“Vermiglio”

A Vermiglio que dá título a este filme é uma remota aldeia montanhosa de Itália à qual chegam, em 1944, dois desertores do exército, e que lá recebem refúgio. Um deles, siciliano, envolve-se com a filha mais velha do respeitado professor primário local, Cesare Graziadei, que tem uma família muito numerosa, engravida-a e tem que casar com ela. Passada entre 1944 e o final da II Guerra Mundial, esta fita escrita e realizada por Maura Delpero venceu o Grande Prémio do Júri do Festival  de Veneza e foi proposta pela Itália à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional. É reminiscente do cinema de Ermanno Olmi e dos irmãos Taviani (mas sem a carga político-social destes), na sua descrição pausada, pormenorizada e emocionalmente recatada de um microcosmos local e, dentro deste, da vida de uma família em que cada membro representa um subenredo da história humana maior que é contada. Vermiglio pede-nos alguma paciência e atenção, mas compensa-nos plenamente.

“Marcello Mio”

Será difícil vermos este ano um filme tão auto-indulgente, narcisista, ridículo e inútil do que Marcello Mio, de Christophe Honoré. Chiara Mastroianni interpreta uma versão de si mesma que, de repente, começa a vestir-se e a comportar-se como o pai, Marcello Mastroianni, pedindo que a tratem pelo nome dele, para espanto ou exasperação dos que a rodeiam, a começar pela mãe, Catherine Deneuve. Seria preciso muito boa vontade para vermos em Marcello Mio um filme sobre a identidade, ou sobre o peso que um nome lendário do cinema pode ter sobre a sua descendência, sobretudo quando esta também se dedica à representação e tem igualmente uma mãe atriz célebre. Mas não passa de uma grande, egocêntrica e vácua blague levada a cabo por uma clique de artistas que se conhecem todos e convivem uns com os outros. E que, ao contrário do espectador comum, lhe devem ter achado imensa graça. Teria ficado melhor como um home movie entre amigos.

“O Regresso de Ulisses”

O produtor e realizador Uberto Pasolini filma, em O Regresso de Ulisses, a conclusão da Odisseia, de Homero, que relata o retorno de Ulisses à sua ilha de Ítaca após a Guerra de Tróia e toda uma série de aventuras, e o sangrento confronto com os pretendentes da mulher, a rainha Penélope, que também ameaçam a vida do filho de ambos, o príncipe Telémaco. Mas ajudado pelos seus co-argumentistas, o dramaturgo Edward Bond (falecido recentemente) e John Colee, Pasolini retira à história a sua carga mitológica, o seu miolo fantástico e aventuroso, e o sopro épico original, transformando ainda Ulisses numa figura caracterizada pela dúvida, pelo derrotismo e pela inação. Ralph Fiennes interpreta Ulisses, Juliette Binoche personifica Penélope e Charlie Plummer faz de Telémaco. O Regresso de Ulisses foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.