A primeira palavra que se ouviu na 82ª. Edição do Festival de Veneza foi “Aurora”. Assim começa La Grazia. Para o novo filme de Paolo Sorrentino ela é a origem da felicidade perdida e um poço de melancolia sem fim, nome da mulher de um veterano e sisudo Presidente da República Italiana, napolitano, jurista de renome, há 8 anos viúvo, e a quem todos, nos bastidores da política, tratam por “cimento armado”, alcunha que tanto absorve elogios como defeitos. Cabe o papel de Mariano de Santis, assim se chama a personagem, a Toni Servillo, actor recorrente na obra de Sorrentino, em performance que lhe cortou voluntariamente qualquer possibilidade de um sorriso. Mais: é na sua própria mortalidade que Mariano começa a ponderar quando, logo no início, ele é visitado por um fictício Presidente português a cair da tripeça (calhou-nos a nós a fava; a cena, felizmente, é breve…), com ventania, chuva de granizo e ralentis intermináveis à mistura, num daqueles momentos de caricatura que Sorrentino gosta de assinar.

Aurora é, portanto, nome de fantasma, de esposa morta que, contudo, continua a assombrar por inteiro a vida do Presidente consternado. Mariano continua a recordar uma suposta traição dela, quarenta anos volvidos, acalentando ainda, com estúpida teimosia, saber quem foi o amante (certamente alguém do seu círculo de amigos). Consola-o desse e de outros males a filha (Anna Ferzetti), também jurista, sua assistente no Governo (liberdades a que uma ficção se permite) e também nutricionista pessoal, aquela que o chama à razão nos corredores do Quirinal, o palácio que é residência oficial do chefe de Estado italiano. O único momento de escape de Mariano dá-se quando ele vai ao telhado fumar um cigarro às escondidas da filha, apesar de já só ter um pulmão. O mandato de Mariano termina em seis meses e ela quer que o pai aprove a lei da eutanásia, assim como dois casos de indulto relacionados com gente condenada e ligada ao assunto – mas o político conservador resiste, sem se aperceber que a sua existência também balança entre a vida e a morte.

O actor principal e o realizador numa foto de rodagem de “La Grazia”

Sorrentino filmou desta vez um homem que fez “tudo certo” ao longo da carreira até chegar ao topo e que se descobre cheio de dúvidas, assaltado por ressentimentos. É o retrato de um Presidente cobarde. “Ele não fala, confessa, como um grande católico”, diz-lhe uma amiga de longa data (Milvia Marigliano). Sem nunca ter saído dos eixos, Mariano, de certa forma, passou ao lado da vida. Que a personagem, em La Grazia, seja a maior figura do Estado diz muito do olhar de Sorrentino sobre o país em que nasceu.

Manipulador de emoções (e esta expressão, tal como o “cimento armado”, tem também qualidades e defeitos), Sorrentino conhece bem as manhas e as trapaças dos homens, os seus machismos e velhacarias, a dificuldade que têm em lidar com a “beleza da dúvida”, como às tantas é dito. Que seja reconhecida ao autor essa aptidão assim como a capacidade de Servillo de a colocar em prática, é um actor de nível. Por outro lado, o guião de La Grazia é um texto saturado de ideias que o filme vai decorando, num gesto gráfico que não é novo e já se tornou imagem de marca desta obra. Há quem se contente com essa imagem e até aplauda de pé. Os apreciadores de Sorrentino não sairão defraudados de La Grazia. Mas a decoração talvez não baste para fazer deste artista um cineasta, muito menos aquele que Veneza apregoa.

Os dilemas morais que La Grazia apresenta aos espectadores são verdadeiros e sérios. Mas Sorrentino não evita rodear o seu Presidente de metáforas pesadas que vão destituindo a personagem de uma existência credível – uma delas, talvez a mais carregada, é a de um cavalo moribundo a quem Mariano nega um golpe de misericórdia. O filme não consegue, no fundo, aquilo que Mariano mais deseja: perder a gravidade, ser “leggero”, como o Presidente ouve do seu confidente e amigo Papa, um Sumo Pontífice com brincos e cabelos entrançados e que anda de scooter. Sem conseguir ser ligeiro, perde também o filme a capacidade de ser universal ou de, pelo menos, de convencer que fala em nome de toda a Itália, cuja bandeira os aviões do genérico desenham no céu. Não estamos, de facto, na Itália da realidade. Antes no país que Sorrentino idealizou e em que ele se sente confortável.

Já Mother, da realizadora macedónia, há muito radicada em Bruxelas, Teona Strugar Mitevska, tem um apetite controlado por iconoclastia e a vantagem, enquanto filme biográfico, de destruir o cliché que o senso comum atribui à figura de Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), também nascida na cidade natal da cineasta, Skopje. A cumplicidade geográfica é evidente: Teona orgulha-se da origem da religiosa católica que serviu a fé em terras indianas e se tornou santa.

Noomi Rapace, Madre Teresa de Calcutá em “Mother”, de Teona Strugar Mitevska

Mas aquilo que lhe interessa não é a imagem pura, salvífica, de Teresa, que a maioria das pessoas guarda de livros e de registos televisivos, antes a imagem da mulher guerreira, disciplinada, imperfeita como qualquer humano, por vezes cruel na sua obstinação, e que batalhou até ser autorizada pelo Vaticano, em 1948, a fundar em Calcutá a sua própria ordem.

Nisto, foge o filme a sete pés das convenções do biopic, Teona contamina-o com visões e pesadelos, música anacrónica (“fiz uma versão punk rock da Madre Teresa”, disse a realizadora), dilemas éticos, humanos morais, quando Teresa descobre que Agnieszka (Sylvia Hoeks), a freira em que mais confia, ficou grávida. A narrativa centra-se em apenas sete dias de vida da futura santa no ano mencionado, dias esses apresentados em contagem decrescente e com oráculos a toda a largura do ecrã, como uma bomba-relógio.

O assunto não é novo para Teona Strugar Mitevska, que em 2015 realizou uma série de quatro episódios sobre a mesma figura, Teresa and I. Segundo a própria, nada em Mother é inventado mas sim reinterpretado a partir de muitas horas de entrevistas com quatro freiras que seguiram Teresa anos a fio e a acompanharam até ao fim da vida.

Mas mais do que tudo isto, Mother é um filme com um papel feito à medida de Noomi Rapace, a actriz sueca que interpreta Lisbeth Salander na saga Millennium. Noomi está em quase todos os planos, é uma força da natureza, devora todo o espaço em volta. Empresta à personagem uma convicção quase maníaca, entre a loucura e a santidade. “À medida que fui descobrindo Teresa”, contou Teona em entrevista, “descobri também a sua ambição. Nos seus dias mais negros, ela escreveu nos diários sobre o desejo de querer um dia ser beatificada. Estava ciente dos grandes problemas do mundo e da dificuldade de compreender-se, antes de tudo, a ela própria.”

Mother abriu o concurso da secção Orizzonti, a segunda linha de Veneza. Tem os seus desequilíbrios. Mas não ficou a dever ao filme que Veneza mostrou na principal competição. “De quem são os nossos dias?”, pergunta o Presidente de Sorrentino. A Madre Teresa de Teona Strugar Mitevska sabe que eles são só dela.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia