O homem
de confiança dos Reis,
o autarca da terra
e os primos barões
do Brasil.
As figuras marcantes
na árvore genealógica
de Vitinha
Vítor Manuel Sousa Ferreira. Emprestou o nome próprio e o apelido a Vitinha. Mas, mais do que isso, o antigo médio, que passou por clubes como o Benelenses, o Farense, o Varzim, o Campomaiorense e o Aves, passou ao número 23 da seleção uma profunda paixão pelo futebol.
Para o médio-centro do Paris Saint Germain, o pai terá sido uma das primeiras e mais próximas referências e inspirações. Mas não é só de bola que se constroem os antepassados daquele que, aos 26 anos, foi já por duas vezes consecutivas vencedor da Liga dos Campeões pelo clube francês.
Nos antepassados de Vitinha há também um antigo autarca de Santo Tirso — a terra de origem, a que a família está profundamente ligada —, antigos magistrados ordenados cavaleiros e barões naturais da freguesia das Aves que cruzaram o Atlântico, estabeleceram-se no Brasil e aí ganharam destaque entre a sociedade, já no século XIX.
Nos ramos da árvore genealógica de Vítor Machado Ferreira, que a Associação Portuguesa de Genealogia investigou, num trabalho em parceria com o Observador, foi possível encontrar 84 ascendentes só na chamada árvore dos costados (a árvore dos pais, dos pais, dos pais).
Depois, há mais 45 ascendentes, que levam ao cruzamento com as figuras mais notáveis que acabávamos de referir. No total, são 130 pessoas — e dois apelidos que fizeram um percurso muito curioso até chegar ao número 23 da seleção.
Vamos começar pelo apelido Ferreira. É um apelido que Vitinha recebe do pai. Mas que nasce, de acordo com a investigação, em 1670, com Ana Ferreira, nona avó do jogador.
Ana Ferreira nasce nesse ano na freguesia de São Martinho do Campo, uma localidade de Santo Tirso. Depois, casa com Manuel da Costa e, já em 1695, os dois vão ter uma filha, Domingas Ferreira.
É o apelido materno que passa para a descendência do casal como referência determinante no nome de família. À época, e até cerca de metade do século XX, a prática era relativamente comum. De tal forma que, já em 1720 — dois anos depois de Ana Ferreira e Manuel da Costa se casarem e se fixarem em Lordelo, Guimarães — o filho de ambos vai também receber o apelido da mãe: Leandro da Rocha Ferreira.
Nos 200 anos seguintes, os Ferreira mantêm-se fiéis à localidade de Lordelo, no concelho de Guimarães. Apenas o pai de Vitinha, Manuel Ferreira, vai nascer a Santo Tirso, já em 1970. Todos os antepassados até aí nasceram na mesma localidade de Lordelo.
Mas vamos recuar rapidamente ao início do século XVIII. Porque há uma particularidade no apelido Ferreira que vale a pena contar mais em detalhe.
Uma das origens desse nome pode, como dissemos, ser encontrada em Ana Ferreira, uma das nonas avó do jogador, pelo lado paterno.
Já falámos do neto de Ana Ferreira Leandro da Rocha Ferreira. O que ainda não contámos foi como o casamento de Leandro, em fevereiro de 1743 (curiosamente, o mês em que Vitinha nasceu, fevereiro), vai levar à convergência de duas linhas do mesmo apelido.
Leandro casa-se em Mesão Frio a 2 de fevereiro de 1743, com uma senhora que é descendente de Violante e Pedro: chamava-se Quitéria Ferreira. Nascida exatamente no mesmo ano de Leandro — 1720 —, Quitéria era natural de Lordelo, precisamente a localidade dos antepassados do marido.
Na prática, o casamento de Leandro e Quitéria, 280 anos antes do nascimento de Vitinha, une dois ramos familiares com o mesmo apelido, mas com uma origem geográfica ligeiramente diferente: Guimarães e Santo Tirso.
E o “Ferreira” chega, finalmente, ao registo de nascimento do craque do Paris Saint Germain, a 13 de fevereiro de 2000.
É, aliás, pelo lado paterno da família que chegamos ao antigo antepassado de Vitinha. Um antepassado que nos leva aos Açores.
Estamos na primeira metade do século XVI. Em 1540, no mesmo ano em que, na praça do Rossio, em Lisboa, se realiza o primeiro auto de fé, nasce em São Miguel o pai de Pedro Paulo de Sousa, Gaspar Gonçalves.
Não há muita informação disponível sobre esta figura. Sabemos o ano e local de nascimento, e também que seria alguém com uma formação diferenciada, uma vez que a sua atividade profissional estava ligada à área medicinal — era boticário. Além disso, Gaspar Gonçalves era cantor de canto de órgão. O boticário açoriano teve uma relação com Isabel Rodrigues.
E é dessa relação que vai nascer, já na localidade de Matriz, em Ribeira Grande, a 4 de julho de 1587, um dos chamados “notáveis” dos antepassados de Vitinha.
Pedro Paulo de Sousa é 12.º avô do jogador do PSG. Ainda jovem, toma a decisão de deixar os Açores e rumar ao continente para a sua formação superior, na Universidade de Coimbra. Conclui os estudos em 1614, quando já teria perto de 30 anos de idade.
Universidade de Coimbra no século XVIII (gravura da época)
A sua carreira como administrador régio, ao longo das quase quatro décadas seguintes, permite perceber que Pedro Paulo de Sousa foi um destacado funcionário da confiança da dinastia filipina, que reinou no país entre 1581 e 1640.
Essas funções levaram-no, primeiro, de volta ao Brasil, onde passou três anos como Ouvidor da Capitania de Pernambuco — um cargo de elevada relevância, que ia muito além da função de juiz e que transformava os seus titulares, muitas vezes, em instrutor dos processos judiciais e último decisor desses mesmos processos. Eram a autoridade judicial máxima nos territórios que ficavam sob sua responsabilidade.
Pedro Paulo de Sousa voltou ao continente para assumir, durante oito anos, as funções de Corregedor da Comarca do Porto e ainda, durante quase uma década e meia, o cargo de Desembargador.
Foi ordenado Cavaleiro da Ordem de Cristo, uma distinção atribuída às figuras que tivessem prestado destacados serviços ao reino.
Livro das escrituras da Ordem de Cristo, 1560-1568
No plano pessoal, o magistrado teve um casamento com D. Maria do Vale, em 1616. Mas não é dessa relação que se constrói a ligação familiar com Vitinha. Na verdade, o jogador descende de Pedro Paulo de Sousa através de uma filha “ilegítima” que o magistrado tem com Maria da Costa.
D. Mariana de Sousa, a filha desse casal, nasce em Penafiel no ano de 1630. Anos mais tarde, acabaria por ser reconhecida pelo magistrado e, dessa forma, ficava liberta do título de “ilegítima”. Mas o mesmo não aconteceria com a sua bisneta.
D. Mariana de Sousa casa com Baltazar de Sequeira e Matos a 4 de janeiro de 1654.
Dessa relação nasce, em 1665, André Matos Cotrim — um apelido que não exclui a possibilidade de Vitinha ter uma ascendência comum com o antigo candidato presidencial João Cotrim Figueiredo e, também, com o líder do Chega, André Ventura.
André Matos Cotrim era ainda solteiro quando teve, com Joana Dias, também solteira, um filho.
Em 1695, na localidade de Eiriz, Paços de Ferreira, nasce Gregório de Matos Cotrim — o futuro padre Gregório.
E, em 1720, de uma relação do padre Gregório de Matos Cotrim com Catarina Neto, nasce Quitéria Josefa de Matos, oitava avó de Vitinha.
Ao contrário da sua bisavó, Quitéria nunca viria a ser reconhecida pelo pai.
Quitéria casa com Francisco da Silva Freitas e do casal nasce Ana Maria da Silva. Já tarde na vida, quando Ana Maria tinha 40 anos, nasce da relação com Manuel José Francisco uma menina: Quitéria Maria Gonçalves da Silva.
Todos os descendentes deste ramo vão fixar-se em várias localidades do concelho de Santo Tirso. A única exceção é o avô paterno de Vitinha, António de Oliveira Ferreira, que nasce em Lordelo, Guimarães. Logo a seguir, do casamento com Maia Regina de Sousa Monteiro, nasce Vítor Manuel de Sousa Ferreira, pai do jogador, já em Santo Tirso.
Já vimos como o “Ferreira”, que Vitinha recebe do pai, nasce da união de dois ramos da família com o mesmo apelido.
Mas o jogador tem outro apelido, “Machado”, que lhe chega pelo lado da mãe. Esse apelido tem um percurso ainda mais curioso. Por uma razão: é que resulta da união, não de dois, mas de três ramos distintos que vão convergir, em 1973, no nascimento de Ana Maria Fernandes Machado — a mãe de Vitinha.
Vitinha com o pai e a mãe
Vamos por partes. José Machado nasce na freguesia de São Lourenço de Romão, nas Aves, em 1735. É ele o elemento da família “Machado” mais antigo que a Associação Portuguesa de Genealogia encontrou nos registos oficiais.
Cerca de 10 anos mais tarde, ali perto, em Negrelos, Santo Tirso, nasce Torcato de Sousa. Quando Torcato e Ana Maria, a sua mulher, têm um filho, batizam-no com o nome de José António de Sousa Machado. O apelido surge ali, em José António, a 22 de maio de 1777, mesmo que nenhum dos progenitores — ou os seus antepassados mais próximos — alguma vez tivesse carregado consigo o “Machado”.
Nestas duas linhas familiares encontramos a primeira união: é que os netos de Torcato e Ana Maria, por um lado, e José Machado e Mariana de Sousa, por outro lado, vão casar-se ainda na primeira metade do século XIX.
Falamos de Joaquim de Sousa Machado e de Maria Joana Machado — ambos com apelido Machado de origem.
A 7 de fevereiro de 1837, quando Jerónimo de Sousa Machado nasce em Pinheiro, Vila Nova de Famalicão, passam a estar unidos dois ramos dos Machado que, até aí, corriam de forma independente um do outro.
Mas há mais. Para aprofundarmos o terceiro ramo dos Machado, temos de voltar por alguns instantes ao século XVIII. Mais precisamente, a 1765.
É nesse ano que nasce Manuel José Machado. Natural de Sequeiró, uma freguesia de Santo Tirso — curiosamente, a região de onde provém a família materna de Vitinha —, Manuel José Machado casa com Ana Maria e dessa união nasce Custódio Machado, em 1765.
Nos quase 200 anos seguintes, este ramo dos Machado anda de terra em terra, mas sempre no concelho de Vila Nova de Famalicão: nas localidades de Assento, Delães e Bairro.
Até que, a 9 de fevereiro de 1938, nasce Maria Rosa Fernandes Machado. Tetraneta de uma Sampaio — no caso, Teresa Maria de Sampaio —, a avó de Vitinha vai casar-se, em setembro de 1964, com Manuel Sampaio Machado.
É com esse casamento entre os avós maternos do número 23 da seleção que se unem, finalmente, os três ramos dos Machado.
Apesar de algumas movimentações pontuais — geralmente, não mais longas que uma geração —, a ascendência de Vitinha está profundamente concentrada em três concelhos da região norte do país: Guimarães, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso.
É na Vila das Aves que, a 13 de fevereiro de 2000, um domingo, nasce Vítor Ferreira Machado. Mesmo ali ao lado, na freguesia de Rebordões, mas cerca de 100 anos antes, tinha nascido Adriano Fernandes de Azevedo — é outro dos “notáveis” na família de Vitinha e também ele um destacado membro da comunidade local.
Manuel António Fernandes e Felicidade Francisca são o casal comum. Nasceram ambos em Rebordões: Manuel no ano de 1815, Felicidade no ano de extrema relevância para a história do país — 1820, ano da Revolução Liberal.
O casal de quintos avós de Vitinha tem dois filhos: António Joaquim Fernandes (que nasce em 1839) e Luís Joaquim Fernandes (que só nasceria quase 20 anos mais tarde, em 1857).
António é bisavô de Vítor Manuel de Sousa, pai de Vitinha.
Luís, irmão de António, casa-se com Elvira Cândida de Sousa Azevedo em 1890. E dessa relação nasce, em 1894, Adriano Fernandes de Azevedo — uma figura que ficará na história de Santo Tirso.
Adriano Fernandes de Azevedo foi advogado e, entre 1945 e 1959, foi presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, era um homem das letras e, em particular, gostava de escrever poesia.
Adriano Fernandes de Azevedo
Chegou a publicar um livro, Torre de Marfim, em 1921, com mais de 160 páginas de poemas.
A 11 de março de 1983, no momento da morte do ex-autarca, o Jornal de Santo Thyrso descrevia-o como “um católico fervoroso, um grande advogado, um distinto poeta e, principalmente, um exemplar chefe de família”. Foi, também, um defensor do Estado Novo, dizia o mesmo jornal, “por reconhecer, como tantos bons portugueses, que era impossível continuar-se a viver em Portugal na anarquia, na demagogia, na balbúrdia e com a bancarrota a que os partidos políticos com as suas ambições pessoais [e] a sua incompetência nos haviam conduzido”.
Já aqui andámos pela segunda metade do século XVII. Recorda-se? Foi quando falámos de Ana Ferreira, a nona avó de Vitinha que está na origem de um dos ramos dos Ferreira.
Mas esse nem sequer foi o antepassado mais antigo do jogador a que a Associação Portuguesa de Genealogia conseguiu chegar na árvore dos costados do médio-centro.
Na investigação à chamada linha pura feminina — que do ponto vista genético está associada à transmissão do ADN mitocondrial de que Vitinha é portador —, podemos recuar até ao ano de 1635 e a uma senhora em concreto: Maria Martins.
É a 11.ª avó do jogador natural de Aves. Viveu com o marido, Pedro Dias, na freguesia de São Torcato, Guimarães, onde a família se manteve até ao início do século XX e ao nascimento da bisavó de Vitinha, Ana Fernandes.
Essa permanência da família em São Torcato, Guimarães, teve uma brevíssima exceção. Foi quando Maria Custódia de Oliveira e Domingos Lopes, sétimos avós de Vitinha, tiveram Joaquim Rosa em Gominhães, também no distrito de Guimarães.
Há ainda outros dois “notáveis” na família do médio-centro da seleção nacional.
Para chegar a esses primos afastados temos de voltar à árvore de Vítor Manuel, pai do jogador, e depois seguir pelos antepassados de António de Oliveira Ferreira, o avô paterno, até chegarmos a um casal: Simão Luís Monteiro de Paiva e Maria Francisca de Araújo.
Simão é natural de Alfena, Valongo, e Maria Francisca nasceu em Aves — uma freguesia bem familiar para o 23 da seleção. Os dois elementos do casal têm cinco anos de diferença: ele nasceu em 1705 e ela cinco mais anos tarde.
O casal vai ter dois filhos: António Francisco Monteiro (nascido em Santo Tirso, em 1735); e Francisco de Paiva Monteiro (que nasce na mesma freguesia das Aves em 1740).
Francisco — assim como as nove gerações seguintes, até Vitinha — mantêm-se, sobretudo, por Santo Tirso. Já o irmão teve um percurso muito diferente.
António viajou para o Brasil, onde se fixou e se destacou como comerciante. Foi lá que casou com Joana Ferreira Maciel e que teve quatro filhos. A todos eles foi dada carta de brasão de armas. Mas a um deles, Tomás António Maciel Monteiro, foi atribuído o título brasileiro de Barão de Itamaracá. Foi em 1843, já com mais de 60 anos.
O percurso de Tomás ainda se cruza com Portugal. Em 1809, recebe o grau de bacharel pela Universidade de Coimbra. Rapidamente volta ao Brasil e, logo em 1811, é nomeado Juiz de Fora em Paraíba. Menos de uma década depois já acumula esse cargo com as funções de Procurador da Coroa e Fazenda da Junta de Fazenda da capitania da Paraíba.
As carreiras de magistrado e de político acabam por cruzar-se. A 16 de dezembro de 1842 é nomeado ministro do Supremo Tribunal de Justiça do Brasil — mas já entre 1826 e 1829 tinha sido deputado à Assembleia Geral Legislativa do Brasil pela província de Pernambuco e, em 1840, assumiu o governo da província.
Antes do título de Barão do Itamaracá, foi agraciado com a Ordem de Cristo, recebeu o foro de fidalgo e o título de conselho e comenda da mesma ordem.
Depois, viu o sobrinho seguir-lhe os passos. António Peregrino Maciel Monteiro nasceu a 30 de abril de 1804, filho de Manuel Francisco Maciel Monteiro e Manuela Lins de Melo.
Formou-se em Medicina em Paris e, tal como o tio, voltou ao Brasil logo após concluir os estudos. Também como o tio, rapidamente seguiu a carreira política, chegando a presidente da Câmara dos Deputados, ministro das Relações Exteriores e, finalmente, embaixador do Brasil em Lisboa — foi, aliás, na capital do Império que veio a morrer, em 1868.
Ainda em 1851, no Parlamento brasileiro, ficaram registadas as palavras que proferiu a propósito do mercado esclavagista. “Sempre detestei a escravidão. A minha natureza como que se revolta à sombra de qualquer jugo. Sempre me reputei de abolicionista.”
A árvore genealógica de Vitinha leva-nos numa viagem de quase 500 anos até ao antepassado mais antigo do médio-centro da seleção.
E se, por um lado, a maior parte dos familiares diretos do jogador — os pais dos pais dos pais, e por aí adiante — se mantiveram concentrados, ao longo das gerações, em três regiões do norte do país, os seus “notáveis”, por outro lado, estão profundamente ligados ao Brasil.
No caso do 1.º e 2.º barões do Itamaracá, chegaram mesmo a assumir altas responsabilidades políticas naquele lado do Atlântico.
Ao mesmo tempo, fica em aberto a possibilidade de Vitinha ter alguma relação familiar com duas figuras da política nacional, João Cotrim Figueiredo e André Ventura.