Três dias no cemitério
dos heróis ucranianos

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O som dos passos na gravilha, apesar de vagaroso, é semelhante à marcha de botas cardadas. A linha da frente terrestre está longe, mas a guerra também existe ali — quer pelos ares, com os bombardeamentos russos, quer na dor dos familiares que todos os dias vão ao Campo de Marte, uma secção do cemitério de Lychavik, em Lviv, onde a Ucrânia reza à glória dos seus heróis. Aquela terra começou a ser revolta dois meses depois do início da guerra, mas, entretanto, as poucas dezenas de memoriais que ali se viam em 2022 já ultrapassavam as 1140 campas quando o Observador visitou o cemitério quase quatro anos depois.

Ao som das caminhadas, juntam-se as rezas, os choros e o cheiro da terra ainda remexida. Há um pai sexagenário que joga às cartas com três amigos, numa mesa improvisada junto à sepultura do filho. Há crianças que brincam junto às campas até que as mães lhes digam que está na hora de sair: "Vamos embora, despede-te do pai". Pelos arruamentos do Campo de Marte há ainda os camaradas de armas que, muitas vezes só com uma perna, lutam com esforço contra a inclinação do cemitério para rezar pelos amigos.

Iryna passa pela rua que agora tem o nome do marido e, minutos depois, junto à campa, lê um poema de Yuriy Dadak com o título "Derrotaremos Moscovo". Magda recorda como o irmão, Artem Dymyd, vendeu a Harley Davidson e comprou uma Kalashnikov para ir para a linha da frente. Alla, que só se tinha separado dos seus filhos gémeos quando no início dos anos 2000 foi trabalhar para Lisboa, perdeu Taras, a quem Volodymyr Zelensky concedeu, postumamente, o título de Herói da Ucrânia. Nos dias que o Observador passou no cemitério, fosse às sete da manhã ou mais perto das oito da noite, Alla estava sempre por ali, junto à campa do filho. Ora a rezar, ora a compor as flores. Oksana recorda o percurso da filha, Iryna Tsybukh, uma antiga jornalista que, mesmo em combate, nunca deixou de contar histórias e de sonhar com ter filhos, uma casa e um tomateiro. Não o teve em vida, mas os amigos semearam-no junto à campa que já dá frutos e as suas histórias continuam acessíveis a todos num QR Code junto à campa. Tudo como Iryna tinha idealizado antes da morte.

São histórias contadas ao Observador ao longo de três dias no Campo de Marte por quem as conhece melhor. Uma mulher, três mães, um pai, uma irmã, um comandante de batalhão a quem agora lhes resta apenas a memória. É por ela que puxam para lembrar ao mundo – através desta reportagem multimédia do Observador – que a guerra na Ucrânia não acabou. E que, para eles, nunca vai ter fim.

 
 
 
 
 

SETOR 1 | FILA 1 | CAMPA 5Yuriy “Ruf” Dadak
O poeta que queria tomar Moscovo
com balas de papel

Iryna Dadak está numa loja que tem um mural do marido acompanhado de uma frase escrita pelo próprio: “Espero que alguém diga um dia: ele conseguiu viver a vida”. Há merchandising, que inclui t-shirts, canecas, bonés, livros, muitos livros, editados pelo marido, além de uma estilosa máquina de café italiana. O espaço parece uma loja, está organizado como uma loja, mas não é bem uma loja. É um memorial de porta aberta que vende algumas peças de roupa e serve café de borla para quem quer recordar Yuriy “Ruf” Dadak, poeta e um dos cérebros mais proeminentes do movimento intelectual ucraniano anti-Moscovo. “Ruf” destacou-se como uma espécie de missionário nacionalista que evangelizou pessoas para a sua causa por toda a Ucrânia.

Há memórias e uma simbologia que não estão inscritas na parede. Foi precisamente numa loja de roupa, onde Iryna trabalhava e onde Yuriy era cliente, que no dia 26 de setembro de 2007 o poeta flirtou com ela pela primeira vez e a convidou para ir até às montanhas comemorar o seu 27.º aniversário. Os Cárpatos testemunharam o início de uma história de amor bonita, mas, conta Iryna ao Observador, “não necessariamente romântica”. No cume nasceu o interesse e, de uma forma natural, apaixonaram-se. Yuriy era já engenheiro e professor associado na Universidade Nacional de Florestas da Ucrânia, em Lviv, onde estava prestes a defender uma tese sobre compostos de madeira.

Casariam dois anos depois do convite do engenheiro Yuriy para irem às montanhas, já com mais um grau académico pela defesa da tese com sucesso.

Tiveram duas filhas. O “terceiro filho”, diz Iryna ao Observador, é esta loja-memorial. A mulher do poeta pegou no dinheiro que recebeu pela morte do marido (o montante base são 15 milhões de hryvnias ucranianas, o que corresponde a cerca de 309 mil euros) e aplicou parte do valor naquele espaço, que agora exibe com orgulho.

Entre o momento em que se conheceram e a morte de Yuriy houve toda uma vida, embora a partir de 2015 a presença do marido junto da família tenha sido sacrificada a favor de uma causa. Yuriy tornou-se uma espécie de herói nacionalista e influencer, com milhões de seguidores.

O poeta Yuriy “Ruf” Dadak foi um dos primeiros militares ucranianos a serem mortos em combate

Começou a escrever poemas com 14 anos, mas mandava-os para o lixo ou escondia-os numa gaveta. Ainda escrevia em russo, e ouvia rock russo, até que percebeu que não conseguia atingir a sua verdadeira identidade – algo que só encontrou quando passou a escrever em ucraniano.

É já mais tarde, em 2011, que Yuriy Dadak assume o pseudónimo de “Ruf” – uma homenagem ao Exército Insurgente da Ucrânia, o braço militar dos nacionalistas ucranianos – e lança a primeira coletânea de poesia. Assume que quer fazer uma transformação na poesia ucraniana, que considera demasiado derrotista, melancólica, desmotivante. Em alternativa, oferece uma poesia triunfante, que puxa pelo orgulho nacional. É, no fundo, a Glória aos Heróis.

Em 2014, conta Iryna ao Observador, Yuriy estava em Kiev “em negócios”, mas, ao ver o que se passava na Praça Maidan, “rapidamente se juntou aos manifestantes”: “Ele passava muito tempo fora, mas voltava sempre a casa”. Essas ausências passaram a ser mais prolongadas quando começou a grande luta de Yuriy Ruf no ano seguinte. É em 2015 que se torna uma espécie de Grande Educador pela Ucranização, ao criar uma Organização Não Governamental nacionalista como o nome “Projeto Literário e Educacional ‘Espírito da Nação’".

A partir daí passa a fazer o que chama de processo de “ucranização” nas escolas do Leste da Ucrânia. Além dos princípios da cultura e língua ucraniana, Yuriy defendia uma cultura abstémia, por considerar que o consumo de álcool retira capacidades. Às pessoas e à causa.

“No dia 24 de fevereiro [dia da invasão], eu fui para a fronteira com as nossas filhas e o Yuriy foi, de imediato, para um centro de mobilização”, conta Iryna

Um ano após o arranque do projeto chega a dar uma entrevista em que assume esse processo de evangelização nacionalista no Donbass, em resposta a um movimento similar que Moscovo estava a promover no Leste do País: “Se não ucranizarmos agora, a russificação progressiva far-nos-á pagar o preço disso. O que não nos levaram na guerra [que começou em 2014], vão levar nessa altura. Muitos estão a recuar [na língua e cultura ucraniana] com base em falsos estereótipos que lhes foram incutidos desde a infância. A divisão entre a Ucrânia que fala ucraniano e a Ucrânia que fala russo está outra vez a acontecer. Assim, uma parte do território pode voltar a separar-se se não o ucranizarmos em força pela via intelectual”. Em 2018, escreve um livro para crianças, "O Homem dos Contos de Fadas", com o mesmo objetivo de “ucranizar” o país – do berço até à campa.

Ao mesmo tempo que Yuriy catequiza pelo nacionalismo ucraniano, organiza um festival militar de rock em Kiev. Influenciado pelos norte-americanos Offspring, a nível musical, e pela banda de ucranianos de Kiev com ligações nacionalistas, Komu Vnyz, o poeta também quis fazer do rock (e do metal) uma forma de luta. Não é, por isso, de estranhar que também existam CD’s na loja-memorial da mulher Iryna.

Está na hora de sair da loja e, vinte metros abaixo, está a rua Yuriy Ruf, com Iryna a apontar para a placa com o nome do marido. A Ucrânia começou a substituir, progressivamente, os nomes das ruas que antes eram de personalidades soviéticas por nomes dos heróis ucranianos. Dois meses após a morte de Yuriy a Rua Nekrasov, assim nomeada há décadas em homenagem ao poeta russo, passou a chamar-se “Rua Yuriy ‘Ruf’ Dadak”. Além dessa via, em Lviv há um mural dedicado a Ruf na Rua Kolomyska. Mas ele é um herói nacional e, por isso, há artérias de outras cidades da Ucrânia que passaram a ter o nome do marido de Iryna: há ruas Yuriy Ruf em Kremenchuk, em Khmelnytskyi, em Kolomyia e ainda na aldeia de Malechkovychi. Na música, as bandas Тінь Сонця (em português Sombra do Sol, de folk metal), KARNA (de rock) e Фліт (Flit, de punk rock) dedicaram músicas a Yuriy Ruf após a sua morte.

Aquela rua e aquela placa têm, para Iryna, um gosto especial. “Vou poder passar por aqui com as minhas filhas, e os netos delas daqui a 100 anos vão ver o nome dele”.

Yuriy Ruf passou a ser nome de rua em várias localidades ucranianas

Iryna desce mais um pouco a rua e nem precisa de andar mais de cinquenta metros para chegar ao local onde hoje está Yuriy: o Campo de Marte. Iryna vai à frente, até parar junto à campa do marido. Foi dos primeiros a ir para ali. Toda a popularidade e propaganda anti-russa tornaram-no um alvo apetecível para as tropas de Moscovo. Que foram implacáveis.

É já junto à fotografia do marido que Iryna conta ao Observador como um intelectual passou a militar e como passou das balas de papel para as verdadeiras. “No dia 24 de fevereiro [dia da invasão], eu fui para a fronteira com as nossas filhas e o Yuriy foi, de imediato, para um centro de mobilização.” Com a confusão do trânsito, Iryna enganou-se e andou pelos Cárpatos, mas conseguiu retomar a rota e só parou em Roma, em casa da avó que ali morava há mais de 20 anos. Yuriy seguiu em sentido contrário: para combate.

Yuriy ganhou milhões de seguidores a espalhar propaganda anti-russa e isso tornou-o um alvo apetecível para Moscovo

O poeta lutou pela 24.ª Brigada Mecanizada Separada na zona do Donbass e acabou por morrer no Dia das Mentiras após ser atingido pela artilharia russa na zona de Lugansk. A mulher soube apenas no dia seguinte, quando o irmão de Yuriy lhe ligou a confirmar que o marido estava “na lista dos mortos”.

A guerra tinha começado há pouco mais de um mês, daí Yuriy ser dos primeiros a ser enterrado no Campo de Marte, que hoje abriga centenas de outras campas. Muitos fãs, discípulos e seguidores continuam a ir ali visitar a campa do poeta nacionalista. Iryna nem quer ouvir falar em cedência de territórios: “A Ucrânia não pode ceder terreno, senão todas as mortes, como a de Yuriy, terão sido em vão”. Incluindo a Crimeia? “Incluindo a Crimeia”, responde ao Observador sem pestanejar. Tem a frieza que Yuriy gostava que tivesse. Depois de uma hora à conversa com o Observador e a menos de um metro da campa, escolhe um poema de Yuriy para ler em voz alta. Sem surpresa, o título e um dos versos do poema não enganam: “Derrotaremos Moscovo”.

SETOR 2 | FILA 2 | CAMPA 4Artem Dymyd
O “galinha” que vendeu
a Harley da boa vida
para comprar
a K-47 que o empurrou
para a morte

Magda avança em direção à campa do irmão mais velho e dá pequenos jeitos nas flores, incluindo uma pequena rega a copo. Puxa uma cadeira, que a família ali deixou, com pernas atacadas pela ferrugem. Está habituada aos silêncios como aquele, ao contrário do irmão, um “louco bom”, que estava sempre a rir e com a adrenalina em alta.

Dias depois de saltar de paraquedas junto ao Cristo Rei, no Rio de Janeiro, Artem estava nos Estados Unidos quando soube que tinha começado a invasão de larga escala no seu país. Percebeu que tinha de acabar ali a sua volta ao mundo entre guerras, em viagens tão longínquas como a que um pequeno coala de pelúcia, que resiste ao sol e à chuva na sua sepultura, denuncia. “Ele adorava viajar na sua mota. Esteve na Austrália, EUA, Canadá, escalou o Kilimanjaro, esteve em vários lugares da Ásia e da Europa”, recorda Magda, que relata a história do irmão ao Observador.

Artem, irmão de Magda, já tinha combatido na Crimeia contra os russos e regressou para a linha da frente em 2022

Artem e Magda são de uma família profundamente pró-Ucrânia e anti-Rússia ligada à Igreja Ortodoxa de Kiev. O pai de ambos, Mykhailo Dymyd, é um dos mais importantes sacerdotes da Igreja Ortodoxa, teólogo e foi capelão do Euromaidan, o padre que deu apoio espiritual aos manifestantes durante os protestos. A mãe, Ivanka Dymyd-Krypyakevych, é uma artista iconográfica também intimamente ligada à mesma igreja. O avô Artemii Tsehelskyi, também sacerdote e violinista, esteve sete anos desterrado na Sibéria, após enfrentar o regime soviético. O bisavô, Ivan Krypyakevych, era um famoso historiador da Universidade de Lviv – com largos estudos sobre os cossacos ucranianos – tendo passado pela ocupação polaca, pela invasão realizada pela Alemanha nazi e pela integração na URSS.

“Os russos, para nós, sempre foram inimigos. Na nossa família, desde que nascemos eles tornam-se inimigos. A minha família, o meu pai, o meu avô, nunca tiveram paz porque os russos nunca deixaram de persegui-los”, conta Magda. À mesa de jantar só se falava ucraniano, desde sempre. Russo, “nem pensar”.

Artem foi um dos manifestantes que não arredou pé do Euromaidan e acabou por ver, com os próprios olhos e a poucos metros, assassinatos à queima-roupa na Rua de Instytustka. Ficou revoltado e decidiu que queria resistir. Sob pretexto de ir comprar uma mota, deslocou-se à Crimeia e juntou-se às forças pró-ucranianas antes da anexação operada pelos famosos “homenzinhos de verde” (russos com fardas não identificadas).

A península acabou por ser anexada sem resistência e Artem voluntariou-se para o batalhão Azov. Participou, então, nas batalhas de Shyróke, no oblast de Donetsk. Esteve um ano na linha da frente, a Leste, e, como considerou já ter feito a sua parte, decidiu aproveitar a vida. Como era veterano, em 2017 – e apesar de já andar a viajar pelo mundo – começaram a chegar cartas à casa de família para voltar para a frente de combate. A mãe Ivanka assumiu a indignação familiar. “Eu trato disto”, terá dito. Como Magda relata ao Observador, a mãe foi diretamente ao gabinete do então presidente ucraniano, Petro Poroshenko, com as missivas na mão e disse: “Parem de enviar cartas ao meu filho. Ele já combateu um ano. Porque não enviam outros que nunca foram?” As cartas do Ministério da Defesa pararam então de chegar a casa dos Dymyd. Não eram, e não são, uma família qualquer.

Um lenço de escuteiro decora a campa de Artem, que tinha feito parte da organização desde os sete anos. Morreu a poucas semanas de completar 27

Artem continuou então a sua volta ao mundo, por mais de 50 países, enquanto a guerra continuava circunscrita ao Donbass. A jovem Magda continua, de forma calma, a contar a história do irmão ao Observador. “Irrita-me a ideia de que ele é um coitadinho. Não é. Não era. Era um homem feliz e viveu bem a vida.” Ao lado da campa, regressa de memória ao difícil dia 24 de Fevereiro de 2022, o início da guerra de larga escala.

Artem percebeu de imediato que uma aventura chegaria ao fim para recomeçar outra. Voou dos Estados Unidos para a Polónia, tendo seguido depois de autocarro para a Ucrânia. Antes disso, vendeu a Harley-Davidson e, com o que arrecadou, comprou uma kalashnikov e um colete à prova de bala. Três dias depois do começo da invasão, chega à fronteira e, segundo conta a irmã ao Observador, publicou uma story no Instagram com uma legenda a acompanhar: “Posso entrar? Peço desculpa pelo atraso, rapazes”.

“Kurka” – em português, “galinha”, nickname pelo qual era conhecido Artem – seguiu para o combate nos arredores de Kiev. Pouco depois, acabou por ir mais para sul, perto da linha da frente. Estava então integrado na brigada 144 das SSO, as Forças Especiais do Exército Ucraniano. Não resistiria muito.

Por altura das más notícias, Magda estava num retiro religioso de 14 meses, na ilha de Procida, em Itália, onde o uso de telefone era desaconselhado. Só o ligava à segunda-feira, dia em que aproveitava para fazer uma videochamada com os pais e os irmãos, incluindo Artem, que nunca revelava a sua localização. No dia 18 de junho, apesar de ser sábado e “sem saber explicar porquê”, Magda teve um “pressentimento” de que devia ter o telefone ligado, embora o tenha mantido afastado em cima de uma escrivaninha no quarto daquela espécie de convento. Quando olhou para o telefone após uma das silenciosas sessões do retiro, tinha várias chamadas não atendidas do pai. Ligou-lhe de volta e recebeu a pior notícia: “Filha, o teu irmão é agora um anjo. Morreu como gostaria de morrer, jovem, e não um velho combatente”.

Kurka seguia com o batalhão quando foi atingido por um rocket de artilharia disparado pelos russos. Morreu em Bila Krynytsia, oblast de Mykolaivm na direção de Kherson, a poucas semanas de fazer 27 anos. Foi um dos maiores funerais que Lviv já viu. Militares, entidades religiosas e escuteiros. Artem foi escuteiro desde os sete anos até ser adulto, como deixava antever o seu lenço, um dos muitos objetos que decoram a campa.

A família Dymyd é das mais importantes da Igreja Católica Ortodoxa Ucraniana, que intensificou a separação com a Igreja Ortodoxa Russa após a invasão de larga escala. Magda diz que fez uma festa quando a separação se consumou: “Não são sacerdotes, são agentes de Putin”.

Afastada num retiro em Itália, Magda pressentiu a morte do irmão

Magda continua a lembrar o irmão, num percetível inglês, embora vá pedindo desculpa por estar destreinada. Explica que esteve três meses num conhecido reality show. São esses mesmos três meses sem acesso à internet que utiliza como razão para não ter uma opinião sobre os esforços que Donald Trump tem feito para a paz na Ucrânia. “Não sei muito bem, mas acho que ele é louco, não?”

Sobre a Ucrânia abdicar de uma parte dos territórios – proposta que Trump tem feito desde que tomou posse – Magda diz que gostava muito que o país “ficasse inteiro, com as fronteiras de 1991”, mas que também é verdade que “muitos dos ucranianos do Leste não querem voltar para lá”. Não tem, por isso, uma opinião final sobre se se deve abdicar de um metro de território que seja em troca da paz. Diz não se sentir no direito de dizer que o prefere por estar cansada da guerra. “Quem está cansado são os rapazes na linha da frente. Sou uma privilegiada. Durmo num quarto em Lviv, tenho água quente e tenho todos dias comida”.

A morte de Dymyd levou também a que o seu irmão mais novo, que combatia na linha da frente, fosse imediatamente desmobilizado. “Temos direito aqui na Ucrânia a que, quando morre algum familiar direto, o outro fica livre. Graças a Deus que é assim”.

A mãe devia tê-la acompanhado naquele dia ao cemitério, mas está exausta de dar entrevistas. Magda também já deu muitas, mas não deixa de o fazer, porque isso “ajuda os rapazes na linha da frente”. Enquanto desce pela gravilha, embora ofegante, vai repetindo ao Observador: “Eu não tenho direito a estar cansada”.

SETOR 4 | FILA 5 | CAMPA 1Taras Chaika
O gémeo herói
que salvou todos
e foi o único a morrer

“Montijo! Montijo!” Alla tinha passado a última hora triste, a recordar a vida, e a morte, do seu filho. Agora, após essa conversa longa, conseguia ter um esgar de satisfação, não porque tenha sido uma memória boa, mas porque é, pelo menos, diferente. O que já não é pouco no ritual que repete desde novembro de 2022. A Ucrânia já ouviu muitas vezes, e de muitas vozes, incluindo desta mãe, a história de um dos seus heróis de Marte, Taras Chayka — mas nunca este capítulo.

Alla sempre foi uma mãe muito protetora, daí que um dos momentos mais difíceis da sua vida tenha sido quando, entre 2000 e 2001, teve de deixar os seus filhos gémeos, Taras e Nazariy, na Ucrânia, e rumou a Portugal para procurar melhorar as suas condições de vida. Ao Observador, conta que viveu no Montijo, após conseguir um contrato de dois anos para trabalhar num “hotel de luxo que ficava numa colina em Lisboa”, mas de cujo nome não se recorda. Quando estava em Portugal, iniciou o hábito de falar com os filhos todos os dias, estivessem onde estivessem. Mesmo separados.

Alla tinha um acordo com o filho: todos os dias, ele mandava uma mensagem a dizer “estou bem”. Um dia, a mensagem não chegou

Com o início da invasão de larga escala, o gémeo Nazariy ligou-lhe: “Mãe, Kiev está a ser bombardeada”. Alla telefonou para o outro gémeo e disse: “Taras, a guerra começou”. Ao que o filho respondeu: “Eu sei mãe, nem dormi”. Da segunda vez que ligou a Taras já o ouvia muito mal e, numa chamada perturbada pela azáfama do outro lado da linha, ouviu: “Estou no centro de recrutamento, mãe. Vou para a guerra”.

Alla é contabilista e, por sua influência,Taras entrou na Universidade para estudar Contabilidade e Auditoria, área na qual tiraria a licenciatura e o mestrado. Chegou a trabalhar como chefe de contabilidade numa empresa de móveis. Em 2018, porém, seguiu o seu sonho e formou-se em Direito. Era advogado e especializou-se em arbitragem. Passou a ser perito em resolução de conflitos. Apenas jurídicos, claro.

Pelo meio desta vida civil, tirou um curso em “Defesa Química” na Academia Nacional de Forças Terrestres, em Lviv. Teve, por isso, equivalência à patente de segundo-tenente. Isso acabou por definir o seu destino quando se voluntariou para a guerra após a invasão.

Taras Chaika alistou-se sabendo que, dessa forma, o irmão gémeo não precisaria de combater

Como aconteceu com muitos voluntários, quem já tinha alguma formação militar (ou uma forte formação académica), rapidamente se tornou chefe. Um mês e meio depois de se ter alistado foi deslocado para Leste, já como comandante da 125.ª Brigada, que tinha por objetivo inicial a defesa territorial de Lviv, mas que foi deslocada para Donetsk e passou a fazer missões de reconhecimento na linha da frente.

Alla conta ao Observador que Taras tinha enfrentado uma “doença muito grave” em 2015, que fez com que perdesse uma parte do intestino e lhe deu um “cartão branco” para ficar livre da guerra. Mas Taras, um caçador exímio, decidiu que tinha de ir combater, mesmo tendo de deixar para trás uma filha menor e a mulher Sofia. Gostava de ir para todo o lado com o seu irmão gémeo, mas não desta vez. Protetor – era uns minutos mais velho – queria ir sozinho. Além da vontade genuína de lutar pelo país, sabia que o facto de avançar ia livrar da guerra o irmão Nazariy, que esperava um filho.

Um dos momentos mais difíceis na vida da mãe, Alla, foi quando deixou os filhos pequenos na Ucrânia e veio para Portugal procurar melhores condições de vida

Mesmo na linha da frente, conta Alla, Taras fazia uma videochamada uma vez por semana. Além disso, tinham selado um acordo mãe-filho: “Todos os dias, quando voltava de uma missão, ele mandava-me uma mensagem a dizer: ‘Estou bem’ ou simplesmente ‘ok’. Ou a dizer ‘Mãe, amo-te’. Nem que chegassem às três ou quatro da manhã, ele mandava-me sempre mensagem e eu lia de manhã quando acordava para ir trabalhar”.

Naquele dia, 3 de novembro, Alla acordou e não havia nenhuma mensagem. Levou o telemóvel para o trabalho e certificou-se de que tinha som para ouvir quando chegasse a mensagem de Taras a dizer que estava bem. Às dez da manhã, falou ao gémeo Nazariy e disse-lhe que estava preocupada: “Não recebi nada do teu irmão ainda”. Os gémeos às vezes “sentem coisas”, mas Nazariy descansou a mãe: ele deve estar na frente de batalha, vai escrever-te em breve.

Não tinha razão. Três horas depois, tudo mudou. Nazariy irrompe pela sala apesar de Alla estar ocupada com um cliente. Baixa a cabeça e diz: “Mãe, aconteceu o pior que podia acontecer”. Perder o filho era algo tão longe no pensamento, que Alla pensou que tinha acontecido algo de grave ao seu neto – filho de Nazariy que tinha entretanto nascido e tinha apenas um mês. Mas não era o neto. “Foi o Taras, mãe. O Taras morreu”.

Alla não quis acreditar. E, como não havia confirmação oficial, simplesmente não acreditou. “Nesse dia, até às seis da tarde liguei várias vezes para o Viber e para o WhatsApp e para o telefone normal e acreditei que ele ia atender do lado de lá”, conta ao Observador.

À noite, aceitou a realidade e disse para si própria que o filho morrera. Mais tarde, lembrou-se da última conversa que tinham tido. Falaram sobre uma ponte, a mesma onde Taras foi ferido mortalmente. Alla tinha lido nas notícias que a ponte estava controlada, mas o filho riu-se. “Mãe, não controlamos nada, aquilo é uma zona cinzenta”.

Taras esteve sempre consciente do perigo, mas era conhecido pela sua coragem. “Naquele tipo de missões de reconhecimento, os comandantes não vão, mas ele quis ir. E quis ir à frente”. Enquanto passava a ponte, perto de Torske, um disparo de tanque atingiu o veículo. Um dos estilhaços ultrapassou o colete e atingiu Taras no coração. Apesar de ferido e a esvair-se em sangue, o comandante conduziu o carro para uma zona livre de fogo do inimigo e conseguiu salvar toda a equipa. Foi o único a morrer. Morreu como um herói. Herói da Ucrânia. Título que Volodymyr Zelensky lhe atribuiria postumamente.

Depois de atingido, Taras ainda conseguiu conduzir o carro onde seguia com os companheiros para uma zona livre de perigo, salvando-os. Foi condecorado postumamente

Alla não aguenta não chorar enquanto fala da forma como o Taras morreu. O Observador visitou o Campo de Marte durante três dias e, em todos eles, encontrou Alla junto à campa do filho. No dia da entrevista, a mãe de Taras levou livros, cartas e vários objetos. Mostra ao Observador a farda que o filho tinha no dia em que morreu, um camuflado sem qualquer distintivo. “Apesar de ele ser comandante, não tinha insígnias. Eles retiram-nas quando estão em zona de combate para não serem um alvo preferencial”, explica a mãe. Mostra também cópias do bilhete de identidade de Taras, que estavam no bolso da farda. Ainda é visível o sangue nas folhas.

Como Taras é um herói, há também vários livros e outras publicações sobre ele. A mãe faz questão de os mostrar todos junto à campa. Um deles salta à vista. Tem uma frase de Sofia, a mulher de Taras, a explicar que o marido era muito próximo da filha de ambos, Teresa: “Ela era uma menina do papá. Eles eram parecidos tanto na aparência como na personalidade. Disse-lhe que o pai já não está mais connosco. Está vulnerável e chora muito. Mas eu acho que ela ainda não percebeu que o pai não volta. Muitas vezes pergunta-me: onde é que está o pai?”.

SETOR 17 | FILA 4 | CAMPA 3Ivaniv Volodymyr
“Portugal? Vão a Fátima
e rezem pelo nosso filho”

Petro e Alexandra Andriyovych passam diariamente horas junto à campa do filho, Volodymyr Ivaniv, que morreu poucos meses depois de fazer 40 anos, no Leste da Ucrânia.

Engenheiro com pós-graduação em gestão, Volodymyr Ivaniv era, antes de começar a guerra de larga escala, co-proprietário de uma empresa no setor agrícola.

Logo após o 24 de fevereiro de 2022, decidiu alistar-se. O pai, Petro, tentou demovê-lo, mas a resposta foi imediata: “Se eu não for, quem irá?”

Serviu no 78.º Regimento de Assalto Aerotransportado nos oblast de Donetsk, Luhansk e Zaporíjia. Uma das funções que tinha era operador de drones. No dia 8 de dezembro de 2023, os pais falaram pela última vez com Volodymyr.

A partir daí ainda mantiveram, por pouco tempo, contacto por Telegram, mas depois deixaram de ter notícias. O pai, Petro, recorda que percebeu que o filho morreu quando “tocaram à campainha”, abriu a porta e viu que eram “homens fardados”.

Era mesmo a pior notícia. Volodymyr morreu depois de não sobreviver a ferimentos durante uma batalha na localidade de Verbove. Aos pais, “resta rezar” e ir tratando da campa como forma de homenagem ao filho.

Ao perceber que o Observador é um jornal de Portugal, Alexandra faz um pedido: “Portugal? Fátima! Conhecem Fátima? Vão a Fátima e rezem pelo nosso filho e pela Ucrânia. Coloquem uma vela por nós em Fátima, por favor”.

SETOR 19 | FILA 1 | CAMPA 6Iryna Tsybukh “Cheka”
O tomateiro póstumo
da jornalista que pediu,
ao som de Aerosmith,
que não chorassem por ela

O quinhão fica de esquina e destaca-se por ser uma das campas mais ornamentadas. As flores, bem vivas, competem pelo espaço apertado. Salta à vista um tomateiro que já deu frutos, contando-se três tomates. A campa é da antiga jornalista Iryna Tsybukh e a sua mãe, ao Observador, desfaz o mistério daquela plantação inusitada. “Ela disse que queria plantar um tomateiro quando a guerra acabasse”, explica emocionada. Meses antes de ser abatida em combate, Iryna tinha revelado numa entrevista — em que surgia de uniforme militar com um fundo frio, acinzentado – os seus desejos para o futuro: “Quero ter filhos. Quero uma casa. E quero plantar tomates”. Sorria ao dizê-lo, mas logo acrescentava: “Mas mais importante é a guerra acabar”. Morreu sem que nada disso se concretizasse, mas os camaradas do seu batalhão fizeram questão de plantar um tomateiro, na mesma terra em que, sete palmos abaixo, jaz o corpo de Iryna.

No meio das flores, distinguem-se os frutos do tomateiro plantado na campa de Iryna. Era o que queria plantar no fim da guerra

Iryna era uma figura pública na Ucrânia, o que faz com que a sua sepultura seja uma espécie de lugar de peregrinação. Entre as centenas de flores, velas, doces e chocolates (é comum, nos cemitérios ucranianos, os familiares deixarem perto guloseimas de que os mortos gostavam em vida), destaca-se um detalhe incomum: uma fotografia de Iryna e um QR Code. Oksana, a mãe, explica ao Observador: “Isso é para as pessoas poderem chegar ao trabalho dela. Às reportagens, podcasts e aos documentários que ela fez. Dá também acesso à reportagem e podcast que os amigos fizeram sobre ela que se chama ‘A História de Vida e de Morte de um Médico de combate ucraniano: A Sintonia da Liberdade’”.

Um código QR na campa permite abrir os trabalhos que Iryna fez quando era jornalista

A história mediática de Iryna começa no jornalismo. Desde 2017 que Iryna desempenhava as funções de jornalista e produtora na Suspilne, a empresa estatal de radiodifusão ucraniana, que inclui três televisões e uma rádio. Era precisamente na Rádio Suspilne que Iryna trabalhava. Mas a história militar é ainda anterior à experiência de repórter: com apenas 17 anos, em 2015, a jornalista já ia ao Donbass encontrar-se com as tropas e, desde 2020, começou a fazer formações como paramédica.

Ainda assim, antes da invasão de larga escala, o trabalho mais visível foi mesmo na parte jornalística e na chamada educação para os media. Iryna fez emissões especiais, recuperou delegações da estação pública, produziu podcasts e documentários, além de ser uma exímia formadora de jornalismo. Liderou vários projetos de literacia mediática para crianças em aldeias remotas nos oblast de Lugansk e Donetsk. Sempre, claro, com uma vertente nacionalista ucraniana – por contraponto à maioria russófona nessas regiões. Era pelo Donbass que andava em fevereiro de 2022, antes de a vida dos ucranianos mudar para sempre. A 22 de fevereiro, em Pokrovsk, e a 23, em Kramatorsk, apresentou o seu documentário “Відстань” (“Distância”, em português) que aborda, precisamente, os problemas de inclusão que existem nas aldeias esquecidas do Donbass. Corria tudo bem e Iryna – uma mulher imersa no terreno – chegou a pensar se iria utilizar saltos altos nas próximas apresentações, em Seversko-Donetsk, a 24, ou, pelo menos a 25, quando estava prevista uma sessão em Kiev.

Nenhuma das duas chegou a acontecer. Porque começou a guerra. A mãe Oksana diz que “99% dos ucranianos não acreditava” que fosse possível começar um conflito de larga escala e, muito menos, o país cair, mas um relato da filha abriu-lhe os olhos.

Depois de lhe pedirem várias vezes para ir para casa, Iryna recusou e seguiu para Kiev. Estava ainda em trabalho como jornalista quando percebeu a gravidade da invasão: “Ela disse-me: ‘Mãe, estive numa esquadra de polícia e vi os polícias, os nossos, ucranianos a queimarem documentos’. Foi aí que percebemos que os russos vinham aí e que estávamos a perder a nossa Ucrânia”.

Iryna formou então uma equipa e começou de imediato a trabalhar nos “Hospitalares”, um batalhão de paramédicos. Nome de Guerra: “Cheka”. O batalhão, que ainda funciona, divide-se por equipas que resgatam feridos da frente de combate quando ainda há fogo cruzado. A jornalista tornou-se chefe de equipa e colocou o seu cunho no meio de transporte de feridos ao transformar uma carrinha Nissan – retirando-lhe bancos para que coubessem macas e instalando um sistema de aquecimento –, que permitia não só o transporte de feridos, mas também assistência em andamento. Com a “cadela”, como carinhosamente apelidaram a carrinha-ambulância, Iryna liderou vários resgates. Salvou dezenas, senão centenas de vidas.

Ainda em vida, Iryna foi condecorada pelo presidente Volodymyr Zelensky com o grau III da Ordem do Mérito, em novembro de 2023. A paramédica e jornalista receberia também em março de 2024 o prémio UP 100. O Poder das Mulheres, organizado pelo Pravda Ucraniano e que nomeou 100 mulheres ucranianas que considerava que aproximavam o país da vitória final. Foi Oksana que recebeu o prémio em nome da filha, pois Iryna estava na linha da frente e a própria mulher-soldado, acabaria por confessar que ser a mãe a representá-la tornava o ato ainda mais simbólico.

Iryna juntou-se a um batalhão de paramédicos no início da invasão em larga escala da Ucrânia. Liderou vários resgates na linha da frente

Iryna era também uma influencer de guerra e tentava utilizar essa popularidade ao serviço da causa ucraniana. Chegou a ser capa da versão digital da edição ucraniana da revista Elle, numa sessão com mulheres combatentes. Nessa entrevista, disse: “Sou tão jovem como qualquer outra jovem em França e Espanha. A única diferença é que o país que eu amo faz fronteira com um regime totalitário (...) e estou pronta para morrer pela liberdade no meu país.”

Capa da revista Elle, que destacou histórias de mulheres combatentes. “Estou pronta para morrer pela liberdade do meu país”, disse, na altura

É essa mesma fotografia, da sessão da Elle, que está na sua campa. Nas horas que o Observador passou junto ao túmulo pôde constatar que muitos que ali passam ficam impressionados com a beleza de Iryna: “Era tão bonita”, vão repetindo. A mãe Oksana agradece. E sorri, orgulhosa.

Como todas as histórias que terminam no Campo de Marte, Iryna morreu em combate. Foi a 29 de maio de 2024, na direção de Kharkiv durante uma das operações de socorro que fazia no campo de batalha. A carrinha onde seguia passou por cima de uma mina e a paramédica não sobreviveu. Não se sabe quantas vidas salvo, mas os “Hospitalares” – o batalhão de que fazia parte – já tinham prestado, a 28 de maio, assistência a pelo menos 43.600 feridos, o que mostra não só a influência do grupo no resgate, mas a dimensão da tragédia na linha frente.

Mesmo que Zelensky só lhe tenha concedido o título de “Herói da Ucrânia” postumamente, o seu enterro, anterior à distinção, teve honras de funeral de alta figura do Estado. Apesar de estar sepultada em Lviv, de onde é natural, o funeral decorreu no Mosteiro de São Miguel das Cúpulas Douradas, em Kiev. Na cerimónia, conta a mãe Oksana, “foram tocadas 10 músicas que ela pediu que cantassem no funeral”.

Oksana segura uma carta deixada pela filha para ser partilhada depois da sua morte

Oksana vai pegando em cartas da filha ao mesmo tempo que questiona: “Imaginam quão assustador é ver as nossas crianças a escreverem cartas de despedida, cartas póstumas?” Não contém o choro. Depois acrescenta: “Sabem, a Iryna fez isso: depois de fazer 23 anos e de ter passado de uma situação em que escapou por pouco à morte, escreveu uma carta ao irmão, em 2023, para ele divulgar quando ela morresse. E ele assim fez”. Na carta, a que o Observador teve acesso, Iryna começa por dar ânimo aos familiares e amigos:

“Olá, desculpa, mas não gosto que estejas triste, mas o tempo vai passar e essa mágoa vai-se dissipar, e tens que seguir com a tua vida. Não percas o teu tempo a sofrer, segue em frente.”

“São 19h19, sábado, 8 de abril de 2023, eu e a minha equipa estamos a trabalhar no reconhecimento da 80ª Brigada, Dream on dos Aerosmith está a tocar ao fundo, e como este ano houve tantas ocasiões em que podia ter morrido, decidi tirar um tempo para escrever esta carta póstuma.”

“Infelizmente, vivemos tão fracos, por sermos dependentes da aprovação pública da vida, que só a morte nos permite viver em absoluta liberdade. No entanto, o problema é que a vida acabou e essa liberdade já não faz sentido. Hoje, e para sempre, não me importo com o que as pessoas dizem sobre mim. Não quero saber se estas frases recebem likes ou não, não estou interessada na opinião de ninguém, estou morta”.

“Hoje, tudo acabou, minha vida acabou, e era importante para mim passar por ela com dignidade: ser uma pessoa honesta, gentil e amorosa”.

“Obrigada a todos os que me amaram e me apoiaram. Não sintam minha falta, a vida é muito curta”.

Iryna morreu a 29 de maio de 2024, dois anos depois do início da invasão da Ucrânia

A vida de Cheka foi rica e circular. Das janelas do edifício onde nasceu no primeiro dia de junho de 1998 vê-se, numa coincidência trágica, o Campo de Marte, onde agora descansa. Mesmo por baixo da sua plantação de tomate, que, como explica a mãe Oksana, foram os “amigos que plantaram numa das edições do Cheka Fest, um festival muito bonito que todos os anos realizam em sua homenagem a 1 de junho”. Um dos frutos já está maduro, mas ninguém o vai apanhar. Há-de cair. A terra, onde está Iryna, há-de absorvê-lo. A mãe, ao contrário do que a filha lhe pediu, não consegue não sofrer. É muito duro.

Oksana despede-se do Observador. Diz que gostava de ler a reportagem porque tudo o que lhe resta é a honra da memória da filha. Lembranças de uma vida que é bem sintetizada por Iryna, na carta póstuma:

“Hoje, tudo acabou, minha vida acabou, e era importante para mim passar por ela com dignidade: ser uma pessoa honesta, gentil e amorosa (...) Obrigada a todos os que me amaram e me apoiaram. Não sintam minha falta, a vida é muito curta”.

SETOR 24 | FILA 4 | CAMPA 1Bohdan Verkhomi
O ciclo da morte:
o enterro de Bohdan,
um SWAT ucraniano

Passa pouco das sete da manhã e um retângulo está meticulosamente escavado no chão. O cheiro a terra intensifica-se. As moscas também. Ruslan, o coordenador dos coveiros, salta para dentro do buraco e, com uma pá, torna o retângulo ainda mais perfeito. Está a prepará-la para Bohdan, que ali vai ser enterrado horas depois. O coveiro conta que a primeira cova foi aberta naquele espaço a 8 abril de 2022 – pouco mais de um mês depois do início da guerra – quando dentro dos muros do cemitério de Lychakiv deixou de haver espaço para heróis.

O coveiro de Lychakiv, Ruslan, foi promovido a diretor-operacional do cemitério depois de o chefe ter ido combater. Mas continua a abrir as campas

O Campo de Marte já tinha sido um memorial de guerra, mas que os locais não apreciavam. Logo nos anos 1990, após a independência, foi apagada a inscrição de homenagem às vítimas soviéticas, que dizia: “No centro do planeta/ no meio das nuvens de tempestade/ os mortos observam o céu/ acreditando na sabedoria dos vivos.”

O Campo de Marte, construído em 1974, abrigava os restos mortais de 3.800 soldados soviéticos que combateram na II Guerra Mundial contra a Alemanha Nazi, mas também contra as unidades do УПА́, o Exército Insurgente Ucraniano (independentistas ucranianos que lutaram até à década de 50). Agora a bandeira vermelha e preta do УПА́, bem como retratos do seu grande líder Stepan Bandera, estão por todo o Campo de Marte junto às campas de soldados ucranianos. O УПА́ é glorificado. Já os corpos soviéticos que lutaram contra Bandera foram entretanto trasladados para o cemitério de Holoskiv. Há muito que foi preciso libertar espaço para os heróis da Ucrânia.

As bandeiras vermelhas e pretas, do Exército Insurgente Ucraniano, estão por todo o cemitério

Depois da pausa histórica – que nos mostra que ossos de russos e ucranianos partilham aquele chão – voltamos a Ruslan, o coveiro, que revela ao Observador que “o ano com mais ‘atividade’ foi 2023”, quando a guerra ainda não se tinha tornado num conflito de drones e havia confrontos de infantaria corpo a corpo. “Num dia chegámos a enterrar cinco pessoas” – e ali estão apenas os mortos em combate que são naturais da cidade de Lviv.

A invasão de larga escala acabou por trazer mais responsabilidades a Ruslan. O anterior diretor-operacional do cemitério foi combater e, por isso, acabou promovido e a assumir essas funções. Mas não deixa de exercer as funções de coveiro, para as quais não perde o jeito. Em poucos minutos, a campa é aberta. É tempo de pousar a pá por umas horas. Antes, há outros rituais a cumprir.

A primeira cova aberta neste cemitério foi pouco mais de um mês depois do início da invasão. Desde então, nunca mais parou de crescer

A manhã avança e, nas imediações da Igreja dos Santíssimos Apóstolos Pedro e Paulo, no centro de Lviv, começam a perfilar-se vários militares, mas também se vislumbram inúmeros polícias fardados – o que vai dando pistas sobre quem é Bohdan, o homenageado.

Quando a urna chega, batalhões no exterior ajoelham-se por mais um herói. Segue-se a missa fúnebre, com os ritos da Igreja Ortodoxa. O choro das mulheres mais velhas da família é tão alto que abafa o organista, ao mesmo tempo que expia a tristeza dos ex-camaradas de armas. Que tentam, sem êxito, manter os olhos secos.

A cerimónia termina e, à porta, estão autocarros amarelos, iguais aos do serviços de transportes rodoviários da cidade de Lviv, para dar boleia aos militares. A viagem até ao Campo de Marte, no cemitério de Lychakiv, não dura mais de 15 minutos. À chegada ao local de culto há uma nova cerimónia, desta vez militar, com formaturas e salvas de tiros para o ar. A bandeira azul e amarela, que cobre o caixão, é depois cuidadosamente dobrada e entregue à mãe do polícia-militar.

Segue-se uma caminhada final até que a urna desce até ao buraco que o Observador tinha visto Ruslan abrir de manhã. O som da pá e da terra a cair sobre a madeira vai sendo abafado pelos choros, cada vez mais audíveis, e pelos cânticos que todos parecem conhecer. Minutos depois, o caixão do herói está coberto de terra.

Bohdan é mais um morto, mais um número, mas que esconde uma história. Quando morreu tinha 29 anos. Já tinha participado no ATO – operação anti-terrorista no Leste da Ucrânia – antes da invasão de larga escala, mas é em 2023 que o caminho se começa a estreitar para a luta armada. É nesse ano que passa a ser agente da polícia de Lviv, mas rapidamente passa para os KORD, uma unidade especial de resposta rápida da polícia.

A unidade KORD foi criada um ano depois do Euromaidan e os seus membros foram treinados por unidades especiais da polícia norte-americana como a DEA (agência de combate ao narcotráfico dos EUA) ou os US Marshalls. Não é por isso de estranhar que a orgânica destas equipas ucranianas seja similar às unidades de SWAT das polícias norte-americanas.

Na última missão, Bohdan apanhou um terreno minado que o matou a ele e a outros dois militares

Os ucranianos KORD são populares no país e até tiveram direito a um momento hollywoodesco: aparecem no filme Tenet, de 2020, que é realizado por Christopher Nolan, e tem como protagonistas atores como John David Washington ou Robert Pattinson. Na ficção, esta unidade aparece a propósito de um também ficcionado ataque terrorista ao edifício da Opera de Kiev.

Mas a realidade é outro filme. Com a invasão de larga escala, os KORD foram chamados a participar em ações militares no Leste da Ucrânia. Bohdan foi para a linha da frente. Minutos depois de estar totalmente debaixo de terra, o comandante Yuri Zaychifov confessa ao Observador: “Era um dos melhores. A guerra, infelizmente, leva os melhores”.

Yuri diz que todos os homens que comandou tinham “uma certa percentagem de medo”, que é normal, mas Bohdan não era assim. Estava num grupo de contra-insurgência, que fazia “assalto, repulsão e limpeza”, o que impunha muito improviso, e Bohdan era, nas palavras do seu comandante, “muito criativo em termos táticos”. A última das ações, não correu bem. Foi decidido que o grupo de Bohdan ia tomar um bunker em Klishchiivka, mas não foram bem sucedidos: o terreno estava minado. Do grupo de seis, três morreram e três ficaram gravemente feridos.

Por causa da dificuldade de recuperar os corpos dos soldados mortos na linha da frente, este funeral só tem lugar quatro meses depois da morte de Bohdan

Tudo aconteceu quatro meses antes do funeral ao qual o Observador assiste. Os corpos, incluindo o de Bohdan, ficaram em deterioração no terreno de batalha todo este tempo. “Há drones FPV por todo o lado, não conseguíamos lá ir buscá-los”, conta o comandante. Yuri fez, no entanto, questão de ligar ao pai de Bohdan, também a lutar pelas forças da Ucrânia, para prometer que iria trazer o corpo de volta. Agora fica cumprida a promessa. “Pelo menos eles podem descansar e rezar juntos”, diz.

O comandante só consegue conversar treze minutos com o Observador. Tanto ele como a companhia têm de voltar para a linha da frente. Ainda se ouve ao longe o choro de Halyna, a mãe enlutada que vê a morte todos os dias no hospital onde trabalha. Mas ninguém a preparou para esta. Yuri vai-se aproximando da saída do cemitério e diz sem se irritar e com uma calma inquietante: “Quando a notícia da morte chegou à nossa unidade prometemos vingar-nos. É o que vamos fazer”.

Reportagem
Rui Pedro Antunes e João Porfírio

Produção
Iaroslav Oliinyk

Texto
Rui Pedro Antunes

Fotografia e vídeo
João Porfírio

Web design
Miguel Feraso Cabral

Edição vídeo
Beatriz Martins