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Ciberataques, drones e sabotagem.
A guerra híbrida da Rússia
contra a Europa

Em toda a Europa, a guerra híbrida russa já gerou o caos. O Kremlin pretende diminuir apoio à Ucrânia e punir os países que enviam armas, numa vaga de táticas assimétricas que deverá intensificar-se.

As condutas rebentaram sem explicação aparente. Num dia frio de meados de dezembro de 2024, a estação de tratamento de água de Tureby Alkestrup, no sudoeste de Copenhaga, colapsou e deixou centenas de habitações na região sem água. Enquanto as equipas técnicas reparavam a rede, as autoridades perceberam que se tinha tratado de um ciberataque: alguns hackers tinham acedido aos sistemas de controlo da central para manipular a pressão e provocar a rutura física das tubagens.

Avistamento de drones. Sabotagem em infraestruturas críticas. Ciberataques como este. Não é só a Dinamarca — um dos maiores apoiantes da Ucrânia na Europa — que tem sido alvo desta guerra híbrida levada a cabo pela Rússia. Vários países europeus têm registado episódios idênticos. Neste caso, os serviços secretos dinamarqueses conseguiram identificar os culpados. Mas nem sempre é assim. Difusos, difíceis de prever e quase nunca reivindicados, estes ataques têm-se multiplicado em toda a Europa.

Não são ataques fatais nem declarações abertas de guerra, mas a estratégia cumpre um propósito em particular: criar constrangimentos e gerar caos. Na Dinamarca, centenas de cidadãos ficaram sem água durante horas por causa do rebentamento das condutas. Quando um drone surge perto de um aeroporto comercial, os voos são cancelados. Um incêndio numa fábrica de munições destrói equipamento militar e gera prejuízos milionários. A passagem de navios russos suspeitos faz soar os alarmes e mobiliza de imediato as forças marítimas.

Cunhado em 2007 pelo antigo conselheiro do Pentágono Frank Hoffman, o conceito de “guerra híbrida” descreve a “mistura da letalidade dos conflitos entre Estados com o fervor fanático da guerra irregular”. Por outras palavras, um país emprega táticas assimétricas para desestabilizar os seus rivais internamente, sem que lhe possa ser imputada a responsabilidade direta. Esta estratégia leva a que, na maioria dos casos, o verdadeiro autor do ataque permaneça nas sombras.

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Como a Rússia desenvolve a guerra híbrida?

Ele era um professor de danças latinas cubano. Apresentava-se apenas pelo nome Dios. Nada parecia adivinhar que, por trás da fachada de bailarino, este homem geria uma rede de recrutamento para operações de sabotagem na Europa. Fora dos salões de baile, Oemis Romagoza Durruthy publicava anúncios em grupos de redes sociais direcionados a latino-americanos que viviam na Rússia, procurando pessoas com experiência militar a quem prometia um pagamento de 1300 euros e bónus financeiros.

Luis Alfonso Murillo Diosa foi um dos homens aliciados por Dios. Sabendo dos seus antecedentes militares, o professor de dança instruiu o colombiano a realizar operações em solo europeu. Oemis Romagoza Durruthy pagou-lhe o voo, o alojamento e o transporte até Bucareste, onde teria de deflagrar incêndios em locais estratégicos da capital romena. O plano fracassou: o colombiano acabou detido e condenado a uma pena de prisão de seis anos. Já o cubano, responsável por recrutar vários operacionais para semear o caos em pelo menos quatro países na Europa, continua em liberdade e na Rússia, como apurou a Deutsche Welle.

Ninguém esperaria que um colombiano atacasse um ponto estratégico de um país europeu. Mas é precisamente essa a estratégia russa para conduzir esta guerra híbrida: recrutar outsiders vulneráveis, movidos por dinheiro ou por razões ideológicas. Na maior parte das vezes, o recrutamento é à distância e através das redes sociais. Não são apenas os ataques — como um incêndio num depósito de armas em Bucareste — que se revelam difusos e difíceis de antecipar. Os próprios autores constituem, muitas vezes, um enigma para as autoridades.

Foi também a mando de Dios que, na Lituânia, uma fábrica que produz armamento com destino à Ucrânia esteve prestes a ser consumida pelas chamas em meados de 2024. Oemis Romagoza Durruthy convenceu a cubana Yexenia Lopez Cabrera a viajar até ao país báltico para atear um incêndio nas instalações, mas a mulher acabou detida pelas autoridades. E este é mais um dos padrões desta guerra híbrida: as operações não são normalmente executadas por espiões treinados, mas sim por cidadãos comuns ou pessoas com alguma experiência no mundo do crime.

Em declarações ao Observador, Sascha-Dominik Dov Bachmann, professor de Direito e Segurança na Universidade de Canberra, afirma que a Rússia está a “intensificar as operações no âmbito da guerra híbrida” na Europa com o recurso a estes cidadãos. As principais táticas? “Sabotagem, incêndios criminosos, ataques cibernéticos destinados a centros logísticos e infraestruturas críticas, bem como incursões no espaço aéreo e marítimo”. O especialista realça que estes ataques não usam armas diretamente, ainda que possam ter o “potencial de provocar um incidente com múltiplas vítimas”.

Mesmo assim, a Rússia não recorre à guerra híbrida para arrastar a Europa ou a NATO para um confronto direto. O Kremlin já declarou por várias vezes que não deseja esse cenário, ainda para mais num contexto em que as tropas russas continuam a lutar há quatro anos e meio para conquistar a região ucraniana do Donbass. O objetivo parece ser outro: testar os limites de resposta do Ocidente, semear a divisão interna e fazer a opinião pública europeia sentir o custo real do apoio prestado a Kiev.

 

2024. O ano em que a Rússia começou a mostrar verdadeiramente as garras na Europa

Unidade 29155 do GRU, o serviço de informações militares russo. Foi a esta secção das secretas de Moscovo que as autoridades checas atribuíram as explosões num depósito de munições em Vrbětice, no final de 2014 — o ano em que a Rússia anexou a Crimeia e deu início ao braço de ferro com o Ocidente. O presidente russo, Vladimir Putin, um antigo agente do KGB e ex-diretor do Serviço Federal de Segurança (FSB), mostrava assim que podia recorrer a táticas de guerra híbrida num estado-membro NATO e da União Europeia. Em 2007, o Kremlin já tinha dado um primeiro aviso ao paralisar a economia da Estónia através de um ciberataque em massa.

Em 2022, a invasão da Ucrânia azedou as relações entre o Ocidente e a Rússia. A atitude de business as usual que prevaleceu após a anexação da Crimeia chegou ao fim. A insatisfação pragmática dava lugar a uma hostilidade declarada. Os países europeus impuseram sanções sem precedentes ao regime liderado por Vladimir Putin e enviaram apoio militar massivo para a Ucrânia se defender.

Do lado do Kremlin, a reação ao Ocidente foi imediata — foram expulsos diplomatas, criou-se uma lista de países hostis e aplicaram-se sanções. Porém, a prioridade inicial de Moscovo era conquistar a Ucrânia e derrubar o governo em Kiev. Uma resposta direta à Europa ficou em segundo plano nos primeiros momentos da invasão, ainda que a retórica subisse de tom. Em 2023, o fracasso da contraofensiva ucraniana deu o mote para a realidade que ainda se mantém no teatro de operações: uma longa guerra de atrito pela conquista do Donbass.

Ukrainian frontline in Donbass

A guerra na região do Donbass mantém-se num impasse desde 2022.

Anadolu Agency via Getty Images

Pequenos avanços, conquistas de aldeias e ofensivas localizadas. Desde 2023, os ganhos territoriais russos no terreno têm sido residuais. Neste contexto, a Rússia entendeu que, para vencer a guerra, precisa de retirar o apoio ocidental à Ucrânia. Nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump em 2024 foi importante para alcançar esse objetivo. Mas não foi suficiente: através da NATO, os países europeus passaram a financiar o esforço de guerra ucraniano. A Europa transformou-se, assim, no principal obstáculo para o Kremlin concluir a conquista do Donbass — e daí a necessidade de redobrar as ações de guerra híbrida em solo europeu.

Ao Observador, Alexander Lanoszka, professor de Relações Internacionais na Universidade canadiana de Waterloo, confirma que a Rússia já empregava táticas de guerra híbrida “antes de 2022”. “Mas o ritmo operacional parece ter aumentado consideravelmente”, assinala. Nos últimos dois anos, da Estónia a França, praticamente todos os países europeus foram alvo da guerra híbrida russa. E, segundo os especialistas ouvidos pelo Observador, este conflito assimétrico não dá sinais de abrandar.

 

O que pretende a Rússia com a guerra híbrida?

Itália acolheu os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 em Milão e Cortina d’Ampezzo. O evento, no qual os atletas russos continuaram a ser obrigados a competir sob bandeira neutra, atraiu atenções mundiais. Logo no dia da cerimónia de abertura, hackers tentaram criar constrangimentos à organização do evento. A tentativa falhou, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, deixou o recado e denunciou que Moscovo tentou semear o caos na competição.

Outros grandes eventos organizados na Europa, dos quais a Rússia foi excluída, têm sido alvo de investidas semelhantes. Moscovo parece agir sem receio de qualquer retaliação. O que motiva, afinal, este comportamento do Kremlin? Alexander Lanoszka explica que é “consensual” que a Rússia atua desta forma porque as “consequências não têm sido suficientemente graves, uma vez que as autoridades europeias tendem a adotar uma postura reativa”. Evitando responder na mesma moeda, a Europa demonstra não querer entrar num confronto direto com a Rússia. Além disso, a natureza difusa dos ataques torna extremamente difícil calcular onde fica a verdadeira linha vermelha do conflito.

“A Rússia percebe as oportunidades. A Europa é um espaço relativamente aberto, onde existem muitos pontos vulneráveis”, prossegue o especialista. Não existe um comando único para coordenação de operações que, por sua vez, também são bastante diversas: um ciberataque numa central de tratamento de águas na Dinamarca não motiva a mesma resposta que o avistamento de drones em aeroportos belgas, como aconteceu no final de 2025.

Um conjunto de oportunidades para desestabilizar o Ocidente perante o qual não existe uma resposta articulada. O cenário é ideal para a Rússia mostrar a sua “insatisfação”, observa Alexander Lanoszka. “O Kremlin deseja punir os países ocidentais pelo apoio político e militar à Ucrânia, porque considera isso iniciativas antirrussas”, refere o especialista, acrescentando que “os dirigentes russos talvez esperem que o efeito cumulativo destas atividades enfraqueça a determinação e a capacidade do Ocidente”.

No entanto, o professor universitário salienta que, no seio da atual doutrina militar russa, não existe uma noção de “guerra híbrida” tal como é interpretada no Ocidente. “É uma construção ocidental”, enfatiza. “As conceções russas de guerra e dissuasão diferem das que temos no Ocidente. Por um lado, há uma maior indefinição entre aquilo a que chamamos paz e guerra; por outro, a dissuasão envolve não só a articulação de ameaças, mas também ações destinadas a fomentar o medo e impedir que um adversário avance.”

Isto não significa que a Rússia não leve a cabo uma guerra híbrida contra a Europa — o conceito aplica-se na visão de vários especialistas. Significa apenas que os russos interpretam a questão de uma maneira diferente. “Os líderes russos veem-se já numa guerra contra o Ocidente, mesmo que exista a perspetiva no Ocidente de que estamos apenas num estado de crescente confronto”, destrinça Alexander Lanoszka.

Neste estado de conflito — ainda que indireto — a Rússia sente-se, por isso, legitimada a empregar todos os métodos ao seu alcance contra aqueles países que define como inimigos. “Existe uma assimetria sobre o estado atual das hostilidades entre os dois lados. Os líderes russos estão mais preparados psicologicamente e mais determinados a correr riscos — particularmente no que diz respeito a ações ofensivas — do que os líderes ocidentais estão menos dispostos a assumir”, aclara o professor na Universidade de Waterloo.

O equilíbrio da estratégia russa, ainda assim, é particularmente complexo: pretende evitar a todo o custo desencadear uma resposta direta da NATO como a ativação do artigo 5.º do Tratado de Washington, ao mesmo tempo que mina a coesão europeia e gera o caos nas infraestruturas do Ocidente.

 

Como a guerra híbrida pode ser um sinal de que a Rússia não se está a sair bem na Ucrânia em 2026

Skyeton. Este é o nome de uma das fabricantes ucranianas de drones, responsável pela produção de equipamento militar de vanguarda. A sede fica em Kiev, mas a empresa mantém parceiros e sucursais por toda a Europa. Um dos países em que desenvolve atividade é a Eslováquia. Apesar de o país ser liderado pelo primeiro-ministro Robert Fico — com histórico de adotar posições pró-russas —, a Skyeton mantém uma unidade de produção ativa perto da cidade eslovaca de Prešov.

No final de agosto de 2026, as autoridades eslovacas evitaram que deflagrasse um fogo na fábrica de Prešov. Três suspeitos foram detidos após o crime, depois de terem fugido, incluindo um cidadão letão de 26 anos que tinha escapado para a Alemanha. O crime ainda está a ser investigado pelas autoridades. Contudo, a Skyeton não tem dúvidas: foi a Rússia que esteve por trás. “Os russos tentam regularmente atacar as nossas fábricas na Ucrânia. Esta investida na Eslováquia é mais uma prova de que os fabricantes ucranianos do setor da defesa se tornaram um verdadeiro espinho no pé do Kremlin.”

O contexto atual do conflito explica a razão pela qual a Rússia atacou uma fábrica de drones. O país tem sido atacado por drones pela Ucrânia a um ritmo diário, o que tem gerado vários constrangimentos à vida dos russos e nas cadeias de abastecimento do país. Ao longo de 2026, embora sem quebrar o impasse na linha de frente no Donbass, Kiev tem feito esforços consistentes para levar o impacto da guerra para solo russo — uma dinâmica que tem simultaneamente intensificado a guerra híbrida na Europa.

epa13173579 A person (C-L) stands among graves at a cemetery as smoke rises above a Wildberries facility (back) following a reported Ukrainian drone strike at the Koledino Industrial Park near Podolsk, Moscow Region, Russia, 16 August 2026. Moscow Region Governor Andrei Vorobyov reported that an overnight drone attack ignited a major fire at a warehouse belonging to Russia&#039;s largest online retailer Wildberries, adding that no employees were injured at the site.  EPA/STRINGER

Ataque com um drone ucraniano a um armazém logístico russo na região de Ryazan.

STRINGER/EPA

Ao Observador, Jakub Janda, diretor do Centro de Valores Europeus para a Política de Segurança na Chéquia, assinala que os ataques como o que visou as instalações na Eslováquia pretendem “diminuir o apoio material dos países da NATO à defesa da Ucrânia”. “É por isso que a Rússia ataca a indústria de defesa europeia”, sustenta o especialista.

Em simultâneo, Mitchell Orensetin, professor de Estudos Russos e do Leste Europeu na Universidade da Pensilvânia, defende ao Observador que a guerra híbrida contra a Europa é uma prova de que a Rússia “não está a ganhar a guerra na linha da frente”. No teatro das operações, os avanços são realmente muito lentos. Por essa razão, Vladimir Putin tenta vencer o conflito “ao assustar as potências ocidentais”, ao mesmo tempo que procura “aterrorizar a Ucrânia” para a forçar à “submissão”.

Em 2026, a dinâmica dentro da Rússia também se alterou. Dentro de fronteiras, a contestação ao conflito tornou-se mais visível. Ainda que o Kremlin mantenha um controlo férreo sobre qualquer oposição pública, a longevidade da guerra, o aumento do custo de vida e o impacto dos ataques ucranianos em solo russo fizeram multiplicar as críticas à ofensiva. Continuam em surdina, mas ganham uma escala cada vez mais percetível.

Por estes motivos, Mitchell Orenstein descreve a guerra na Ucrânia como uma “guerra de Putin”. “A Rússia não precisa mais dela, mas Putin precisa. Um fracasso levaria à sua queda do poder mais cedo ou mais tarde”, sublinha. Tendo em conta que a permanência do poder do chefe de Estado está ligada ao sucesso ou fracasso da ofensiva, todos os métodos para sabotar o esforço de guerra ucraniano são lícitos — incluindo a guerra híbrida.

Para já, a tática da guerra híbrida não tem sido eficaz, acredita o professor universitário. Aliás, até está a produzir o efeito oposto: “A Europa está a rearmar-se” e não tem retirado o apoio à Ucrânia. “No entanto, a lição que Putin retirou disso é que as suas táticas de intimidação não estão a funcionar — e precisam de ser intensificadas, por exemplo, enviando drones para aeródromos alemães e similares. O objetivo é assustar o Ocidente e incentivar os eleitores a escolherem partidos pró-Rússia nas próximas eleições”, analisa Mitchell Orensetin.

 

A vertente psicológica e ideológica da guerra híbrida russa

O aeroporto de Leipzig-Halle é uma das principais infraestruturas aéreas comerciais do leste da Alemanha, servindo os estados da Saxónia e de Saxónia-Anhalt. Detém ainda um papel estratégico no transporte de carga e na logística militar. No início de agosto, foi detetado um drone carregado com explosivos perto do aeroporto — utilizado pela NATO como uma das principais vias para o envio de armamento, munições e equipamento militar para a Ucrânia.

As autoridades da Alemanha investigaram o incidente durante um mês. No início de setembro, apontaram diretamente o dedo à Rússia. Em resposta, o chanceler alemão, Friedrich Merz, ordenou o encerramento do consulado russo em Bona e da Casa Russa — um centro cultural — em Berlim. Contudo, o tema entrou na campanha eleitoral numas eleições regionais: as medidas foram tomadas na mesma semana em que o estado da Saxónia-Anhalt foi a votos.

Na política alemã, a Alternativa para a Alemanha (AfD) obtém resultados eleitorais particularmente fortes no Leste da Alemanha, precisamente a região onde se insere o aeroporto de Leipzig-Halle. Na Saxónia-Anhalt, o partido de extrema-direita poderia obter uma maioria absoluta no parlamento regional e governar a sós a região. O incidente no aeroporto aconteceu um mês antes, e poderia beneficiar um partido que nunca escondeu as posições alinhadas com Moscovo.

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Aeroporto de Leipzig, no leste da Alemanha, onde foi encontrado um drone carregado com explosivos.

dpa/picture alliance via Getty I

A guerra híbrida também pode servir para isso, como apontam os especialistas ouvidos pelo Observador: gerar o caos e beneficiar partidos pró-russos. Mitchell Orenstein não tem dúvidas de que o Kremlin tem interesse em que a AfD vença as eleições federais na Alemanha, dado que é um partido que “deseja forçar a Ucrânia a uma paz nos termos russos”. A líder da extrema-direita alemã, Alice Weidel, já deu a entender que essa é a solução para terminar a guerra e até sugeriu que a Ucrânia pode ter de pagar “compensações” a Berlim pelo apoio militar enviado.

Na opinião de Holger Mölder, professor de Relações Internacionais e Segurança Internacional na Universidade de Tecnologia de Tallinn, a Rússia padece de uma “falta de grande estratégia ou visão”, ao contrário de outras potências. Não existe um plano a longo prazo: Moscovo sabe que a China e os Estados Unidos são os verdadeiros pólos da comunidade internacional. Ao Observador, o especialista sinaliza que, por esse motivo, o “objetivo principal” do regime russo consiste em conquistar a Ucrânia, ao mesmo tempo que “enfraquece adversários, cria instabilidade interna em países europeus e destrói a União Europeia e a NATO”.

Um país belicista liderado por um Presidente formado no universo dos serviços secretos: é a combinação perfeita para que a Rússia leve a cabo aquilo que Holger Mölder define como uma “guerra multidimensional” — que consiste em “operações de influência, cognitivas e de informação”. Inseridas mais amplamente no contexto da guerra híbrida, estas táticas combinam a propaganda pura com um combate pelo espaço mediático ocidental.

O Presidente russo justifica normalmente o início da invasão com a expansão da NATO para perto das fronteiras da Rússia. Porém, as raízes do conflito são mais profundas. Trata-se antes de uma guerra ideológica, de acordo com a visão de Holger Mölder. O que verdadeiramente ameaça Vladimir Putin é a própria ideia de “democracia liberal ocidental e o seu sistema de valores” — um modelo que coloca em risco direto a sobrevivência do seu regime e o seu longo domínio de mais de duas décadas à frente da Rússia.

Daí que a Rússia, no contexto da guerra híbrida, tenha todo o interesse em levar a cabo ações subversivas que possam ajudar partidos claramente eurocéticos ou desconfiados da Aliança Atlântica. Segundo o professor na Universidade de Tallinn, “isso inclui os ultraconservadores, que partilham valores similares com os círculos do Kremlin, e movimentos de extrema-esquerda, que apoiam a base da tradição histórica soviética”.

“Em última instância, o objetivo é fortalecer a posição russa à custa da fraqueza dos outros”, resume Holger Mölder. A guerra híbrida insere-se precisamente nessa lógica: acaba por enfraquecer os países europeus. Em determinados contextos eleitorais, certas provocações podem resultar em vitórias ou derrotas de partidos pró-russos. E dominar a campanha.

 

E Portugal? Onde fica no meio da guerra híbrida russa?

Pouco após o início da guerra na Ucrânia, Portugal foi incluído na lista de países hostis. O país é, afinal, membro fundador da NATO e pertence à União Europeia — duas organizações vistas com hostilidade pelo Kremlin. No início de setembro, numa entrevista à CNN Portugal, o adido da embaixada da Rússia em Portugal, Aleksei Chekmarev, reforçou a ideia de que Lisboa é uma das capitais “mais hostis” a Moscovo, seguindo as “políticas antirrussas da União Europeia e da NATO”.

Em Portugal, não há até ao momento registo de ataques com a gravidade daqueles que têm afetado outros países europeus e que possam ser atribuídos diretamente a Moscovo. Apesar disso, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025 alerta para o facto de a “Federação da Rússia continuar a recorrer a um extenso leque de meios para obter acessos privilegiados e exercer pressão sobre os seus adversários”.

Durante o ano 2025, o relatório do Sistema de Segurança Interna (SSI) sinaliza que houve “preocupações com a eventual preparação de ações de sabotagem”, particularmente “visando infraestruturas críticas”. Em solo nacional e nas suas águas territoriais portuguesas, o principal ponto de vulnerabilidade são os cabos submarinos de telecomunicações. O SSI recorda que Portugal “constitui um ponto de passagem e de amarração de importantes estruturas deste tipo”, essenciais para o tráfego global de dados.

Mapa mundial de cabos submarinos

Cabos submarinos atravessam todo o mundo, e também passam por águas territoriais portuguesas.

Reprodução Submarine Cable Map

O SSI admitiu a adoção de um “esforço conjunto de prevenção por parte das autoridades nacionais”. No passado recente, os cabos submarinos tornaram-se, aliás, alvos diretos da guerra híbrida russa. Em novembro de 2024, registou-se uma operação sob suspeita de envolvimento russo no Mar Báltico — um incidente que chegou a privar a Lituânia de cerca de 20% da sua capacidade de tráfego de internet.

No início de agosto de 2026, além do ataque na fábrica ucraniana na Eslováquia, registou-se um incêndio e posterior explosão numa fábrica na Bulgária que produzia e enviava munições para a Ucrânia. A empresa admitiu o cenário de sabotagem e está a ser investigada uma eventual autoria russa. De qualquer forma, este risco também pode chegar a Portugal, como dá conta o SSI: as empresas de armamento portuguesas podem vir a ser atacadas.

Nesta senda, o SSI sublinha que “outra dimensão da ameaça” consiste na “sabotagem dirigida a empresas e outras entidades que integram fatores de inovação no material de guerra enviado para a Ucrânia, com o intuito de estribar o desempenho militar ucraniano”. O SSI garante que sensibilizou as empresas nacionais para a questão, sendo que, no início de agosto de 2026, as forças russas abateram um drone de reconhecimento fabricado pela Tekever — uma empresa portuguesa.

O SSI elenca também que outra “abordagem híbrida” da Rússia contra a União Europeia são os ciberataques. “As atividades destes grupos implicam riscos graves de cibersabotagem contra sistemas informáticos de infraestruturas críticas e de gestão industrial e operacional, incluindo alvos portugueses”, lê-se no relatório do RASI, acrescentando que uma das prioridades passa pela “prevenção e identificação precoce deste tipo de ataques cibernéticos”.

Na Dinamarca, em dezembro de 2024, um ciberataque levou a que condutas fossem rebentadas. Mas às vezes os constrangimentos não são tão diretos. Ainda no final de agosto deste ano, várias instituições norueguesas públicas foram alvo de um ciberataque. Mais tarde, um grupo de hackers pró-russos reivindicou a autoria do ataque — e justificou que declarou uma “ciberguerra” à Noruega, dias depois de o país ter fortalecido a sua cooperação militar com a Ucrânia. A prevenção destes episódios está atualmente em curso em Portugal, assegura o SSI.

Hugo Costeira, antigo presidente do Observatório de Segurança Interna, alerta ao Observador que nem sempre é fácil atribuir os ataques híbridos à Rússia. Apesar de não desresponsabilizar o país, o especialista adverte que tem de haver “muito cuidado” do ponto de vista dos serviços de informações para responsabilizar Moscovo. “Requer sempre abordagens muito cuidadosas e muito elaboradas. Nunca vamos ter acesso à informação toda.”

 

A guerra híbrida vai intensificar-se?

Esta sexta-feira, Emmanuel Macron reuniu vários líderes políticos nacionais no Palácio do Eliseu. Da direita à esquerda, o Presidente francês convocou os principais rostos da política em França, país que terá eleições presidenciais no ano que vem. No encontro, foram discutidos assuntos confidenciais dos atuais desafios na área da segurança para o país. O chefe de Estado prestou declarações após a reunião, afirmando que “a ameaça híbrida contra os europeus e contra França intensificou-se”.

Ainda que França não tenha sido o principal alvo da guerra híbrida russa — a Alemanha e os países bálticos registam mais ataques —, Emmanuel Macron anunciou a adoção de medidas para proteger a infraestrutura crítica francesa dos “ataques híbridos” da Rússia. “A natureza da agressividade russa e das ameaças na Europa está a mudar”, avisou o chefe de Estado. Moscovo parece cada vez mais disposto a gerar problemas nos países europeus — e estes alertas têm sido feitos em todo o continente.

Os especialistas ouvidos pelo Observador acreditam que a Rússia deverá redobrar a ofensiva nos próximos tempos. Holger Mölder aponta que é “provável” que tal aconteça. A guerra na linha da frente não avança e os europeus não dão sinais de ceder. “O deteriorar do ambiente de segurança e os avanços tecnológicos estão a criar uma situação em que as táticas assimétricas parecem ser mais eficazes do que um ataque direto convencional”, sustenta o professor universitário em Tallinn.

Por sua vez, Sascha-Dominik Dov Bachmann é categórico: a guerra híbrida vai “absolutamente” intensificar-se. “Quer se chame guerra híbrida ou guerra de sabotagem, a natureza geral da ação agressiva é evidente”, nota o professor universitário. No entanto, o especialista antecipa que a reação europeia continuará a ser pouco firme, afigurando-se pouco realista o cenário de uma resposta mais agressiva por parte do continente. A complacência e as tentativas de mediação promovidas por Donald Trump junto de Vladimir Putin levam a que haja “poucas hipóteses de uma resposta mais forte da NATO apoiada pelos Estados Unidos”.

Além de todos os efeitos que pode provocar na Europa, a intensificação da guerra híbrida poderá ter outro objetivo mais subliminar mas mais perigoso, alerta Jakub Janda. A criação de pontos de pressão e as vagas de sabotagem funcionam como um “teste sobre onde e como as operações terroristas russas podem penetrar na segurança europeia”. O objetivo final? Que a “Rússia consiga planear em detalhe onde atacar com força bruta quando levar a cabo uma escalada estratégica — como uma invasão aos Estados bálticos”.

Até ao momento, a guerra híbrida travada pela Rússia na Europa tem obtido resultados mistos. Tem criado perturbações e focos de tensão em vários países. Como afirma Mitchell Orenstein, “alguns países até podem diminuir o seu apoio à Ucrânia”, ainda que existam múltiplas variáveis em jogo. Apesar disso, Vladimir Putin falhou até agora o principal objetivo: convencer os líderes europeus e a opinião pública ocidental de que uma “grande vitória russa” é inevitável ou até mesmo aceitável.

Pelo contrário, a tese que continua a prevalecer é a de que um triunfo da Rússia na Ucrânia constituiria uma “ameaça para a segurança coletiva” no Ocidente. Apesar de estas táticas não terem surtido o efeito, o Presidente russo não dá sinais de desistir. O Kremlin vai “continuar a assustar o Ocidente”, prevê Mitchell Orenstein. Moscovo considera que tem pouco a perder e que os riscos de retaliação continuam a ser reduzidos, mantendo uma estratégia que pode ainda fortalecer partidos extremistas e abertamente pró-russos, como a AfD.

Incêndios, explosões, drones, sabotagem, ciberataques e tentativas de assassínio. Numa semana são cortados cabos submarinos no Mar Báltico; na outra, ciberataques geram problemas às infraestruturas críticas na Europa. É esta zona cinzenta — marcada por ataques difusos e difíceis de atribuir — que a Rússia promete continuar a explorar nos próximos tempos até alcançar dois grandes objetivos: conquistar territórios na Ucrânia e enfraquecer a NATO e a União Europeia.

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