalidade dos portugueses, é praticamente impossível traçar uma árvore genealógica que recue até antes do século XVI: foi só aí que a Igreja Católica tornou obrigatórios os registos de batismos e casamentos e são esses documentos que nos permitem reconstituir a história das nossas famílias.
No caso do apelido Cotrim, porém, é possível ir um pouco mais atrás.
Para isso, é preciso recuar até fevereiro de 1387.
Nesse ano, a princesa inglesa D. Filipa de Lencastre veio para Portugal para casar com o Rei D. João I, uma união decisiva para selar a aliança entre Lisboa e Londres.
Na comitiva de D. Filipa de Lencastre veio Jaime Cotrim Canas, um nobre inglês que ocupava um cargo na corte — e que acabou por se estabelecer em Portugal, ficando a trabalhar para a casa real.
Há, porém, alguma incerteza entre os genealogistas em torno desta figura do século XIV que surge como patriarca dos Cotrim portugueses.
Uma possibilidade que tem sido levantada é a de o nome original deste cortesão ter sido “James Catterall” e de Jaime Cotrim ser um aportuguesamento do nome britânico — mas trata-se de uma hipótese que não está devidamente comprovada através de fontes documentais.
O que é certo é que os descendentes imediatos de Jaime Cotrim também mantiveram a ligação à casa real, trabalhando não só na casa do próprio Rei D. João I, mas também nas casas do Infante D. Henrique e do Rei D. Afonso V.
Depois da chegada a Portugal, a família Cotrim estabeleceu-se na vila de Dornes, em Ferreira do Zêzere.
No século XV, João Martins Canas Cotrim, filho de Jaime Cotrim, chegou a ser Monteiro-Mor de Dornes.
A linhagem Cotrim ficou durante séculos naquela histórica vila situada nas margens do rio Zêzere. Em 1504, durante o reinado de D. Manuel I, Lopo Martins Canas Cotrim, neto do patriarca, recebeu carta de brasão de armas da família Cotrim.
O brasão de armas da família Cotrim, na capa do livro ‘A família Cotrim’, coordenada por Paulo Alcobia Neves.
Em meados do século XVI, a família Cotrim instalou-se na Quinta do Souto da Ereira, em Dornes. No solar da quinta ainda encontramos, atualmente, o brasão de armas da família. O primeiro Cotrim a viver lá terá sido Rui Lopes Cotrim, filho de Lopo — e bisneto do inglês Jaime Cotrim.
Em 1572, outro elemento da família — António Rodrigues Cotrim, filho de Rui — recebeu nova carta de brasão de armas da família Cotrim.
No caminho familiar até ao candidato liberal encontramos ainda Ana Rodrigues Cotrim, filha de António Rodrigues Cotrim e, por isso, tetraneta de Jaime Cotrim Canas.
A partir deste ponto já é possível reconstituir a árvore genealógica de Cotrim Figueiredo com recurso aos registos paroquiais, que oferecem bastante detalhe.
Do casamento de Ana Rodrigues Cotrim com Amador Fernandes nasceu, por volta do ano 1615 em Dornes, António Rodrigues Cotrim de Sousa.
A família Cotrim manteve-se em Dornes durante mais 200 anos. José Cotrim, nascido por volta do ano 1810, foi o último deste ramo a nascer naquela vila à beira do Zêzere.
José Cotrim casou com Ana Teresa, natural de Vila de Rei, e mudou-se para essa freguesia.
Foi em Vila de Rei que o apelido Cotrim persistiu até ao início do século XX. Casimiro Cotrim, nascido em 1903, era bisneto de José e Ana Teresa.
Casimiro Cotrim, por seu turno, já viria a casar-se em Lisboa, em 1929, com Maria dos Prazeres Gonçalves, natural de Vouzela. Deste casamento nasceu, em 1930, Maria Helena Gonçalves Cotrim — a mãe de João Cotrim de Figueiredo.
Mais de 630 anos depois do casamento de D. Filipa de Lencastre com D. João I, o apelido do décimo quinto avô do antigo líder da Iniciativa Liberal protagoniza agora uma campanha eleitoral às presidenciais de janeiro do próximo ano.
No entanto, apesar de esse ser o apelido mais sonante e com uma história mais reconhecidamente ancestral — e, por isso, aquele pelo qual o eurodeputado liberal ficou mais conhecido —, Cotrim não é o ramo familiar a que o candidato se sente mais ligado.
Para perceber porquê, é preciso recuar até ao início do século XX e ao nascimento de Maria dos Prazeres Gonçalves, a avó materna de Cotrim de Figueiredo.
Maria dos Prazeres Gonçalves nasceu a 29 de abril de 1908, em Vouzela, “filha de uma família influente da vila”, como escreveu o próprio Cotrim de Figueiredo no livro Porque sou Liberal (Zigurate, 2025).
A investigação genealógica permite-nos reconstituir a ascendência de Maria dos Prazeres Gonçalves até ao final do século XVII e encontrar uma linhagem que viveu sempre no distrito de Viseu, entre Vouzela e São Pedro do Sul.
Na viragem do século XIX para o século XX, Maria da Conceição Ferreira e Ricardo Rodrigues Gonçalves eram um casal de influentes proprietários de Vouzela.
Nessa altura, Ricardo Gonçalves partiu para o Brasil “em busca de fortuna, como tantos nesses tempos”. Maria da Conceição ficou em Vouzela a gerir as propriedades da família.
Foi no Brasil que se deu o acontecimento que precipitou a desgraça da família: Ricardo foi atingido por um comboio e partiu um braço, deixando-o gravemente doente com uma infeção que o obrigou a voltar a Portugal.
Em Vouzela, a família desdobrou-se em esforços e não poupou despesas: chamou médicos especialistas portugueses e estrangeiros para tentar, em vão, salvar a vida de Ricardo. Afinal, o problema não era o braço partido, mas um cancro agressivo nos ossos que a fratura permitiu diagnosticar.
Ricardo morreu em 1924 e a família, outrora rica e influente, gastou tudo o que tinha e contraiu elevadas dívidas para tentar fazer face aos custos médicos. “A ruína da antiga e influente família de Vouzela era agora total”, descreveu o próprio Cotrim de Figueiredo no seu livro.
Com a família mergulhada na miséria, os seis filhos de Maria da Conceição e Ricardo Gonçalves tiveram de fazer o seu próprio caminho. Maria dos Prazeres, a terceira filha, até “teve sorte”, conta o liberal: conheceu Casimiro Cotrim, natural de Vila de Rei e descendente da longa linhagem dos Cotrins, com quem casou “e que lhe proporcionou uma vida estável”.
Maria dos Prazeres e Casimiro Cotrim mudaram-se para Lisboa, onde casaram em maio de 1929, e tiveram em 1930 a sua primeira filha — Maria Helena, a mãe do liberal.
A vida de Maria dos Prazeres voltaria, porém, a complicar-se. Menos de dez anos depois do casamento, Casimiro Cotrim ter-se-á apaixonado por outra mulher e quis divorciar-se de Maria dos Prazeres, tarefa complicada durante o Estado Novo.
Para o conseguir, conta Cotrim de Figueiredo no seu livro, Casimiro terá alegado falsamente que Maria dos Prazeres tinha abandonado o lar e cometido adultério: “Numa atitude reveladora, não quis a custódia da filha que a minha avó supostamente abandonara.”
Escreve Cotrim: “Maria dos Prazeres viu-se então sozinha em Lisboa, sem rendimento próprio, sem pensão de alimentos, sem estudos para além da 4.ª classe e com uma filha a cargo. Tudo isto, escassos meses antes da II Guerra Mundial tornar ainda mais difícil a vida e a subsistência de toda a gente.”
Em Lisboa, Maria dos Prazeres arranjou emprego como mulher-a-dias e criou sozinha Maria Helena — e viria também, anos mais tarde, a criar o próprio João Cotrim de Figueiredo e os seus irmãos.
A história de vida de Maria dos Prazeres, que o liberal classifica como a sua “segunda mãe”, seria mais tarde recordada por Cotrim de Figueiredo como decisiva para moldar o seu pensamento político (com uma grande ênfase no esforço individual) e como a prova de que não era um fidalgo privilegiado, como foi por vezes classificado pelos seus adversários.
A memória do avô Casimiro Cotrim, que abandonou a família, perduraria apenas nos apelidos da filha e dos netos de Maria dos Prazeres — e, aparentemente, numa semelhança física entre o próprio Cotrim de Figueiredo e o seu avô. “Nunca tive a certeza se essa parecença era, para ela [a avó], uma memória bela ou cruel”, revelou o candidato no seu livro.
A longuíssima linhagem de Cotrins em Portugal permite, ao mesmo tempo, encontrar uma ligação familiar entre o antigo líder da IL e um dos seus adversários nestas presidenciais.
Para isso, é necessário recuar novamente até ao século XVI e a António Rodrigues Cotrim, trineto do patriarca Jaime Cotrim Canas.
António Rodrigues ter-se-á casado com Teresa de Sousa e Alvim (sobre este nome, os genealogistas não têm a certeza absoluta), de quem teve vários filhos.
Uma delas foi Ana Rodrigues Cotrim, décima avó de João Cotrim de Figueiredo.
Mas o casal teve outros filhos, que deram origem a uma nova linha familiar.
Há outros dois filhos daquele casal que são importantes para aqui: Manuel Antunes Cotrim e António Cotrim de Sousa.
Duas gerações depois, um neto de Manuel, Francisco Cotrim de Sousa, casou com uma neta de António, Maria de Matos Cotrim — um casamento entre primos.
Desse casamento nasceu, em 1647, em Ferreira do Zêzere, Maria de Matos Camelo.
Durante várias gerações, a descendência de Maria de Matos Camelo e do seu primeiro marido, Belchior de Sousa Cotrim (ao que tudo indica, também parente), manteve-se entre Ferreira do Zêzere e Sertã durante cerca de 300 anos.
Manuel Luís Ramos da Cruz, sétimo neto daquele casal, foi o último desta linha a nascer ainda no centro do país. A sua filha Alcinda da Cruz já nasceria em Lisboa, para onde a família se mudou no início do século XX.
Alcinda da Cruz, por seu turno, casaria em Sintra com Armando António Claro e teria, em 1956, uma filha: Ana Maria da Cruz Claro, a mãe de André Ventura, líder do Chega e adversário de Cotrim nas presidenciais.
Mas João Cotrim de Figueiredo é também primo de André Ventura por outra via.
Ainda no ramo dos Cotrim, encontramos uma segunda ligação familiar entre os dois. A ligação encontra-se em António Cotrim, quinto avô do liberal, nascido em Dornes por volta do ano 1770.
António Cotrim casou-se com Maria Luísa, também mencionada como Maria Luzia, filha de Luzia Maria da Conceição e de Miguel Antunes de Sousa, uma família igualmente de Dornes.
Um irmão de Maria Luísa, Manuel Antunes, é igualmente ascendente de André Ventura — neste caso, sexto avô.
Na história do outro apelido do candidato, Figueiredo, não é possível recuar tanto como no caso do ramo Cotrim: só conseguimos chegar até 1761, ano em que nasceu, na freguesia de Silgueiros, em Viseu, o seu antepassado Luís de Figueiredo.
Não é possível recuar mais por uma razão simples: Luís de Figueiredo nasceu de pai incógnito. Nem a sua mãe, Isabel João, nem ninguém da sua família próxima tinha o apelido Figueiredo, o que leva os genealogistas a acreditar na possibilidade de Figueiredo ser o nome de família do pai incógnito de Luís. É um mistério que ficará em aberto.
O apelido Figueiredo passou sempre por via masculina desde Luís até ao candidato liberal.
Durante cinco gerações, uma sucessão de Figueiredos manteve-se na zona de Viseu.
Quase 140 anos depois do nascimento de Luís de Figueiredo, o seu trineto António Pinto Figueiredo casou-se com Joaquina Enes do Carmo na cidade do Porto, onde a família viveu durante algum tempo.
O casal ainda teve pelo menos uma filha no Porto, mas mudou-se pouco depois para Lisboa. Foi já na capital que nasceu João do Carmo Figueiredo — em homenagem a quem o seu neto, João Cotrim de Figueiredo, receberia o seu nome próprio.
João do Carmo Figueiredo casou com a também lisboeta Eutália de Almeida e Silva — e o casal teve quatro filhos.
Desses quatro, três nasceram no Brasil, onde João do Carmo e Eutália viveram e trabalharam durante vários anos. Entre os filhos nascidos em solo brasileiro conta-se Fernando da Silva Figueiredo, pai de Cotrim.
João Cotrim de Figueiredo nunca chegou a conhecer a sua avó paterna.
Eutália de Almeida e Silva era filha de dois lisboetas: Catarina de Sena Rosa de Almeida e António Navarro da Silva.
António Navarro da Silva, bisavô de Cotrim, foi inspetor do Banco Nacional Ultramarino. Nessas funções, na década de 1920, esteve envolvido na investigação ao célebre caso Alves dos Reis — um dos maiores esquemas de falsificação de notas da história, orquestrado por Artur Alves dos Reis em 1925, provocando um colapso no sistema financeiro nacional, afetando o valor e a credibilidade do escudo.

Alves dos Reis
João do Carmo e Eutália voltaram a Portugal quando Fernando ainda era bebé.
Durante o tempo que passou no Brasil, João do Carmo juntou algum dinheiro, que lhe permitiu, de regresso a Portugal, ajudar o pai a desenvolver a empresa de cabides que António Pinto Figueiredo tinha fundado.
A empresa focava-se, nas palavras do bisneto, na “produção semi-artesanal de cabides de madeira de alta qualidade”. Com a marca “Cabide Manequim”, António Pinto de Figueiredo terá tido um relativo sucesso, vendendo cabides de madeira para hotéis em todo o mundo.
Os cabides “Manequim” acabariam por ter um papel importante na vida de João Cotrim de Figueiredo: em 1976, com apenas 15 anos, começou a trabalhar na empresa do bisavô, a vender cabides em lojas e armazéns. Em várias entrevistas, Cotrim tem mencionado esse marcante primeiro contacto com o mundo do trabalho.
Mas vale a pena regressar a Vouzela e à linha familiar dos ascendentes da avó materna de João Cotrim de Figueiredo.
A partir de Maria dos Prazeres Gonçalves, é possível recuar até meados do século XVII e encontrar uma figura curiosa: Cláudio Homem Teles Freire.
Cláudio era um fidalgo de Vouzela que exerceu, naquela região, o cargo de Familiar do Santo Ofício — isto é, uma espécie de agente local da Inquisição, que ajudava os inquisidores na prisão dos suspeitos e na execução das penas. Os Familiares gozavam de um prestígio considerável — além de terem vários privilégios e benefícios perante o Estado.
Além do prestígio social que lhe advinha do facto de trabalhar para a Inquisição, Cláudio também teria ascendência real, de acordo com as genealogias clássicas.
Cláudio teve dois filhos com uma mulher de que hoje só conhecemos o nome próprio, Maria, e a alcunha, “a Carvalhais”, nascida em São Pedro do Sul por volta de 1665. Os dois são nonos avós de João Cotrim de Figueiredo.
Algumas décadas depois, no início do século XVIII, encontramos Ana Joaquina Teles, neta de Cláudio e Maria e sétima avó de Cotrim de Figueiredo.
Ana Joaquina Teles casou-se com João Pedro da Costa e Távora — outra personagem especialmente curiosa desta história.
Maria da Costa, a mãe de João Pedro, era solteira quando engravidou de Manuel Nunes da Veiga. Porém, durante a gravidez, casou com outro homem, Manuel Fernandes. Para adensar a trama, Manuel Nunes da Veiga, o pai da criança que Maria levava no ventre, foi testemunha desse casamento.
Quando João Pedro nasceu, foi registado como filho de Maria da Costa e de Manuel Fernandes, o marido legítimo. Só mais tarde o assento foi corrigido, passando a indicar Manuel Nunes da Veiga como pai.
Contudo, o nome Távora não perduraria no ramo familiar que haveria de chegar a Cotrim de Figueiredo. Em 1758, o país viu-se mergulhado num escândalo com o processo dos Távoras, a família dos duques de Aveiro acusada de orquestrar um atentado contra o Rei D. José I.
O sanguinário processo dos Távoras resultou não apenas em múltiplas execuções e prisões, mas também numa série de respostas simbólicas contra a família Távora: o brasão dos Távoras foi proibido, a família foi removida da nobreza e o nome banido em todo o país, mesmo em pessoas que não tinham qualquer ligação com a família dos duques de Aveiro.
João Pedro da Costa e Távora viu-se, assim, sem possibilidade de continuar a usar o seu apelido. Passou, por isso, a usar o apelido Veiga, do seu pai biológico.
Ana Joaquina Teles e João Pedro da Costa e Veiga foram os quintos avós de Maria dos Prazeres Gonçalves, a avó que criou João Cotrim de Figueiredo em Lisboa.
A árvore genealógica de João Cotrim de Figueiredo mostra ainda uma ligação do liberal ao Alto Minho — e a um outro primo notável.
Lembra-se de António Pinto Figueiredo, o bisavô que fundou a empresa de cabides onde Cotrim começou a trabalhar?
António casou em 1898, na cidade do Porto, com Joaquina Enes do Carmo.
A ascendência de Joaquina, nascida no Porto em 1878, leva-nos mais para norte, até ao distrito de Viana do Castelo.
Foi lá, mais concretamente em Areosa, que nasceram, no final do século XVII, Maria Afonso e Manuel Afonso Pequito, quintos avós de Joaquina.
Maria Afonso e Manuel Afonso Pequito tiveram vários filhos. Um deles, Manuel Afonso Pequito como o pai, foi ascendente de Joaquina Enes do Carmo e de João Cotrim de Figueiredo.
Outra filha de Manuel e Maria deu origem a outro ramo familiar. Domingas Afonso Pequito teve um filho de pai incógnito a que deu o mesmo nome do irmão e do pai.
A partir dali, é possível traçar uma linha até Maria Afonso Pequito, nascida no início do século XIX em Carreço, Viana do Castelo, bisneta de Domingas.
Ali, Maria casou-se com Joaquim Pires de Lima, nascido igualmente na freguesia de Carreço, filho de Francisco Gonçalves de Lima e de Maria Pires.
A junção desses dois apelidos, Pires e Lima, manter-se-ia inalterável durante seis gerações — até ao nascimento, em Lisboa, em 1962, de António Pires de Lima.
O antigo ministro da Economia de Passos Coelho e antigo dirigente do CDS é primo de João Cotrim de Figueiredo por ambos partilharem um casal de oitavos avós.
Além de André Ventura, João Cotrim de Figueiredo é ainda primo de outro dos seus adversários nas eleições presidenciais.
Para o encontrar é preciso voltar a subir na ascendência paterna de Cotrim de Figueiredo, concretamente regressando a António Pinto Figueiredo, o bisavô da empresa de cabides.
Subindo pela ascendência de António, chegamos até Manuel Fernandes e Maria Lourença, conhecida como “a Branca”, nascidos no final do século XVII.
Os dois são oitavos avós de Cotrim, através de Francisco, filho do casal.
Mas Manuel e Maria tiveram outro filho, Manuel Fernandes, que se tornou padre.
O padre Manuel Fernandes teve uma relação com Joana de Figueiredo, de quem teve uma filha: Teodora de Figueiredo.
A partir de Teodora, é possível traçar uma linha familiar que conduz ao pai de Henrique Gouveia e Melo, nascido em Mangualde em 1922.
A árvore genealógica de João Cotrim de Figueiredo, traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia para o Observador, permite-nos identificar 92 ascendentes do candidato liberal, encontrar as origens do seu apelido mais célebre num fidalgo inglês do século XIV e reconstituir múltiplas linhas familiares que se cruzaram ao longo da história até ao nascimento de Cotrim.
O próprio tem sublinhado a relevância das suas raízes familiares na construção do seu perfil político — desde a empresa de cabides do bisavô onde teve o seu primeiro emprego até à avó materna que lhe transmitiu os primeiros princípios. Mas, além das raízes ancestrais, uma árvore com um recuo suficientemente longo permite também identificar ligações familiares com primos famosos distantes, antepassados célebres e importantes episódios históricos.
Além de familiares, dois desses “famosos” também são, como já vimos, adversários de João Cotrim de Figueiredo na corrida às presidenciais de janeiro de 2026. Ao Observador, num tom mais leve, depois de ser confrontado com as suas raízes, o candidato admite que, num cenário de segunda volta entre primos, algum deles terá de desistir a favor do outro — mas garante que não será ele a abandonar a luta.