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“Talvez… Monsanto”: o Portugal sagrado e profano de Ruy Belo e Ricardo Pais

Este artigo tem mais de 1 ano

No ano em que cumpre 80 anos, o encenador revisita as hierofanias de um país misterioso, numa comoção onde ressoam os séculos, mas não o nacionalismo.

A ecletíssima Luísa Cruz é a figura central de Monsanto, desdobrando-se em voz poética, adufeira, fadista, cantadeira, mulher sacrificial e mensageira dos deuses, sacerdotisa, fantasma
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▲A ecletíssima Luísa Cruz é a figura central de Monsanto, desdobrando-se em voz poética, adufeira, fadista, cantadeira, mulher sacrificial e mensageira dos deuses, sacerdotisa, fantasma

▲A ecletíssima Luísa Cruz é a figura central de Monsanto, desdobrando-se em voz poética, adufeira, fadista, cantadeira, mulher sacrificial e mensageira dos deuses, sacerdotisa, fantasma

Quem chega a Monsanto, aldeia granítica da Beira Baixa, fruto de misteriosos humores tectónicos ali no meio da planície, conhece o assombro provocado pela visão daquela nave de pedra. O cérebro estremece com imagens dos Atlas carregando aquela forma em eras remotas: animais fantásticos, deuses intempestivos, lendas, medos. Memórias que sobrevivem em formas espantosas, como as vozes das mulheres que cantam litanias, orações e salmos, adufes orgiásticos, como que chamando a guerra ou as festas dionisíacas; bosques estivais onde correm faunos e bacantes, ou meninas com os seus segredos de “mato fechado”, como se ali se guardasse a infância mítica da humanidade antes da queda.

É aqui, em Monsanto, que regressa Ricardo Pais, para uma peça de teatro vivo, erguida sobre a poesia de Ruy Belo, o fado, o cancioneiro popular recolhido por Lopes Graça e Giacometti, cantado por mulheres sem idade. Talvez… Monsanto, estreada em 2020 no Teatro Nacional de São João, aterra esta quinta-feira no CCB, em Lisboa, onde ficará até domingo.

Feito de pedaços, fragmentos, texturas, religados e costurados nas palavras de Ruy Belo — não ao acaso de uma contemplação superficial, mas burilados cuidadosamente por Ricardo Pais e pelo diretor musical Miguel Amaral —, este espetáculo pode ser apressadamente interpretado como um artefacto de nostalgia nacionalista, agitando a bandeira da “aldeia mais portuguesa de Portugal”, do fado e da, aparente, requisição de tradições populares. Neste momento da nossa história política, muitos podem incorrer no erro de (querer) ver aqui o mesmo país que se agita nas ruas a evocar a sua herança celta e cristã. Porém, quem aceitar o desafio do encenador — um dos últimos sobreviventes da refundação teatral do pós-25 de Abril — verá que o que aqui se propõe é justamente a liberdade de criar para lá das vozes que “por todo o lado nos instilam o medo” e desejam que “o teatro seja puro, obedeça às modas… ora eu trabalhei duramente muitos anos para levantar o teatro que eu imaginava”, declara o encenador, que em setembro fará 80 anos e já dirigiu os dois teatros nacionais mais importantes: o Dona Maria, em Lisboa, e o São João, no Porto. .

“O território da aldeia, a vertigem do seu declive, as suas brutais e pétreas formações, muralha e igreja tiveram um impacto em nós semelhante ao que se gerou ouvindo rezas, litanias e narrações cantadas (algumas de muito longa duração). Ocorreu-nos que Luís Porto deveria ser chamado de imediato a construir uma paisagem videográfica não realista que, projetada no espetáculo, ajudasse a criar uma espiral melancólica e misteriosa de coisas, músicas, rezas, lendas e ritmos que, sendo ancestrais, corram paralelos até, por exemplo, à simplicidade de um fado menor de interpretação tradicional”, explica o encenador.

Nesta obra, onde a figura feminina é central, Ricardo Pais conta que também quis prestar homenagem a Regina Pais, sua mulher e parceira de criação, que morreu em 2020. “Fiz esta peça a lidar com o luto, porque a Regina gostava muito das vozes das Beiras e já tínhamos o projeto de voltar a fazer alguma coisa com elas.” Agora, o encenador afirma que “não tem planos para voltar a fazer teatro”, que “está cansado” e “farto de ser maltratado e mal pago”.

Talvez o palco do CCB pareça demasiado grande para uma peça tão intimista, onde as imagens criadas em cena e a comoção que elas induzem em quem as olha — e é por elas olhado — têm que suportar muito espaço vazio na sala do grande auditório. Mas Talvez… Monsanto, mais do que uma peça de teatro, performance ou obra musical, é uma sobrevivência. E há nela a mesma fragilidade de uma memória que, mesmo guardada, é sempre expressão de uma perda, ou de um fragmento que sobrevive ao barco naufragado. Neste sentido, esta obra encarna o teatro a fazer o que lhe compete: religar tempos e espaços, linguagens, imaginários, o efémero e o eterno, o banal e o sagrado — ou seja, é o teatro a produzir Cultura, e não apenas novidade, mercadoria ou inconsequências disfarçadas de erudição.

Aqui, a poesia de Ruy Belo apresenta-se como uma magnífica escolha, pois, apesar de ser um dos pontos altos da nossa literatura do século XX, ela fica muitas vezes refém da matriz cristã do poeta. Ora aqui, sem negar essa matriz, e ao juntá-la à linguagem religiosa das litanias, lengalengas e orações das mulheres da Beira Baixa — às suas vozes agudas, canoras, quase infantis —, ao adufe cruzado com a guitarra portuguesa e o fado, exemplarmente cantado por Miguel Xavier, às imagens criadas por Luís Porto e às interpretações de Luísa Cruz e Simão do Vale Africano, das adufeiras de Monsanto, Ricardo Pais mostra a sacralidade ausente do “agora que tudo se perdeu”, a tensão entre desejos corpóreos e a eternidade de Deus, que só resiste na infância “como lugar onde se esteve”, nos verões antigos, no amor, na natureza mutante mas perene. Se a poesia de Ruy Belo é feita de hierofanias, este espetáculo é a sua materialização.

“Invento-te e o céu azula-se sobre esta / triste condição de ter de receber / dos choupos onde cantam / os impossíveis pássaros / a nova primavera”

Do poema “Povoamento”, este é um dos vários fragmentos da lírica de Belo — um poeta exilado no tempo profano, que se confunde com o exílio deste nosso país possível, marcado pelo esvaziamento da linguagem, a repetição maquínica da palavra, a desumanização.

Ricardo Pais explicou ao Observador que a sua relação com Monsanto e as misteriosas vozes beirãs começou ainda nos anos 80 e a elas já regressou várias vezes. Ruy Belo e o fado também são recorrências nas suas obras. “Não o fado marialva ou choramingas”, diz. “Por isso convidei o Miguel Xavier, que tem uma forma de cantar o fado expurgada de tiques. Não me interessa o fado como expressão de um nacionalismo, mas como manifestação de uma experiência humana que dialoga com outras vozes, outros universos. Para mim, não há coisas interditas, nem tenho medo da brejeirice de certas iconografias católicas, populares, como o fado sobre a mãe, a Senhora do Almortão ou a Rosa Tirana.” A ecletíssima Luísa Cruz é a figura central de Monsanto, desdobrando-se em voz poética, adufeira, fadista, cantadeira, mulher sacrificial e mensageira dos deuses, sacerdotisa, fantasma.

A primeira imagem que sobrevoa o palco é uma forma que gira sobre si própria, sem se deixar apreender em nenhum quadro ou significado. Depois, vemos um arco e uma croça (capote feito de palha utilizado pelos pastores), também ela circular. Este prelúdio anuncia aquilo de que se fala aqui: a circularidade da vida, das estações, do cosmos, do movimento entre o sagrado e o profano, que se repetirá na forma circular das lengalengas. O arco sairá da imagem e virá para o palco, e é nele que se fará um solo de adufe — um dos momentos mais fulgurantes da peça, que não é linear, não conta uma história securizante, mas antes convoca imagens, fantasmagorias, pesadelos, faz retornar formas de pathos perdidas nas sociedades hiper-tecnológicas, digitais. Aqui, impõem-se a dureza das pedras graníticas, o eufórico azul crepuscular, a voz humana. As feridas não são da história, são dos homens concretos, que se sabem mortais e, ainda assim, procuram, através da ética humana, o divino.

Se muito do teatro atual cai na estetização inconsequente — e é também ele o sintoma de um país em crise —, Ricardo Pais parece querer desafiar o público, não lhe oferecendo (mais) um objeto a contemplar, nem se oferecendo como um santo ou uma catedral, mas como um poeta em busca de um sentido transcendente dentro da banalidade.

No dia 21 de junho, sábado, haverá ainda uma homenagem intitulada “A Ricardo Pais”, onde estarão presentes algumas das figuras que marcaram o percurso do encenador: António Lagarto, João Reis, Manuel Maria Carrilho, Nuno Carinhas, Pedro Sobrado, numa conversa moderada por João Carneiro. Será das 16h00 às 18h30, na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen.  

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