Uma antiga
Primeira Dama,
raízes de Norte a Sul
(e em França)
e as ligações
ao Caramulo:
as revelações
da árvore genealógica
de Rúben Dias
Sempre foi um miúdo que não utilizava o futebol para arranjar desculpas. Aproveitava todos os momentos que tinha para jogar, claro, já depois das passagens pela natação e pelo karaté, mas levava tanto ou mais a sério as aulas como o desporto. Um dia, faltou a uma aula. Ninguém sabia porquê, tendo em conta que não estava doente. No dia seguinte, quando chegou à escola, pediu para falar a sós com a professora de Português para se justificar, dizendo que na véspera não tinha estado na sala porque foi assinar o primeiro contrato profissional pelo Benfica depois de completar 18 anos. Com essa justificação, e perante tamanha sinceridade, Dina Ferreira nem sabia ao certo o que responder.
Alguns anos mais tarde, quando o miúdo atento, educado e com boas notas que andava sempre a organizar tudo para participar no inter-turmas da Amadora regressou à escola, neste caso com toda a equipa do Manchester City no âmbito do “Treble Trophy Tour”, a palavra que mais se ouviu foi uma: liderança. Por muitos elogios que pudessem ser feitos, da humildade à responsabilidade, era esse traço de personalidade que mais se destacava desde novo. Nascido na Amadora a 14 de maio de 1997, Rúben Dias foi capitão ou fez parte da hierarquia de capitães de todas as equipas de todos os escalões que foi percorrendo do Estrela da Amadora ao Benfica, passando pelo Manchester City, onde chegou em 2020. Ao todo, leva 15 títulos coletivos. Ou 16, contando com o “título” de líder.
Mas de onde vem essa característica que todos apontam e elogiam? Se for de família, aí, pode ser um pouco de tudo e de todos, de Norte a Sul. Norte a Sul, literalmente. A mãe do central, Bernardete dos Santos Alves, nasceu em Nimes, França, regressando anos depois a Portugal. O pai, João Manuel Gato Dias, é oriundo de Santa Maria, em Estremoz. No entanto, e seguindo todas as linhas dos quatro apelidos que tem no nome (com a particularidade invulgar de alternar os maternos e os paternos), podemos encontrar muitas outras origens, que vão do Alto Alentejo pelo pai (Estremoz, Campo Maior, Arcos ou Borba) ao nordeste de transmontano, no distrito de Bragança, pela mãe.
Mas também existem ligações a pessoas mais conhecidas, encontradas através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu toda a investigação histórica e científica das árvores dos principais candidatos presidenciais nas últimas eleições de 2026 e que estudou agora as árvores de alguns dos principais jogadores da Seleção como Cristiano Ronaldo, Vitinha ou Rúben Dias, entre outros. No caso do central, tudo entronca na ascendência originária de Penedono, em Viseu, que mereceu mesmo uma obra que estuda essa família, “Amaral de Penedono”, de João Manuel Braz e Óscar Caeiro Pinto. É a partir daí que se encontram as ligações de Rúben Dias a uma antiga Primeira Dama de Portugal e a uma das famílias mais conhecidas da zona do Caramulo.
Na linhagem pura masculina, o máximo a que se consegue chegar neste estudo é aos nonos avós do internacional portugês: João Rodrigues, nascido em 1650, Manuel Dias, nascido em 1680, e João Nunes Gatão, nascido em 1665 (com essa particularidade de passar de Gatão a Gato, como Rúben Dias tem no nome, algumas gerações depois). Do lado da mãe, o máximo de antepassados a que se conseguiu chegar foi à quarta geração, tendo em conta que, por causa de uma folha que se encontra rasgada, apenas se sabe que a quarta avó tinha como nome próprio Helena e que casou com alguém com o apelido Neves. Mais do que isso, só na linhagem para baixo até ao defesa da Seleção.
Contudo, o que há a menos de informação há a mais, se é que isso existe, em vários antepassados. Os mesmos antepassados que vão depois fazer duas ligações em específico a nomes conhecidos da sociedade, que se destacaram em áreas que não o desporto. Navegue pela árvore genealógica do internacional português para descobrir até onde vão essas linhagens e em que áreas se distinguiram.
Ao contrário de muitas personalidades que tiveram a sua árvore genealógica analisada pelo Observador, Rúben Dias tem um total de quatro apelidos, o que permite traçar várias linhas para perceber não só a origem desses nomes mas também as suas proveniências.
Rúben Dias
Dois deles, com essa curiosidade de estarem alternados no nome do central, vêm da mãe, Bernardete dos Santos Alves, que nasceu em Nimes, no sul de França, a 28 de maio de 1970.
Esse foi um período marcado pelo êxodo de várias famílias portuguesas para França em busca de melhores condições de vida, o que também aconteceu no caso de Bernardete.
Numa entrevista recente ao Canal 11, no programa “Soltinhos pelo Mundo”, Rúben Dias recordou que a mãe, nascida em França, veio depois viver para Portugal e trabalhava numa loja de artigos de cama mas, perante as dificuldades da família, voltou a estudar inglês e matemática e tornou-se contabilista.
Nessa mesma conversa, o central recordou um momento mais crítico em que o padrinho de batismo de Bernardete fez um empréstimo de 3.000 euros à família, quando até os bens essenciais começavam a escassear em casa. De acordo com o jogador, foi isso que permitiu naquela altura que a família se reestruturasse.
Rúben Dias com os pais
A documentação existente na linhagem pura feminina permite apenas chegar à quarta avó do jogador, Helena. Mesmo assim, até essa informação surge incompleta, tendo em conta que o registo aparece numa folha rasgada onde só é percetível que se chamava Helena e que o marido tinha o apelido de Neves. O casal teve uma filha, Maria Neves, que nasceu na freguesia de Santulhão, no município de Vimioso, em 1885.
Maria Neves foi mãe solteira e teve uma filha, Letícia do Nascimento Neves, bisavó de Rúben Dias, que nasceu a 9 de janeiro de 1911 também em Santulhão e casou com Fortunato dos Santos, a 4 de março de 1931.
A filha de Letícia do Nascimento Neves com Fortunato dos Santos, Helena Neves dos Santos, avó de Rúben Dias, casou com Francisco António de Oliveira Alves, o avô, também ele nascido em Santulhão.
De acordo com a investigação, o apelido Santos da mãe tem uma origem muito recente, sendo que o primeiro antepassado a utilizá-lo foi o seu bisavô, Fortunato dos Santos, já no início do século XX (1903).
Fortunato dos Santos, filho de José do Nascimento e Hermínia Cândido, nasceu em Vila Nova de Lampaças, na localidade de Sendas, no município de Bragança, casando mais tarde no Santulhão, no Vimioso.
Também em relação ao outro apelido materno, Alves, não foi possível recuar a datas anteriores ao século XIX pela falta de registos paroquiais da altura. João Alves, quarto avô de Rúben Dias, que nasceu em 1825, é o antepassado mais antigo nessa linha que esteve sempre concentrada em Santulhão até ao nascimento de Bernardete dos Santos Alves em França.
Passando agora para o lado do pai, João Manuel Gato Dias, que nasceu em Santa Maria, Estremoz, a 12 de julho de 1968, a ascendência imediata provém do Alto Alentejo, em vários locais e municípios.
Na mesma entrevista ao Canal 11, Rúben Dias destacou o pai como fonte de inspiração pelo trajeto profissional que teve sempre a pensar no melhor para a família: começou a trabalhar no ramo imobiliário, tirou depois um curso e foi trabalhar como taxista. Considerou que a profissão era perigosa e voltou ao imobiliário.
João Manuel Gato Dias foi sempre o principal impulsionador da carreira de Rúben Dias e do irmão mais velho, Ivan, que passou por clubes como Estrela da Amadora, Casa Pia, Sintra FC, Real, Oriental ou B SAD antes de terminar a carreira cedo na temporada de 2021/22. Se a mãe se “queixava” da forma como os filhos faziam da casa um estádio, o pai ia com eles para o campo “trabalhar” a sua técnica.
Rúben Dias com os pais e o irmão Ivan
Nesta linhagem, e ao contrário do que acontece com Bernardete dos Santos Alves, é possível recuar até João Rodrigues, o nono avô de Rúben Dias que casou com Josefa Pegas em 1687, na freguesia de São Domingos de Ana Loura, em Estremoz.
João Rodrigues e Josefa Pegas foram pais de José Rodrigues, que nasceu a 5 de abril de 1695. Foi ele que passou para a freguesia de Santa Maria, também em Estremoz, onde casou com Maria da Encarnação em 1722.
João Rodrigues, filho de José Rodrigues e Maria da Encarnação, nasceu em Coutos a 7 de abril de 1727, passando depois para uma outra freguesia, neste caso Orada, onde casou com Inácia Maria.
Toda a linhagem que se seguiu ficou radicada em Orada até Joaquim José Armário Dias, avô paterno de Rúben Dias, que nasceu já em Campo Maior. Já o seu filho com Florentina Olímpia Coxixo Gato, João Manuel Gato Dias, nasceu em Santa Maria, Estremoz.
Através do apelido Gato, um dos apelidos paternos do jogador do Manchester City, é possível recuar até ao século XVII, tendo na altura a forma de Gatão e não Gato.
João Nunes Gatão, nono avô de Rúben Dias, nasceu em Santiago, em Estremoz, e casou na freguesia de Arcos com Leonor Rodrigues.
Esta parte da linhagem fixou-se na freguesia de Arcos com José Martins Gatão, que casou com Leonarda Francisca do Couto. O filho, nascido a 8 de fevereiro de 1768, chamou-se Joaquim José Martins Gato, sexto avô de Rúben Dias.
O último antepassado consecutivo do apelido Gato na freguesia de Arcos foi o trisavô do jogador, João Olímpio Gato, que casou com Justina de Jesus Afonso e fixou-se a partir daí em Orada, freguesia do município de Borba. No entanto, o apelido Gato voltaria mais tarde à freguesia dos Arcos com Olímpia Coxixo Gato, avó paterna de Rúben Dias.
Já em relação ao outro apelido paterno, Dias, pelo qual é conhecido no mundo do futebol, é possível recuar também ao seu nono avô, Manuel Dias, que nasceu em 1680, na localidade de Donas, município do Fundão.
Manuel Dias casou com Maria Gonçalves e tiveram um filho, também com o nome de Manuel Dias. Foi ele que se mudou de Donas para o Alentejo, onde casou a 10 de fevereiro de 1737 com Maria Álvares da Cruz na freguesia de Orada, em Borba.
Essa linhagem fixou-se na freguesia até chegar ao bisavô de Rúben Dias, Manuel José Dias. O seu filho, Joaquim José Armário Dias, do casamento com Maria Teresa Armário, nasceu em Campo Maior e mudou-se para Estremoz.
Subindo o ramo de ascendência de Rúben Dias que é natural de Penedono, município da região Norte que pertence ao distrito de Viseu, encontramos uma das ligações mais inesperadas do internacional português.
Rúben Dias é o décimo neto de João de Amaral, nascido a 30 de agosto de 1665 em Penedono e filho de Domingos Pires e de Maria do Amaral.
Existe um vasto estudo genealógico sobre esta família da Beira Alta, incluindo a obra “Amaral de Penedono e outras famílias da Beira Alta e Alto Douro”, da autoria de João Manuel Braz e Óscar Caeiro Pinto, que começa todo esse estudo nos bisavós de João de Amaral, António Rodrigues e Maria do Amaral.
É possível encontrar vários registos desta linhagem da qual João de Amaral faz parte em vastos processos da Inquisição na Torre do Tombo, onde ainda hoje estão guardados.
Rúben Dias descende de João Amaral pelo seu primeiro casamento em Prova (Mêda) no ano de 1683. O casal teve um filho nascido em Penedono também com o nome de João de Amaral, em 1690. Foi este João de Amaral que se mudou mais tarde para o Alentejo.
João de Amaral casou em Juromenha, no Alandroal, com Joana da Silva ,em 1723. É a partir daqui que se consegue encontrar um ramo até hoje desconhecido da família Amaral de Penedono, que mudaria para o Alentejo.
João de Amaral e Joana da Silva tiveram em 1726 Gaspar Rodrigues de Amaral, também nascido em Juromenha. Casou com Vicência Joaquina Cortes, tendo uma filha, Catarina Eugénia, nascida em Vila Fernando, no município de Elvas, em 1765.
Catarina Eugénia casou-se com Manuel Alves Brabo, tendo em 1790 José Joaquim Alves Brabo. O filho já nasceu em Orada, neste caso no município de Borba.
Foi a partir de José Joaquim Alves Brabo que a família se fixou em Orada, Borba, nas gerações seguintes, até Florentina Olímpia Coxixo Gato, avó paterna de Rúben Dias que é filha de Maria Joana Catarino Coxixo e Francisco João Alves Gato e nasceu em Arcos, freguesia do município de Estremoz.
O pai do central da Seleção, João Manuel Gato Dias, filho de Florentina Olímpia Coxixo Gato e Joaquim José Armário Dias, nasceu também no distrito de Évora e no município de Estremoz mas na freguesia de Santa Maria, que em 2013 foi fundida com Santo André.
Voltamos agora a João de Amaral de Penedono, pai de João de Amaral. É aqui que entronca a ligação mais improvável de toda a árvore genealógica de Rúben Dias.
João de Amaral teve quatro casamentos e um total de 17 filhos desses matrimónios. O terceiro casamento foi com Maria Rodrigues, a 12 de julho de 1706. Deste matrimónio nasceu Manuel de Amaral, em Penedono, em 1721.
Esta linhagem manteve-se sempre em Penedono até ao início do século XIX, altura em que se mudou para uma freguesia do mesmo concelho: Castainço. Foi aí que nasceu, a 6 de janeiro de 1813, José António de Sousa Coelho, que se casaria com Maria Cândida Veiga de Seixas a 20 de fevereiro de 1841.
O bisneto de José António de Sousa Coelho, Manuel Neto Portugal, nasceu em Penela da Beira, Penedono, a 5 de outubro de 1909, exatamente um ano antes da Implantação da República. Era filho de Isménia do Espírito Santo e José Maria Neto Marçal.
Manuel Neto Portugal casou-se com Laura Duarte e teve dois filhos. Manuela Eanes, cujos apelidos de solteira eram Duarte Neto Portugal, foi a mais velha, nascendo em Almada a 29 de dezembro de 1938.
Licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, Manuela Eanes dedicou toda a sua vida profissional e cívica aos mais jovens, idosos e desprotegidos. Co-fundou em 1983 o Instituto de Apoio à Criança, que dirigiu até 2013, altura em que se tornou presidente honorária.
Casou-se a 28 de outubro de 1970 com o general António Ramalho Eanes, no Palácio Real de Queluz. Tornou-se a Primeira Dama mais nova de sempre, com apenas 37 anos, quando o marido foi eleito como primeiro Presidente da República após o 25 de Abril. Reinventou o papel de Primeira Dama, da participação ativa que teve na campanha eleitoral à agenda pública própria.
Manuela Eanes
A primeira ligação entre Rúben Dias e Manuela Eanes radica em João de Amaral, que é décimo avô do jogador e sétimo avô da antiga Primeira Dama. No entanto, esta não é a única ligação entre ambos na árvore genealógica do central do Manchester City.
O segundo parentesco, mais distante do que o supracitado, vai até Isabel do Amaral, filha do casamento de António Rodrigues com Maria do Amaral, e Miguel Rodrigues.
Miguel Rodrigues e Isabel do Amaral casaram-se em Penedono em 1635. A filha mais velha, Maria do Amaral, é mãe de João de Amaral. Outra filha, Ana do Amaral, casou-se a 6 de julho de 1664 com João Rodrigues. Tiveram um filho, o Frei João do Sacramento.
O Frei João do Sacramento foi um religioso do século XVIII conhecido pela sua atividade missionária, nomeadamente as missões populares de evangelização que teve no arquipélago da Madeira.
O Frei João do Sacramento teve uma filha ilegítima com Maria Rodrigues Geada, Maria de Amaral, nascida também em Penedono.
Maria de Amaral casou-se com José Rodrigues Veiga a 15 de junho de 1710, sendo pais de José António Rodrigues Veiga, cuja descendência passaria depois para Castainço.
A neta de José António Rodrigues Veiga, que se casou com Maria da Conceição, é Maria Cândida de Seixas, que se casaria por sua vez, em 1841, com o já supracitado João António de Sousa Coelho.
Manuela Eanes é trineta de João António de Sousa Coelho e Maria Cândida. Ou seja, além da primeira ligação entre ambos via João de Amaral, Miguel Rodrigues e Isabel de Amaral são décimo segundos avós de Rúben Dias e, por duas vias, nonos avós de Manuela Eanes.
Manuela Eanes
A outra ligação inesperada de Rúben Dias vem também da família Amaral de Penedono mas através de uma outra linha que tem início em Isabel do Amaral e Miguel Rodrigues.
Além de Maria do Amaral e Ana do Amaral, Isabel do Amaral e Miguel Rodrigues tiveram também Miguel do Amaral, nascido a 1640 como Ana do Amaral (Maria do Amaral foi a primeira filha, nascida em 1635).
Miguel do Amaral casou-se com Mariana Gomes a 9 de junho de 1675 em Prova, uma povoação do município de Mêda, no distrito da Guarda. Tiveram um filho, Miguel do Amaral e Cunha.
Apesar de ter casado a 15 de setembro de 1725 com Mariana Saraiva de Azevedo em Vila da Ponte, no concelho de Sernancelhe, toda a descendência manteve-se na freguesia de Prova, alcançando uma elevada posição social.
A título de exemplo, José Manuel de Campos do Amaral e Cunha, neto de Miguel do Amaral e Mariana Gomes que se casou com uma prima afastada, D. Leonor Bernarda Cabral do Amaral Camelo, teve carta de brasão de armas em 1754.
Além dessa carta de brasão de armas, José Manuel de Campos do Amaral e Cunha construiu o solar que ficou conhecido por Casa Grande de Prova, uma das mais imponentes casas de fidalgos de arquitetura barroca localizadas na freguesia de Prova.
D. Leonor Bernarda Cabral do Amaral Camelo era bisneta de uma irmã de Isabel do Amaral, Ana do Amaral. Isabel e Ana do Amaral eram filhas de António Rodrigues e Maria do Amaral, antepassados mais antigos na ligação entre Rúben Dias e Manuela Eanes….
… e não só. Uma bisneta de José Manuel de Campos do Amaral e Cunha e D. Leonor Bernarda Cabral do Amaral Camelo, D. Francisca Augusta Cardoso Pinto Leitão, nascida em 1830, casou-se com João Maria de Lacerda.
Desse casamento nasceu Abel Maria de Lacerda, a 21 de novembro de 1858, ainda na freguesia de Prova, no município de Mêda.
De um relacionamento que teve com Maria Rosa de Jesus, com quem se viria a casar posteriormente, Abel Maria Lacerda teve em 1889, quando era ainda estudante de Medicina em Coimbra, Jerónimo Maria de Lacerda, nascido a 14 de outubro de 1889 na Sé Nova, em Coimbra. Também ele viria a tornar-se médico como o pai, Abel Maria de Lacerda.
Jerónimo Maria de Lacerda impulsionou uma verdadeira revolução na parte sul da Serra do Caramulo, num projeto que começou com a abertura do Grande Hotel para convalescentes e com a fundação da Sociedade do Caramulo.
Busto de Jerónimo Maria de Lacerda
Posteriormente, com o avanço da tuberculose no país, Jerónimo Maria de Lacerda acabou por reconverter o espaço no Grande Sanatório do Caramulo, que viria a ser muito relevante nas primeiras décadas do século XX.
O Caramulo tornou-se naquilo que ficou descrito como uma “cidade-jardim que era autossuficiente”, sendo a primeira vila de Portugal com eletricidade, saneamento básico, recolha de lixo e água canalizada, tornando-se a maior estância sanatorial da Península Ibérica também pela tecnologia de vanguarda.
Esses edifícios tinham outra particularidade: foram construídos a cerca de 800 metros de altitude porque Jerónimo Maria de Lacerda acreditava que os ares da montanha eram o tratamento devido contra a tuberculose.
A descoberta dos antibióticos e da vacina BCG fizeram com que a tuberculose passasse a ser controlada de forma médica, o que acabou por levar ao encerramento desses sanatórios. Jerónimo Maria de Lacerda morreu em 1945.
Foi nessa altura que os filhos, Abel de Lacerda, nascido em 1921, e João de Lacerda, dois anos mais novo, decidiram reconverter o espaço, fundando o Museu do Caramulo para criar um novo pólo de turismo e cultura que pudesse dinamizar a economia da região.
Museu do Caramulo
Abel de Lacerda, o irmão mais velho, formou-se em Ciências Económicas e Financeiras mas teve sempre uma enorme paixão pela arte, fomentando a ideia de um Museu de arte moderna apenas com obras que fossem doadas por artistas e colecionadores. Um deles foi… Pablo Picasso. Abel de Lacerda acabou por morrer novo, aos 36 anos, vítima de um trágico acidente.
Pintura de Picasso no Museu do Caramulo
Já João de Lacerda, o irmão mais novo, formou-se em Medicina como o pai, neste caso com a especialidade em Pneumologia, mas dedicou-se depois da morte do irmão Abel a acabar o Museu do Caramulo. Tinha uma enorme paixão por automóveis, tendo participado em várias provas internacionais antes de juntar a maior coleção de carros antigos do país (que também restaurava com as próprias mãos) e que passou a integrar o Museu Caramulo. Morreu em 2003.
Coleção de carros antigos no Museu do Caramulo
É através da família Amaral de Penedono que Rúben Dias é parente de Jerónimo de Lacerda, fundador do Sanatório do Caramulo, e dos filhos Abel e João de Lacerda, que fizeram depois a reconversão do espaço para o atual Museu do Caramulo.