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“Um País que é a Noite”: o que Sophia e Jorge de Sena escreveram e nunca disseram

Este artigo tem mais de 1 ano

Maria João Falcão e Rui Melo interpretam os dois poetas, separados por uma ditadura que forçou o exílio e correspondência secreta. “Um País que é a Noite”, para ver no Teatro da Trindade, em Lisboa.

“Acho que tudo o que o Jorge de Sena escreveu é rock’n’roll. A Sophia é a depuração e o Jorge de Sena é visceral. Os dois complementam-se”, diz o encenador
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▲“Acho que tudo o que o Jorge de Sena escreveu é rock’n’roll. A Sophia é a depuração e o Jorge de Sena é visceral. Os dois complementam-se”, diz o encenador

ALIPIO PADILNA

▲“Acho que tudo o que o Jorge de Sena escreveu é rock’n’roll. A Sophia é a depuração e o Jorge de Sena é visceral. Os dois complementam-se”, diz o encenador

ALIPIO PADILNA

“Um país que é a noite
tem medo.

Um país que é a noite
Vive no escuro.

É sombrio. Treme.

Um país que é a noite
espera ansiosamente
pelo dia seguinte. […]”

Ainda às escuras, é este texto [aqui apenas um excerto] que o público começa por ler, projetado num ecrã da Sala Estúdio do Teatro da Trindade INATEL, em Lisboa. Quando as luzes se acendem, entramos diretamente na sala aconchegante da casa de família de Sophia de Mello Breyner Andresen. De um lado, um gira discos; do outro, um móvel com o “vinho do Porto do avô”; ao fundo, estantes repletas de livros; no centro, uma mesa comprida com folhas de rascunho, tabaco e chávenas de chá.

A luz amarela e reduzida indica o teor clandestino do momento. Estamos no verão de 1959, Portugal vive em ditadura e o poeta Jorge de Sena (interpretado por Rui Melo) prepara-se para partir para o exílio no Brasil, magoado pela censura aos seus livros e pela acusação de ser um dos participantes do golpe da Sé [uma conspiração de março desse ano que pretendia derrubar o governo]. Este é o último encontro com a amiga e colega Sophia de Mello Breyner Andresen (Maria João Falcão), interrompido por dois agentes da PIDE (João Sá Nogueira e Martim Pedroso), que procuram o primeiro e interrogam a segunda.

▲ Martim Pedroso é o encenador mas também integra o elenco da peça, interpretado um dos agentes da PIDE em cena

ALIPIO PADILHA

O encontro fictício serve de ponto de partida para Um País que é a Noite, espetáculo para ver entre 6 de fevereiro e 16 de março. O texto de Tatiana Salem Levy e Flávia Lins e Silva contou com a colaboração do dramaturgo e encenador Martim Pedroso e inclui excertos da correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen durante os anos que se seguiram.

O resultado acontece depois de se terem alinhado diversos fatores. O primeiro foi a vontade de Martim Pedroso explorar o tema das ditaduras. “Queria colaborar com a Tatiana Salem Levy. Por um lado, conhecia o trabalho dela enquanto escritora. Por outro, ela saiu do Brasil um pouco por causa da ameaça do Bolsonaro e eu queria explorar um pouco isso, o facto de as pessoas saírem dos próprios países por questões políticas, por não concordarem”, explica ao Observador.

Por essa altura, a escritora já tinha escrito Um País que é a Noite, uma encomenda de Martim Sousa Tavares, neto de Sophia de Mello Breyner, dirigido ao público infanto-juvenil. “Era um texto mais pequeno e simples, sobre exílio e ditadura, que escreveu com a Flávia Lins e Silva. Li e achei interessante poder incluí-lo neste trabalho sobre ditaduras.”

A juntar-se a isso surgiu o apoio dado às companhias de teatro para que tivessem programação a assinalar os 50 anos da revolução. Martim Pedroso pegou então no texto inicial, desenvolveu-o e percebeu que se incluíssem as cartas trocadas pelos dois poetas, a peça ficaria muito mais rica. “A correspondência vem sustentar um bocadinho este encontro, que é fictício. A ideia de os PIDE interromperem o encontro é uma liberdade dramática para conseguirmos dar mais emoção e também dar uma cara ao medo e ao perigo.”

A tensão pretendida é perfeitamente conseguida na Sala Estúdio. Com cerca de 50 lugares, o público está a um palmo dos atores, que encaram a plateia e com ela partilham o turbilhão de emoções pelo qual estão a passar. “Gosto de olhar as pessoas na cara. E ainda mais num tema como este, que é muito urgente e atual. É urgente frisar a importância que estas duas figuras tiveram na nossa cultura. Mesmo depois de mortas, continuam vivas na palavra”, diz Rui Melo ao Observador.

“Sentimos que estamos todos no mesmo espaço e que o público não está a ver de fora. Está dentro e está presente. É convocado para refletir sobre este assunto, para ouvir e para reagir como quiser”, completa a co-protagonista, Maria João Falcão. Os dois estão quase sempre sozinhos em palco — tirando o momento da visita dos dois agentes da PIDE —, prolongando, também por isso, um clima restrito, íntimo e quase clandestino com o público.

▲ “Sentimos como se estivéssemos a bisbilhotar a intimidade dos outros”, conta Maria João Falcão, que interpreta Sophia

ALIPIO PADILNA

Jorge de Sena parte para o Brasil e, apesar de ambos não voltarem a estar juntos fisicamente, isso não é um problema no espetáculo. A interação prossegue por carta — ora ouvimos uma, ora a sua resposta —, numa dança criada pelo texto e pelos atores que parece sempre um diálogo. “Usamos umas 10 cartas. Tivemos de arranjá-las um pouco para que o texto fluísse, mas tudo aquilo tão íntimo que disseram está ali, não é uma liberdade criativa. Ao mesmo tempo, acaba por ser uma janela para a parte mais documental e histórica daquilo que eles estavam a viver”, diz Martim Pedroso.

50 anos após o fim da ditadura em Portugal, assiste-se ao crescimento de partidos extremistas, revogam-se leis que pareciam dados adquiridos e uma iminente guerra entre países poderosos é uma ameaça constante. Por isso, garantem elenco e encenador, é ainda mais urgente apresentar textos como os desta peça. “Nunca pensei viver esta situação”, confessa Martim Pedroso. “É muito fácil perdermos o que conquistamos em democracia. Olhamos para os EUA e todos os dias as notícias são assustadoras, todos os dias aquela potência mundial dá um passo atrás.”

“O que a História nos diz é que tudo isto é cíclico. Portanto, tudo o que pudermos fazer para relembrar e avisar sobre os perigos que corremos, é útil”, diz Rui Melo.

“Lembro-me sempre de uma das frases mais bonitas das nossas canções, uma letra de Zeca Afonso que diz ‘não me obriguem a vir para a rua gritar’. Era bom que bastassem peças como esta, palavras de aviso e resistência para que as coisas não acontecessem, mas elas acontecem. Ainda assim, acho que o bonito da arte é que ela volta sempre a tentar que as coisas não se repitam. É a resiliência”, explica Maria João Falcão.

Conhecendo melhor ou pior a obra de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner, os atores revelam que foi na correspondência, lida nos ensaios, que descobriram os elementos determinantes para construírem as respectivas personagens. “Sentimos como se estivéssemos a bisbilhotar a intimidade dos outros”, conta Maria João Falcão.

“Nada daquilo era suposto ser lido por ninguém além deles os dois e, por isso, permitem-se dizer um ao outro coisas que nunca diriam em público. Sinto que é como se estivéssemos a abrir uma caixinha da personalidade deles e podemos andar ali a mergulhar. No caso do Jorge de Sena, ele não tem pudor de mostrar à Sophia uma tremenda revolta com a forma como o país o tratou sempre. Isso é de uma grande intimidade”, acrescenta Rui Melo.

▲ "É urgente frisar a importância que estas duas figuras tiveram na nossa cultura. Mesmo depois de mortas, continuam vivas na palavra”, diz Rui Melo, que em palco é Jorge de Sena

ALIPIO PADILHA

Durante pouco mais de uma hora, as vidas dos dois poetas avançam ao longo dos anos através dos textos que enviaram um ao outro de diversas partes do mundo. Os marcos familiares, as conquistas profissionais, o reconhecimento (ou a falta dele), os desencontros e as profundas saudades — está tudo ali, encaixado numa janela para o passado que podia, em muitas ocasiões, ser a descrição do presente.

“Temos de ir à procura destas coisas que já foram ditas pelas pessoas que sentiram o obscurantismo na pele. E o medo de voltar ali é o que me faz fazer este espetáculo. Nada é adquirido”, diz Martim Pedroso.

Em alguns momentos de Um País que é a Noite há textos ou imagens projetados num ecrã. Acompanham a evolução de Portugal, as conquistas e os retrocessos e pretendem demonstrar que os medos e as lutas partilhados por Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena são muito atuais.

Há ainda outro elemento muito importante na peça: uma guitarra elétrica, que ouvimos em ocasiões minuciosamente escolhidas, tocada por Jorge de Sena, e que funciona também como um grito de revolta. “Acho que tudo o que o Jorge de Sena escreveu é rock’n’roll. A Sophia é a depuração e o Jorge de Sena é visceral. Os dois complementam-se”, explica o encenador. “O ruído do Jorge e da Sophia mantém-se. É um ‘não nos calarão. Nunca.’”, refere Rui Melo.

“Um País que é a Noite” é uma colaboração entre as escritoras Tatiana Salem Levy, Flávia Lins e Silva e o dramaturgo e encenador Martim Pedroso, com excertos de cartas de Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena. Está em cena de quarta-feira a domingo, às 19h. Os bilhetes custam entre 10€ e 14€ e podem ser comprados online ou no local.

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