Há escadas rolantes avariadas no Metro de Lisboa há 3 anos e 7 meses
Como se chegou a isto?
E o que se passa com a manutenção da empresa?

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Em fevereiro foi batido o recorde de equipamentos avariados: havia 40 escadas rolantes e 38 elevadores parados nas estações da capital. A manutenção mudou e vão-se notando melhorias.

Quem nunca saiu da plataforma do Metro e se deparou com umas escadas ou um lanço de escadas elétricas avariadas? O Metropolitano de Lisboa tem 234 escadas, 10 tapetes e 133 elevadores distribuídos por 46 estações que suportam um uso intensivo estimado em 18 horas por dia. São 377 equipamentos de diferentes marcas e gerações tecnológicas e que estão em estágios distintos do seu ciclo de vida. Naquele que é um dos maiores parques nacionais de equipamentos mecânicos de transporte e elevação de pessoas, a existência regular de avarias é, até certo ponto, inevitável. Mas, a partir de 2021, foi notória a subida constante no número de equipamentos avariados.

Reboleira Amadora Este Alfornelos Pontinha Carnide Colégio Militar/Luz S. Sebastião Marquês de Pombal Restauradores Terreiro do Paço Santa Apolónia Baixa-Chiado Parque Avenida Odivelas Sr. Roubado Ameixoeira Lumiar Quinta das Conchas Campo Grande Cidade Universitária Entrecampos Campo Pequeno Saldanha Picoas Rato Cais do Sodré Rossio Arroios Alameda Areeiro Roma Alvalade Telheiras Intendente Anjos Olaias Bela Vista Chelas Olivais Cabo Ruivo Oriente Moscavide Encarnação Aeroporto Alto dos Moinhos Laranjeiras Jardim Zoológico Praça de Espanha Martim Moniz

O Metro mudou a abordagem à manutenção com resultado na taxa de indisponibilidade, que, embora tendo baixado, ainda não fez desaparecer a lista de equipamentos avariados há mais de um ano. Está a ser testado um projeto piloto nas estações da Baixa-Chiado e do Aeroporto que pode revolucionar a manutenção de escadas e elevadores, mas implica uma subida dos custos.

Dados remetidos ao Observador pelo Metropolitano de Lisboa mostram que a indisponibilidade de escadas e elevadores passou de taxas abaixo dos 5% até 2020 para mais do dobro — 10,7% — nas escadas mecânicas. A percentagem de indisponibilidade superou os 13% em 2024 e 2025. Nos elevadores o salto nas avarias ainda foi mais expressivo a partir de 2021, tendo chegado a uma taxa de indisponibilidade de 16,7% em 2024 e quase 25% — um quarto de todos os elevadores — no ano passado. Até 2020, estas percentagens situavam-se abaixo dos 5%.

As escadas representam 63% de todo o parque, sendo por isso o ativo dominante do ponto de vista de manutenção, disponibilidade operacional e perceção de conforto para os passageiros. A disrupção nos elevadores é menos visível para a generalidade dos passageiros, mas estes equipamentos são fundamentais para as pessoas com mobilidade reduzida ou com carrinhos de bebé e frequentemente são a única opção para chegar à plataforma onde circulam as composições ou à rua.

Há 4 estações sem equipamentos mecânicos. Praça de Espanha é a próxima a ter elevador

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Alto dos Moinhos, Laranjeiras, Jardim Zoológico e Praça de Espanha na linha azul são as únicas estações do Metro que ainda não têm equipamentos mecânicos. Em julho, o Martim Moniz na linha verde passou a ter elevadores. O mesmo está previsto para a Praça de Espanha até final de agosto. A rede conta com 56 estações, mas seis delas são duplas. Saldanha, Campo Grande, Alameda, Marquês do Pombal, Baixa-Chiado e São Sebastião contam duas vezes, uma por cada linha que servem.

Outro sinal de alarme foi o prolongamento no tempo destas avarias. Em janeiro, havia seis escadas rolantes em toda a rede que estavam avariadas há mais de 1.000 dias (pouco mais de três anos). E cerca de 16 equipamentos estavam sem operar há um ano ou mais. Estas situações reduziram-se em junho, com uma exceção (Cais do Sodré). Nesta estação, encontram-se as escadas mecânicas recordistas do tempo de avarias — 2.500 dias, ou desde 2019. É uma situação excecional que tem uma explicação — um impasse entre o Metro e a Infraestruturas de Portugal (responsável pela estação ferroviária da linha de Cascais) sobre qual a entidade que é responsável.

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Em 2024, o Metro de Lisboa reconheceu que a situação operacional destes equipamentos estava a ficar fora do seu controlo. Num comunicado no qual elencou o que estava a ser feito para lidar com o problema, a empresa admitiu que estava a ser “recorrentemente confrontada com dificuldades ao nível da resposta das empresas contratadas e responsáveis pelos serviços de assistência e manutenção, quer em termos de recursos humanos e competências técnicas quer de disponibilidade de peças e equipamentos de substituição”.

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Garantiu que quase todas as grandes empresas deste mercado já foram ou são responsáveis pelos serviços de manutenção e assistência técnica regular e completa dos equipamentos mecânicos da empresa. Neste comunicado de agosto de 2024 — há precisamente dois anos — a empresa disse que estava a trabalhar num novo modelo de manutenção que seria testado através de um projeto piloto em duas das estações com mais procura.

Nível de avarias está a cair nos últimos meses, depois de pico atingido em fevereiro deste ano

Quando foi chamada ao Parlamento no final de março, a presidente do Metropolitano de Lisboa descreveu a manutenção destes equipamentos como um “problema crónico” que se agravou nos últimos cinco anos, e mais em particular nos dois últimos.

Com poucos meses ainda em funções, Cristina Vaz Tomé questionou a forma como o Metro tinha gerido a relação com os prestadores de serviços quando no passado se registou um agravamento das falhas. E responsabilizou o contrato de manutenção geral para estes equipamentos “que não previa penalizações para o fornecedor dos equipamentos ou dos serviços de reparação”. Ou seja, exemplificou, o prestador de serviços resolvia uma avaria e se no dia seguinte o equipamento voltasse a avariar não era penalizado.

Avarias em Elevadores

Janeiro 2026 Junho 2026

Avarias em Escadas mecânicas

Janeiro 2026 Junho 2026
Mais de 365 dias Mais de 180 dias Mais de 30 dias
Janeiro
Junho

Os dados fornecidos pelo Metro ao Observador indicam que a situação se agravou nos primeiros meses de 2026. As taxas de imobilização nos elevadores começaram o ano nos 27,7%. O número de equipamentos parados era mais de 20, dos quais 5 estavam sem funcionar há mais de um ano. A maioria estava parada há mais de 30 dias. Ainda em janeiro deste ano, 24 escadas rolantes estavam fora de serviço, das quais nove há mais de um ano e 11 há mais de seis meses.

A taxa de imobilização ainda subiu em fevereiro para 30% nos elevadores e 17% nas escadas. E, com isso, atingiu-se um total de 40 escadas rolantes e 38 elevadores parados nas estações da capital. Os números começaram a baixar em março, mas só a partir de abril é que começaram a mostrar uma melhoria consistente.

A fotografia ao estado do equipamento mecânico a 2 de junho, e partilhada com o Observador, mostra uma melhoria muito significativa no número de equipamentos avariados, que é acompanhada pela redução do peso das reclamações por avaria nas queixas totais sobre o serviço do Metro. Nessa data estavam 11 elevadores fora de serviço e 9 escadas paradas. Ainda assim, persistiam tempos longos de reparação em alguns destes equipamentos. Sete elevadores estavam parados há mais de seis meses e quatro escadas rolantes não funcionavam há mais de um ano.

Avarias subiram após Metro entregar manutenção a um só fornecedor por 5 anos

Uma das principais mudanças na política de manutenção do Metro resultou do fim do contrato de longa duração feito com um só fornecedor que esteve em vigor entre 2021 e 2025. Este contrato foi assinado no final de 2020 pela anterior administração da empresa com a filial portuguesa da empresa alemã Schmitt Elevadores para a prestação de serviços de manutenção completa (preventiva e corretiva) de escadas mecânicas, tapetes rolantes e elevadores das estações das linhas azul, amarela, verde e vermelha.

Evolução da taxa
de indisponibilidade anual
2016–2025

Elevadores
Escadas mecânicas

Taxa de imobilização em 2026
(até maio)
 

Elevadores Escadas mecânicas

O contrato, assinado em novembro de 2020, tinha um prazo de execução de um ano, renovável por quatro anos, num total de 60 meses e um valor de 1,8 milhões de euros. Previa penalidades financeiras para o prestador de serviço em função do índice de indisponibilidade, de atrasos na execução de manutenção ou más práticas de manutenção.

Há uma coincidência entre o tempo de vigência deste contrato e a degradação dos níveis de fiabilidade e operacionalidade dos equipamentos. Mas a atual presidente do Metro diz não ter dados para atribuir ao contrato a causa do aumento de ocorrências e admite que possa também ser explicado pela degradação ou idade dos equipamentos.

Cristina Vaz Tomé não atira as culpas para o prestador de serviços escolhido (que até foi a opção para fornecer os elevadores da futura estação da Estrela que será mais funda de toda a rede). Mas, questiona o modelo do contrato e a forma como foi gerido pela anterior gestão.

Em respostas complementares ao Observador, fonte oficial do Metro sublinha que os contratos de manutenção assinados com a Schmitt “previam a possibilidade de rescisão e mantiveram-se pelos 5 anos com a taxa de avarias a aumentar. De onde se depreende que não se recorreu aos mecanismos previstos nos contratos para salvaguardar os interesses da empresa”.

Segundo a mesma fonte, um contrato desta natureza “deve considerar níveis de serviço e penalidades em caso de incumprimento. É o que pretendemos para o modelo de manutenção de equipamentos mecânicos a partir de 2027, à semelhança do que foi adotado para o contrato de manutenção piloto para as estações do Aeroporto e Baixa-Chiado. As penalizações ocorrem quando o trabalho não fica corretamente executado ou há incumprimento do serviço a prestar.”

A estação de São Sebastião tem uma escada avariada há cerca de um ano
BEATRIZ MARTINS/OBSERVADOR

As medidas que estão a ser adotadas para mitigar as falhas

Mais do que perder tempo a tentar encontrar responsáveis pelo que correu mal no passado, a atual gestão focou-se em mudar o paradigma a vários níveis. Em declarações ao Observador, a presidente do Metropolitano explica as medidas que estão a ser adotadas para reduzir o problema.

Na sequência do fim do anterior contrato com uma única empresa, o Metro está a testar um novo modelo, dividindo a tarefa por vários fornecedores para minimizar riscos, lançando vários concursos e contratos. Em junho deste ano estavam em vigor 15 contratos de manutenção para os equipamentos de curta duração. O objetivo é que ao longo deste prazo de um ano possam servir de teste para definir que modelo deve ser adotado a partir de 2027 e qual o nível de serviço que será colocado a concurso. Também se pretende analisar se os novos contratos serão feitos por linha ou por tipo de fornecedor e qual o grau de penalização/responsabilização.

Mas a mudança que, até agora, produziu mais resultados, pelo menos no curto prazo, foi a intensificação da monitorização do estado dos equipamentos e a vigilância mais apertada sobre as medidas que estão a ser tomadas para resolver as falhas. A monitorização do funcionamento é feita diariamente por equipas nas estações e está prevista a ativação de dispositivos que alertam para avarias, instalados em cerca de metade dos equipamentos.

Gestão do Metro esteve limitada a três e depois dois administradores

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A degradação dos níveis de serviço das escadas e elevadores acontece em paralelo com outra condicionante. A administração do Metropolitano de Lisboa esteve reduzida a dois elementos durante mais de seis meses em 2025 e antes disso esteve um ano com três administradores (depois da morte do presidente Vítor Santos), que estiveram a desempenhar funções depois do mandato terminar. Só no início deste ano, entrou um novo conselho de administração com cinco elementos e salários mais altos.

Em paralelo, há um membro da administração do Metro a acompanhar com regularidade este trabalho e a quem é reportada a lista de equipamentos parados, há quantos dias e o que está a ser feito para resolver o problema.

O que pode mudar com projeto piloto na Baixa-Chiado e Aeroporto

Desde 2024 que o Metro estava a preparar uma consulta ao mercado para um projeto piloto sobre a assistência técnica/manutenção em acessibilidades (elevadores, escadas e tapetes rolantes). O objetivo era encontrar novas soluções de contratação e modelos de serviço de assistência e manutenção que incorporassem as novas tecnologias, melhorias do sistema de gestão e monitorização centralizada e os indicadores de desempenho contratuais.

Este modelo demorou muito tempo a ser implementado. O primeiro contrato para uma experiência piloto em duas estações só foi assinado no final do ano passado para entrar em vigor este ano.

O contrato por cinco anos para os elevadores/escadas da Baixa-Chiado e do Aeroporto — as estações com maior procura — envolve 26 equipamentos e foi adjudicado à Kone. Contempla duas fases. A primeira consiste na manutenção. A segunda envolve um piquete técnico dedicado e disponível durante 24 horas por dia e sete dias por semana para monitorizar em exclusivo as escadas e os elevadores das duas estações. O objetivo é “reduzir os tempos de indisponibilidade e reforçar a fiabilidade dos equipamentos em duas das estações com maior procura da rede”.

Estas estações foram escolhidas por terem maior frequência de passageiros e número de equipamentos, mas também por razões reputacionais uma vez que são as que têm maior afluxo de turistas.

Avarias e indisponibilidade — Baixa-Chiado (projeto piloto)

Elevadores
(4 equipamentos)

Escadas mecânicas
(12 equipamentos)

2026 — dados só até maio

O contrato com a Kone só começou a produzir efeitos em maio, pelo que as melhorias nos primeiros meses deste ano ainda não são muito visíveis. O número de horas de indisponibilidade das escadas mecânicas até foi mais elevado na Baixa-Chiado em maio do que o registado em anos anteriores. Para esta degradação contribuiu uma avaria/paragem em duas escadas mecânicas nesta estação. Uma esteve parada entre janeiro e março e outra entre janeiro e grande parte do mês de abril, só tendo sido reparada a partir do dia 27.

Nos elevadores da estação, o Metro dá nota de uma “melhoria consistente” que permitiu uma total disponibilidade nos primeiros cinco meses do ano. Já as escadas mecânicas foram o principal ponto crítico até maio, mas desde então, a taxa de disponibilidade destes equipamentos tem sido “bastante elevada”, acrescenta a empresa.

Os dados para junho mostram uma redução das avarias em escadas mecânicas na Baixa-Chiado, com duas ocorrências.

Já a estação do Aeroporto teve uma “evolução positiva em 2026, quer nos elevadores, quer nas escadas mecânicas”, não obstante verificarem-se níveis de indisponibilidade. Essa melhoria é mais visível na segunda metade do mês de junho.

Avarias e indisponibilidade — Aeroporto (projeto piloto)

Elevadores
(3 equipamentos)

Escadas mecânicas
(10 equipamentos)

2026 — dados só até maio

Os primeiros 20 dias de julho mostram um mapa limpo, sem registo de avarias nas escadas elétricas da Baixa-Chiado e do Aeroporto. Nos elevadores, há melhorias nas avarias, mas permanece um elevador parado na Baixa-Chiado.

Para o Metropolitano, estes “dados reforçam a pertinência do modelo piloto implementado em 2026, com manutenção dedicada e piquete técnico permanente para as duas estações, permitindo acompanhar de forma mais próxima os equipamentos com maior impacto na experiência do cliente”.

Resultados são positivos mas os custos estão a subir

O contrato com a Kone foi assinado no final do ano passado por um valor global de seis milhões de euros até 2030. Para este ano estão previstos encargos de 1,2 milhões de euros. O valor abrange duas estações e é superior em um terço aos cerca de 800 mil euros de encargos anuais que a empresa suportou com o contrato da Schmitt em 2024 e 2025.

É certo que nem todos os custos com a manutenção e reparação estavam contemplados neste contrato geral, uma vez que o Metro recorre, sempre que necessário, a intervenções complementares que são asseguradas por diversas entidades e que se destinam a garantir a operacionalidade dos equipamentos mecânicos. A empresa justifica assim porque se somam outros contratos mais específicos para reparação de equipamentos feitos com a mesma empresa, a Schmitt, durante a vigência do contrato geral para toda a rede.

Os encargos totais com manutenção variam em função da natureza e da complexidade das operações. Nos últimos dois anos, o Metro suportou custos globais para toda a rede de cerca de 1,2 milhões de euros com a rubrica de manutenção e reparação — 1,138 milhões de euros em 2024 e 1,229 milhões de euros em 2025. Ou seja, o mesmo custo que prevê pagar este ano pelo projeto piloto que cobre apenas duas estações. Entre janeiro e maio deste ano, e excluindo o contrato com a Kone, a empresa suportou custos de 576,6 mil euros.

Em paralelo com as mudanças no modelo de manutenção e reparação, o Metro lançou um concurso de 10,5 milhões de euros para substituir as escadas das estações da Alameda, do Parque, do Terreiro do Paço, do Oriente e de Odivelas e, pela primeira vez, vai incluir, na empreitada de substituição e entrada em funcionamento, a manutenção das escadas.