A perda de poder de compra é real e afeta a maioria das pessoas, seja qual for o seu género, região do País ou rendimento do agregado familiar. Perante a subida dos preços, não falta quem tenha deixado de realizar atividades por razões económicas.
Ainda assim, a população portuguesa garante ser previdente perante uma situação em que, por acaso, de repente, 5.000€ lhe surgissem na conta bancária. Em vez de gastos impulsivos, as pessoas garantem que prefeririam poupar ou investir.
Estas e outras conclusões surgem do inquérito feito em parceria com a Netsonda em que o Observador revela quais são os hábitos de consumo em Portugal. As pessoas mantêm o mesmo estilo de vida que tinham antes da pandemia? O que fazem com o seu dinheiro? Compram produtos novos ou preferem o mercado de 2.ª mão? Cruzando informação recolhida em seis regiões do território continental (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro, Litoral Norte, Interior Norte e Sul), e analisando as respostas dadas pelas diferentes gerações, estes são os principais resultados.
Inflação: a “grande causa” para as dificuldades financeiras e a perda de poder de compra
Portugal é o terceiro país da União Europeia onde, em média, se gasta mais em alimentação por ano, de acordo com dados do Eurostat de 2024. Com os valores ajustados à inflação, cada pessoa tende a gastar cerca de 3.330€ anualmente em alimentos e bebidas não alcoólicas — uma subida de 43,5% face aos níveis pré-pandemia. 88% dos inquiridos pela Netsonda revela sentir que perdeu poder de compra devido à inflação, com 39% a admitir um impacto significativo na sua vida.
“É a perceção que todos têm”, descreve a presidente do gabinete de proteção financeira da DECO PROteste Natália Nunes. “A alimentação e a habitação têm um maior peso nas pessoas que têm rendimentos mais baixos — são quem sente este maior aumento dos custos”, continua a jurista, uma ideia que é apoiada pelo facto de, segundo o inquérito da Netsonda, metade dos agregados com rendimentos até 2.000€ referirem estar a sentir na pele o grande impacto do aumento dos preços em Portugal — perceção que diminui progressivamente nos escalões de rendimento superiores.
Para a especialista consultada pelo Observador, esta perda do poder de compra é a “grande causa” apontada nos últimos anos para as dificuldades financeiras das famílias que recorrem aos serviços da DECO. “Não são as causas tradicionais do desemprego ou da doença, como é habitual, mas sim a perda de poder de compra por causa da inflação”, conta Natália Nunes. Daqueles que responderam ao inquérito, duas em cada três pessoas dizem ter deixado de realizar determinadas atividades por motivos económicos, situação esta que acaba por ser mais frequente entre as mulheres (73%) do que entre homens (59%).
“Geralmente, é a mulher que faz a gestão da casa, das compras, por isso é ela que, muitas vezes, tem que fazer os cortes de algumas despesas”, tenta justificar a especialista, referindo que atividades como idas ao cabeleireiro ou refeições em restaurantes são algumas das mais afetadas. Porém, também se sente o impacto nas listas de compras. “Há coisas que se deixam de comprar, porque com o aumentar do preço já não têm essa capacidade”, acrescenta.
Quando começaram as diferentes gerações?
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Geração Z — 1997 a 2012
Millennial — 1981 a 1996
Geração X — 1965 a 1980
Baby Boomers — 1946 a 1964
Com o inquérito, entende-se também que metade dos participantes (51%) viaja por lazer uma vez por ano, com 28% a afirmar fazê-lo com uma maior frequência. Apenas 15% dos jovens da Geração Z viaja múltiplas vezes anualmente, enquanto nas gerações anteriores a percentagem aumenta consideravelmente. Apesar de não existir uma métrica que permita definir um motivo que justifique estes dados, Natália Nunes acredita que o número mais reduzido de viagens daqueles que têm menos de 28 anos se pode correlacionar com o rendimento dos respetivos agregados, que tendencialmente são inferiores. Cerca de 80% dos inquiridos com rendimentos inferiores ao salário médio nacional (cerca de 1.500€) viaja uma vez ou menos por ano.
O que faria uma pessoa com 5.000€ inesperados? Poupava ou investia
“Se hoje recebesse 5.000€, o que faria com esse valor?” As opções dadas pela Netsonda no inquérito eram diversificadas: comprar um carro, remodelar a casa ou até oferecer a familiares, por exemplo. Contudo, 40% dos inquiridos indicam que se lhes caísse este montante na conta bancária de um dia para o outro, a opção passava por investir ou colocar os fundos numa conta poupança. Esta preferência é mais expressiva entre os mais jovens, com 54% da Geração Z e 44% dos Millennials a escolherem esta possibilidade, ao contrário da Geração X (31%) e dos Baby Boomers (29%), que se dividem entre o pagamento de dívidas ou o amealhar para “despesas inesperadas”.
Para a jurista da DECO PROteste, esta tendência dos mais jovens para investir o seu dinheiro vem do aumento da literacia financeira, o que mostra “alguma alteração de mentalidades”. Em contraste, nota que as gerações mais velhas continuam a “ter alguma aversão a investir”, seja por falta de conhecimento ou mesmo pelo risco — algo que existe menos entre os jovens, que têm acesso a mais informação online e, portanto, menos medo de arriscar.
“A verdade é que, mesmo nas redes sociais, se fala muito da literacia financeira, o que acaba por despertar uma grande curiosidade dos jovens. E como são curiosos por natureza, vão à procura de informação”, acrescenta Natália Nunes, que recorda alguns dos contactos mais recentes que tem recebido da população mais jovem à procura de aconselhamento financeiro. “Muitos vêm por causa da questão das medidas para a compra da habitação, mas é curioso ver as preocupações que têm. São preocupações prévias à decisão e para poderem tomar uma decisão correta. Isto mostra que os jovens têm esta preocupação de ir à procura de informação e só depois tomarem a decisão”, conta.
Já a prática da separação de lixo apresenta ser menos comum entre aqueles que têm menos de 28 anos. Entre os inquiridos que pertencem à Geração Z, 15% admitem separar o lixo raramente ou nunca, ao contrário das restantes gerações, onde mais de metade refere fazê-lo sempre.
Perante objetos, roupa ou outros artigos que já não utilizam, os jovens favorecem a venda online em plataformas como o OLX ou a Vinted — algo que recebe muito pouca adesão da Geração X (34%) e dos Baby Boomers (24%). De acordo com a especialista em proteção financeira, o grande volume desta prática surge não só pelo aumento da literacia financeira no público mais jovem, mas também porque ainda existe uma grande parte da população que tem “menos apetências em termos digitais”.
“Dominam menos este meio, é onde se registam as maiores dificuldades. E portanto isso com certeza vai ser também uma barreira, até para tomarem estas decisões e para poderem rentabilizar o seu dinheiro, enquanto os mais jovens não têm estas barreiras”, continua Natália Nunes, sublinhando que a geração mais nova utiliza estas novas ferramentas para rentabilizar os mais diversos produtos que não consideram ter qualquer uso. Para os mais velhos, a opção mais comum é doar a instituições (41%), a outras pessoas (55%) ou até mesmo levar para a reciclagem (47%).
Os inquiridos foram ainda questionados sobre “o que mais esperam das empresas em termos de sustentabilidade”. Em resposta, os aspetos mais destacados foram a eficiência no uso de energia (59%), a redução do uso de plásticos (58%), o apoio a causas ambientais (56%), e mesmo a transparência na cadeia de produção (51%). Por outro lado, a produção local (38%) e as certificações detidas pelas empresas (19%) são menos referidas como indicadores relevantes de compromisso com a sustentabilidade.
Em segunda mão, só os carros. Eletrodomésticos, smartphones e outros aparelhos chegam novos a casa dos portugueses
Apesar de existir uma grande procura dos mais jovens em vender itens usados em plataformas online, o mercado de produtos em 2.ª mão continua sem ter uma grande expressão na população portuguesa. Os hábitos de consumo dos residentes em Portugal continental indicam uma forte preferência por produtos novos em várias categorias. No que toca ao processo de aquisição de eletrodomésticos, televisões ou até mesmo roupa, mais de 90% dos participantes indicaram que tendem a preferi-los novos.
“Entendemos que cada vez mais, a duração dos equipamentos eletrónicos é menor e, por isso, surgem dúvidas em termos de fiabilidade em estar a comprar estes produtos já usados. Para além de que não existe ainda a tradição de comprar usado”, menciona a presidente do gabinete de proteção financeira da DECO PROteste, remetendo para alguns “estigmas” que ainda possam existir entre os compradores. “Se calhar nas gerações mais novas isso já não existe. Nas mais antigas é capaz de ainda existir: se está a comprar usado é porque não tem capacidade para comprar novo”, continua a especialista, mencionando a “questão da credibilidade no que toca a bens com direito a garantia”.
Em contrapartida, apesar de representarem menos de 5% das respostas obtidas ao inquérito, Natália Nunes nota que existe um aumento na procura de produtos em 2.ª mão. “Vemos cada vez mais as feiras da bagageira, que são uma realidade relativamente recente. Não existiam há poucos anos e agora estão a surgir aos poucos. Quase todas as localidades as têm de forma regular e existem pessoas de todas as idades a vender os seus produtos”, acrescenta, relembrando o facto de os mais velhos não terem uma presença tão vincada no meio digital de vendas de usados como os jovens.
De uma forma menos consensual, o mesmo fenómeno verifica-se em mercados onde a posse de determinados bens não é a norma. Onde existe a possibilidade de pedir emprestado, alugar ou mesmo pagar por utilização, como é o caso de equipamentos desportivos, por exemplo, a população inquirida continua a preferir adquirir (45%) estes produtos. Acontece também para livros (68% opta por comprar), apesar da existência do serviço de empréstimo nas várias bibliotecas do país, mas também nos serviços de mobilidade, onde 68% dos participantes prefere deslocar-se por meios próprios em vez de TVDE ou transportes públicos.
A única exceção a esta regra é o mercado automóvel. Segundo Natália Nunes, “é algo que está incutido, que faz parte daquilo que é a normalidade”. 61% dos inquiridos admite comprar carros em 2.ª mão. Dentro do universo dos proprietários automóveis, apenas os agregados com rendimentos superiores a 3.000€ por mês é que tendem, na sua maioria (51%), a comprar carros novos. “O preço acaba por ser determinante”, remata a especialista.
Homens são quem mais consome álcool e metade da população procura produtos biológicos
57% dos homens consome álcool pelo menos uma vez por semana, enquanto apenas 31% das mulheres adota a mesma prática. Este consumo regular semanal é mais comum entre os grupos etários mais velhos, segundo o inquérito da Netsonda, que revela que 57% dos Baby Boomers bebe com esta frequência, ao mesmo tempo que apenas 29% dos jovens da Geração Z o fazem. Desta mesma forma, neste universo onde os mais novos tendem a desassociar-se desta atividade, o consumo de tabaco segue a mesma tendência.
Cerca de 1 em cada 3 participantes afirma ter o hábito de fumar. A prevalência do tabagismo também é mais elevada entre os homens (38%) do que entre as mulheres (27%), e verifica-se predominantemente entre os agregados com rendimentos inferiores. Entre as pessoas que recebem menos de 1.000€ por mês, 30% admite fumar praticamente todos os dias, enquanto que na mesma categoria, são representados apenas 17% daqueles que recebem mais de 3.000€.
Ainda assim, o questionário revela que existe alguma preocupação sobre os produtos alimentares consumidos entre a população entrevistada. Cerca de metade dos inquiridos (53%) dizem comprar produtos biológicos de forma frequente ou sempre que possível — mesmo que estes sejam mais caros que os alimentos processados. Nos agregados com rendimentos inferiores a mil euros por mês, 53% dizem que apenas os adquirem raramente.
“O preço continua a ser determinante. E continua a ser determinante nestes produtos que têm subido muito [de preço]. Se a alimentação tem um grande peso nos orçamentos das famílias, na hora de escolher, vão preferir produtos de custo mais reduzido”, explica Natália Nunes, referindo que não se trata de uma preferência por produtos menos saudáveis, mas sim por uma questão financeira. “Não é que não estejam preocupados se um produto é biológico ou não, se é sustentável ou não. Estarão, com certeza, muitas delas, mas a questão é que o preço acaba por decidir a sua compra”, acrescenta.
A jurista ouvida pelo Observador recorda que existe uma grande parte da população portuguesa que é composta por famílias de reformados — que em média recebem pouco mais de 500 euros — e as “centenas de milhar de famílias a receber o salário mínimo nacional”, cuja decisão de compra de produtos é determinada pelo preço. Não obstante, de uma forma geral, a grande maioria da população admite ler a composição dos produtos consumidos.
Dos que o fazem apenas algumas vezes (59%) até aos que o praticam sempre (25%), esta métrica revela que tem surgido um maior interesse no valor nutritivo dos alimentos que são consumidos pelos portugueses — independentemente do nível de rendimento.