No palco da Eurovisão, há muito que o espetáculo transcende a música — os trajes assumem-se como uma linguagem silenciosa, dotada de poder narrativo e simbólico. É o que acontece com os Napa, a banda que vai representar Portugal na 69.ª edição do concurso internacional, e que usa a roupa como extensão da sua identidade insular. Os madeirenses atuam este sábado em Basileia, na Suíça, vestidos com as criações de Constança Entrudo, designer da Madeira que se inspirou na ilha para cada uma das peças envergadas pelos autores de Deslocado, canção que já virou hino sobre o sentimento de estar longe de casa.
Jovem destacada da Moda nacional, Entrudo criou figurinos que incorporam elementos do Bordado da Madeira e fazem referência visual à obra de Lourdes Castro (1930-2022), artista plástica cujo corpo de trabalho também sempre refletiu a paisagem natural da ilha que a rodeou desde pequena. Ora os trajes concebidos especialmente para a atuação da banda outrora conhecida como Men on the Couch refletem uma fusão entre tradição artesanal e linguagem contemporânea, revelando a identidade cultural de um território atlântico com voz própria, como explica a designer ao Observador.
Os Napa na primeira seminal do concurso, esta terça-feira
“A conversa começou há cerca de dois anos, quando o Guilherme veio ao nosso estúdio contar-me que o nome da banda ia mudar. Já desde essa altura falámos de algumas referências que acabaram por ser retomadas agora no projeto da Eurovisão”, conta Constança Entrudo.
A ideia, desenvolvida em conjunto com Guilherme Gomes, João Rodrigues, Tiago Rodrigues e Francisco Sousa (os elementos da banda criada em 2013), era “pensar em looks que mantivessem a identidade dos Napa, onde eles se sentissem sempre confortáveis e confiantes, independentemente do contexto da Eurovisão”, começa por dizer. Mas também era importante “criar figurinos que traduzissem o sentimento de deslocado, uma sensação de desenraizamento”, continua, aludindo ao título da canção que venceu o Festival da Canção.
▲ As peças têm silhuetas de flores que se encontram na ilha. Muitas delas estão representadas apenas através da silhueta, aludindo à obra da artista Lourdes Castro, artista que há muito inspira o trabalho de Constança Entrudo
Daí surgiram colarinhos desalinhados, sobreposições inesperadas e uma série de outros símbolos que remetem para a ilha. Como os estampados pintados no atelier da designer em Lisboa de flores características da Madeira, inspiradas nas pinturas de Lourdes Castro — uma influência recorrente nas criações de Entrudo.
Em cada um dos coordenados, a mesma flor aparece “deslocada”: há sempre um negativo e um positivo. Há ainda cortes assimétricos e transparências que criam um jogo constante de presença e ausência, explorando silhuetas deslocadas, como se tivessem sido retiradas do seu contexto original.
A ideia de “um sol diferente” — parte da letra da música — surge também numa das peças: uma malha. “É um sol deslocado, um sol azul, frio. À volta desse sol, fica apenas o seu contorno, deslocado em laranja quente, representando o sol da Madeira, que está sempre presente onde quer que vamos”, explica a criadora.
▲ A ideia de “um sol diferente” — parte da letra da canção "Deslocado" — surge numa das peças: uma malha com "um sol deslocado, um sol azul, frio", descreve a designer
De fora não podia ficar aquele que é um dos ex-líbris da tradição madeirense: o bordado da Madeira. “Para nós madeirenses o bordado da Madeira é uma técnica muito presente, que traz um sentimento muito familiar e uma certa nostalgia. Trabalhámos com a Bordal, empresa de bordado Madeira, e com as suas talentosas bordadeiras, numa ótica de trazer a ilha para o projeto e de desafiar o bordado até ao seu limite”, afirma Constança Entrudo. “A ideia era ter flores estampadas por nós no nosso atelier em Lisboa, e bordar apenas as suas linhas na Madeira, para brincar com esta ideia de ausência e presença”.
Se é habitual ver o bordado Madeira em peças leves, de linho, com silhuetas fluidas, a criadora decidiu experimentar fazê-lo em materiais como a ganga e trabalhar essa tradição de uma forma nova. “No fundo, é o pressuposto do nosso trabalho, levar a experimentação têxtil e o artesanato ao limite, e contemporanizá-lo sempre”, nota.
Os bordados criados em parceria com a Bordal, empresa fundada em 1962 e um dos principais fabricantes e exportadores do reconhecido bordado, são particularmente evidentes no coordenado de Guilherme, vocalista. “Os fios pendurados ilustram uma flor arrancada, deslocada, e os fios representam a raiz”, explica a designer.
▲ Todas as peças foram criadas a partir do atelier da designer, em Lisboa, excepto os detalhes com bordado da Madeira, que foram executados por bordadeiras no Funchal (à esquerda)
De resto, o tema insular não é uma novidade nas criações de Constança Entrudo, uma das vozes mais estabelecidas na nova geração de designers portugueses e que apresenta de forma regular, duas vezes por ano, na ModaLisboa. Aliás, o tema foi central nas peças da coleção Primavera-Verão 2025, que explora o fundo do mar no período Cambriano.
A criadora, formada pela Central Saint Martins e com um currículo que atravessa as marcas Balmain, Peter Pilotto e Marques’Almeida, antes de fundar o seu estúdio de pesquisa e design, em Lisboa, não se descose ao Observador sobre a possibilidade de comercializar as peças que vão subir este sábado ao palco da Eurovisão. Por agora, resta saber se, além de conquistar as atenções, também conquistarão votos.