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Angelina Jolie em San Sebastián e o corpo traumatizado de “Couture”

Este artigo tem mais de 1 ano

A auto-estima, a confiança, a sexualidade, o abandono da profissão: nos primeiros dias do festival, destacou-se o novo trabalho de Alice Winocour, que se passa no mundo da moda.

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▲Angelina Jolie e Alice Winocour na conferência de imprensa de “Couture”, em San Sebastián – sério candidato à Concha de Ouro no País Basco

Europa Press via Getty Images

▲Angelina Jolie e Alice Winocour na conferência de imprensa de “Couture”, em San Sebastián – sério candidato à Concha de Ouro no País Basco

Europa Press via Getty Images

A quinta longa-metragem da francesa Alice Winocour — cineasta que temos vindo a defender com afinco ao longo destes anos — chama-se Couture. Visto em Toronto (onde se voltou à conversa com a realizadora), revisto agora em San Sebastián (que o apresentou ontem a concurso pela Concha de Ouro), é um dos filmes do ano. Mas antes de se escavar mais fundo, atente-se ao que a generalidade do público vê instantaneamente no filme, um dos seus aspectos, de resto, mais inesperados e estimulantes: a presença no elenco de Angelina Jolie. Em Couture, fica-se com a sensação de que não é apenas a personagem de Angelina que é obrigada a descer à Terra. É também a actriz — a estrela de Hollywood, entenda-se — que mostra vontade de abandonar o pedestal em que a colocaram para relançar o seu trabalho com ponderação, um novo equilíbrio emocional e noutro lugar, longe da Califórnia e dos mexericos de revista cor-de-rosa.

Em Couture, a personagem é uma realizadora de cinema norte-americana em Paris a lidar com equipamento high tech no mundo da moda. Há aspectos no filme relacionados com esse equipamento que nos recordam vagamente a Lara Croft que a actriz interpretou na saga Tomb Rider, que descendia de um jogo de computador. E contudo, a personagem está no oposto disso, nunca antes se viu uma Angelina Jolie tão de carne e osso, num papel muito físico em que as “costuras” do título não são apenas as dos vestidos — são também as suturas que lhe marcarão o corpo e que a tornarão vulnerável, irremediavelmente humana. Sem ser documentário nem filme biográfico, Couture não deixa de ser, em certa medida, um filme sobre Angelina Jolie e a sua presença mediática internacional. Mas voltemos um pouco atrás, para enquadrar este parágrafo na obra de Alice Winocour e no seu consistente corpo de trabalho.

Couture cruza a vida de três mulheres que não se sentem bem na sua pele, provenientes de contextos diversos, cada uma delas com as suas feridas. Na soma destes elementos, nasce um espírito de entreajuda. Maxine (Angelina Jolie), realizadora americana de filmes de género, recém-divorciada e com filha adolescente, está na capital francesa a rodar um trabalho ambientado na Paris Fashion Week. Ada (Anyier Anei), de 18 anos, jovem estudante de farmácia no Quénia, mas de origem sul-sudanesa, está prestes a ser lançada na catwalk, em carreira de modelo para a qual nem sente especial vocação, levada pelo dinheiro rápido que pode embolsar (é a primeira vez de Anyier Anei nos ecrãs). Angèle (Ella Rumpf, francesa de 30 anos, lançada por Julia Ducournau em Grave), maquilhadora profissional já batida no métier e com uma visão panorâmica sobre aquele mundo, também está presa à alta costura pelo dinheiro rápido, pese embora a sua vontade de mudar de vida — quer ser escritora. A estas personagens se juntam, em papéis secundários, Louis Garrel (o assistente de realização de Maxine) e Vincent Lindon (o cirurgião que diagnostica Maxine num hospital de Paris).

▲ Ella Rumpf e Anyier Anei nos bastidores de um “filme de bastidores”: “Couture”

Tal como noutros trabalhos de Winocour, estamos num filme de bastidores documentado com um rigor impressionante, para não escrever extremo. Quando rodou Proxima (2019), a cineasta passou quase dois anos na Agência Espacial Europeia para escrever e fazer evoluir a personagem da astronauta interpretada por Eva Green. Em Couture, a pesquisa exigiu-lhe ano e meio de observação e conversas com costureiros e modelos – sem outra excepção, sublinhe-se que esta foi a primeira vez que a Chanel permitiu que um filme de ficção fosse rodado no seu show room e ateliês.

Mas Couture, sem deixar de ser um notável filme sobre moda, vai muito além desse espaço especializado (em que também a representação está tão unida ao negócio). O que Alice Winocour fixa, uma vez mais nesta obra, é o traumatismo do corpo sem filtros nem subterfúgios (tal como acontecia em Disorder, 2015, ou no mais recente Revoir Paris, 2022), a linguagem nova a que o corpo obedece uma vez confrontado com o choque, o corpo que “grita”, desnorteado, disfuncional, (como o corpo “mutante” para o qual a astronauta de Proxima era treinada, ou o trauma da personagem de Revoir Paris, sobreviente de um atentado terrorista).

Há momentos de violência, física e psicológica, exercida nos corpos que atravessam Couture. As ligaduras dos pés das modelos massacrados pelo esforço do uso excessivo dos saltos altos são apenas sinal de uma ideia geral em que, no fundo, o que está em jogo é o comércio do próprio corpo feminino (o cansaço, a falta de privacidade, a vida de adolescentes entregues a agentes) e a discussão, muito presente no filme, em torno daquilo que o dinheiro custa a ganhar (aquela modelo ucraniana que, com esforço, conseguiu juntar o suficiente para comprar um apartamento em Kiev). Sem nunca virar costas à ficção, Couture aborda todos os aspectos daquele universo com perspicácia e inteligência.

▲ Angelina Jolie e Louis Garrel numa cena de "Couture"

Nada se assemelha, contudo, ao que acontece a Maxine em Paris quando, após consulta de rotina para recolha de exames, ela descobre que tem câncro de mama, maligno, agressivo, implacável — é para operar já. Convincente como sempre, Vincent Lindon é o cirurgião que desenha no peito da actriz os cortes planeados, são estas as verdadeiras linhas do título, como acima se referiu. “Este filme também foi feito com as suturas que Angelina e eu partilhámos”, disse Alice Winocour. E muda tudo num ápice para a personagem: a auto-estima, a confiança, a sexualidade, o abandono da profissão, que é imediato. Angelina transforma-se e, no filme, a sua linguagem corporal muda também. O corpo, de repente, deixa de ser imagem ideal, reflexo de personalidade, motivo de orgulho. E passa a ser o problema, o inimigo, a entidade fora do controlo. A actriz responde magnificamente à representação desta ideia.

Na conferência de imprensa, Angelina Jolie falou da impressão que lhe causou o guião de Alice Winocour (a realizadora é também argumentista de todos os seus filmes), da sua própria experiência em torno de um dos assuntos de Couture (em 2013, Angelina Jolie confessou ao New York Times que foi submetida a uma dupla mastectomia preventiva devido ao gene BRCA1), sem se escapar de perguntas de cariz político relacionadas com a actualidade dos Estados Unidos, em que acrescentou: “Amo o meu país, mas não o reconheço neste momento.”

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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