Mark Kerr (n.1968) foi um freestyle wrestler e um pioneiro dos torneios de artes marciais mistas que começaram a aparecer em meados dos anos 90, dos quais a UFC (Ultimate Fighting Championship) é a organização mais reputada. Esses torneios são hoje um êxito de popularidade em todo o globo, com forte cobertura mediática e muitos canais de televisão exclusivamente dedicados mas, no período em que decorre The Smashing Machine, entre 1997 e 2000, eram ainda uma actividade em crescendo nos EUA, com um culto fervoroso no Japão.
Dwayne “The Rock” Johnson, quase irreconhecível num trabalho de caracterização que impressiona, empresta a alma, a vulnerabilidade e a colossal massa muscular à figura que Benny Safdie biografou ao estilo nos filmes anteriores que co-assinou com Josh Safdie (os irmãos decidiram seguir caminhos separados) — como se estivesse a fazer um documentário — num período em que Kerr joga a cartada decisiva da sua carreira nos torneios japoneses e já luta contra a dependência de opiáceos. A relação com a namorada Dawn (Emily Blunt), que ferve em pouca água, é uma fonte de insegurança permanente entre a Califórnia e Tóquio.
▲ Ben Safdie, realizador de "The Smashing Machine"
Uma das coisas mais admiráveis em The Smashing Machine é que não há qualquer heroísmo neste retrato nem o biografado tem algo de especialmente relevante. É apenas um homem que faz as coisas à sua maneira (e ouve-se My Way às tantas, na versão cantada por Elvis). O que Safdie quer de Kerr é tão-só o homem comum, a perseguir os seus sonhos e a debater-se com as suas fraquezas, o homem sem descanso a existir na adrenalina dos dias, como o Adam Sandler de Uncut Gems (2019) ou o Robert Pattinson de Good Time (2017). De certa forma — e em contraponto, por exemplo, aos crepúsculos de uma obra como The Wrestler (2008), com Mickey Rourke — The Smashing Machine contorna voluntariamente a dramatização convencional. Prefere ir folheando aquela vida, sem carregar no tom.
Dwayne Johnson e Emily Blunt, por seu lado, injectam uma energia fabulosa nas suas personagens (contem com eles para prémios de interpretação), ladeados por brilhantes secundários que Safdie foi desencantar no mundo da luta como Ryan Bader, ou o bem mais célebre (e até ver invicto) campeão de boxe de pesos-pesados da actualidade, o ucraniano Oleksandr Usyk, em visita ao “planeta Safdie” tal como o basquetebolista Kevin Garnett em Uncut Gems (2019).
Por falar em filmes biográficos fora da caixa, acrescente-se dois à lista: Kim Novak’s Vertigo, documentário de Alexandre O. Philippe e Dead Man’s Wire, reinterpretação de Gus Van Sant de um caso verídico. O filme de Philippe escapa-se à norma pelo seu rigor confessional. A grande actriz de 92 anos veio este ano receber um Leão de Ouro à carreira e, graças a este filme, percebe-se que se bateu desde sempre para controlar o seu percurso profissional, com grande determinação, ciente das ameaças que enfrentava (o sexismo, por exemplo).
▲ Kim Novak, que recebeu o Leão de Ouro
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Siderada por Greta Garbo, que tomou desde cedo como exemplo, Novak diz às tantas, num momento especialmente tocante, que assistiu ao fim de Marilyn (Monroe) e jurou que não ia permitir que lhe acontecesse o mesmo. Curiosamente, também ela é Marilyn de baptismo, Marilyn Pauline Novak, nascida em Chicago, em 1933. Kim Novak’s Vertigo revela ou tranca exactamente aquilo que a actriz julgou que deveria ser dito ou silenciado. De certa forma, ela é autora deste documentário.
O novo filme de Gus van Sant, que Veneza exibiu fora de concurso, também é singular pela corte que faz no estilo, nas cores, nas interpretações, a dramas superiores do cinema americano dos anos 70 como Serpico e Um Dia de Cão. Acredita-se que Gus também convidou Al Pacino para um papel secundário de Dead Man’s Wire pela memória do actor nos filmes acima citados de Sidney Lumet.
[o trailer de “Dead Man’s Wire”:]
Dead Man’s Wire passa-se em 1977 e é uma dramatização da história de Tony Kiritsis (Bill Skarsgård), homem levado ao desespero por uma hipoteca de casa que deixou de conseguir pagar — até àquele dia em que, sentindo-se explorado, decidiu sequestrar o filho do patrão e exigir um formal pedido de desculpas que emocionou a América. Dead Man’s Wire pertence à ala mais popular do autor de Elephant, é um bom regresso de Gus van Sant à forma e a um cinema que importa.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia