Um cavaleiro,
um cardeal
e o primeiro símbolo
do FC Porto:
as ligações mais
(e menos) prováveis
da árvore genealógica
de Ronaldo
Quando Maria Dolores dos Santos Aveiro teve no Funchal o quarto e último filho do casamento com José Dinis de Aveiro, a 5 de fevereiro de 1985, os nomes da criança significavam mais do que isso. Cristiano, escolhido por uma meia-irmã da mãe, simbolizava numa família de tradição católica a vontade superior de ultrapassar todas as dificuldades ao longo da gravidez. Ronaldo, escolhido pelo pai, homenageava o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, pelo que fez enquanto ator e por ser um exemplo do “Sonho Americano”. Mais de quatro décadas depois, o filho pode não ser literalmente o homem mais poderoso do mundo como ambicionava - mas também não anda longe.
Cristiano Ronaldo, hoje com 41 anos, é capitão da Seleção Nacional e chega aos EUA apostado em conquistar aquele que é o único coletivo que lhe falta entre tantos recordes. Foi esse trajeto iniciado na Madeira entre o Andorinha e o Nacional, que passou depois pelo Sporting antes do salto final para os principais palcos do futebol mundial por Manchester United, Real Madrid, Juventus e, de forma mais recente, Al Nassr, que lhe valeu vários títulos, homenagens e condecorações. Neste caso, uma em particular. Uma que, muito provavelmente, está mais próxima a si do que podia pensar.
Antes de receber de Marcelo Rebelo de Sousa a Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 2016, depois da conquista do Campeonato da Europa em França, o avançado tinha sido condecorado por Jorge Sampaio como Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pela campanha até à final perdida com a Grécia no Euro-2004, e por Aníbal Cavaco Silva como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2014, pelo papel de símbolo de Portugal em todo o mundo. O que Ronaldo e todos os restantes familiares provavelmente não sabiam era que foi graças ao Infante D. Henrique que se tornou descendente de muitos dos primeiros habitantes da Madeira como décimo sexto neto.
Mas há mais curiosidades até entre ligações que são mais conhecidas. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica das árvores dos principais candidatos presidenciais nas últimas eleições de 2026, ficou a saber-se que Ronaldo era parente de Henrique Gouveia e Melo. Agora, outras investigações feitas pela Associação com as árvores de alguns dos principais jogadores de Portugal presentes no Mundial permitem perceber que essa ligação entre o capitão da Seleção e o almirante é ainda mais estreita, tendo em conta que existe uma linha através da avó materna que demonstra partilharem mais uma geração adicional de antepassados, a de Francisco Saldanha e Maria de Viveiros.
Entre outras ligações estão também um cardeal e o primeiro grande génio e símbolo do FC Porto e do futebol português, mais conhecido pela alcunha do que pelo nome. Mas os pontos de interesse nesta análise da árvore genealógica de Cristiano Ronaldo não ficam por aqui, com a confirmação de que o avançado tem sangue africano através da bisavó paterna, Isabel Rosa da Piedade. Navegue pela árvore genealógica do capitão para descobrir o que se esconde por trás de séculos de linhagem familiar, praticamente concentrada a 100% na Madeira mas com uma exceção vinda de Cabo Verde.
Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, atual capitão da Seleção com cinco Bolas de Ouro, outras tantas Ligas dos Campeões conquistadas e um sem número de recorde batidos, nasceu no Funchal a 5 de fevereiro de 1985. É o mais novo de quatro irmãos, depois de Hugo, Elma e Kátia, do casamento de José Dinis Aveiro e Maria Dolores dos Santos
Toda a ascendência conhecida de Cristiano Ronaldo até aos trisavós é madeirense. Aliás, existe apenas uma exceção: Isabel Rosa da Piedade, bisavó paterna do jogador
Isabel Rosa da Piedade nasceu em 1893 na Praia, em Cabo Verde, emigrando sozinha com apenas 16 anos para a Madeira em busca de melhores condições de vida
Acabada de chegar à Madeira, começou a trabalhar como empregada doméstica numa casa no Funchal. Foi aí que conheceu José de Aveiro, nascido em Santo da Serra, na freguesia de Machico. Casaria mais tarde, a 20 de março de 1926, com o avô de José Dinis Aveiro, pai de Cristiano Ronaldo
Não existe qualquer estudo científico ou genético sobre a influência africana vinda da bisavó paterna no rendimento de Cristiano Ronaldo ao longo da carreira. No entanto, e quando veio a lume essa ligação através de meios cabo-verdianos, falou-se muito sobre a hipótese de parte da potência muscular e da resistência a lesões desse tipo poderiam ser explicadas com a ligação à bisavó paterna
Seguindo as linhagens puras advindas do lado do pai e do lado da mãe, é possível encontrar antepassados de Cristiano Ronaldo no século XVI, neste caso Isabel Antunes, nascida em 1590 e casada com João Vieira. A maioria dessas linhagens estão concentradas na parte norte da ilha da Madeira, sobretudo em Machico, com algumas linhas que tiveram origem inicial em Porto Santo
No entanto, e graças à qualidade e quantidade de informação que existe sobre todas as famílias madeirenses, é possível encontrar com segurança várias ligações da árvore de Cristiano Ronaldo aos primeiros povoadores da ilha da Madeira, ainda no no início do século XV
Podemos encontrar de tudo um pouco em todas essas linhagens que vão depois chegar a Cristiano Ronaldo, incluindo linhas que, segundo os nobiliários clássicos, têm ascendência real. Mais: existem ainda alguns casos, nesta parte mais raros, de ascendência cristã-nova
O apelido Santos de Cristiano Ronaldo, que vem do lado da mãe, Maria Dolores, terá muito provavelmente origem numa invocação religiosa, como é frequente nestes casos. A linha pode ser traçada até António dos Santos, sexto avô do jogador, nascido em 1785 no Caniçal, em Machico, filho de António José de Olim e Inês de Sousa
O apelido Santos foi transmitido sempre por via masculina até Miquelina de Jesus dos Santos, trisavó de Cristiano Ronaldo, nascida no Caniçal em 1877. A partir daí, a passagem começou a ser feita apenas por linha feminina até Matilde dos Santos, avó do jogador, que casou a 26 de dezembro de 1951 com José Nunes Viveiros e teve no último dia do ano de 1954 Maria Dolores dos Santos, mãe de Cristiano Ronaldo
Já o apelido Aveiro, que vem da linha do pai, José Dinis de Aveiro, tem como antepassado mais antigo entre todos os identificados Manuel de Aveiro, décimo avô do jogador por varonia que nasceu em 1650 e casou com Domingas de Mendonça
O apelido Aveiro foi sempre passando por varonia legítima ao longo de mais de dez gerações que se seguiram, embora com passagem de Machico para a freguesia de Santo António da Serra no quinto avô de Cristiano Ronaldo, Manuel de Aveiro
José de Aveiro, bisavô paterno de Cristiano Ronaldo que casaria mais tarde com Isabel Rosa da Piedade, foi o último a nascer em Santo António da Serra, dando-se a partir daí a passagem para o Funchal
A análise às linhas puras masculina e feminina consegue apurar outro pormenor. Cristiano Ronaldo descende da família Aveiro não só pelo pai mas também pela mãe: os antepassados mais antigos da varonia do jogador, Manuel de Aveiro, são duplos décimo e nono avôs de Cristiano Ronaldo através de uma linha ascendente de Maria Dolores dos Santos, que ficou em Machico até ao século XX
José Dinis de Aveiro, pai de Cristiano Ronaldo, nasceu a 30 de setembro de 1953 e é filho de Humberto Círio Aveiro e Filomena Martins Pereira, casados a 15 de fevereiro desse mesmo ano. Formavam um casal humilde, que fazia sobretudo trabalhos temporários, com o avô de Cristiano Ronaldo a procurar biscates na agricultura e na construção civil enquanto a avó tratava sobretudo da casa e das crianças
Cristiano Ronaldo e o pai, José Dinis de Aveiro
José Dinis de Aveiro, que teve cinco irmãos, esteve na Guerra do Ultramar em Angola, entre 1974 e 1975, regressando depois à Madeira onde foi jardineiro municipal e roupeiro em part-time no Andorinha, clube onde Cristiano Ronaldo começou a jogar futebol nas escolinhas
Foi José Dinis de Aveiro que quis colocar o nome Ronaldo no quarto e último filho que teve com Maria Dolores dos Santos, numa homenagem a Ronald Reagan, que era em 1985 o presidente dos EUA. Mas com uma nuance: essa admiração não vinha da parte política mas dos tempos em que era ator
Cristiano Ronaldo com os pais, Maria Dolores dos Santos e José Dinis de Aveiro
Tão ou mais importante, o líder norte-americano que um dia recebeu o campeão olímpico Carlos Lopes na Casa Branca representava aquele que era o grande sonho do pai para o filho: que pudesse ter uma vida a subir a pulso até tornar-se o homem mais poderoso do mundo, cumprindo aquilo que era descrito como “Sonho Americano”
José Dinis de Aveiro morreu a 6 de setembro de 2005, em Inglaterra, vítima de falência hepática e renal. Numa altura mais delicada em termos de saúde, Cristiano Ronaldo pagou um jato privado com assistência médica para que o pai tivesse os melhores cuidados possíveis numa fase adiantada de doença, quando jogava nos ingleses do Manchester United
Apesar da proximidade que passou a ter entre Manchester e Londres para acompanhar mais de perto o pai, Cristiano Ronaldo, então com 20 anos, teve conhecimento da morte do pai quando estava concentrado com a Seleção antes de um jogo frente à Rússia. A notícia foi comunicada a sós pelo então selecionador nacional, Luiz Felipe Scolari
Cristiano Ronaldo e Luiz Felipe Scolari
Cristiano Ronaldo, que estava em Moscovo, ficou na concentração da Seleção para o jogo que se realizava no dia seguinte, cumpriu os 90 minutos no empate sem golos a contar para o apuramento para o Campeonato do Mundo de 2006 e viajou depois para a Madeira, onde acompanhou a mãe, os irmãos e os restantes familiares nas cerimónias fúnebres
Já Maria Dolores dos Santos, que depois de casar adotou o apelido Aveiro (que ainda hoje mantém), nasceu em Machico a 31 de dezembro de 1954 e é filha de José Nunes Viveiros e Matildes dos Santos, também de Machico, que casaram a 26 de dezembro de 1951
Foi a meia-irmã Gorete, que era filha de José Nunes Viveiros mas num casamento posterior com Ângela, que deu o nome de Cristiano ao jogador como forma de agradecimento pelo bebé ter nascido perfeitamente saudável depois de uma gravidez com vários problemas
Cristiano e a mãe, Maria Dolores dos Santos
Maria Dolores perdeu cedo a mãe, Matilde dos Santos, vítima de um ataque cardíaco súbito. Face às dificuldades económicas em que ficou com várias crianças para tomar conta, José Nunes Viveiros colocou Maria Dolores e os irmãos biológicos num orfanato, trazendo-os de volta à casa quando já tinha a vida familiar refeita num segundo casamento com Ângela
É por isso que, por lapso, a avó materna de Cristiano Ronaldo é algumas vezes referida como sendo Ângela e não Matilde dos Santos
José Nunes Viveiros acabou por emigrar para a Austrália com a segunda mulher, Ângela, antes de 1984, quando Maria Dolores estava grávida de Cristiano Ronaldo. Foi a própria que detalhou essa mudança na biografia “Mãe Coragem”. José Nunes Viveiros estabeleceu-se na zona de Armadale, na cidade de Perth, em busca de melhores condições económicas
José Nunes Viveiros morreu a 12 de dezembro de 2015, na Austrália. “Prefiro ficar com a imagem do pai da última vez que nos vimos aí na Austrália, destino que infelizmente foi o último lugar que o pai escolheu viver nos últimos anos de vida e aí terminar uma etapa neste mundo”, escreveu Maria Dolores após a morte do pai, avô de Cristiano Ronaldo
José Nunes Viveiros
Já Matilde dos Santos, a mãe que morreu quando teria cinco/seis anos, dá origem à nova linhagem descoberta nesta investigação que reforça as ligação parentesca com Henrique Gouveia e Melo
Essa era a ligação de Cristiano Ronaldo mais “conhecida”, neste caso a Henrique Gouveia e Melo, antigo Chefe do Estado-Maior da Armada e candidato nas últimas presidenciais
Rebobinemos o filme até dezembro de 2025, antecâmara das eleições que elegeram António José Seguro como sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República
Como mostrava a árvore genealógica do almirante, Cristiano Ronaldo e Henrique Gouveia e Melo tinham como último antepassado comum Francisca de Viveiros, filha de João Gomes e de Maria de Viveiros
Francisca de Viveiros nasceu em Poço do Gil, na freguesia de Machico, em 1680
Francisca de Viveiros casou em 1703, também em Machico, com Manuel Fernandes. Eram oitavos avós de Henrique Gouveia e Melo
Mais tarde, num casamento que parece ter sido posterior com Manuel Nunes, Francisca de Viveiros teve José Nunes de Viveiros (1710) e João Nunes de Viveiros (1720). Ou seja, e em simultâneo através de duas linhas diferentes, Francisca de Viveiros era nona e sétima avó de Cristiano Ronaldo
Essa linha de Francisca de Viveiros até Henrique Gouveia e Melo ficou sempre em Machico até ao casamento de João Vieira Cabral, trineto de Francisca de Viveiros, com Joaquina da Encarnação em 1824, altura em que passou para o Funchal
Mais tarde, o neto de João Vieira Cabral e Joaquina da Encarnação, o General Viriato Passaláqua, nascido em 1830, levou esta linha até Angola, passando para Lisboa com o seu filho, Eduardo Anapaz Passaláqua, avô materno de Henrique Gouveia e Melo, até chegar por fim a Moçambique, onde nasceu o almirante a 21 de novembro de 1960
Viriato Zeferino Passaláqua
Já do lado de Cristiano Ronaldo, as duas linhas que fazem a ligação do jogador a Francisca de Viveiros mantiveram-se sempre em Machico, deixando cair o apelido Viveiros apenas quando José Nunes Viveiros, avô de Cristiano Ronaldo, teve Maria Dolores dos Santos
No entanto, e seguindo a árvore de Cristiano Ronaldo, a investigação conseguiu encontrar mais uma linha entre os Viveiros que une o capitão da Seleção a Henrique Gouveia e Melo
Henrique Gouveia e Melo
O que significa isso? Que, a partir da sua avó materna, Matilde dos Santos, nascida no Caniçal, na freguesia de Machico, em 1924, Cristiano Ronaldo e Henrique Gouveia e Melo partilham uma geração adicional de antepassados, a de Francisco Saldanha e Maria de Viveiros, respetivamente sétimos avós de Henrique Gouveia e Melo e oitavos avós de Cristiano Ronaldo
Maria de Viveiros, filha do casamento de Francisca de Viveiros com Manuel Fernandes em 1703, e Francisco Saldanha casaram em data desconhecida e tiveram dois filhos
Isabel de Viveiros, nascida em Machico em 1740, que faz a ligação a Henrique Gouveia e Melo através da sua mãe materna, Maria Helena Pereira Passaláqua…
… e João Saldanha de Viveiros, nascido em Poço do Gil, Machico, cinco anos depois
É a partir de João Saldanha de Viveiros, que casou a 30 de outubro de 1771 com Ana de Jesus, que nasce a linha que vai ter a Matilde dos Santos, avó materna de Cristiano Ronaldo
Matilde dos Santos casou depois, a 26 de dezembro de 1951, com José Nunes Viveiros, descendente de Francisca de Viveiros através do casamento que teve com Manuel Nunes
Centremo-nos agora em Francisco Calaça, o sétimo avô de Cristiano Ronaldo, a partir do qual existe uma passagem da linhagem do Porto Santo para o Caniçal
Francisco Calaça é filho de Maria de Jesus e de Dionísio Calaça
Apesar da coincidência do apelido, Francisco Calaça não herdou o apelido da linha de Belchior Rodrigues Calaça mas sim do seu pai, Dionísio Calaça
É por essa linha de ascendência da ilha de Porto Santo que nasce a ligação de Cristiano Ronaldo a Pinga, considerado por muitos o primeiro grande génio do futebol português
Belchior Rodrigues Calaça foi uma figura histórica de Porto Santo e ligada à antiga nobreza local. Foi administrador de capelas e morgadios no final do século XVI
Belchior Rodrigues Calaça casou com Maria do Castro Feio
Tiveram dois filhos: Rodrigo Calaça de Menezes, que nasceu em Porto Santo em 1635 e casou com Domingas de Sousa Moreira, e Beatriz Calaça, que nasceu em 1640 e casou com António Coelho
Rodrigo Calaça de Menezes, fidalgo e militar, e Domingas de Sousa Moreira são os trisavós de Francisco Calaça
Beatriz Calaça e António Coelho foram pais de Manuel A. de Menezes Coelho, que casou com D. Maria Drumond, descendente de uma das famílias com maior influência no arquipélago
Manuel A. de Menezes Coelho e D. Maria Drumond foram pais de José Calaça Drumond, que nasceu em Porto Santo em 1725 e casou com Maria Joana da Graça
José Calaça Drumond e Maria Joana da Graça são tetravós daquele que é considerado por muitos o primeiro grande génio do futebol português: Artur de Sousa, mais conhecido por Pinga
Artur de Sousa "Pinga"
Artur de Sousa, mais conhecido por Pinga, nasceu no Funchal, em 1909
Pinga é filho de Virgínia de Sousa, trineta de José Calaça Drumond e Maria Joana da Graça e filha de João Tomás dos Santos e Antónia de Jesus de Gouveia nascida em Santa Cruz em 1865, e Manuel de Sousa. Foi com João Tomás dos Santos, avô materno de Pinga, que a linha passou de Porto Santo para Gaula, Santa Cruz
Artur de Sousa, que passou pelos insulares do Marítimo, ganhou a alcunha do pai, que também era conhecido na ilha como Pinga. Mais: quando veio para o continente, quis continuar a ser conhecido por esse nome. Na Madeira, começou por ser apenas… o filho de Pinga
Pinga destacou-se pelo Marítimo e foi ainda pelos insulares que teve a primeira internacionalização por Portugal, frente à Espanha. No final de 1930, e depois de um longo namoro, o interior esquerdo chegou à Invicta para assinar pelo FC Porto. Representou os dragões ao longo de 16 temporadas
Considerado a primeira grande referência da história do futebol dos azuis e brancos, Pinga conquistou dois Campeonatos de Portugal, em 1932 e 1937, e três Primeiras Ligas, em 1935, 1939 e 1940. Teve também mais de 20 internacionalizações, com nove golos
Terminou a carreira com um total de 400 jogos realizados, depois de uma complicada operação ao menisco em 1945. Teve no ano seguinte um jogo de homenagem no Estádio de Lima, que contou com várias figuras do futebol nacional da altura e que parou um Porto em lágrimas pela retirada do primeiro grande ídolo
Pinga ainda tentou depois uma carreira como treinador, tendo como grande feito a vitória no comando do Tirsense frente ao Sporting dos Cinco Violinos para a Taça de Portugal. Passou mais tarde por Sanjoanense e Gouveia
Dotado de uma técnica acima da média e de uma qualidade com o pé esquerdo que fez com que ganhasse uma enorme legião de fãs, Pinga não só marcou a história do futebol dos portistas na primeira metade do século XX como foi uma das grandes referências para outra das figuras dos dragões: José Maria Pedroto
Pinga morreu em 1963, aos 53 anos. Ainda hoje é recordado na Madeira como a primeira grande figura do futebol português nascida na ilha, tendo dado nome a uma rua da ilha. Belchior Rodrigues Calaça e Maria de Castro Feio são sétimos avós de Pinga (que também é parente de D. José Tolentino de Mendonça) e décimos segundos avós de Cristiano Ronaldo
Mas regressemos agora a Francisco Calaça, sétimo avô de Cristiano Ronaldo que fez a ponte para a passagem dessa linhagem de Porto Santo para o Caniçal
Francisco Calaça casou com Cecília de Viveiros, que nasceu no Caniçal, em Machico, e tiveram dois filhos: Manuel Calaça, que casaria com Maria de Sousa, e António Calaça Sénior, nascido em 1790, dez anos depois do irmão
António Calaça Sénior casou com Clara de Góis e tiveram dois filhos: Maria de Góis, nascida no Caniçal em 1815, e José Calaça Júnior, natural também do Caniçal e nascido em 1820
José Calaça Júnior casou com Maria de Sousa, tendo um filho, João Calaça, em 1865
Maria de Góis casou com António Vieira e teve um filho, João Vieira, em 1852
João Vieira casou com Maria de Olim, que teve uma filha: Maria Isabel de Olim Vieira, nascida em 1875
Maria Isabel de Olim Vieira viria a casar, a 10 de setembro de 1894, com João Calaça, neto de António Calaça Sénior e Clara de Góis, que eram seus bisavós
João Calaça e Maria Isabel de Olim Vieira tiveram Matias Calaça, nascido no Caniçal em 1907. Matias Calaça casou com Maria de Abreu em 1927
Matias Calaça e Maria de Abreu tiveram em 1930 Maria de Fátima Calaça, mãe de D. José Tolentino de Mendonça
Maria de Fátima Calaça, que dedicou toda a sua vida à educação dos cinco filhos, casou em 1965 com José Gregório de Mendonça
Maria de Fátima Calaça e José Gregório de Mendonça tiveram cinco filhos: José Lino, Maria Goreti, Paulo Sérgio, Maria Salvina e José Tolentino de Mendonça, o mais novo nascido a 15 de dezembro de 1965
José Tolentino de Mendonça
D. José Tolentino de Mendonça (e toda a família) viveram nos seus primeiros anos em Angola, perto das zonas costeiras para que o pai, pescador, estivesse a trabalhar. A família regressou na altura da independência das colónias portuguesas
Formado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, D. José Tolentino de Mendonça foi ordenado padre na Diocese do Funchal em 1990, ano em que publica também a sua primeira recolha de poemas: “Os Dias Contados”
Ainda na Madeira, exerceu funções pastorais na Paróquia de Nossa Senhora do Livramento, no Funchal, entre 1992 e 1995
Já depois de ter sido elevado a arcebispo e designado para dirigir o Arquivo Secreto do Vaticano e a biblioteca apostólica , foi nomeado cardeal pelo Papa Francisco em setembro de 2019
Francisco Calaça e Cecília de Viveiros, naturais do Caniçal, freguesia onde residiram, são sétimos avós de Cristiano Ronaldo e quintos e sextos avós de D. José Tolentino de Mendonça
Primeiro a Madeira, depois Portugal, de seguida a Europa, por fim o mundo. Ao longo das mais de três décadas como jogador de futebol, Cristiano Ronaldo foi também um pioneiro a alcançar recordes - e isso é algo que lhe está também no sangue
As ilhas da Madeira e de Porto Santo foram descobertas em 1418-1419, com o povoamento das mesmas a ser iniciado pouco depois tendo governação a cargo de cada um dos descobridores. É aqui que encontramos os parentescos mais antigos de Cristiano Ronaldo
Numa expedição à costa africana, a armada portuguesa foi obrigada a ser desviada por causa de uma tempestade e foi esse infortúnio que acabou por levar ao redescobrimento de Porto Santo e da Madeira
Bartolomeu Perestrelo ficou responsável pela ilha de Porto Santo, a Madeira repartiu a sua governação: João Gonçalves Zarco ficou com o Funchal, Tristão Vaz ficou com Machico
Tristão Vaz
Escudeiro que foi armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique depois das conquistas de Ceuta e em Tânger, Tristão Vaz foi nomeado primeiro Capitão do Donatário de Machico em 1440, tendo a função de povoar a ilha atribuindo morgadios e ofícios aos colonos
Tristão Vaz casou com Branca Teixeira em data desconhecida, ficando a partir daí a ser conhecido como Tristão Vaz Teixeira por influência do apelido da mulher
A descendência que originou depois várias famílias nobres madeirenses manteve em alguns casos o apelido Teixeira foi-se espalhando pela zona norte da ilha, que fazia parte da sua jurisdição, e por Porto Santo
Foi exatamente em Porto Santo que viveu D. Isabel de Serpa, sexta neta de Tristão Vaz e Branca Teixeira, que casou em 1663 com Pedro Lomelino de Castro
Pedro Lomelino de Castro e D. Isabel de Serpa foram pais de António Baião de Castro em 1670
António Baião de Castro mudou-se depois para Machico, onde casou com D. Maria Moniz de Menezes em 1698
Foi a partir daí que todos os antepassados de Cristiano Ronaldo desta linha se fixaram na freguesia de Machico, incluindo a mãe de Cristiano Ronaldo, Maria Dolores dos Santos. António Baião de Castro e D. Maria Moniz de Menezes são oitavos avós do jogador
Mas as ligações de Cristiano Ronaldo aos primórdios da Madeira não ficam por aí e, através de Pedro Lomelino de Castro, vão parar a outro nome incontornável da ilha
Pedro Lomelino de Castro, que tem um apelido de origem genovesa, era sexto neto da primeira criança que nasceu na Madeira
Filho de Gonçalo Aires Ferreira e mais velho de sete irmãos, Adão Gonçalves Ferreira ficou historicamente reconhecido como o primeiro homem a nascer na Madeira
Gonçalo Aires Ferreira foi também escudeiro do Infante D. Henrique e um homem de confiança de João Gonçalves Zarco, que ficou com a governação da parte do Funchal
Reza a história relatada pelos autores mais antigos que se dedicaram ao estudo das famílias madeirenses que Adão Gonçalves Ferreira recebeu esse nome por ter sido o primeiro a nascer na recém-descoberta ilha da Madeira. A irmã teve o nome de Eva Gonçalves Ferreira
Adão Gonçalves Ferreira, que casaria com Brites Pires, ficou conhecido pela fazenda que criou em zonas mais altas do Funchal, onde mandou construir uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Encarnação
Foi esse local que, com o passar dos anos, passou a ser conhecido como Monte. E é nesse local que está hoje a Igreja de Nossa Senhora do Monte, um ponto icónico da Madeira
A Igreja de Nossa Senhora do Monte, também conhecida como Santuário de Nossa Senhora do Monte, é o principal símbolo religioso da ilha e um dos grandes pontos turísticos da ilha
Vários séculos depois, é um ponto obrigatório de passagem para quem visita a Madeira tal como a estátua de Cristiano Ronaldo ou o Museu CR7, na freguesia de São Martinho