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“Alguém de Ermesinde
para partilhar a esposa?”
Dentro dos grupos de Telegram
de partilha de imagens íntimas

AVISO

Este artigo contém linguagem e descrições
que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Durante 18 meses, o Observador teve acesso a milhares de mensagens no Telegram, uma rede de troca de mensagens, em que se que pedia, oferecia e trocava fotografias íntimas de mulheres.

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Há quem peça a identificação das mulheres retratadas, os perfis das redes sociais, e até o local onde vivem.

Ao longo deste ano e meio, muitos grupos desapareceram e novos foram criados. Alguns anunciam a partilha de conteúdo de menores de idade, outros, fotografias de celebridades ou de mulheres portuguesas.

“Alguém de Ermesinde
para partilhar a esposa?”
Dentro dos grupos de Telegram
de partilha de imagens íntimas

São fotografias ou vídeos gravados em momentos íntimos ou à revelia e que acabam espalhados em grupos infinitos pela internet sem o conhecimento das vítimas. Elas são namoradas, familiares, amigas, conhecidas ou pessoas famosas. Em muitos chats, chega a haver subtópicos: “Espiar wc”, “Cuequinhas usadas”, “Esposas”.

Há fotografias de mulheres com roupa normal, com roupa interior ou nuas. Durante o ato sexual ou em ambientes públicos, como na praia ou no supermercado. Alguns utilizadores pedem comentários sobre determinada pessoa e chegam até a combinar videochamadas entre si.

Margarida foi parar a um destes grupos.

No inverno de 2020, Margarida tinha acabado de fazer dezoito anos quando recebeu uma mensagem no Instagram. Era uma captura de ecrã que mostrava uma fotografia que não lhe era estranha. Nela, Margarida posava em frente a um espelho, de biquíni, e com o peito tapado por um braço. Lembra-se desse momento. Tinha publicado a imagem numa “story” de Instagram durante as férias de verão.

Meses mais tarde, a imagem estava a ser partilhada num grupo de Telegram com milhares de membros, dedicado exclusivamente à troca de conteúdo sexual ilícito.

O maior grupo que o Observador encontrou, e cujos membros tinham como objetivo a troca de imagens íntimas de forma não consentida, juntava mais de 100 mil participantes. Para além deste, que entretanto foi fechado, entrámos em mais 14 grupos semelhantes. Em 2025, o Telegram já bloqueou mais de 524.733 grupos e canais. Contudo, as medidas da plataforma para prevenir a circulação deste tipo de conteúdo foram sendo tomadas lentamente. Quando o Observador iniciou esta investigação, a aplicação apenas proibia a divulgação de pornografia ilegal dentro da União Europeia. Agora, esta proibição estende-se a todo o mundo.

A “caça” aos grupos de Telegram tornou o acesso mais difícil, mas não acabou com eles. Se antes bastava um convite para ter acesso, agora, há grupos onde é preciso pagar a entrada.

A reportagem do Observador entrou em vários grupos de Telegram para partilha de imagens íntimas de forma ilegal, mas esta não é a única plataforma utilizada para este fim. As redes sociais como o Instagram ou o Facebook ou fóruns de discussão online como o Reddit também são utilizados. Quando os perfis ou as conversas são denunciados, são eliminados pelas plataformas, mas os utilizadores encontram maneiras de contornar as proibições.

Margarida:
“Na cabeça deles,
nós pusemo-nos a jeito”

 
“Na cabeça deles, eles não estavam a fazer nada ilegal porque fomos nós que nos pusemos a jeito e eles, como homens e como pessoas que têm olhos, acham que têm o direito de poder partilhar as fotos e fazer o que quiserem com elas. Mesmo que seja um crime.”
Margarida

Margarida sentiu-se revoltada por saber que a sua fotografia estava a circular e decidiu “não se esconder”. Denunciou e expôs nas redes sociais o que se passava naqueles grupos. Mas isso tornou-a um alvo a abater. Agora com 24 anos e a trabalhar num café, Margarida ainda recorda: “Faziam questão de estar sempre a falar de mim porque sabiam que eu estava a expor aquilo, que eu estava a ver os grupos.”

A partir daí, começou a ter medo de sair à rua. Podia “aparecer alguém, agarrar-te e levar-te para um canto e fazer-te mil e uma barbaridades só porque se acham no direito disso”, conta.

O sentimento de perseguição prolongou-se durante meses e a jovem acabou por recorrer a um psicólogo.

Ricardo:
“Não sabia como
é que ia sair de casa”

Ricardo (nome fictício) tinha acabado de chegar ao trabalho, naquela manhã de 2021, quando foi chamado pelos coordenadores. Para a sua chefia, tinha sido enviado um e-mail que continha duas fotografias íntimas.

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Ricardo tinha 21 anos e sabia que estava a ser vítima de um crime.

A partilha de conteúdos íntimos de forma não consentida não é um crime novo. Mas a sua autonomização apenas aconteceu em maio de 2023. O Artigo 193.º do Código Penal prevê que “quem, sem consentimento, disseminar ou contribuir para disseminação” através da internet ou de outros meios, de conteúdos que “devassem a vida privada das pessoas, designadamente a intimidade da vida familiar ou sexual, é punido com pena de prisão até 5 anos”. Em outubro de 2025, para além de ter sido constituído crime público contra a liberdade sexual, o Parlamento aprovou um alargamento de medidas que visam uma maior proteção das vítimas, não só no caso da divulgação dos conteúdos mas também sobre a sua produção de forma não consentida.

No perfil das vítimas traçado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, quem sofre deste tipo de crime é, normalmente, também vítima de outros crimes adjacentes, como por exemplo extorsão ou roubo de identidade. Foi o que aconteceu com Ricardo.

Ricardo tem hoje 23 anos e ainda trabalha na mesma empresa como gestor de eventos, mas recorda-se que meses antes de ter sido chamado pelos chefes ao gabinete descobriu que alguém se estava a fazer passar por si em várias plataformas. Tinham sido criados perfis com o seu nome no Tinder e no Grindr, duas aplicações de encontros, mas também no Instagram e no Twitter.

Ricardo sabia que o responsável era o ex-namorado, com quem não falava desde que tinha acabado a relação.

Nas mensagens trocadas através dos perfis falsos, eram partilhadas fotografias íntimas, o número de telemóvel e a morada de Ricardo. O WhatsApp dele foi inundado de mensagens e de chamadas de pessoas desconhecidas. Começou a dormir com o telemóvel desligado. Mas a campainha também começou a tocar. “Tinha homens a bater-me à porta de casa porque tinham combinado encontros sexuais comigo”, revela.

Quando atendia a campainha, explicava que não conhecia a pessoa que o procurava. As reações deixaram Ricardo a sentir-se em perigo constantemente.

Uma vez, foi abordado por um desconhecido durante um festival de verão. “Ia a andar e um rapaz agarrou-me no braço”. Disse-lhe: “Agora já não podes desaparecer”. “Fiquei confuso, o rapaz estava com uma postura muito agressiva, alguém se tinha feito passar por mim no Instagram, conversado e combinado coisas com ele para depois o deixar pendurado”.

Ricardo também começou a ter medo de andar na rua sozinho. “Podia simplesmente estar um dia na rua, levar um enxerto de porrada e não saber o que se passava”.

“Houve uma altura particularmente pesada, no verão, quando foi partilhado um vídeo”, conta. A vida íntima de Ricardo começava a aparecer também no Twitter e em sites de pornografia.

 

A gravação do vídeo foi consentida, mas Ricardo lembra-se de o ter apagado do telemóvel no mesmo dia. “O que me custou mais foi ver uma coisa que achava que já não existia”, confessa. O jovem deixou de dormir no quarto onde tinha sido gravado aquele momento.

Quando Ricardo atingiu o limite decidiu pedir ajuda à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e foi aconselhado a fazer queixa às autoridades.

A associação dispõe de meios privilegiados para ajudar a remover conteúdos ilegais online através da Linha Internet Segura (LIS), que está disponível 24 horas por dia.

Carolina Soares, da Linha Internet Segura, explica que a APAV tem, por exemplo, “um canal mais direto de comunicação” com as plataformas de forma a conseguir remover o conteúdo no prazo de um dia, na maioria dos casos. Depois, seguem-se outras etapas: ajudar a vítima a obter apoio psicológico e jurídico.

Entre as vítimas identificadas pela APAV, há também menores de idade. “A vítima mais nova que tivemos tinha oito anos... E até aos 17 vamos tendo muitas”, revela Carolina Soares.

 

Ricardo apresentou queixa às autoridades em abril de 2021. Mas a situação foi-se agravando. Considera que o seu caso foi negligenciado.

 

“Lembro-me de chegar à PJ e a inspetora dizer que há dois meses que andava a tentar falar comigo para a devolução do telemóvel e de eu andar há seis meses a tentar perceber se eles já tinham alguma novidade e ninguém saber dizer nada”

 

“Lembro-me de ir ao DIAP e de começar a chorar dentro do edifício, porque eles mandavam-me para quatro sítios diferentes e ninguém sabia dizer nada sobre o meu caso.”

As queixas na polícia não intimidaram o agressor. O vídeo continuou a ser partilhado em sites de pornografia até outubro do ano passado. “Não parou de fazer as coisas que fez por causa da justiça, mas sim porque o meu namorado conhecia o tio dele e foi o tio dele que interveio”, conta.

Mais de três anos depois, Ricardo foi informado de que o caso vai a julgamento, mas continua sem saber quando. Nos despacho de acusação a que o Observador teve acesso, o Ministério Público requer ao Tribunal da Comarca de Lisboa que o arguido seja condenado a pagar uma multa de seis euros por dia durante 140 dias, num total de 840 euros. “Sinto-me frustrado, só continuo com o processo para que isto fique no registo criminal dele e, caso volte a fazer isto a outra a pessoa, essa possa ter mais sorte e sejam mais competentes do que foram comigo”.

Mesmo com apoio profissional, Ricardo nunca chegou a sentir-se à vontade para conversar sobre o crime de que foi vítima. “Tentava sempre contornar e mostrar alguma indiferença para aquilo não me consumir”, confessa. Aceita contar a sua história, mas sem revelar a sua verdadeira identidade. “Se começarmos a partilhar as nossas histórias, talvez as pessoas sintam que existe um espaço seguro para serem ouvidas e não se isolem. Eu sei que tive muito apoio, mas sei que muitas pessoas não têm esse privilégio”.

Joana:
“Se me deixares,
coloco as fotos na internet”

 

Em 2017, quando tinha 22 anos, Joana emigrou para a Suíça. Lá, começou uma relação com um colega de trabalho.

 

Decidiram ir viver para a Alemanha e a relação rapidamente ganhou contornos abusivos. Joana era vigiada: o namorado invadia as suas redes sociais e traduzia todas as conversas, mesmo as que tinha com a mãe.

 

Às vezes, embriagavam-se em casa à noite. Joana sentia-se “obrigada a beber”. E numa dessas noites foram tiradas fotografias íntimas suas.

 

“Eu digo que me obrigava a beber porque eu tinha duas opções: ou bebia ou levava. Portanto, preferia beber. Preferia beber, porque no dia a seguir tinha uma dor de cabeça e não sabia o que é que tinha acontecido. E era melhor isso do que ficar com umas quantas nódoas negras no corpo.”

Joana (nome fictício), para além de ter sido vítima de partilha de imagens suas com conteúdo sexual de forma não consentida, foi também vítima de violência doméstica. Quando tentou pôr fim à relação, Joana descobriu a existência das fotografias, captadas enquanto estava embriagada ou inconsciente. Exigiu — imediatamente — que fossem eliminadas. Recebeu uma chantagem como resposta: “Se me deixares, coloco as fotos na internet”.

Joana recebia fotografias de muitos órgãos sexuais, de vários homens, e numa das vezes resolveu responder e perguntar porque estava a receber aquelas mensagens. Foi aí que teve acesso a um link.

 

“Tinha fotografias minhas em lingerie, tinha fotografias minhas amarrada na cama. Tinha fotografias minhas a beber sem roupa. Foi muito assustador”

O fim da relação acabou por chegar e Joana ameaçou o ex-namorado de que, se as fotografias não fossem eliminadas, iria à polícia. “Elimino se tu voltares para mim”, respondeu ele. Joana não voltou atrás e as suas fotografias íntimas continuaram a ser partilhadas até chegarem ao conhecimento da própria mãe. “Ele mandou uma mensagem à minha mãe a dizer que eu era uma puta e que lhe tinha destruído a vida.” Passado pouco tempo, descobriu que o perfil com as suas fotos íntimas tinha sido ativado outra vez. Foi aí que cumpriu a promessa: levou o caso à polícia.

 

“Retiraram-lhe o telemóvel, o computador, todos os dispositivos eletrónicos, e levaram-no para a esquadra”. As queixas que Joana apresentou confirmaram-se: os dispositivos eletrónicos tinham fotografias íntimas dela. E deu-se início a um processo judicial.

Ao contrário do relato que Ricardo faz sobre como o seu caso foi acompanhado em Portugal, Joana considera que as autoridades suíças “foram sempre muito prestáveis”. Como não sabia falar alemão, providenciaram uma tradutora assim que apresentou queixa. “Tiveram cuidado para que fosse uma mulher”, salienta. “Viram as minhas fotografias com a minha autorização, mas nunca as viram à minha frente”.

Três meses mais tarde, Joana conheceu a sentença. Pelos maus tratos e pela partilha das imagens íntimas, seria indemnizada em 9 mil francos, cerca de 9.300 euros. O seu ex-namorado foi também obrigado a pagar ao Estado suíço todos os gastos com o processo — uma quantia que terá ficado à volta de 5 mil francos — e a manter-se afastado da jovem.

Nessa altura, Joana já estava a viver em Portugal. Estava livre, mas nem os nove mil francos e uma ordem de restrição lhe apaziguaram o espírito. Hoje, com 29 anos e a trabalhar como administrativa numa escola de condução, a vida já parece diferente. Mas não deixa de recordar como foi difícil: “Tive muito medo. Quando cheguei a Portugal, não saía de casa sozinha.”

Carolina:
“Fizeram um Facebook
com a tua fotografia nua”

Em 2011, Carolina ia a meio do último ano do ensino secundário, tinha 17 anos. Estava na festa de aniversário da irmã quando a sua vida mudou.

Carolina conta que, até o perfil falso desaparecer, foi “uma coisa muito rápida”, que durou “cerca de 45 minutos a uma hora”. Mas este tempo foi suficiente para que o seu corpo nu fosse exposto perante a família, os amigos e os colegas da escola.

Carolina não sabe quem foi o autor da página de Facebook, mas sabe para quem tinha enviado a fotografia. Falou com ele. “Garantiu que não tinha sido ele, mas disse-me para quem é que a mandou”, recorda. Segundo a vítima, “passados quatro ou cinco anos”, continuava a haver pessoas com acesso à fotografia. “Se o agressor quiser que aquela imagem circule para sempre, consegue”, começa por dizer Carolina Soares, gestora da Linha Internet Segura da APAV. “Porque consegue estar sempre a publicá-la em grupos diferentes.”

Mas, ao contrário do que acontecia em 2011, quando Carolina foi vítima deste crime, agora os prestadores de serviços são obrigados a comunicar ao Ministério Público quando detetarem conteúdos que possam constituir crime, “nomeadamente de pornografia de menores” ou “crime de devassa da intimidade sexual ou corporal”. Para além disso, as plataformas ficam também obrigadas a avaliar os conteúdos que forem denunciados pelos utilizadores, e a retirá-los num prazo de 48 horas.

 

Duas semanas depois da primeira partilha, quando regressou da viagem de finalistas, circulava um vídeo entre as pessoas da vila. Continha imagens de cariz sexual explícito, mas “não se via a cara nem se conseguia identificar de forma nenhuma quem era”.

 

Todos à sua volta acreditaram que tinha sido Carolina a autora do vídeo que já era viral na ilha da Madeira.

 

“Se apareceste nua na internet, também foste tu que fizeste o vídeo”, diziam a Carolina. “Não houve sequer hipótese para desconfianças. Por muito que eu dissesse que não era eu, que não tinha sido eu, não adiantava. Acho que até hoje não adianta.”

O telemóvel passou a tocar constantemente. As chamadas de números anónimos eram permanentes. E só oito anos depois, em 2019, começaram a desaparecer. Carolina atendia e normalmente ficava calada a ouvir. Chegou a reconhecer as vozes de colegas da escola.

“Não tive apoio absolutamente nenhum”, afirma. A jovem relembra que a chamaram ao Conselho Executivo da escola e a recomendação foi para ignorar o que se estava a passar. “Não fale mais nisso, vai acabar por desaparecer da sua vida”, disseram-lhe. 12 anos depois, a jovem assegura: “Não desapareceu”.

A vida de Carolina foi afetada de todas as formas possíveis: não só a sua vida social e amorosa, mas também a vida familiar sofreu consequências.

A fotografia acabou por chegar ao conhecimento dos pais de Carolina. A jovem recorda a noite de Abril em que o pai descobriu. “Fui para casa e vesti o casaco de inverno, sabia que provavelmente me ia bater e o casaco dava para amortecer qualquer coisa”, conta. Foi o que aconteceu. Agora, com 32 anos, Carolina trabalha num call center. Em mais de dez anos, nunca falou sobre essa noite com o pai. “Estive três meses sem falar com ele”, recorda. Durante esse período, a convivência era reduzida ao mínimo possível e, mesmo quando voltou ao normal, nunca falaram sobre isso.

 

“Nunca tive ninguém que me dissesse «Olha, a culpa não é tua. Tu foste vítima.» Nunca ninguém me disse isto e eu tive que ir buscar estas palavras a mim mesma. Porque, no fundo, eu sinto-me culpada. Só depois é que procurei ajuda.”

Inês:
“Achava que estava sempre
alguém a filmar-me”

A primeira reação de Inês Marinho foi ficar “super nervosa”. Tinha 21 anos, em 2019, quando recebeu a mensagem de um colega a alertá-la para um vídeo que estava a ser partilhado.

Inicialmente, não acreditou que fosse ela. Mas depois de ver as imagens percebeu: “Fui ver e era um vídeo, não só meu, íntimo, mas com o meu nome em cima”. Em pouco tempo, o vídeo tornou-se viral. Quando descobriu que a sua intimidade circulava na internet através das redes sociais, Telegram e sites de pornografia, Inês seguiu a vida numa espécie de “piloto automático”, tendo levado algum tempo para perceber o impacto que toda aquela situação tinha tido em si.

Só mais tarde, durante a pandemia, é que Inês começou a compreender o impacto que o episódio teve no seu dia-a-dia: sentia-se ansiosa e perseguida. Mesmo online, Inês começou a ter medo de interagir nas redes sociais. “Vão ser anos de terapia para eu ficar como era antes”, comenta.

 

“Estava sempre a pensar: «agora não posso publicar nada, não posso pôr nada, porque tudo o que eu faça está a ser policiado por estes criminosos, que são 30 mil, 60 mil, por trás de grupos de Telegram»”

Para tentar “dar a volta à situação”, Inês Marinho criou o movimento Não Partilhes, que ajuda outras vítimas deste tipo de crime. O que começou por ser um pequeno movimento no Instagram, nascido em 2020, acabou por se transformar em algo maior: a Não Partilhes é uma associação que informa o público sobre este tipo de crime, aconselha vítimas, e procura denunciar as plataformas onde acontecem as partilhas de conteúdo íntimo de forma não consentida. Inês Marinho conta que desde então já contactou com mais de 2000 mulheres e menos de uma dezena homens.

“Quando isto me aconteceu, eu não queria ser a rapariga das nudes. Agora, sou a rapariga do Não Partilhes.” Como consequência da criação do grupo, e por ter dado a cara pelo movimento, Inês Marinho viu aumentar o ódio que recebia nas redes sociais.

 

“Já me mentalizei disso. Eu vou viver até ao fim da minha vida com conteúdo meu online e, pronto, tenho que lidar com isso da melhor maneira.”

Inês apresentou várias queixas nas autoridades por muitas partilhas ao longo dos anos. Os crimes de que foi vítima não tiveram consequências a nível penal “para ninguém”, todas as queixas foram arquivadas.

Quando as vítimas se dirigem às autoridades, vão “à procura de sinais de segurança”, e, no caso de não os encontrarem, podem sentir mais tristeza e até desistir de apresentar queixa. O psicólogo João Veloso explica que são “pessoas que estão expostas e fragilizadas e, portanto, os seus recursos para lidar novamente com situações adversas são muito baixos e muito limitados”.

Quando recebia cartas a dar conta do arquivamento de mais uma queixa, era “complicado” para Inês. “Entrar numa esquadra com dez homens e ter que contar a minha história, mostrar o conteúdo e explicar a situação toda… Fiz isso três ou quatro vezes. Depois tive que ir depor e contar tudo outra vez. Chegou a uma altura em que já não tinha mais força psicológica para continuar a bater no ceguinho”.

Inês Marinho lida de perto com o assédio na internet desde adolescente. A primeira vez que teve contacto com esta realidade foi num grupo de Telegram onde eram partilhadas fotos vulgares de mulheres e os utilizadores perguntavam se alguém teria fotos íntimas dessa pessoa.

 

“Na altura, eu não tinha nada exposto, mas aparecia lá [no grupo de Telegram] imensas vezes. E realmente fazia-me confusão porque eu tinha 14 ou 15 anos e não percebia porque é que tantos homens adultos me queriam ver nua.”

Todos os dias chegam às mãos de Carolina Soares novas denúncias. A APAV e a Linha Internet Segura recebem pedidos de apoio por telefone, por e-mail, e através de formulários online e nas redes sociais. “Os números têm vindo a aumentar. É um fenómeno que está para ficar.”

Evolução do número de denúncias recebidas pela APAV nos últimos 5 anos

 

Devassa da vida privada e/ ou partilha de fotografias ilícitas

Extorsão sexual

Pornografia de menores

2020

108

34

47

2021

113

159

59

2022

132

122

52

2023

111

123

59

2024

147

95

66


Fonte: APAV


Nota: A mesma vítima de um dos crimes pode também ser vítima dos outros crimes. A APAV associa o aumento abrupto de casos de extorsão sexual em 2021 ao período da pandemia, ao aumento de interações digitais e ao surgimento em massa de grupos de Telegram em Portugal.

Há uma tendência de aumento. “No primeiro semestre (de 2025) já atingimos números equivalentes ao ano anterior no caso de extorsão sexual e crimes sexuais contra crianças”, revela Carolina Soares, gestora da Linha Internet Segura.

Ao Observador, o Ministério Público sublinha que “estas situações são cada vez mais reportadas”. E os números divulgados pela Procuradoria Geral da República comprovam isso.

Mas quantos casos foram levados ao Ministério Público?

 

2019

2020

2021

2022

2023

2024

2025

(1ºsemestre)

Crime de devassa da vida privada

791

739

770

663

704

649

279

Crime gravações e fotografias ilícitas

634

699

795

730

900

1045

608


Evolução do número de inquéritos instaurados no MP desde 2019

Fonte: Procuradoria Geral da República


“Acho que o impacto deste tipo de crime é desvalorizado pela esmagadora maioria das pessoas que não teve contacto com estas situações”, diz Carolina Soares, que lida com este tipo de casos todos os dias. A gestora da Linha Internet Segura classifica este tipo de crimes como “violência sexual”. “O dano que é causado por essa partilha pode ser significativo porque a tendência é colocar o ónus da culpa sobre a vítima”, assume. “Porquê eu? Porquê a foto? Quem foi?”. Margarida fazia estas três perguntas a si própria quando descobriu que uma selfie que tinha tirado para pôr numa história de Instagram circulava em grupos de Telegram. “Senti-me muito sozinha e, em parte, sem chão”.

A primeira vez que tentou apresentar queixa foi em 2021, dois anos antes da autonomização deste crime. “Fui com os ficheiros numa pen porque não tinha como imprimir 400 fotos e prints”, revela Margarida. Mas de nada adiantou. “No Porto, disseram que não era caso para ir para a polícia e que eles não podiam fazer nada porque não era um crime”, explica. E, mais tarde, voltou a tentar mas desta vez em Guimarães, a sua terra natal. Margarida explica que por essa altura a partilha ilícita de conteúdos íntimos já era um tema mais falado e que isso a motivou a apresentar, de novo, queixa dos grupos. “Disseram-me que não podiam fazer nada com as provas que tinha, porque não eram provas conclusivas, não havia pessoas a quem culpar e eles não podiam fazer uma investigação sem saber o que investigar”.

Mas a vontade de Margarida de derrubar os grupos do Telegram não esmoreceu. Começou a infiltrar-se nos grupos de forma a descobrir quem estava por detrás dos mesmos e, quando não conseguia, tentava que o grupo fosse desativado. “Não queria só apagar os grupos, acima de tudo, queria descobrir quem é que estava a cargo deles, porque é muito complicado encontrar as pessoas todas que existem no grupo”, explica.

Mas não conseguiu ter sucesso. Um ano e meio depois de conversar pela primeira vez com o Observador, Margarida já não olha para a situação da mesma forma. Afastou-se para proteger a saúde mental e não apresentou mais queixas na polícia por medo de se sentir “julgada” de novo e por falta de esperança numa resolução. Agora trabalha num café e quer abrir um negócio próprio. “Atualmente consigo fazer a vida sem medos e sem receios”, conta. Mas para isso teve que mudar a relação que tinha com as redes sociais.

Inês também desistiu da luta diária contra os grupos. Foi descoberta e banida de muitos e acabou por nunca mais querer voltar. Apagou o Telegram e afastou-se. Agora, foca-se em ajudar vítimas deste tipo de crime, a fazer crescer a Associação Não Partilhes e a ir falar em palestras e em auditórios de escolas de forma a sensibilizar os alunos para terem cuidado quando partilham conteúdo íntimo e para os alertar para a forma como tratam as vítimas deste tipo de crime. Inês foi também vítima mas começou a olhar para si própria de outra forma. “O que dita o que eu sou não é o meu corpo, nem a minha sexualidade. Podia estar toda nua aqui e merecia exatamente o mesmo respeito. Já não me sinto nem mais, nem menos, por alguém me ver nua. Valho exatamente a mesma coisa.”

Pode denunciar a partilha não consentida de conteúdos íntimos através do formulário da Linha Internet Segura da APAV ou por telefone para o 800 21 90 90.

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