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O que é ser negro, trans ou mulher no Brasil? Esta exposição procura respostas

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Na exposição coletiva “Adorno Político”, com a curadoria de Tales Frey, corpos dissidentes resistem. Inaugura-se nesta quinta-feira e vai ficar no Maus Hábitos, no Porto, até 20 de janeiro.

Autor
  • Beatriz Silva Pinto
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“Adorno Político” ou “A Dor no Político”. Qualquer um dos títulos serve como uma luva à exposição coletiva organizada pelo artista e investigador brasileiro Tales Frey que, a partir de quinta-feira, traz para a ribalta corpos, imagens e identidades dissidentes, que não se encaixam nos moldes impostos pela sociedade, mas que reivindicam o seu lugar. Cada corpo é único, cada corpo é um campo de batalha e cada obra presente nesta exposição é uma reflexão sobre o que é ser negro, trans, mulher no Brasil. A mostra, que reúne performances, vídeo, fotografia e escultura, inaugura-se a 15 de novembro, no Maus Hábitos, no Porto, e lá fica até 20 de janeiro.

Como artistas LGBT, tanto Tales Frey, que atualmente vive no Porto, como Lyz Parayso, que veio propositadamente ao país para atuar na mostra, veem a componente política das suas criações como uma “consequência natural” do seu quotidiano: “Quando o artista faz arte, acaba por traduzir as suas vivências na obra. No nosso caso é igual. Como há urgência na luta pelos direitos humanos, isso acaba por refletir-se no nosso trabalho.”

Mas, com o Brasil reacionário de Jair Bolsonaro a levantar a voz, Tales acredita que é preciso “repensar a estratégia”: “Aqui em Portugal, enquanto ainda há essa liberdade, é possível falar diretamente sobre os assuntos. No Brasil, vamos ter de falar por meio de metáforas, criar outro tipo de obra, para chegar à nossa oposição”. E revela: “Tenho pensado em criar espaços partilhados em que militâncias diferentes possam dialogar.

Construir pontes é uma prioridade e é isso que Lyz Parayzo tenta fazer com a performance “Manicure Política”. No dia 15 de novembro, às 21h30, a artista monta o “Salão Parayzo” e oferece-se para pintar as unhas de cor-de-rosa aos visitantes, enquanto, tal como num salão tradicional, se tece conversa. A escolha da cor do verniz não é aleatória, explica a performer:

O feminino começou no meu corpo a partir da unha pintada, foi a minha primeira experiência estética a entrar em confronto com o espaço público. Eu ficava num estado de urgência ao andar no transporte público com as unhas pintadas de rosa, ainda mais no Rio de Janeiro, onde as pessoas verbalizam a violência. É aí que percebes: até que ponto tens liberdade no teu próprio corpo?”

Ao desafiar pessoas de vários géneros, gerações e contextos a sentarem-se diante dela, Lyz tanta relacionar-se através do toque, do diálogo. Devido ao seu aspeto andrógeno, as conversas costumam fugir para os temas de “sexualidade e género”, mas “também há quem fale da vida pessoal”, conta Lyz. Neste projeto, que nasceu em 2016 num prédio abandonado na Barra da Tijuca, desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, “não há roteiros”.

No mesmo dia, Priscilla Davanzo demonstra como um corpo, para estar enquadrado dentro de uma estética socialmente aceite, sofre. Na performance “pour être une seductrice”, a artista desprende a meia de 7/8 da liga e sutura-a na própria coxa. Na mesma linha de pensamento está a obra de Joana Bueno, apresentada em vídeo, adianta Tales: “O namorado de Joana desejava ver no corpo dela seios mais fartos, então ofereceu-lhe, como presente, um par de seios de silicone para ela pôr através de cirurgia. Ela fê-lo, mas, passado um tempo, achou aquilo exageradamente desconfortável e quis remover. O trabalho dela é a filmagem da cirurgia de remoção, acompanhada por um texto sobre o corpo feminino adestrado às exigências do machismo.”

Apesar dos 15 corpos dos 15 artistas em exposição carregarem “cargas simbólicas distintas”, “nenhum deles está confortável dentro de um sistema hegemónico”, reforça o curador. A raça e o passado colonial são as cargas de Tiago Sant’Ana e Suelen Calonga, ambos autores negros. No vídeo “Passar em branco”, Tiago passa uma pilha de roupas brancas a ferro, numa tentativa de realçar a forma como o colonialismo continua a ter impacto na relação entre trabalho e raça no Brasil, onde os negros continuam a ser associados ao trabalho doméstico ou ao da força braçal. André Parente, Andressa Cantergiani, Élle de Bernardini, Gal Oppido, Lenora de Barros, Letícia Parente, Marcela Tiboni, Nino Cais, Rafael Bqueer e Renan Marcondes são os restantes nomes que compõem a mostra.

“O avanço vai continuar”

Para lá da “Manicure Política” e da palestra “A Vênus de Cor”, apresentada no dia 17 de novembro, Lyz Parayso vai estar inscrita na mostra através de uma mesa repleta de objetos-inspiração e esboços, que revelam parte do processo criativo da artista de 24 anos, e de alguns dos seus trabalhos mais controversos, como é o caso da série de fotografias “Secagem Rápida”, de 2015, que Lyz expôs sem pedir licença numa casa-de-banho da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde estudava, conta ao Observador: “Conjuguei duas coisas que são consideradas abjetas socialmente – o cu e as unhas pintadas de cor-de-rosa num homem. Juntei um lugar que se tornou abjeto através de uma performance, que foi o pintar as unhas, e uma parte do corpo que já estabelecida como abjeta.” As fotografias do seu ânus esticado por mãos com unhas pintadas de cor-de-rosa valeram-lhe censura, à primeira tentativa de exposição, e um despedimento, à segunda. Hoje, para lá de participar em mostras nacionais e internacionais, faz parte das coleções do Museu de Arte Contemporânea de Niterói e do Museu de Arte do Rio.

Mas nem por isso se abstém de dirigir críticas ferozes, por via da sua arte e do seu corpo, às galerias e instituições do Brasil. Exemplo disso é a série de panfletos de prostituição “Putinha Terrorista”, também presentes no “Adorno Político”: “O corpo trans negro sempre existiu como objeto – quem fala sobre esse corpo são pessoas brancas e cis. E eu quis falar sobre a minha subjetividade, fazer uma denúncia”, explica. Então, politizou os panfletos em que se expõe em poses provocadoras – abordando temas como a colonização, o racismo, a LGBTfobia –, colocou como número e endereço os dados das galerias em que já expôs, imprimiu milhares e espalhou-os pelas instituições artísticas, onde certos corpos, como o seu, ainda são marginais.

No entanto, e apesar das circunstâncias políticas atuais no seu país-natal, não deixa de destacar o caminho já talhado: “Nesses últimos 12 anos no Brasil, aconteceram várias políticas afirmativas e esses corpos e minorias identitárias conseguiram espaços de acesso e prestígio na sociedade. Acho que esse novo governo é também uma reação a todas as conquistas.” E Tales completa, assegurando: “O avanço vai continuar.”

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