As coisas más são poucas. Por isso as palavras encravam, não saem, enquanto tenta disfarçar a hesitação com uns risos, que prolonga para dar tempo à caça da resposta. Só a encontra no frio. “No inverno, em Portugal, às vezes temos que nos sacrificar para surfarmos boas ondas”, lá indica Teresa Almeida, antes de, aí sim, sem demoras, admitir que “talvez” isso seja “o único lado mau” de fazer o que faz na vida — bodyboard. Ou estar deitada em cima de uma prancha, a deslizar e a voar sobre uma onda. E, de repente, ser uma das melhores do mundo a fazê-lo.

O frio era mesmo coisa séria. Já quase uma semana se contava desde que voltara do Chile, de Iquique, e ainda nem se “atrevera” a “entrar no mar”. Nem ele, pelos vistos, lhe dava motivos para isso. As nuvens tinham fugido e o sol bem brilhava, mas de ondas, na Praia de Carcavelos, nada. Só uma amostra, umas “espumas”, as mesmas que, em “pequena” e “como todas as crianças”, Teresa apanhava “com aquelas pranchas de brincar”. No fundo, “fazia bodyboard sem saber”. Mas hoje, com 22 anos, “sabia que tinha de dar o [seu] melhor” no Campeonato do Mundo da modalidade para engordar o sonho. Porque “sem ele nem valia a pena ir”.

Teresa Almeida venceu três atletas na final. Uma delas era Neymara Carvalho, brasileira, de 38 anos, que já foi seis vezes campeã mundial “Ela já não deve acusar pressão nenhuma. Mas, por um lado, se calhar era ela que tinha de acusar: ela é que títulos, é a conhecida e tem de mostrar resultados. Eu estava ali mais numa de ‘ok, também posso conseguir e estou aqui para lutar pelo título’. São pressões diferentes”, revelou.

Teresa alimentou-o, não o largou e ele recompensou-a. Porque foi a portuguesa, uma das mais jovens prova, a trazer a medalha de ouro para casa. A tal que tem pendurada ao pescoço e, por vezes, esconde atrás da prancha que encosta ao corpo, enquanto conversa com o Observador. Está sentada na areia, com a cara amorenada pelo sol e um sorriso aberto pela conquista. “A entrega de prémios não foi logo no dia em que ganhei, foi no seguinte. Só quando subi ao pódio, disseram o meu nome, deram-me a medalha e cantámos todos o hino nacional é que vivi mesmo o que era ser campeã do mundo”, conta.

A sensação é boa — e há muito que não era sentida por uma portuguesa. Uma campeã mundial de bodyboard era coisa que Portugal só vira em 1998, quando Dora Gomes colou o nome à distinção. Teresa tinha cinco anos. “Nem sabia o que era bodyboard e quem ela era”, confessa, reconhecendo Dora Gomes como uma “atleta muito importante” na modalidade. Insuficiente, porém, para a ter como referência, por culpa do buraco geracional que as separa. “Já não é do meu tempo. Talvez uma Rita Pires ou Catarina Sousa me tenha incentivado e servido mais de referência”, explica, trilhando o caminho dos exemplos que começou a ser desenhado pelos primos.

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E por outros rapazes, também. Porque foi na convivência com eles, na Nazaré, terra de ondas grandes, que Teresa começou a lidar com o mar. Para lá das espumas. “Ofereceram-me uma prancha nos anos e nesse verão comecei a fazer”, recorda. Tinha 13 anos e zero medo de ondas. “Sempre fui um pouco destemida. Entrava no mar sozinha, sem grandes problemas”, garante, ao falar da altura em que foi atrás do primo, “que já fazia bodyboard”, e se inscreveu no Clube de Desportos Alternativos da Nazaré.

Foi lá que conheceu cabeças ainda mais destemidas, de tal forma que tinha de ir atrás delas. Treinava “só com rapazes”, que “na idade deles já eram os melhores” e, muitos, campeões nacionais. “Chegávamos à Praia do Norte, o mar estava grande, mas o treino era ali. Eles faziam pressão e diziam que íamos mesmo entrar ali”, desbobina, ao falar dos tempos em que aprendia a bem, mas às vezes também a mal. “Eu não ficava na areia, não é? Podia entrar e não fazer muitas ondas, mas entrava sempre e, da próxima vez, já faria sempre melhor”, argumenta. Assim que teve uma prancha a sério, um fato para torcer o nariz ao frio e uns pés de pato (barbatanas) para calçar nos pés, “nunca mais” parou.

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Pouco tempo demorou até dar duas caras ao que fazia no bodyboard. Do lazer passou à competição, ainda bem nova, e “as coisas sempre foram correndo bem”. Com “alguma sorte” que a maré também trouxe, Teresa conseguiu, aos 15 anos, vencer logo uma etapa do circuito nacional de sub-18. E daí passou a entrar no campeonato nacional das graúdas. Os resultados nem sempre apareciam. “Ia lá e montes de vezes e perdia de primeira, mas não ficava triste”, garante. “Via-as a surfar e aprendia. Era mais uma diversão para mim. Foi super importante porque, mais tarde, já estava preparada e acostumada” a inventar coisas numa onda para, depois, um júri dizer o que acha.

E nos últimos tempos têm achado muito bem. Em outubro foi a Marrocos sagrar-se vice-campeã europeia, já depois de, em 2013, ser também a segunda melhor no circuito nacional de bodyboard. Isto é bom. Mas há coisas melhores. “O contacto com o mar e a diversidade de adrenalina que temos dentro de água”, explica, ao embrulhar tudo num “desporto que não é monótono”, no qual “as ondas e sítios são sempre diferentes”. Teresa, aliás, tem palavras de sobra para falar das coisas boas que a modalidade lhe dá: “Não é algo em que estou a correr sempre para a mesma coisa e com o objetivo do tempo. Aqui são sentimentos diferentes. Estamos na natureza e com os nossos amigos, é isso que nos fascina. E o prazer que nos dá viajar para outros países.”

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Mas tem um custo. E ele está num “sonho”: o de participar no circuito mundial da Association of Professional Bodyboarding, que junta as melhores atletas do mundo e implica ter à volta de 10 mil euros reservados na carteira. “Depende sempre muito do local das etapas”, diz Teresa Almeida que, agora, mesmo com a medalha de ouro no pescoço e o título na bagagem, não consegue fazer vida apenas da modalidade. Ou seja, ser profissional. “Acho que estou no momento de dar esse salto. Se não for agora, dificilmente será noutra altura”, reconhece.

Se o fizerem, Teresa poderá clicar no botão de pausa e dar descanso ao que tem conciliado com o bodyboard. “Sou licenciada em Ciência do Desporto e estava a acabar o mestrado em Educação Física”, resume, ao falar dos estudos que seguia na Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa. Estava “a ser difícil”, admite, pois já era “professora de uma turma, numa escola secundária”, algo que lhe “retirava” tempo pelo “trabalho” que tinha para fazer. “Não podia ausentar-me durante muito tempo porque os alunos ficavam sem aulas: fui para Marrocos durante duas semanas, para o Europeu, estive agora outras duas no Chile, antes foram duas de preparação. Era imenso tempo fora”, explica.

Longe de Portugal também ficará durante algum tempo em janeiro, mas não por culpa das ondas. Por obra de um novo patrocínio, Teresa estará “um mês” nos Alpes suíços. Desta vez de pé e em cima de uma prancha de snowboard, “não com a perspetiva de competir, mas de me divertir e evoluir”. Desde os cinco anos que a família a puxava para viagens até à neve e o jeito também se foi mostrando por lá. Até que, o ano passado, agora puxada “por amigas”, foi até à Serra da Estrela a pensar: “Ok, vamos ver no que dá.”

E a prova Snowgirls deu-lhe o segundo lugar e o título de vice-campeã nacional de snowboard num país que, de neve, tem mesmo muito pouco. Seria o suficiente para desviar as atenções do mar? “Não, o bodyboard está à frente de tudo”, conclui, sem hesitar. A coisa, agora sim, é séria, tanto que até os pais de Teresa Almeida “estão mais felizes” por a filha ter sucesso na modalidade que, antes, era vista com olhos que a colavam a “pessoas inúteis, com mau aspeto e pensamento”. Hoje não. Agora o bodyboard “já é visto como um desporto da moda, de bem, que toda a gente quer praticar”. E mais: 16 anos depois, volta a ser coisa de campeões do mundo.