A história teve início na década de 1970 na Guiné Equatorial. No tempo do regime ditatorial de Francisco Nguema, os pais de Buika fugiram para um bairro cigano da ilha de Palma de Maiorca, onde nasceu e cresceu protegida e acarinhada pela comunidade.

Concha Buika, a menina espanhola com África marcada na pele, tornou-se cantora, compositora, poeta e mãe. Funde o flamenco com o jazz e com o blues, tem no currículo oito álbuns e muitas colaborações com nomes importantes da pop e da world music — Pat Metheny, Javier Limón, Anoushka Shankar, Chick Korea, Mariza, Charles Aznavour, Luz Casal, Seal e Nelly Furtado, entre outros.

A crítica não poupa elogios a Buika, descrevendo-a como uma das melhores vozes da atualidade. É comparada a Billie Holiday, Nina Simone, Edith Piaf e Amy Winehouse, palavras que agradece com um sorriso e olhar serenos. É incrível como daquele corpo franzino sai uma voz tão profunda e em paz com o mundo.

Foi esse o sentimento presente na conversa que tivemos com Buika no início desta semana, num hotel de Lisboa, onde esteve para promover o novo álbum Vivir Sin Miedo (lançado esta sexta-feira, 16 de outubro). Recebeu-nos descontraída (e divertida), falámos de música, do amor e da liberdade. No final da entrevista, despediu-se com um abraço. Foi assim que Buika aprendeu a viver, com amor e sem medo.

© Hugo Amaral/Observador

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Vivir Sin Miedo – de que é que tens medo?

Neste momento, de nada.

De nada?

Na verdade, não.

Podemos viver sem medo?

Penso que não. Gostava que sim, mas não acredito que possamos, porque somos educados para o medo. Fomos educados para… eu chamo-lhe “educastração”.

“Educastração”?

É assim que eu lhe chamo.

O que é que isso significa?

Significa que, de certa forma, o medo é uma castração da liberdade pessoal. E penso que fomos educados por pessoas que estavam mais interessadas em fazer-nos sentir como se estivéssemos numa prisão do que a viver livremente. E penso que, normalmente, usamos o medo porque precisamos de ser – não sei – iguais às pessoas à nossa volta. As pessoas têm medo de pessoas que não têm medos. E, nesse sentido, somos forçados a ter medo. Apenas porque queremos ser iguais à nossa mãe ou aos nossos irmãos e ao resto da sociedade. É isso que eu sinto: que o medo é um companheiro que nós criámos, porque precisamos simplesmente dele, precisamos de ter medos. Mas não acho que sejam bons.

Mas sentes-te livre agora?

Não penso que a liberdade seja uma opção. Não acredito, realmente, na liberdade, enquanto conceito geral. Porque não sei o que é que significa. A partir do momento em que eu preciso de alguém que me ame, alguém que me entenda, alguém que me ouça, alguém com quem possa falar… eu preciso que animais morram para que eu possa comer. Eu preciso de tantas coisas… Eu não sei o que eles querem dizer, quando falam de liberdade. Eu entendo o que é a liberdade para um refugiado ou para uma pessoa que esteja presa, mas para alguém como nós – nós comemos o que queremos, vamos onde queremos ir, estamos com as pessoas que queremos estar – não sei o que “liberdade” quer dizer. Não sei exatamente…

Continuamos a ter os nossos medos.

Claro. Teremos sempre medos.

Estamos tão confortáveis aqui.

Sim… E temos medos. Teremos sempre medos. É algo que nos é intrínseco.

E a história dos teus pais, a fuga da Guiné Equatorial no tempo da ditadura, teve influência na forma como falas e olhas para essa “prisão”?

Sim, sem dúvida. Porque entendo que nós somos o resultado de uma equação. Não penso que sejamos os donos de tudo aquilo que temos, realmente. Algumas das coisas que nós temos foram, simplesmente, os nossos pais que nos deram. Não sei… Não sei… Honestamente, a minha frase preferida é “eu não quero ser livre, mas quero ter a chave da prisão”. Percebes? Para poder sair, quando eu quiser, e voltar a entrar, sempre que não me sentir segura. Porque, ao fim e ao cabo, alguns dos nossos medos pertencem à nossa zona de conforto. E, por vezes, não é fácil enfrentar esses medos. É como dizer: “Não, não. Prefiro antes…”

Ser controlada?

Sim! (risos)

Como é que descreves este novo álbum? É o primeiro em que misturas as duas línguas [inglês e castelhano]. É o primeiro em que fazes isso.

Eu queria fazer uma referência a essa linguagem, porque ao longo da minha carreira tenho cantado em muitas línguas – cantei em português, em espanhol, algumas canções em inglês e francês, cantei em hebraico, em arménio –, ou seja, eu não tenho medo das línguas, porque penso que todas falam da mesma coisa. Penso que todas as canções do mundo contêm a mesma informação – a nossa felicidade, a nossa tristeza, a nossa liberdade –, a nossa conceção do mundo está presente em todas as canções do mundo. Portanto, eu penso que tenho de ser capaz de cantar em qualquer língua.

Mas agora escolheste o inglês, neste álbum. Porquê?

Porque fiz um álbum que celebrava a música mexicana, outro que celebrava a música cubana, outro que celebrava a música jazz e agora estava na altura de fazer um que celebrasse a língua inglesa, enquanto algo que nos une a todos. Porque considero-a uma língua universal e quero, de facto, fazer-lhe uma referência.

E porque agora moras em Miami?

Eu moro em Miami, mas o inglês é uma língua que podemos falar em qualquer país do mundo. Onde quer que vamos podemos falar inglês e podemos falar um pouco de espanhol.

Porque é que te mudaste para os EUA?

Porque, em termos logísticos, é o melhor sítio para estar quando se faz tourneés mundiais. Estás a seis horas da Europa, quatro horas da América Latina, nove horas da Ásia, ou seja, estás no centro e depois, claro, tens o tempo. Odeio o frio. Odeio o frio!

Tens saudades de Espanha?

Muitas. Todos os dias. Sempre que como! Sim, tenho muitas saudades de Espanha. E por muitas razões. Mas penso que nós somos nómadas. Temos de percorrer o mundo. Temos de andar à volta do mundo e precisamos de o fazer, antes de partirmos. Temos de conhecer o mundo em que vivemos, porque essa é a única forma de amar o mundo inteiro – conhecendo-o. E penso que se educarmos as nossas crianças a viajaram, a visitarem o mundo, as guerras acabarão.

Achas mesmo que sim?

Sim. Porque quando vivemos e estabelecemos relações com pessoas de todo o mundo, não podemos detestar esses países. Eu tenho amigos na Colômbia, na Rússia, no Brasil… quer dizer, eu não quero que nada aconteça nesses países, porque os meus amigos estão lá. E se todos viajarmos à volta do mundo, vamos descobrir que a maior parte das coisas que nos dizem nas notícias são mentiras. Crescemos a pensar que os chineses são estranhos, os japoneses são não sei o quê, os franceses são isto, os africanos são aquilo, os americanos são outra coisa qualquer… e depois vamos a esses países e a única coisa que vemos são pessoas a trabalharem como animais para ganharem a vida. É a única coisa que vemos: pessoas a trabalharem, a trabalharem, a trabalharem, todos os dias, a tentarem ganhar a vida. E não é fácil para nenhum de nós. Descobrimos o mundo real. E todas as coisas que dizem acerca de nós – que nós nos odiamos uns aos outros –, isso não é verdade, não é verdade. São tudo tretas.

Viajar é conhecimento.

Sim. E quando viajamos, descobrimos muito sobre nós mesmos, porque em cada país há algo que nos pertence.

O que é que descobriste acerca de ti mesma nas tuas viagens?

Por exemplo, descobri que tenho um espaço em cada país do mundo. Isso é muito importante para um ser humano. Consegues imaginar viver com a segurança de que, onde quer que vás, terás trabalho, amigos, comida. A vida será muito diferente, se soubermos isso, se tivéssemos consciência disso –, de que teremos sempre tudo o que precisamos para ter uma vida boa, independentemente de onde formos. Essa é uma realidade.

Nunca pensei nisso, é curioso.

Essa é uma realidade. Mas dizem-nos na televisão que algumas coisas que são verdade às vezes são mentiras. Mas nós podemos ir para onde quisermos no mundo e vamos encontrar pessoas a sorrirem, pessoas a comerem e pessoas dispostas a serem nossas amigas. A sério.

Neste novo álbum, há um tema que partilhas com o Jason Mraz. Como é que o conheceste? Como é que isso aconteceu?

Foi um acidente. Estávamos a gravar uma canção no estúdio e… não sei, tentámos muitas coisas: virámos a música ao contrário, tentámos de uma e de outra forma e não estava a correr bem, mas havia algo que continuava a faltar, por isso eu disse que talvez não fosse possível essa faixa entrar no álbum. Depois fui a Miami e quando voltei tinham gravado uma voz, uma voz lindíssima, e eu pensei “quem é que é esta pessoa incrível?”. E eles disseram que era o Jason Mraz e eu fiquei “Oh meu Deus, vou morrer aqui e agora, porque eu não faço ideia quem seja o Jason Mraz, mas ele é um anjo! Não faço a mínima ideia, mas ele é um anjo.” Foi simplesmente isso. E depois conheci-o, quando fomos gravar o videoclipe, e ele é, efetivamente, um anjo. É mesmo um anjo.

Conheço a sua música. Ele é uma estrela pop.

Ele é incrível. É uma pessoa boa, tem um excelente coração. É um profissional incrível, com tanto talento e é um génio. Mesmo. Muito bonito.

Tal como tu, porque muitos críticos dizem que tens uma das melhores vozes da atualidade.

Agradeço.

Como é que te sentes em relação a isso, quando ouves isso?

Sinto um pequeno formigueiro dentro de mim e sinto-me muito feliz e muito orgulhosa da minha mãe e da minha avó.

Porquê elas?

Porque pertenço a uma longa linha de mulheres que eram pobres, que foram completamente esquecidas no meio de África por todos, e chegar a este ponto e elas ouvirem dizer essas coisas sobre a sua filha, do género, “a sua filha é uma das melhores cantoras no mundo” – para a minha mãe deve ser algo incrível. E sinto-me muito orgulhosa por ela.

Como é que descobriste a tua voz? Li algures que querias ser baterista. Isso é verdade?

Sim.

E que para uma mulher em Espanha era muito difícil ser baterista…

Bom, nessa altura…

Há vinte anos, talvez, mas agora não…

Nessa altura não era normal e, de qualquer forma, eu não me esforcei mais, porque era como lutar contra uma rocha gigantesca. Não havia nada que eu pudesse fazer. Quando comecei a cantar, foi porque estava completamente perdida, quer dizer, se me tivessem dito para dançar, hoje seria uma das melhores bailarinas. Eu estava para tudo, qualquer coisa… não sei. Porque não tinha muita confiança em mim mesma, quando estava a crescer. Todos os dias me diziam que era estúpida, que era parva, uma falhada, mandavam-me ir embora… Por isso, eu acreditava mesmo nisso. Quando se tem filhos, tem de se ter muito cuidado com o que se lhes diz, porque eles vão acreditar em tudo. Se dissermos ao nosso filho que ele é parvo, parvo, parvo, ele vai acreditar nisso. Porque damos-lhe o nosso coração, a nossa comida – tudo – e ele vai acreditar em nós. A minha mãe e a minha família não fizeram isso para me magoar, mas era a forma como se comunicava, antigamente. Não sei se te lembras?

Sem dúvida.

Antigamente, os pais eram animais. Desculpem-me, pais, mas os pais dos anos 60, 70, 80 – oh meu Deus – não sei se te lembras, mas eles costumavam bater nas crianças, costumavam… Eles sofriam, mas as sociedades daqueles tempos eram duras. Os nossos pais lutavam pela vida, eles passaram muitas dificuldades. Mas eram cá uns animais connosco! Não sei se te lembras… (risos)

Perfeitamente. Temos a mesma idade, por isso…

Sim! Mas a primeira vez que ouvi um aplauso mudei de ideias, porque ninguém aplaude um idiota. A primeira vez que subi a um palco e ouvi pessoas a aplaudirem-me tive tanto medo, mas ao mesmo tempo estava tão entusiasmada, porque pensei “oh meu Deus, não sou uma idiota”. As pessoas não aplaudem os idiotas. E comecei a pensar que talvez aquilo que dizem acerca de nós não corresponde àquilo que somos. Porque, quando és uma criança, és aquilo que os teus pais dizem que tu és. E esse foi o dia em que comecei a pensar que talvez tivesse a informação sobre quem eu era na verdade. Já lá vão alguns anos, mas foi a primeira pedra para construir o meu castelo. E percebi que temos de ter cuidado, porque aquilo que as pessoas dizem acerca de ti é apenas a sua ideia, não é a realidade. A realidade é aquilo que tu sabes acerca de ti mesmo. Isso foi bonito para mim. Foi bonito.

Li em vários artigos sobre ti que costumas dizer que és bissexual. Afirmas-te dessa forma. Porque é que consideras ser importante dizê-lo às pessoas?

Bom, eu nunca disse que era bissexual…

Mas eu li que sim… Como é que isso aconteceu, então?

Eu nunca o disse, porque não o sou. Eu não escolho quem amar, escolho apenas quem me ama. Não é a mesma coisa. Eu não sou bissexual. Eu apenas não escolho o amor. Tal como não escolho a cor do céu nos meus sonhos. Mas são os meus sonhos – não de outra pessoa. São os meus sonhos. Mas posso escolher a cor do céu? Não. Posso escolher o amor? Não. Amor é amor.

É um reflexo da tua liberdade?

De certa forma, é como tentar ser honesta com a criação divina. Estou a ser honesta com a criação divina. Não se escolhe o amor. Sabes?

Ontem estava a ouvir os teus álbuns e, tudo bem, entra na grande caixa da world music, mas de certa forma é “alternativa”. Como é que descreves a tua música?

Eu acredito na revolta. Eu acreditava na minha revolta quando tinha 15 anos, mas era como uma energia sem controlo. Percebes o que quero dizer? E era lindo. E lembro-me dessas alturas como sendo muito inocente. Às vezes penso “meu Deus, as coisas que eu fiz”, mas era inocência. Agora sou louca porque o quero ser. Quando alguém acredita na loucura como uma forma alternativa, não é uma doença.

Então transportas isso para a tua música?

Sim, sim. O que eu faço é tentar ser eu mesma. É tão simples quanto isso. E nem é tentar – eu estou a ser eu mesma. Posso ser má, posso ser… posso ser estúpida, às vezes. E pela primeira vez na minha vida não me sinto mal. Percebes?

Perfeitamente, sim.

É isso mesmo. Porque nos últimos anos, sinto que eles nos têm feito sentir como robôs: “Não digas isto porque é inapropriado, não digas aquilo, não faças isto, não faças aquilo”. Porque não? Porque há uma cambada de filhos da mãe que acham que não está certo? Mas há muitas pessoas que acham que está certo. Eu não preciso que todos entendam. Eu não percebo como é que a máquina de lavar funciona, mas ela funciona. Eu não acho que preciso de entender toda a gente e não acho que toda a gente precisa de me entender a mim. Eu preciso de me entender a mim mesma. A minha conceção de vida é como é, porque serve para me facilitar a vida a mim e não lixar a dos outros. Portanto, aqueles que me ouvem e se sentem ofendidos sentem-se ofendidos com tudo. Eu não me posso responsabilizar por aquilo que eles sentem, quando me ouvem. Do que tenho a certeza é que não vou voltar a usar filtros. Tenho 43 anos. Não sou casada. Posso beber o que quero. E não sou dona de qualquer opinião. Sou apenas dona da minha opinião. E vou ter a conceção de vida que tenho. E sinto que nestes últimos anos toda a gente tem andado a comportar-se como robôs. E se sentirmos inveja, não podemos dizer que temos inveja, temos de dizer: “Não, não. Eu percebo a minha mulher ou eu percebo o meu homem”. Digam a verdade. Não somos animais. Quer dizer, somos animais, mas também somos pessoas. Nós sentimos coisas. Porque é que não podemos ser livres e falar sobre aquilo que sentimos? Porque não é apropriado. Eu não acredito nisso. Sem mais filtros. Sem mais filtros.

É uma ideia bonita, gosto muito. E diz-me, numa frase, como é que te descreverias a ti mesma para o público português? Se te quisesses apresentar a pessoas que ainda não te conhecem…

Eu sou uma mutante multiforme. (risos)

Uma mutante multiforme? O que é que isso quer dizer? (risos)

Quer dizer que me posso sentir bem a fazer isto ou a fazer aquilo, a estar aqui ou a estar noutro sítio qualquer… Percebes? Uma mutante.

Estás a assustar as pessoas. (risos)

Eu não vou estar aqui durante muito tempo, mas estou a aqui para passar um bom tempo. É disso que se trata. Eu sou uma mutante. Não entendo as pessoas snobes, mas se estiver com elas vou divertir-me.

Adaptas-te?

Sim. Eu não entendo as pessoas racistas, mas se estiver à frente de uma, vou abraçá-la. Obrigado por seres sincero, obrigado por seres honesto. Porque há muitas pessoas que eu não aprovo e quando estou à frente delas eu tenho de fingir que está tudo bem. E isso não está correto. Obrigado pela honestidade. Liberdade no coração das pessoas para elas pensarem como pensam. A única coisa que peço e que não façam nada com essa informação. Quer dizer, não me matem por eu ser negra… Mas podem odiar-me, se quiserem. Isso é liberdade. Ou abracem-me…

Precisas de ter um espírito muito bom para pensar e sentir dessa forma.

Talvez porque eu não me sinta bem, quando eu me sinto mal. E não gosto de me sentir mal. Eu não gosto de me sentir mal porque alguém decidiu ser racista. Isso é uma estupidez: alguém decide ser racista e eu tenho de me sentir mal por isso? Eu identifico-me com ser feliz. Mesmo que alguém pense que eu sou um monstro, isso não me vai entristecer. Porque, sim, eu sou um monstro! Eu também sou um monstro. Sou uma mutante! Também sou um monstro. Por isso, é verdade, concordamos. Vamos beber uma cerveja! (risos)

Tens datas marcadas para Portugal, em breve?

Espero que sim. Penso que sim, mas não sei. Espero que sim.

Mas gostavas de vir?

Adorava. Adorava. Lembro-me muito do Algarve. Estivemos lá. Estivemos no Porto. Lindo! Adoro este país e adoro visitar este país. A comida, homens bonitos – tudo é maravilhoso aqui!

Muito obrigado.

Obrigada, meu amigo.

buika,

© Hugo Amaral/Observador

Tradução de Xénon Cruz.