É um original Netflix e tem sido uma companhia preciosa para descontrair e tirar a cabeça da vertigem do Covid-19. “Casa de Papel”? Nada disso, ficção é para meninos. “Tiger King”, o documentário em sete partes sobre o submundo dos jardins zoológicos de beira de estrada com centenas de tigres, volta a provar que a realidade é muito mais chanfrada do que as nossas mais desbragadas invenções. Quando o mundo parece maluco, vê um documentário que te prove que é mais maluco ainda. Estranhamente, talvez te sintas melhor.

A saga do protagonista Joe Exotic e dos seus sócios, amores e inimigos começa com um facto, no mínimo, perturbador: há mais tigres em cativeiro nos Estados Unidos do que no resto do mundo todo junto em estado selvagem. Há mais grandes felinos a servirem para tirar uma selfie do que a perseguir uma gazela. Só por si, um documentário sobre este negócio e sobre o abuso animal já seria perturbador.

[o trailer de “Tiger King”:]

Mas “Tiger King” é muito mais que isto: é homicídio, é traição, é sexo maluco, é a ascensão de um culto, é toxicodependência, é reality show, é pessoas a ficarem sem membros superiores e/ou inferiores e é um casamento poliamoroso gay. A palavra que mais tenho lido em opiniões de amigos e conhecidos para descrever o documentário e os seus intervenientes é “fritaria”. Se é divertido? Sim, é quase impossível não ser, mas não deixa de ser perturbador. O sucesso é tal que é neste momento a série mais bem cotada no agregador de reviews Rotten Tomatoes: 94 por cento do consenso dos críticos, 92 por cento junto do público.

Ora quem é, afinal, este Joe Exotic? Na verdade, apesar dessa informação estar arquivada na última estante do meu arquivo mental, eu já o conhecia, cortesia de John Oliver. O apresentador do noticiário satírico “Last Week Tonight” ficou fascinado por ele quando em 2016 se candidatou à presidência:

[para ver entre os minutos 1:40 e 2:30:]

É impossível não ficar: um homem sempre vestido em padrões tigresse, cheio de piercings, com um cabelo indescritível, uma arma numa mão e um microfone para cantar temas country autobiográficos na outra. Joseph Allen Maldonado de seu nome verdadeiro, descobrimos logo no início do documentário que está preso por tentativa de homicídio de uma ativista pelos direitos dos animais e dona de um santuário de tigres, Carole Baskin. Ambos foram inimigos viscerais durante anos, desde que Maldonado ainda não tinha o seu GW Zoo mas já comprava tigres e fazia criação para dispor de bebés adoráveis para fazer espectáculos em centros comerciais.

Mas a própria Carole Baskin também não é exatamente quem parece. Com milhares de fãs do seu santuário Big Cat Rescue que contribuem com generosos donativos para a causa, usa e abusa do trabalho de voluntários não-remunerados e não será também sempre correta no tratamento aos animais. Ah, e existe o pequeno detalhe de se calhar ter assassinado o seu riquíssimo primeiro marido.

A valsa de intervenientes bizarro não se fica por aqui. Podemos falar de John Finlay ou de Travis Maldonado, os maridos de Joe Exotic com um rácio de dentes inversamente proporcional ao de tatuagens de devoção ao marido. Ou de Bhagavan “Doc” Antle, fundador do The Institute for Greatly Endangered and Rare Species (T.I.G.E.R.), e basicamente líder de um culto sexual em torno de miúdas que se deixam seduzir pela proximidade com os felinos. Ou ainda de Rick Kirkham, ex jornalista da Fox que se torna produtor do pequeno canal televisivo de Joe Exotic (que basicamente filmava a sua vida toda, facilitando em muito o arquivo disponível para este documentário). E até de Jeff Lowe, que a partir de determinado momento se torna sócio de Maldonado e cuja fortuna não virá do modo mais lícito. Ninguém neste documentário é inteiramente bom da cabeça e ninguém tem uma bússola moral minimamente afinada. Apetece perguntar afinal quem aqui é boa pessoa, gritando, qual Manuel Serrão em meme de internet, “diga um!”.

[alguns dos momentos mais estranhos de “Tiger King”:]

O fenómeno “Tiger King” é tal que não tardou até que se decidisse adaptar um conteúdo tão sumarento a uma mini-série de ficção. Kate McKinnon (comediante do SNL, conhecida por fazer de Hillary Clinton) já estará acordada para fazer de Carole Baskin, mas há muitos atores a candidatarem-se a outros papeis, especialmente ao de Joe Exotic. Dax Shepard já se ofereceu via Twitter (“se não for eu, Hollywood está danificada”), mas Edward Norton logo respondeu que também estava interessado.

Há muitas celebridades entre os devotos do documentário: a atriz Julie Bowen (Claire de “Modern Family”) já tricotou um gorro de lã com o logótipo do programa e a rapper Cardi B já se ofereceu para tentar tirar Maldonado da prisão. A internet está a rebentar pelas costuras com memes, testes de Buzzfeed para sabermos que personagem somos e até moldes para fazer um adorável Joe Exotic em crochê.

Mas nem toda a gente é fã das sete horas disponíveis na Netflix. A maioria dos intervenientes que já veio a público não sente que tenha sido apresentado de modo justo. Mas a mais insatisfeita é mesmo Carole Baskin, que se diz enganada pelos realizadores da plataforma de streaming: “Eles não se ralam com a verdade. Mentiras desagradáveis são melhores para terem espectadores”. Em causa estão, sobretudo, as alegações de ter morto o anterior marido. Verdade ou tanga, o que está no documentário foi suficiente para que a investigação fosse reaberta, 21 anos depois de ter sido considerada inconclusiva.

Os produtores garantem que há material para uma segunda temporada, até porque a saga estará longe de ter terminado e muitas dúvidas ainda pairam no ar. A existir, esperamos que não nos apanhe de novo trancados em casa. Tal como aqueles tigres enjaulados em Oklahoma, também nós merecemos regressar ao nosso habitat natural.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa