Há já uns bons anos, mais de dez, perguntaram a Emma Stone na mesa redonda de um junket qual era o seu filme favorito, ao que ela respondeu, espantada, sem pestanejar: “Titanic, porquê? Não me digam que não é o vosso?” A actriz norte-americana, de 36 anos, teve ontem uma reacção de entusiasmo parecida àquela quando, na conferência de imprensa de Bugonia, afirmou que acreditava em aliens Só faltou perguntar à plateia se alguém tinha dúvidas. A brincadeira é premente, o atrevimento faz sentido, porque Bugonia é um filme de mentiras sobre a verdade e o modo como esta se esconde debaixo das aparências. Curiosamente, Luca Guadagnino apresentou no mesmo dia o seu novo trabalho, After the Hunt, que investe no mesmo assunto com outra equação.

Michelle (Emma Stone) em “Bugonia”

Mas vamos a Bugonia primeiro, que também é um thriller descabelado (mas não tanto quanto No Other Choice, de Park Chan-wook, que deixaremos para crónica futura) e, admita-se, um convite à ficção científica. Na história, Emma é a CEO de uma empresa de biotecnologia que dois primos transtornados, numa bela tarde, raptam de modo espalhafatoso, mantendo-a em cativeiro até à data de um eclipse da lua que se avizinha. Os primos são interpretados por Jesse Plemons e o estreante Aidan Delbis. Eles acreditam que Michelle — assim se chama a dona da empresa high tech — é um alien que veio à Terra para acabar com a raça humana e extinguir o planeta. Isto não é gozo: é loucura. Que negociação é possível com dois raptores que exigem entrar em contacto com a nave alienígena que chegará do espaço com o eclipse?

Quem tem seguido Yorgos Lanthimos e o seu cinema antes do grego se ter tornado coqueluche do star system anglo-saxónico recordará que ele fez na Grécia um filme de clausura chamado Canino em que os objectos e as coisas tinham nomes diferentes para as irmãs de uma família, também elas “raptadas”, por assim dizer, dentro de uma casa murada pelos pais, que assim as “protegiam” dos males do mundo. A importância da linguagem enquanto motor da narrativa era um assunto importante em Canino. Em Bugonia, que também é um filme de filiações traumáticas, a linguagem é mais que isso: é uma questão de vida ou de morte.

É que Michelle, às tantas, só tem essa arma: a palavra. Presa na cave de Teddy (Plemons), tenta convencê-lo de que o homem dado às teorias de conspiração mais delirantes está mentalmente doente nos seus sonhos de Andromeda. Qual alien, qual quê: ele tem é um trauma afectivo ligado à mãe que, não por acaso, está internada no hospital que pertence a Michelle. Sem as lentes deformadas e os sainetes de filme de época dos anteriores A Favorita e Pobres Criaturas (Leão de Ouro em Veneza 2023), mas com desgarrados apetites sanguinolentos, dignos de filme de acção asiático em que vale tudo menos arrancar olhos, Lanthimos joga aqui — pela convicção da palavra (e por Emma Stone, a quem convicção não falta) — uma cartada importante no seu cinema recente, não isento de comédia, negra, por vezes negríssima, spaventosa, como dizem os italianos. À máquina de Yorgos, que já está oleada (mesma equipa técnica, elenco em boa parte repetido) junta-se uma pluma nova, de Will Tracy, que transformou um argumento original do sul-coreano Jang Joon-hwan.

É um filme de truques, Bugonia. Lanthimos, que persegue o segundo Leão de Ouro neste concurso (à semelhança de Guillermo del Toro e Gianfranco Rosi), sabe levar a água ao seu moínho e criar espectáculos exaltados com finais de fogo de artifício. Dos seus filmes em língua inglesa, e numa altura em que a América caminha cada vez mais para o fanatismo, este é o mais fanático dos seus filmes. O mais alucinado e exigente para os actores. Stone e Plemons andam neste despique com Yorgos, que anda a testá-los como se lhes perguntasse: até onde conseguirão ir?

Passemos rapidamente sobre Jay Kelly, conformada entrada de Noah Baumbach na competição, com um argumento cheio de arrebiques de meta-cinema e um George Clooney a fazer de estrela de cinema em crise, actor repleto de dúvidas mas sempre com sorriso nos lábios. Atrás da capa, pesa-lhe a consciência, junto da família e dos filhos, a quem não consegue dar atenção, e a falta de confiança em si próprio. Aparece secundado por Adam Sandler e Laura Dern, que têm as cenas mais conseguidas. Mas o ar geral é de frete, a cumprir programa. Jay Kelly tem filmes dentro do filme mas falta-lhe unidade à medida que vai somando vinhetas. E aquilo que poderia ter chegado a uma meditação sobre a vaidade redunda em algo muito mais chão – é Hollywood a comprazer-se consigo própria, em pose descontraída, em tom de digest. À saída, alguém perguntava se a única razão deste filme estar a concurso em Veneza se deve à presença de Clooney. Não é improvável. Uma sinusite afastou-o, contudo, da conferência de imprensa. Mais tarde, apareceu com boa cara e, em noite de tempestade com chuvada a condizer, desfilou na passadeira vermelha. Quanto ao filme, fica para a Netflix.

George Clooney, estrela em “Jay Kelly”, de Noah Baumbach

Luca Guadagnino apresentou After the Hunt fora de concurso, co-produção italo-americana com a MGM envolvida, distribuição Sony/Amazon, e Julia Roberts a liderar um elenco com Andrew Garfield, Michael Stuhlbarg e Ayo Edebiri. O filme “custa a entrar” por ser voluntariamente tão palavroso. Passa-se na finesse da Universidade de Yale, entre professores e alunos de filosofia, particularmente privilegiados. E é um filme que deve muito à Julia Roberts de Erin Brockovich e ao filme que ela fez há 25 anos com Soderbergh; também aqui é a personagem de Roberts apanhada entre direitos e deveres, chamadas à responsabilidade e ambiguidades da justiça.

Julia Roberts e Andrew Garfield em “After the Hunt”, de Lucas Guadagnino

Julia é uma professora alemã de filosofia, Alma de nome, casada com um psicanalista (Stuhlbarg) e muito próxima de outro docente mais novo, de quem já foi amante (Garfield), num momento em que este é acusado de abuso sexual por uma aluna da faculdade (Ayo Edebiri). Sumariamente despedido, o acusado fica com a vida destruída. After the Hunt, reza o título. Mas quem caça e abusa realmente de quem? Teia complexa, em que os factos se diluem nas aparências e que chegará à intimidade da protagonista. Neste ponto, o filme de Guadagnino não está longe das inquietações de Bugonia e de uma realidade confundida pelas aparências.

Mas a vida dá um jeito, eventualmente refaz-se, naqueles bares universitários de New Haven em que, para espanto de alguém, ainda há quem passe The Smiths com Morrissey a cantar “Heaven Knows I’m Miserable Now”. Aqui já é Guadagnino a puxar pelas canções de que gosta, a dosear tons, contornando o drama com elegância. Foi notícia em Veneza que o cineasta italiano vai participar na produção de “O Sorriso de Afonso”, próxima longa-metragem de João Pedro Rodrigues, em torno de um adolescente de 16 anos que descobre a sua sexualidade durante as convulsões do 25 de Abril. O cineasta português está em Veneza no âmbito do Venice Gap-Financing Market, que decorre até dia 31.

De volta ao concurso, Orphan sobe muito o nível. É a terceira longa do húngaro László Nemes após O Filho de Saul (2015) e Anoitecer (2018). Nemes, 48 anos, é old fashioned. Filma em 35 mm e foi em 35 mm que Orphan foi projectado, numa Sala Darsena a rebentar pelas costuras, sessão que jamais poderá repetir-se em Lisboa (o filme será distribuído entre nós pela Midas). Já valeu a viagem e também é por momentos deste que existem os festivais. Como é que um miúdo a entrar na adolescência, franzino e judeu, olha para a Budapeste de 1957 ainda há pouco esmagada pelos tanques soviéticos? E como reage ele à chegada de um homem tosco, abrutalhado — um talhante — que se amantiza com a mãe do dia para noite (entre eles há segredos antigos) e afirma ser o pai que ele nunca conheceu, propondo ao petiz que o aceite, que o ame e embarque nessa mentira, e que assuma um novo nome? A que Deus reza Andor Hirsch, o miúdo, assaltado por esta identidade traída?

“Orphan”, de László Nemes, é filme a tocar no osso

Orphan é filme a tocar no osso: a história do rapaz de 12 anos é a do pai de László Nemes. Vai longe pelo seu dilema, pelos seus actores, pela construção daquela Hungria amarelada e sombria. É um filme sobre tudo aquilo que se cala na vida, tudo o que se engole, para que não ganhe voz — e o que Andor terá que calar, na primeira vez na vida que visita um parque de atracções, é a sua própria infância. A silhueta de um pai que ele idealizou contra a figura de um homem que a partida se toma por vilão — mas a vida nunca é assim, preto no branco. Orphan é o melhor filme do concurso até à data. Por umas horas, foi o melhor que se viu em Veneza. Não se conta, está claro, com Queen Kelly, de Stroheim, da crónica anterior. Nem com o belíssimo Laguna que entretanto foi visto, novo filme de Sharunas Bartas, a que se voltará em crónica seguinte.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia