O novo filme de Jim Jarmusch é um descendente directo dos encontros à volta da mesa de Café e Cigarros (2003) e das filiações e afectos que Paterson (2016) serviu com finíssima ironia. Tom Waits vem do primeiro, Adam Driver do segundo. Estas chamadas não vêm à toa. Father Mother Sister Brother (escrito assim mesmo, sem vírgulas) é um tríptico sobre relações entre pais e filhos. A primeira parte foi rodada no nordeste americano. Adam Driver e Mayim Bialik são irmãos e vão visitar o pai, Tom Waits, numa zona remota de Nova Jérsia (a parte Father). Cate Blanchett e Vicky Krieps são irmãs e juntam-se para ver a mãe que também vive sozinha, Charlotte Rampling, em Dublin (a parte Mother). Por fim, em Paris, Luka Sabbat e Indya Moore fazem uma derradeira visita ao apartamento já devoluto em que cresceram depois de perderem os pais (a parte Sister Brother).

As histórias entrelaçam-se por casualidades que o guião de Jim vai tornando familiares. Nas três se fala, por piada, de uma terra imaginária chamada Nowheresville. Nas três se pergunta se são válidos os brindes com água/chá/café. Todas invocam a expressão inglesa “Bob’s your uncle”, todas fazem alusão à presença de um relógio Rolex no pulso. Assim se vão construindo os déjà vus. Nada disto é realmente novo no planeta Jarmusch. Father Mother Sister Brother não é revolução nem sequer ponto de inflexão na sua obra. Agora se percebe um bocadinho porque é que Cannes, que mostrou quase todos os filmes do compincha de Ohio desde que ele é gente, tardou em seleccionar este — e a espera magoou. Tocado, Jim rumou ao Lido sem querer saber de mais salganhadas, foi remédio santo.

Tom Waits em “Father Mother Sister Brother”, de Jim Jarmusch

Mas o Festival de Cannes foi casmurro, mauzinho. Assuma-se que o conjunto das três histórias de Father Mother Sister Brother ainda tem contra si o facto da primeira ser melhor que a segunda, e a segunda melhor que a terceira (é curioso, o mesmo sucedia com Histórias de Bondade, o filme de Lanthimos anterior a Bugonia), isto é: progride em diminuendo. Mas a construção do humor, a paixão maníaca pelo detalhe, os tempos de espera que pausam o relato e deixam entrar a ironia, a cumplicidade, o traço de toda uma obra, estão no ponto, incólumes.

Father Mother Sister Brother só é um filme menor de Jarmusch para aqueles que amam a obra, a pessoa e conhecem o nível a que ele é capaz de chegar. Porque, de resto, continua a ser um bom filme, garante-se. Um honradíssimo três estrelas em naipe de quatros e cincos. Não envergonha nada e ninguém, sai-se feliz da sala. Mais se dirá lá para frente, em longa entrevista com Jim que há-de vir.

Frankenstein é exactamente o filme que se esperava de Guillermo del Toro, sem tirar nem pôr, espectáculo grandioso, mas não empolgado, fiel, também já era sabido, à fonte original da obra de Mary Shelley, que viu na criatura um novo Prometeu (Frankenstein; or, The Modern Prometheus foi, de resto, o título que a londrina deu à sua obra magna). Diga-se aqui que a progressão é inversa à do filme de Jarmusch: nas duas horas e meia que dura, a primeira parte, que é a do relato do criador, Victor Frankenstein (Oscar Isaac), é muito inferior à segunda parte, que nos dá (atrevimento inédito) um relato do ponto de vista da criatura (Jacob Elordi).

Frankenstein está construído a partir da problemática da aceitação de quem é diferente, é obviamente um filme denso e orientado com cuidado por um cineasta talentoso que sabe pôr em evidência as coisas essenciais do livro: a imortalidade de Frankenstein, por exemplo, que é para ele uma agonia (“não posso morrer mas também não sei viver sozinho…”), a sua atracção romântica e casta, por Elizabeth, cunhada de Victor, que em segredo ama no monstro aquilo que para todos os outros é sinal de repúdio.

Frankenstein é um filme muito sério, consciente da matéria que tem em mãos, mas não muito seguro de si. Sem ser condescendente com outras etapas do trabalho, este filme caríssimo e destinado às grandes plateias falha de tanto querer humanizar o que não é humano.

Oscar Isaac, Guillermo del Toro e Jacob Elordi no photocall de Veneza

The Wizard of the Kremlin, nova longa-metragem Olivier Assayas, é uma recriação dramática da ascensão ao poder de Vladimir Putin — sem pejo, o filme trata-o por czar — desde o colapso da União Soviética à alvorada da Guerra da Ucrânia. Rodado na Letónia (a fingir de Rússia), o filme adapta com liberdade o romance homónimo de Giuliano da Empoli e a personagem central, fictícia, é Vadim Baranov (Paul Dano), um aspirante a artista que se torna spin doctor do jovem Putin a trepar na hierarquia (óptimo papel de Jude Law). As cenas do caos pós-soviético nos anos 90 e das festas desbragadas nos tempos de Boris Yeltsin são o melhor do filme e recordam os primeiros filmes de Assayas, em particular Désorde/Desordem. O filme tende depois a tornar-se cada vez mais frio, descida de temperatura a condizer com a consolidação do poder seguida pelo guião, que além de Assayas tem a pluma de Emmanuel Carrère.

Paul Dano em “The Wizard of the Kremlin”

Assayas acrescenta à dramaturgia a personagem de Ksenia (Alicia Vikander), figura desamparada em pose de femme fatale, por quem Vadim se apaixona. Além dela, não há aqui muito mais vida nem aspecto que valha realmente a pena ser realçado. Servido por um elenco competente, o filme tem 150 minutos e, se fosse talhado em três partes de 50 minutos, poderia entrar sem reparos como mini-série na grelha de qualquer plataforma de streaming. Bom elenco, história despachada, panorâmica competente da história daquela Europa de Leste dos últimos 30 anos: Revolução Laranja em Maidan, as Pussy Riot em Moscovo, até Prigozhin tem direito a “boneco” nos tempos em que era ainda era apenas o cozinheiro de Putin. E contudo, na sua inexplicável lisura, The Wizard of the Kremlin não apresenta qualquer rasgo cinematográfico.

Esta segunda-feira será dia de Kim Novak: a actriz americana, imortalizada por Vertigo, tão misteriosa no ecrã como recatada na vida privada, vem ao Lido, aos 92 anos, receber o segundo Leão de Ouro à carreira deste ano (após o que já foi entregue a Herzog). Paralelamente, será exibido Kim Novak’s Vertigo, documentário de Alexandre O. Philippe.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.