Esta crónica merece um prólogo relacionado não com Herzog mas com Francis Ford Coppola. Veneza tem o hábito de fazer uma pré-abertura para os festivaleiros que chegam cedo ao Lido e o convite deste ano era dos mais apetecidos: a cópia restaurada do último filme de Erich Von Stroheim, Queen Kelly (1929). A obra que pôs um ponto final no seu percurso de cineasta. Projectado por Stroheim para cinco horas de duração, produzido por um investidor de Boston, Joseph Kennedy e pela vedeta do filme, a actriz Gloria Swanson, uma das maiores estrelas do cinema mudo, Queen Kelly nunca seria acabado, fruto das extravagâncias de um realizador genial, mas de reputação muito difícil.
A história é longa, temos que abreviá-la. Tal como acontecera em obras anteriores de Stroheim, os gastos foram de tal ordem que Swanson ficou com um calote de quase 1 milhão de dólares, soma colossal naquela altura, despedindo o realizador a meio. Stroheim não mais voltaria a realizar. Queen Kelly perdeu-se pois, numa cópia de estreia muito amputada que chegou a estrear-se em poucos países, sem sucesso. Em 1985, a Kino International reconstruiu-o a partir do material que sobrevivera até a Milestone o recriar para a versão 4K que foi agora vista pela primeira vez, com fotos de rodagem, novos intertítulos baseados no argumento original de Stroheim.
Um dos espectadores presentes na sessão (anterior à da abertura oficial) foi Francis Ford Coppola. Alexander Payne, que preside ao Júri, estava sentado na mesma fila. A cinefilia de ambos é sobejamente conhecida. Ora, na mesma edição que exibe Megadoc, documentário de Mike Figgis, documentário sobre os bastidores de Megalopolis, Veneza pediu a Coppola que entregasse a Werner Herzog o primeiro Leão de Ouro à carreira deste festival. Outro será entregue, dentro de dias a Kim Novak. Aproveitando a ocasião, Herzog estreou o seu novo documentário, “Ghost Elephants”. E quem acredita neles à partida?
“GhostElephants”, de WernerHerzog
O documentário foi rodado entre as Terras Altas de Angola, que abastacem de água toda a África Austral, e a vizinha Namíbia. Henry, o “gigante de Angola”, o maior elefante alguma vez registado, tornou-se um mito após a sua captura em 1955. O Instituto Smithsonian, em Washington, guarda as suas ossadas e exibe uma replica do bicho à escala natural. Ainda hoje, com uma obsessão digna de Moby Dick, há quem continue a procurar outros exemplares, descendentes de Henry, naquela zona do globo, elefantes-da-floresta que, no coração daquele país africano, raramente se deixam avistar por humanos.
O herói de Ghost Elephants é o biólogo sul-adricano Steve Boyes. Herzog acompanhou-o durante meses com três mestres rastreadores da tribo Luchazi. Boyes é uma daquelas figuras obstinadas que acreditam em coisas incríveis e fascinam o cineasta alemão. Não é tão louco como o Timothy Treadwell de Grizzly Man (que viveu entre ursos pardos até ao dia em que um deles lhe deu uma patada) mas guarda o mesmo espírito destemido. Encarna aquilo que Herzog procura há décadas nos seus filmes de não-ficção, pessoas bigger than life, atraídos com persistência por mistérios e abismos. No fim do filme, até o mais crédulo dos espectadores sai da sala convencido de que os elefantes-fantasma existem.
“Director’s Diary”, de AlexanderSokurov
Director’s Diary, o filme de 300 minutos que o grande cineasta russo Alexander Sokurov trouxe a Veneza, é um trabalho impressionante sobre o mundo de ontem, um compêndio da história universal feito a partir de imagens de arquivo, maioritariamente a preto e branco, acompanhadas de notas que o cineasta foi apontando nos seus diários, década após década. Nada tem de autobiográfico, embora Sokurov apareça no início, com papel e caneta de tinta permanente na mão, a contar-nos o que o moveu. O filme é acompanhado por uma linha temporal entre 1917 e 1991, do início ao fim da União Soviética. Os arquivos documentam trechos da história soviética com eventos ocorridos ao longo do século XX (acidentes, obituários, eventos sociais ou desportivos, etc) e o modo como foram vistos e noticiados do “lado de lá”. E é um filme épico nos seus propósitos, naquele folhear de anos que se segue sempre com curiosidade, pela variedade das imagens e pela diversidade dos relatos. “Director’s Diary”, filme russo, é aberto aos movimentos do mundo. Quer estabelecer uma relação sadia com a História e a verdade.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia