Vila Nova de Famalicão afirmou-se de vez como o epicentro do surrealismo em Portugal. Nesta sexta-feira, a Fundação Cupertino de Miranda inaugurou o Centro Português do Surrealismo numa nova sala da sua sede, que se levanta no coração da cidade. E começou com o pé direito, com uma ambiciosa exposição que une uma seleção das obras do surrealismo da coleção da Gulbenkian a outras, do acervo da fundação – no total, são mais de 120 peças em exibição.

Mas esta casa do surrealismo não acabou de nascer – há quase 20 anos que é sonhada por quem está à frente da fundação. Tudo começou quando, João Meireles, genro de Arthur Cupertino de Miranda, comprou uma parte da coleção do artista Cruzeiro Seixas e a doou à instituição. Aos poucos e poucos, o acervo surrealista foi crescendo. Já nos anos 90, a primeira exposição surrealista é apresentada – “Surrealismo e não” – e, anos depois, nasce o Centro de Estudos do Surrealismo, coordenado há mais de 15 anos pelo professor Perfecto Cuadrado.

Esta inauguração é um arrojado passo em frente nesta história, porque deixa cair um nome que remetia para um “espaço fechado e académico” e abre ao público “com mais força e expressão” – e com “grandes exposições”, explica ao Observador António Gonçalves, diretor artístico do novo projeto. “Se pensarmos bem, não temos tantos espaços que nos mostrem artistas do século XX no contexto nacional que possamos visitar. E este é o primeiro totalmente dedicado ao surrealismo em Portugal”, adianta.

Um evento que, apesar de tudo, é apenas o início:

“A exposição, juntamente com as novas condições do espaço, inicia uma hipótese de trabalharmos as coleções de outras instituições com o seguinte intuito: ‘o surrealismo na coleção de’. A ideia é poder fazer uma mostra e um levantamento de quais são as obras surrealistas que estão em cada coleção e editar um catálogo do que existe.”

Obras para expor, há que chegue – a fundação detém “a maior coleção de arte surrealista em Portugal”, com “mais de 3000 obras de quase 300 artistas”, nacionais e internacionais, revela Pedro Álvares Ribeiro, presidente daquela instituição famalicense.

400 metros quadrados recheados de arte

As exposições, que antes eram feitas no museu da torre, ao longo de seis andares, mudaram-se para o novo “espaço de mais de 400 metros quadrados”, com “as melhores condições museológicas para apresentação da coleção”, afirma o presidente. A torre, essa, está em obras, mas não vai ficar esquecida, revelou António Gonçalves ao Observador: “Em breve, vai iniciar-se um novo projeto lá chamado ‘Torre Literária’, com o cânone da literatura portuguesa. É um complemento literário ao projeto que temos em curso.”

Para já, os holofotes estão na nova sala do primeiro andar, talhada por diversas divisões móveis que permitem que se faça vários desenhos (ou percursos) expositivos. Desta vez, “O Surrealismo na Coleção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian” quase se confunde com as obras do acervo do centro.

A viagem começa com vários quadros de António Pedro e alonga-se com as obras de António Dacosta, Marcelino Vespeira, Fernando de Azevedo, Cândido Costa Pinto, Júlio dos Reis Pereira, entre outros. Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e Fernando Lemos são os nomes que se destacam da coleção própria da fundação. E estes dois últimos artistas estiveram em carne e osso na inauguração e guiaram o Presidente da República, que também esteve presente, ao longo da exposição.

Momentos antes, Marcelo felicitava Pedro Álvares Ribeiro pela determinação e persistência na conclusão deste centro:

“O presidente da Fundação Cupertino de Miranda dizia que é raro em Portugal haver projetos a 20 anos. Este foi um. Não é muito português. E nem é preciso ser-se surrealista para se dizer isto. O português gosta de gerir o dia-a-dia, deixar para o último minuto, o último segundo e depois, para os crentes, que Deus intervenha. O facto é que este foi um projeto a 20 anos que deu os passos todos até chegar ao momento que vivemos.”

O presidente, que à hora da chegada foi recebido por uma multidão que não se demoveu pela chuva, brincou, ainda, com o nome dado ao novo espaço e realçou a sua importância ao nível internacional: “De um importantíssimo acervo, com obras de Cesariny e Cruzeiro Seixas, faz-se agora o que só não se chama um museu porque seria pouco surrealista pôr o surrealismo num museu. Trata-se de um pólo decisivo para integrar Portugal no conhecimento e no estudo do movimento surrealista internacional.”

Com o Marcelo concordou Paulo Cunha, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, que afirmou que a criação deste centro é um importante passo “no fortalecimento do projeto cultural do concelho”, mas que também “permite almejar um patamar internacional”. E, antes de abordar o tema da descentralização e de pedir mais trabalho conjunto entre as autarquias e o Estado, ainda atirou: “Não fazemos parte das duas grandes cidades deste país, mas pedimos meças a muitas cidades de dimensão maior no que à cultura diz respeito”.

No rodopio de discursos, ainda houve tempo para o ministro da Cultura fazer uma pequena reflexão do surrealismo português, que “aparece de uma forma diferente do francês”:

“Por um lado, é menos terrorista, por outro lado, é mais empenhado politicamente, apesar de não haver uma estética de compromisso com ideologias. O surrealismo é uma ideia de emancipação total, de liberdade.”

Perto do fim, recitou parte do “Corpo Visível”, de Cesariny, que já havia sido citado na sessão de inauguração, quando o presidente da fundação anunciou que o centro iria assegurar a tradução e edição da obra de poesia em espanhol do autor.

2,5 milhões para conquistar novos públicos

Durou um ano e custou cerca de um milhão de euros a intervenção de João Mendes Ribeiro naquele edifício dos anos 70. Para lá do novo espaço, outras mudanças foram feitas – à entrada foi criada uma pequena livraria dedicada ao tema do surrealismo e o auditório ficou de cara lavada. Em cinco anos, prevê-se que o investimento global no espaço, considerando o custo das programações, fique nos 2,5 milhões de euros.

O diretor artístico acredita que a renovação vai criar “uma nova curiosidade” e que isso se sentirá ao nível das visitas. A fundação, que recebe 25 mil visitas anuais, quer agora conquistar outro público para lá daquele que está acoplado ao serviço educativo. E já há planos para o futuro. A próxima exposição, a ser estreada em inícios de outubro, será dedicada às principais revistas do surrealismo internacional, uma coleção que faz parte do acervo da fundação.