O diretor artístico do Festival de Veneza, Alberto Barbera, acaba de anunciar ao mundo o impressionante programa que irá compôr o certame, que este ano decorre a partir de 27 de Agosto. Foram anunciados 21 obras a concurso pelo Leão de Ouro. Neste lote, estão alguns dos filmes mais aguardados do ano.
A Mostra já anunciara La Grazia para as honras de abertura: o novo filme de Paolo Sorrentino é o primeiro dos cinco filmes italianos a concurso, participação elevada da cinematografia transalpina no festival da casa. Barbera pouco acrescentou ao quase nada que se sabe de La Grazia, “é absolutamente importante não arruinar a surpresa.” Interpretam Toni Servillo e Anna Ferzetti. A sinopse fica-se por uma breve “história de amor passada em Itália.”
Antes do anúncio desta manhã, também Jim Jarmusch se tinha encarregado de anunciar que Father Mother Sister Brother teria o Lido como destino, entrada inédita na competição do norte-americano que estreou praticamente toda a sua obra em Cannes. Acontece que, desta vez, Cannes hesitou na selecção. E demorou mais do que devia. A um ponto tal que Jim, indignado e cansado da espera, foi bater a outra porta. Há 22 anos que o realizador não mostrava um filme em Veneza, desde o saudoso Coffee and Cigarettes, com o fabuloso Tom Waits a partilhar mesa, entre outros, com Bill Murray ou Roberto Benigni.
Curiosidade: Tom Waits está de regresso ao trabalho do seu compincha e faz parte do elenco de Father Mother Sister Brother, desta vez ladeado por Adam Driver, Charlotte Rampling, Cate Blanchett e a inesquecível Françoise Lebrun. É um filme em tríptico sobre relações entre pais e filhos, rodado no Nordeste americano (Father), em Dublin (Mother) e em Paris (Sister Brother).
▲ "The Voice Of Hind Rajab", da tunisina Kaouther Ben Hania
O que a seguir anunciou Veneza foi uma catadupa de autores do cinema contemporâneo que, no papel, não fica atrás do programa de Cannes. Comece-se por A House of Dynamite, de Kathryn Bigelow, com Idris Elba e Rebecca Ferguson, já que todos os filmes da norte-americana têm o condão de se tornar um acontecimento. Há oito anos, desde Detroit, que a cineasta não assinava uma longa-metragem. Barbera não quis dizer aquilo que a imprensa já revelou nos Estados Unidos: que este filme se passa na Casa Branca depois da América ser bombardeada. Interpretam Idris Elba, Rebecca Ferguson, Jared Harris, Greta Lee, Gabriel Basso, Anthony Ramos, Tracy Letts e Moses Ingram.
Noah Baumbach também traz filme para deliciar os paparazzi, já que no elenco de Jay Kelly estão George Clooney, Adam Sandler, Laura Dern, Billy Crudup e, entre outros não menos célebres, a companheira do cineasta, Greta Gerwig. É uma comédia, em grande parte rodada em Itália. Clooney faz um ator famoso em crise de identidade, papel a que Barbera não poupou elogios.
O francês Olivier Assayas, por seu lado, realizou The Wizard of the Kremlin com ajuda ao guião do escritor (e cineasta) Emmanuel Carrère. O filme é centrado na ascensão ao poder de Vladimir Putin. É uma adaptação do romance homónimo de Giuliano da Empoli (ed. Portuguesa da Gradiva), com Paul Dano, Alicia Vikander e Jude Law, a quem lhe tocou a fava: o papel de Putin é dele.
Também em sintonia com o presente, a tunisina Kaouther Ben Hania (que realizou Quatro Filhas) aborda em The Voice of Hind Rajab a história terrível da criança do título, presa num automóvel sob fogo cruzado e assassinada em Gaza, em Janeiro de 2024. A obra recorre ao áudio autêntico das conversas telefónicas da vítima em busca de socorro. Ao mesmo tempo que o anúncio era feito, a imprensa acreditada recebia nas caixas de correio electrónico uma primeira fotografia do filme e uma declaração de intenções da cineasta. Espera-se filme polémico, incendiário – a reacção do director do festival não indiciou outra coisa.
▲ Guillermo del Toro e o seu "Frankenstein", a concurso em Veneza
A estes se juntam The Sun Rises On Us All, do chinês Cai Shangjun (cineasta já premiado em Veneza em 2011), Elisa, do italiano Leonardo di Costanzo, À pied d’oeuvre, sétima longa-metragem da francesa Valérie Donzelli, e Silent Friend, da húngara Ildikó Enyedi, outro filme em três episódios, rodado em tantos outros formatos, com Tony Leung em cabeça de cartaz.
Frankenstein é o regresso de Guillermo del Toro ao festival que coroou a ouro A Forma da Água, em 2017. Há mais de dez anos que o mexicano andava a fazer a corte a uma adaptação do romance de Mary Shelley, dão a cara Oscar Isaac, Jacob Elordi e Christoph Waltz. Tal como o filme de Bigelow, está associado à Netflix e espera-se que seja exibido pela plataforma de streaming depois da exploração nas salas de cinema.
Mas Veneza será também o festival de Mona Fastvold, atriz, argumentista, realizadora e companheira de Brady Corbet (O Brutalista). A terceira longa-metragem da norueguesa chama-se The Testament of Ann Lee, foi rodada em 70mm (tal como a obra de Corbet) e é uma “espécie de music hall” sobre Ann Lee e a seita religiosa Shaker Movement, de origem britânica, porém desenvolvida nos Estados Unidos do século XVIII.
▲ “The Smashing Machine”, de Benny Safdie
Duse, regresso de Pietro Marcello a Veneza (com Valeria Bruni Tedeschi na pele da atriz focada no título, Eleonora Duse), Un Film Fatto per Bene, do incontornável Franco Maresco (que homenageia aqui um dos nomes maiores do teatro e do cinema de vanguarda italianos, Carmelo Bene) e o documentário Sotto le Nuvole, de Gianfranco Rosi (“mosaico filosófico, afectuoso e irónico sobre Nápoles”, assim o apresentou Barbera), fecham a “squadra azzurra” no Lido, onde não faltará um dos autores que o festival mais tem levado ao colo: o grego Yorgos Lanthimos, que já ali estreou diversos filmes. O mais recente, Bugonia (remake da comédia coreana Save the Green Planet!, de Jang Joon-hwan), foi de novo pago por americanos e rodado em terras inglesas, com Emma Stone e Jesse Plemons nos papéis centrais.
Orphan, novo filme de László Nemes (autor de O Filho de Saul), é outro título que se esperava em Cannes e que desagua agora no Adriático. Incide em memórias do pai do cineasta e na Revolução Húngara de 1956 que se opôs ao regime comunista e acabaria travada pelos tanques soviéticos. L’étranger, rodado a preto e branco por François Ozon, é a já muito anunciada adaptação do romance homónimo de Albert Camus, também levado ao cinema por Luchino Visconti. A competição encerra com o drama coreano No Other Choice, de Park Chan-wook, Girl, de Shu Qi (a actriz de Taiwan e musa de Hou Hsiao-Hsien estreia-se a realizar uma longa-metragem) e, por fim, The Smashing Machine, de Benny Safdie, ambientado no mundo do wrestling americano dos anos 90, com Dwayne “The Rock” Johnson e Emily Blunt.
Veneza 2025 está, contudo, muito longe de esgotar-se no concurso principal: se o name dropping do cinema de autor valesse por si só, dir-se-ía que a próxima edição do festival é histórica. Werner Herzog, que receberá um Leão de Ouro à carreira, apresentará um novo filme fora de concurso, Ghost Elephants. Em torno da atriz Kim Novak, que receberá igualmente um Leão de Ouro à carreira, será exibido Kim Novak’s Vertigo, documentário de Alexandre Philippe.
▲ A cópia restaurada de "Aniki Bóbó" (1942), de Manoel de Oliveira, integra a secção Venice Classics
A estes junte-se — sem se querer ser exaustivo — novos trabalhos de Lucrecia Martel (o documentário Nuestra Tierra, sobre a cultura indígena na Argentina a partir do assassinato, em 2009, de Javier Chocobar), Aleksandr Sokurov (Director’s Diary, filme em jeito de bloco de notas pessoais do realizador russo), Tsai Ming-Liang (Back Home), Gus Van Sant (Dead Man’s Wire), Julian Schnabel (In The Hand of Dante) ou Sofia Coppola (Marc by Sofia), passando pelo novo rebento de um cineasta do nível do norte-americano Ross McElwee (Remake), que fez da sua vida uma quimera cinematográfica. Julia Roberts estará pela primeira vez no festival (revelou Barbera, espantado pelo facto) já que lidera o elenco de After the Hunt, de Luca Guadagnino – outro filme afastado do concurso.
Da Argentina, que tem a produção praticamente parada pelas políticas do actual Governo do país, salta à vista o novo trabalho de Alejo Moguillansky, associado ao colectivo El Pampero Cine de Mariano Llinás e Laura Citarella: chama-se Pin de Fartie, é uma leitura irónica de Fin de partie, peça absurdista, tragi-cómica, de Samuel Beckett. Vai passar na secção Orizzonti, tal como The Souffleur, do também argentino Gaston Solnicki, com Willem Dafoe, e fotografado pelo português Rui Poças. E nem falta a Veneza a figura de um dos seus cineastas tutelares, o italiano Marco Bellocchio, desta vez a apresentar os dois primeiros episódios de uma nova série televisiva ainda em curso de produção, Portobello.
Já o cinema português, que outrora teve no Lido uma extraordinária janela de visibilidade, volta a quase não ter representação este ano, salvo a exibição, na secção Venice Classics, da cópia recentemente restaurada de Aniki Bóbó (1942), primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia