O Coliseu do Porto deixou cair o “do” e passa a chamar-se agora Coliseu Porto. O nome é uma das mudanças que a nova direção já implementou com vista a criar uma nova fase na história desta emblemática sala de espetáculos. No sábado mostra-se mais uma: um festival de programação própria que reúne 12 bandas e DJs em quatro espaços do Coliseu, até agora desconhecidos do público.

The Legendary Tigerman, Black Bombaim, B Fachada, Mind da Gap, Dealema e Gin Party Soundsystem são apenas alguns dos nomes que fazem parte do FLIC – Festa Lotação Ilimitada Coliseu. É um evento de sete horas de música, mas é, sobretudo, uma amostra do que está para vir. “O Coliseu chegou a uma fase de enorme, enorme erosão e tem de ser recentrado na vida da cidade, do ponto de vista artístico e cultural“, explicou ao Observador Eduardo Paz Barroso, eleito presidente da associação Amigos do Coliseu em setembro por unanimidade.

Eduardo Paz Barroso sucedeu a José António Barros, que esteve 18 anos à frente do Coliseu. Em dezembro passado, o ex-presidente admitiu estar preocupado com o futuro da sala, num discurso a que agência Lusa teve acesso. O problema maior era a recente crise, que reduziu a afluência dos espectadores e aumentou o risco dos produtores, “originando, em consequência, a redução do número de espetáculos apresentados”, disse José António Barros.

Para enfrentar esse problema, a nova direção está a pôr em prática dois planos, que o FLIC conjuga. O primeiro é não se resignar a ser uma sala para os espetáculos dos outros. Eduardo Paz Barroso, que foi diretor do Teatro Nacional de São João, entre 1992 e 1995, também é programador, mas o Coliseu tem poucos meios para produção própria. A ideia passa, por isso, pela coprodução e pela procura de parceiros. O FLIC foi programado por Luís Salgado, responsável pelo Maus Hábitos, do outro lado da rua.

“Mas se hoje está o Luís Salgado, amanhã estarão outros programadores. O Coliseu pretende ser um espaço massificado em termos de públicos e de gostos no sentido mais nobre do termo”, disse o presidente, cuja prioridade quando iniciou funções foi “ter reuniões com todos os produtores e agentes culturais”. A Escola Superior de Música, Artes e o Espetáculo, por exemplo, vai passar a ser frequentadora habitual do espaço. “Com eles vamos ter o CCC – Concertos, Conversa, Coliseu, o primeiro de um conjunto de concertos conversados, com foco juvenil, aberto a todo o publico. vão ser criadas condições de bilheteira atrativas para ter vários tipos de público”, adiantou.

“Queremos associar o Coliseu à ideia de felicidade e divertimento, mas com qualidade estética. Tanto é o lugar do Tony Carreira como do B Fachada e da Orquestra Sinfónica da ESMAE”.

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Eduardo Paz Barroso conta com o apoio do presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira. ©Rui Oliveira / Global Imagens

O segundo plano é potenciar-se como sala de acolhimento de espetáculos. Classificado como Monumento de Interesse Público pela tutela, em 2012, o edifício da Rua Passos Manuel é conhecido pela grande sala de três mil lugares sentados ou mais de quatro mil lugares em pé. Mas há vários outros espaços mais pequenos que podem ter outras utilidades e aproveitamentos, que “estavam desativados por aparente falta de interesse”, disse Eduardo Paz Barroso. A partir de agora podem, por exemplo, acolher espetáculos de menor dimensão, como vai acontecer já no FLIC. “O salão ártico é para concertos de média dimensão e é a primeira vez que vai haver ali concertos”, contou. A direção quer transformar outra das salas num bar. “Depois temos o salão jardim e o foyer, que é um espaço que pode ser utilizado de modos diversos, ao qual chamamos monumental foyer“, disse.

Mas deixa o alerta. “O Coliseu é mesmo muito grande, é quase uma rua cá dentro, e em termos de manutenção vai haver um problema”. É importante encontrar apoios e, nesse sentido, a direção vai candidatar-se a projetos de financiamento europeu. É também fundamental tê-lo sempre em movimento, daí a mudança do nome. “Deixamos cair o ‘do’ no nome porque o Coliseu é um dos nomes do Porto, não é o Coliseu que pertence ao Porto. Tem a ver como em múltiplos aspetos a cidade está a comunicar hoje. O ‘do’ aqui e uma questão conceptual, de fusão entre a maior sala da cidade e a nova fase da vida do Coliseu, que foi recolocado no centro da região. O que se criou foi uma tentativa de potenciar o acolhimento”. Querem atrair mais amigos de toda a região Norte, e uma parcela dos jovens que todos os fins de semana enchem as ruas da Baixa.

Nesse sentido, Eduardo Paz Barroso promete que vêm aí descontos para as produções próprias e algumas surpresas. “Num espetáculo de ópera recente convidámos todos os associados. Nos CCC vamos ter um pacote especial para os Amigos do Coliseu. Para o FLIC todos os associados receberam uma carta minha em casa e um preço de amigo, inferior. Os amigos têm aqui um estatuto privilegiado”, explicou.

“O Coliseu é a rua coberta do Porto, o próprio átrio é um prolongamento da rua. Queremos uma maior fluidez com a cidade, mas abrir mais o Coliseu não só ao Porto, mas a toda a região”.