“Marés Vivas”
Condicionado nos movimentos pelas restrições da pandemia de COVID-19 na China, Jia Zhang-ke fez de Marés Vivas um filme “reciclado”, formado por imagens de fitas que rodou nos últimos 23 anos e por material de arquivo, com vários tipos de câmaras, películas e em vídeo, mais imagens feitas agora. O fio condutor é a relação entre uma personagem feminina (interpretada pela sua mulher e habitual atriz, Zhao Tao), que nunca fala, e outra masculina (Li Zhubin), que rompem a sua relação no início de Marés Vivas, há 20 anos, e só se reencontram no presente, numa China que entretanto mudou vertiginosamente, entre colossais projetos de engenharia e urbanização que alteraram a paisagem e deslocaram milhões de pessoas, a “normalização” da corrupção, o advento de uma sólida classe média, a pandemia e o rapidíssimo progresso tecnológico (ver a sequência com o robô). É um filme não-linear, melancólico e com uma costela experimental, sobre o fluir do tempo e o efeito das mudanças nos lugares, nas pessoas e nos modos e hábitos de vida, onde a música tem um papel importante. Quem tem acompanhado a obra de Zhang-ke “entrará” nele com mais facilidade dos que a desconhecem ou viram apenas dois ou três filmes.
“Tardes de Solidão”
Touradas, sim ou não? Neste documentário, vencedor do Festival de San Sebastián, Albert Serra abstém-se de dar uma opinião ou de escolher um lado, preferindo acompanhar, sem comentários, o toureiro peruano Andrés Roca Rey dentro e fora do redondel: a conversar com os membros da sua equipa antes e depois das touradas, e a ser incentivado e aclamado pelos aficionados, a vestir o traje de luces ou a tirá-lo após a corrida, coberto de sangue por ter sido colhido pelo touro, a enfrentar o animal na arena com a capa, as bandarilhas e a matá-lo com a espada no final. Serra deixa ao espectador a conclusão. Estamos perante um espectáculo e de uma forma de arte com significado ancestral e pergaminhos históricos, culturais e estéticos, ou de uma pura e anacrónica barbaridade em que se torturam animais para o deleite sanguinolento das multidões? É muito duvidoso que Tardes de Solidão venha convencer defensores e detratores da tourada a mudarem de campo, e pelo tema ser de muita atualidade e extremar paixões, talvez se tivesse justificado que Serra tivesse dado ouvidos a ambos os lados, em vez de haver optado por uma neutralidade descritiva que acaba por se tornar repetitiva, e que no final, nunca o é totalmente.
“O Esquema Fenício”
Passado nos anos 50 e indo “picar” a vários géneros, caso do filme de espionagem internacional, O Esquema Fenício, de Wes Anderson, tem Benicio Del Toro no papel de Zsa-zsa Korda, um implacável magnata e homem de negócios de extração levantina, apaixonado por arte clássica, e cuja vida é marcada por factos insólitos e acontecimentos fora do comum. Além de já ter sobrevivido a seis acidentes de aviação, todos eles causados por atentados, já que é universalmente execrado e vigiado de perto por todas as grandes potências, Zsa-zsa tem 10 filhos (dos quais vive separados, porque não tem paciência para crianças). Mas Zsa-zsa acaba de ir tirar a sua filha favorita, Leisl (Mia Threapleton, filha de Kate Winslet) ao convento onde ela é noviça e ia professar, e a qual não via desde que para lá tinha entrado após a morte da mãe, para tentar reconciliar-se com ela, fazê-la sua única herdeira e envolvê-la nas suas atividades. Mesmo apesar da forte relutância mostrada pela jovem, que é muito devota e moral. O Esquema Fenício foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.