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Arquitetura

100 anos da Bauhaus: entre a utopia e o totalitarismo

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Há 100 anos, nascia a escola de artes que foi o rosto da utópica República de Weimar. A Bauhaus mudaria a face das cidades do século XX e faria do design uma obsessão e uma tirania do século seguinte.

Edifício da escola da Bauhaus em Dassau, projectado por Walter Gropius

Autor
  • Joana Emídio Marques
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O tempo era de desassossego, de angustia, de atordoamento e de esperança numa Europa estilhaçada nas suas formas, dogmas e fronteiras. Era o tempo do Cubismo, do Dadaísmo, do Abstracionismo russo, do conceptualismo do De Stijl holandês, do Futurismo, da guerra, do fim dos impérios, da ascensão das máquinas, dos modernismos e dos fascismos. Foi neste contexto que, em abril de 1919, o arquiteto e visionário Walter Gropius fundou, na recém criada República de Weimar, a escola de artes e arquitetura Bauhaus. A missão não era modesta: devolver à arte uma missão social, o espaço real aos artistas e criar cidades adaptadas às necessidades humanas. Enfim, abrir a possibilidade de “habitar poeticamente o mundo”, nas palavras de Heidegger.

No seu primeiro discurso, Gropius defendeu que “a arte” devia “finalmente encontrar a sua expressão cristalina, numa obra de arte magnífica e completa. E esta obra de arte magnífica e completa, esta catedral do futuro, brilhará então com a sua abundância de luz, contra os pequenos objetos da vida quotidiana”. Para este projeto, chamou artistas como Paul Klee ou Wassily Kandinsky, mas passaram por lá muitos outros, como Oscar Schlemmer, Gerard Marckus, Lazlo Moholy-Naggy, Hannes Meyer, Mies Van Der Rohe e Joseph Albers. Publicaram-se livros de Mondrian, que, apesar de não ter estado presente fisicamente, foi um artista determinante para o pensamento da escola. Escola mista onde as mulheres eram aceites (não sem reservas) em oficinas até aí só abertas a homens, teve alunas como Sonia Delaunay.

Criar a cidade do homem novo era uma das ideias do socialismo russo, uma das influencias da Bauhaus e uma das razões do seu fim, logo em 1933. A escola propunha uma junção inovadora entre as belas artes e as artes aplicadas, com a arquitetura a pairar sobre todas elas, como uma mãe desse novo mundo. Ao contrário de outros movimentos que rejeitavam a proximidade entre a arte e a máquina, a Bauhaus colocava a tecnologia ao serviço da arte, procurando, assim, baixar o preço das peças e facilitar a sua reprodução para chegar ao maior número possível de pessoas. Era a ideia romântica e wagneriana da “obra de arte total”, a que se chegava não compartimentando a escola em disciplinas, mas ensinando em workshops onde convergiam todas as artes, até mesmo o teatro e a dança, como mostram os trabalhos de Oskar Schlemmer, professor na Bauhaus. Curiosamente, nesta escola não se ensinava arquitetura.

Paul Klee e Wassily Kandinsky a tomarem o pequeno-almoço no edifício da Bauhaus em Dessau, em 1929. A escola chegou a funcionar em três localidades diferentes: Weimar, Dessau e Berlim

O modelo da Bauhaus era o das comunidades de artistas e artífices da Idade Média, onde os professores eram “os mestres artesãos”. O seu grande legado foi, contudo, a arte funcional onde o design era determinante. Foi que fez com que esta escola-movimento fosse capaz de mudar o quotidiano do século XX e chegasse ao século XXI como um triunfo da forma de tal forma imerso na nossa vida que o design for a living se tornou comum. Basta olharmos à nossa volta: dos moveis do Ikea aos computadores da Apple, passando pelos logótipos das marcas de luxo e pelas loiças Bordallo Pinheiro — tudo grita o poder e a atração pelas formas. E tudo isto começou na Bauhaus.

Os mestres da Bauhaus, em 1926 (da esquerda para a direita): Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl e Oskar Schlemmer

Bauhaus, uma casa (para sempre) em construção

A Bauhaus tornou-se, com os anos, num dos símbolos do Modernismo, encerrando uma ideia profundamente moderna: a ideia do projetualismo, ou seja, da projeção do homem livre no espaço do futuro. Esta ideia está inscrita, desde logo, no nome/conceito da escola — Bauhaus quer dizer “casa em construção” –, que a História se encarregou de transformar numa realidade. Ao longo dos seus 13 anos de existência, a Bauhaus teve três casas e depois desmultiplicou-se pelo mundo fora, chegando a cidades como Telaviv, Brasilia, Chicago ou Moscovo e Budapeste, no antigo Bloco de Leste.

Foi, contudo, em Weimar que começou. Em 1925, mudou-se para Dessau, onde ficou até 1932, sob a direção do arquiteto Hannes Meyer. Aqui, nesta cidade industrial, foi criada uma parceria com a Junkers e aprofundada a sua vertente funcional, permitindo uma democratização da arte num tempo de grandes constrangimentos económicos. Foi em Dessau que a escola teve o seu edifício mais simbólico (um projeto de Walter Gropius) e que passou a incluir o design de mobiliário, têxteis, candeeiros, loiça e tipografia. Esta integração do design em todas as vertentes de uma casa foi depois imitada por universidades de arquitetura de todo o mundo, nomeadamente pela Faculdade de Arquitetura do Porto, em 1949.

Com um forte economia de meios, de cores e de linhas, onde imperava a geometria simples, a Bauhaus propunha uma arte que realizasse e não que expressasse. Adotou o espectro de cores criado pelo poeta alemão Goethe, foi pioneira na construção de objetos de aço tubular (as famosas cadeiras, a Wassily, a Barcelona ou a Cesca/Cantilever, são bons exemplos), mas a grande revolução aconteceu ao juntar a técnica e a estética, dando origem ao design que passou a imperar nas casas, de linhas minimalistas e grandes janelas. As formas tradicionais de objetos tão básicos como um armário de cozinha ou um bule de chá, foram como que purificadas. Foi, como escreveu José Bragança de Miranda no ensaio O Design Como Problema:” O resultado é um espaço sem lacunas, sem quebras, sem aberturas. É a domesticidade contra o caos”.

Um conjunto de mobiliário criado por Marcel Breuer na Bauhaus

Apesar do sucesso das produções, a escola era considerada “um ninho de bolcheviques” e acabou por ter que deixar Dessau devido a cortes financeiros e pressões políticas de toda a ordem. Em 1932, sob a direção do arquiteto Mies Van Der Rohe, instalou-se em Berlim até ser fechada, um ano depois, por Hermann Goering sob a acusação de produzir “arte degenerada”. No entanto, a produção teórica e material da escola continuou a fazer caminho nos diferentes países para onde fugiram os seus mestres e os seus discípulos, nomeadamente na cidade Israelita de Tel Aviv, que se tornou num catálogo a céu aberto graças aos seus quatro mil edifícios de estilo Bauhaus. A sua influencia estendeu-se a áreas tão diferentes como a moda (em especial Yves Saint Laurent), aos computadores (Steve Jobs era um assumido admirador da Bauhaus) e à dança com os trabalhos de Martha Graham.

A Bauhaus em Portugal e a sua influência no trabalho de Siza Vieira

Em Portugal o “moderno foi duramente conquistado”, disse ao Observador o arquiteto Álvaro Siza Vieira. Um momento importante desta conquista foi a chegada de Carlos Ramos à direção da Faculdade de Arquitetura do Porto, em 1949, quando Siza Veira se tornou aluno da instituição. “Carlos Ramos era um bauhausiano e todos os professores que ele escolheu estavam empenhados na ideia da criação de uma arquitetura nova para o homem novo”, recordou. “Nesses anos, começaram a aparecer cá revistas e livros que falavam da revolução na arquitetura brasileira e nórdica e que contribuíram muito para criar um fascínio em torno da Bauhaus, porque nesses anos ela representava uma irresistível ideia de igualdade.”

Vieira assume que este movimento “foi determinante” no seu trabalho, como podemos confirmar pelos edifícios de traços minimalistas e grandes janelas que constrói. São dele os primeiros bairros sociais e cooperativas, que surgiram no pós-25 de Abril, como o bairro da Malagueira, em Évora, e o bairro da Bouça no Porto. Ambos têm linhas arquitetónicas típicas do modernismo dos anos 30 e evocam imediatamente a Bauhaus. Mas é na obra de Eduardo Souto de Moura, discípulo de Siza Vieira, que encontramos uma filiação mais clara na linguagem do arquiteto Mies Van Der Rohe, um dos gigantes da Bauhaus.

A Igreja de Saint-Jacques de la Lande, projetada por Álvaro Siza Vieira no norte de França (© João Morgado). O projeto foi nomeado para o importante prémio de arquitetura Mies van der Rohe em 2019

Nas artes plásticas, João Miguel Fernandes Jorge apontou ao Observador alguns artistas influenciados pelo pensamento bauhausiano, como Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro, António Bolota ou ainda a plasticidade da escultura de Rui Sanches e de José Pedro Croft.

A utopia e o totalitarismo da forma: um legado da Bauhaus

O traço da Bauhaus não se pode desligar do gesto político. A escola não se limitou a criar objetos novos, sendo também responsável por um mundo e cidade novos que pudessem contê-los. Para que isso pudesse acontecer, era preciso criar um homem novo. Um dos primeiros a intuir esta relação entre as utopias socialistas, arquitetura e totalitarismo foi o escritor russo Andrei Platonov, no romance Escavação (editado em Portugal pela Antígona), uma distopia sobre a construção de um edifício que será casa comum do povo, escrita logo no principio dos anos 30. Jan Tschichold, designer, criador da Nova Tipografia e próximo da Bauhaus, percebeu como o nazismo tentou impor o seu próprio design e como todo o traço é, antes de mais, um gesto político. Tschichold acabaria por se afastar e virar-se contra a escola pois, segundo nos deu conta, sob a ideia de liberdade deste movimento, havia uma vontade de poder tão absoluta como a do nazismo.

É sob o domínio do design que vivemos hoje, não apenas de objetos ou de casas, mas de vida. Como escreveu Bragança de Miranda, será possível concebermos um “design do design”, fazendo do mundo uma obra de arte total como sonhava Gropius. Este “design do design” teria que ser fluido o suficiente  para não embater nas formas que ele próprio criou e poder transformar infinitamente as formas em novas, porque aquilo que o design cria, rapidamente se torna obsoleto e se torna lixo. O design é uma máquina que faz girar a roda do consumo e foi por isso que ele próprio se transformou numa máquina de consumir recursos naturais. O arquiteto Álvaro Siza reconhece que “o design tem  sido responsável pela degradação da natureza e hoje o seu grande desafio é defender essa mesma natureza. E também a arquitetura sempre pensada para defender o homem das forças da natureza terá que começar a ser pensada de outra forma”.

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